terça-feira, 28 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 8 (Keflavík - Londres - Lisboa)

2009/04/28

O dia nasceu péssimo em Keflavík: chuvoso, completamente nublado. Um dia óptimo para partir, portanto. A desvantagem é que não vou poder ver o país, lá de cima. À vinda o avião passou sobre um glaciar e a vista era linda. Pena... Quanto ao resto, confesso já estar farto da Islândia e das suas imensidões monótonas. Aqui, só a natureza interessa e se esta se revela abaixo do esperado, então, há que bater asas. Sinto a falta da presença de património feito pelo homem...

Conto as coroas islandesas que me sobraram. Separo dinheiro para a colecção de numismática de um amigo e, com o que resta, tento comprar um café e um bolo. Como o dinheiro só deu para o café, lá fiquei eu com mais uns trocos sem uso.

Passadas as formalidades, procuro recordações. Vou de pé atrás por lembrar-me de lojas que vi antes. Não se vêem coisas interessantes. Não venho a esta terra remota para comprar roupa de lã (tenho disso em Portugal), nem para comprar piroseiras em vidro ou ridículos bonecos de "trolls". As lojas de recordações são uma treta, aqui. Acabo por comprar três pacotes de peixe seco e fazer figas para que os destinatários das prendas tenham coragem de levar aquilo à boca. Também consigo gastar as últimas moedas que tinha num abençoado iogurte.

Na bicha para o avião estão os ingleses que partilharam comigo a pousada em Hvoll. Reparo, pelo canto do olho, que também estão a olhar para mim e a comentar a enorme coincidência.

O voo corre optimamente, ie, vou o tempo quase todo a dormir. E ainda bem que assim foi porque a janela do avião ia embaciada (por fora) e a "simpática" que me deu o bilhete fez-me o especial favor de sentar-me junto à asa. Quando, a certa altura acordei, pensei que estava a ver uma ilha com um monte mas era, afinal, o reactor... :)

Chegado a Stansted, tenho de esperar pela camioneta para Luton. Enquanto mato o tempo, uma cinquentona indiana passa por mim com um caixote lançando, para um empregado do aeroporto, um "são moranguinhos!". "Bom apetite" responde ele, sorrindo. De vez em quando ouvem-se portugueses por estas bandas.

A viagem para o aeroporto de Luton é longa mas muito agradável. A Inglaterra é linda, com a sua exuberância de verde onde as amorosas casas típicas parecem estar ali para compor um quadro idílico. Voltas e mais voltas e sempre o mesmo ar tranquilo como se a qualquer momento nos fossem chamar para chá e biscoitos.

A camioneta é uma Torre de Babel onde se ouve Alemão, Inglês, Sueco, Russo, Italiano, Castelhano e só não se ouve Português porque não me apetece fazer figura de maluco. :)

Em Luton tenho de esperar mais de duas horas. É uma seca e obriga-me a levantar libras para me poder entreter a comer e beber.

Já na zona de espera para embarque, não resisto a comprar um livro. Olho para a estante de História na livraria e apetece-me trazer metade do que lá está. Opto por um livro sobre a segunda guerra mundial. Quando dou por mim, estou muito atrasado e tenho de ir a correr para o avião. Ainda consigo chegar a tempo e não ser o último.

Já estou a caminho de Portugal, para o bem e para o mal (rimou...).

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 7 (Hvoll - Keflavík)

2009/04/27

Acordei mais tarde, hoje. Não muito: hora, hora e meia. O suficiente para, apesar do bem que me soube, achar um desperdício estar na cama com um dia tão bom. Lá fora o sol brilha e o céu está limpo. Não é um cenário original nesta minha estadia na Islândia, nem é, sequer, garantia de que o tempo vá estar "bom", mas não deixa de inspirar alguma confiança.

À volta da pousada tudo está luminoso e até as areias pretas parecem alegres. Está na altura de me despedir do paraíso de Hvoll. A expectativa do que vou fazer não me deixa sentir mágoa mas sinto estar a despedir-me de um local especial (pelo menos, em época baixa e entregue só a mim...).

Quando abro a porta da casa, um pássaro começa a cantar. Olho e vejo-o perfeitamente colocado no bico central do telhado, como se fosse um enfeite...

Tenho de voltar a fazer a estrada n°1 (a enorme via que dá a volta ao país), repisando quase todo o percurso feito desde Reiquejavique. A única coisa que pode combater a monotonia é o facto de ir a ver a paisagem ao contrário. Passo por Kirkjubaejarklaustur e a sua rotunda. Tal como da outra vez, passa por mim a polícia na sua lenta ronda. Tudo parece uma cópia...

Decido ir ver a cascata (Seljalandfoss) que tinha desprezado à ida. É bonita e tem a divertida hipótese de nos deixar percorrer um caminho por trás da água. É impossível evitar ficar molhado mas isso faz parte da graça.

Igreja de Sellfoss
Sigo para a próxima paragem: Sellfoss (ler Sedlfoss). Como todas as localidades neste país, é desinteressante e só vale por uma ou outra bênção da natureza. No caso, uns buracos à beira-rio, formados pelo rebentamento de bolhas no tempo em que esta terra era um caos vulcânico. O enquadramento do rio também é bonito e uma igreja branca acrescenta-lhe um toque de graça. À parte disso, mais nada faz merecer uma paragem. Aproveito para almoçar num KFC (o primeiro que vejo), escolhendo uma coisa ao calhas (está tudo em Islandês, apenas). O preço também era um dos menores: 999 ISK. Ainda assim, mais de seis euros por um hamburger/filete de galinha com batatas e uma Pepsi.

Após comer, vou a um supermercado. A ideia é encontrar conservas de pratos típicos que possam servir de prendas. Não vejo nada, e sardinhas portuguesas não interessa comprar... Reparo com curiosidade que o supermercado está dividido em zonas isoladas e que estas têm refrigeração própria consoante o tipo de produtos que guardam. No estabelecimento, uma loura voluptuosa entra para o pequeno clube de mulheres bonitas que vi no país.

(Já que falei em sardinhas portuguesas, aproveito para dizer que na estação de rádio que ouvi durante o dia, surgia frequentemente uma campanha do turismo português.)

Antes de seguir viagem, meto gasolina. O preço está mais baixo: 149,5 ISK (menos de um euro). E esta era a bomba mais cara porque, nas outras, o litro andava em 146 ISK.

Escolho o caminho e, por não ter fixado o nome de uma localidade, repito sem necessidade mais um troço da viagem inicial. Podia ter ido por outro lado. Assim que posso, meto-me em estrada nova com intenção de ir dar a Krivisk. Faço um desvio para ir ver uma certa localidade por estar junto ao mar. Tempo perdido se não fosse ter reparado numas formações à beira da estrada, umas elevações pequenas (de pedra) rasgadas como se de dentro delas tivesse saído algo à força. É claro que saiu, noutros tempos...

Tomo a estrada para Krísuvík e paro daí a pouco ao ver a indicação de uma gruta. A duzentos metros um caminho abre-se no solo e vai dar a um buraco onde pedregulhos se acumulam. A diferença de temperatura é notável: dos 14 graus cá fora passa-se para um autêntico frigorífico. Dentro da cavidade há gelo e o medo de não saber o que está por baixo faz-me sair. Caminho à superfície e espreito em mais dois buracos sem acesso "para peões". Em cada um deles formou-se um grande monte de gelo. Foi neve que caiu e não derreteu devido ao frio da gruta. Tudo aquilo mete receio e apresso-me a sair do sítio por não gostar do chão que piso. Leio um painel informativo e fico a saber que a gruta de Raufarhólshellir tem 1350m e é considerada difícil. Nunca seria para um curioso de passagem, portanto.

Estância de esqui de Blafjoll
De novo sobre rodas começo a ver ao longe a estrada para a capital. Estranho o avistamento e mais estranho quando sou obrigado a ir parar àquela. Onde será que perdi a rota para Krísuvík? Consulto o meu livro e vejo que uma indicação na estrada podia servir-me. Faço meia-volta e entro para uma estrada de montanha. O cenário é bonito mas a próxima indicação faz-me perceber que algo não bate certo... Fujo para a frente e, montanha acima, acabo por ir dar a uma estância de esqui. Tudo está fechado e apenas duas pessoas se preparam para irem gozar a neve. Dou uma volta por ali, enterro os pés, faço umas bolas de neve e volto para trás, decidido a ir para Reiquejavique e daí fazer o meu roteiro no sentido inverso.

Quando já andava nos subúrbios da capital vejo uma placa indicando Krísuvík. Imediatamente a sigo. Ao fim de uns quilómetros vou dar a uma estrada de gravilha, coisa que detesto. Nada a fazer - é seguir em frente e aguentar o som das pedrinhas a baterem no carro. Para minha sorte, a estrada tem bastante terra à mostra e o tapete torna-se sofrível. Finalmente, chego a um dos locais de interesse da zona: um grande lago preso entre margens castanhas e desertas. Aqui, tudo é triste e estéril e só se encontra beleza recorrendo à monumentalidade do desolamento.

Mais à frente, a estrada volta a ser normal e isso traz-me uma sensação de alívio. Este é acompanhado da alegria de ver mais uma zona pretendida: um local de fontes de água quente, chamado Seltún. O cheiro a ovos podres (enxofe) enche o ar, as pedras são amareladas e no chão há água a borbulhar. Vêem-se nuvens de vapor a sair do chão encosta acima.

Diga-se aqui que, nas zonas onde há este fenómeno, a água quente, em casa, é aproveitada destas origens, levando a que qualquer utilização implique termos de suportar o cheiro do enxofre... Credo!

Por todo o lado se vêem indicações de caminhos. Qual deles irá dar à zona com lagos "estranhos" que eu queria visitar? Olho para o relógio e nem penso em tentar descobrir.
Surge a placa para Grindavík, a localidade geminada com ílhavo que serve de próxima referência no meu passeio. Com a placa vem, de novo, uma estrada de gravilha!... Mais uma data de quilómetros atravessando uma paisagem de pesadelo numa estrada à sua altura. A esta altura já vomito montes castanhos, planaltos de pedras e areias escuras. Enjoei! Tudo isto é uma paisagem infernal.

Sandvik: a ponte entre a Europa e a América
Imediatamente antes de Grindavík a civilização faz-se notar na estrada alcatroada. À saída da vila (?) ignoro o caminho para Reiquejavique para poder seguir por outro que vai dar a um dos "tem de ser" da minha viagem: o local onde as placas continentais da América e da Europa vêm à superfície. O sítio não desilude: dois "paredões" de pedra com uma separação onde cabe uma rua e unidos por uma ponte simbólica entre os dois continentes. Desço à cova e aproveito para aliviar os rins. Escolho regar a América. Caminho no local aproveitando para brincar com os efeitos provocados na areia (cinzenta à superfície, preta por baixo). Um casal passa lá em cima, na ponte mas demora-se pouco tempo. Nem toda a gente conseguirá apreciar ou suportar a fealdade da zona. O sol começa a baixar e isso aumenta a sensação de isolamento própria de sítios destes. Espreito outros pontos próximos onde as placas se mostram, aprecio algumas rochas e parto. São já 21:00 e tenho de entregar o carro até às 23:00.

Antes de Keflavík, dou um pulo a Njardvík onde vejo duas casas do Séc. XIX restauradas. Os infelizes que nelas viviam estavam sujeitos a um regime de arrendamento que os proibia de possuirem animais pelo que só se podiam virar para o mar. A trezentos metros, um "museu" aguarda a inauguração (Maio deste ano). Como único espólio, uma réplica (testada no mar) de um barco viquingue. Sendo a fachada de vidro, deu para observar o navio e lamentar que o mesmo tenha a vela enrolada, o que lhe tira, logo, metade do impacto. Escolha estranha, esta...

Uma voltinha pela localidade, mais gasolina para o carro e ala para o aeroporto.

Após a entrega da máquina (que me serviu bem nos mais de 1000km que fiz) entro no terminal. À entrada, um taxista conversa com uma rapariga. Os dois estão no mesmo local e na mesma posição em que estavam no dia 22, quando cheguei de Londres e lhes fui perguntar onde se apanhavam as camionetas para Reiquejavique.

É tempo de preparar a passagem da noite no terminal. Reparo que em várias portas de acesso há um símbolo proibindo a dormida no local. Um aviso em Francês (?) vai mais longe e estende a impossibilidade às imediações do aeroporto. Que coisa estúpida! (e inédita, para mim). Deixo-me ficar no aeroporto, sentado na esplanada de um café fechado. Acabo por adormecer: ninguém me incomoda.

domingo, 26 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 6 (Hvoll - Jökulsárlón - Skaftafell)

Estrada solitária e monótona
2009/04/26

Aqui amanhece cedo (e anoitece tarde). Certo, certo é que às 5:30 já o sol me entra pelo quarto. Percebo a provocação mas deixo a ronha lutar por mim. Às 07:00 levanto-me. Desço para um espartano pequeno-almoço de café do Continente e Bolachas dietéticas.

Cumprido o dever para com o estômago, ponho-me a andar. A viagem hoje é de mais umas largas dezenas de quilómetros. Quero ir ver o lago glaciar de Jökulsárlón, passear no parque natural de Skaftafell e espreitar uma quinta com umas casas cobertas com turfa. Apercebo-me de que, para as distâncias a vencer, a escolha do albergue foi péssima: estou longe de tudo. A quinta de Hvoll fica no fim do mundo e até para chegar à estrada é preciso, primeiro, vencer 2,5km de caminho em gravilha. Mas o local é belíssimo...

O tempo está a ameaçar chuva. Passados alguns quilómetros, a ameaça concretiza-se e começa uma chuva irritante que vai tornando-se mais insistente. A coisa parece mal, até eu parar para uma das inúmeras fotos "tem de ser" e reparar que a água que cai não é tão intensa como aparenta com a deslocação do carro. Instala-se alguma esperança, logo contrariada pela visão de cada vez mais núvens escuras (e mais baixas).

O caminho, tal como no dia anterior, é uma mistura de monotonia com momentos de espanto. Sucedem-se os "desertos" negros, entrecortados por cursos de água e zonas mais ou menos agrícolas. Curiosamente, apesar da imensidão e da paisagem agreste, sinto que há sempre presença humana. Onde ela se nota pouco é na estrada: as gigantescas rectas são praticamente minhas e não fosse o receio de um azar com a autoridade, certamente aproveitaria para acelerar a sério...

Por entre as montanhas com neve que se vêem ao fundo (à esquerda, sobre os montes) começam a aparecer glaciares, monstros brancos que rompem caminho tresvasando o gelo para a planície. Ao longe parecem uma suave massa de chantily pronta a ser explorada já na próxima saída. Noto alguns locais onde aparenta haver trilhos para jipe, pela terra adentro. O contraste entre o negro do chão e os glaciares é enorme.

Do lado direito, tudo está aberto até ao mar. Este esconde-se na enganadora distância. Sei que é já ali ao fundo mas não o vejo.

Passo pelo acesso ao parque de Skaftafell mas sigo em frente. Mais um pouco e atravesso o local onde a dona da pousada me tinha indicado existir uma bomba de gasolina. Lá está ela. Por enquanto não vale a pena abastecer mas os 45 km decorridos desde o início da viagem deixam-me com uma pontinha de receio...

Lago de Jökulsárlón
Ao fim de um grande bocado avisto, pelo intervalo de um outeiro, grandes blocos de gelo. Só pode ser o lago de Jökulsárlón. Um pouco depois tenho a confirmação. Paro o carro num parque antes de uma ponte e preparo-me para o frio. Há um chuva miudinha e o habitual vento. Coloco as protecções para as pernas, aperto o carapuço (essencial para a minha sobrevivência), calço umas luvas, ponho o cachecol, aperto o blusão, bebo café do termo e eis-me pronto para os icebergues!

Os preparos deram resultado e o passeio faz-se com todo o conforto, excepção feita a dois momentos: quando resolvo pegar num pedação de gelo e as luvas se molham e quando decido experimentar o "waterproof" indicado nas botas que trago...

O lago é uma fantasia de água e gelo e, mesmo com o tempo nublado, consegue valer a deslocação. O que fará quando o céu estiver limpo!

Fotografo sucessivamente a paisagem e apercebo-me de um movimento: um bando de focas observa-me... Tento chamá-las a mim mas o mais que consigo é fazer algumas erguerem o pescoço bem acima da água. "Quem será aquele? Trará comida?"

Percorro a margem do lago e subo a um pedaço de gelo. A superfície escorregadia desencoraja-me de um passeio que seria arriscado. Mantenho-me em terra, portanto. As focas continuam a seguir-me de longe. Já estou a alguma distância do ponto de partida e decido subir a um outeiro. A vista ainda é melhor, como seria de prever. Começo o caminho de volta pela crista das elevações e só desço no fim para um tira-teimas à impermeabilidade das botas. Desta feita não me contento em molhar a biqueira e mergulho a bota toda. Imediatamente uma sensação de humidade fria se espalha pelo pé. Ora bolas! Para meu espanto e alívio, ao chegar ao carro o desconforto já tinha desaparecido. Dou uma última olhadela aos blocos de gelo mais próximos e abalo. Esperam-me alguns 25km até chegar à entrada do parque de Skaftafell. No caminho, reparo numa bomba de gasolina junto a uma estação fechada. Felizmente a bomba é automática e consigo abastecer. Sinto-me aliviado e à vontade para passear (e agradecido à grande invenção que foi o "multibanco").

Antes de chegar ao parque vejo uma indicação de acesso a um glaciar. Ignoro-a mas sinto o bicho da curiosidade a roer-me. A segunda indicação já faz parte do meu programa e atiro-me para um estrada de gravilha. Acompanho com o olhar um glaciar à esquerda enquanto me dirijo para outro. Deixo o carro num terreno à entrada de um caminho e continuo a pé. Ao ver um portão, julgo estar o acesso vedado. Não me conformo e pulo a cerca num local onde a rede estava no chão (provavelmente devido a um abatimento de terras).

A sensação de intrusão aumenta quando passo por uma placa em memória de dois alemães desaparecidos em 2007. Sigo o trilho na montanha e vejo o glaciar em baixo, a colossal massa gelada acabando num lago. Continuo mais um pouco e resolvo voltar. Reparo que o portão que eu julgava indicar uma proibição de acesso está afinal apenas no trinco. Noto a chegada de mais duas pessoas e decido voltar ao trilho. Avanço mais do que anteriormente mas acho melhor não me aventurar mais. Afinal, já estava a ver o glaciar. Paro para contemplar o cenário e aproveito para marcar território junto a um predregulho. Daí a pouco ouço vozes americanas. Três ou quatro indivíduos carregando material de filmagem. Um deles, sem nada, e com jeito de líder do grupo, vê-me e saúda-me alegremente. Traz uma boina de agricultor e o aspecto faz-me lembrar um realizador dos anos 20. Como para dar-me razão, a personagem vira-se para trás e grita "keep it coming Johnny, keep it coming". O Johnny tanto podia ser um sujeito que transportava um tripé como um gordalhão parado e suado logo no início do trilho onde tentava arranjar forças para prosseguir, com uma grande câmara vídeo e um tripé. Pelo meio, um casal de velhotes em fato de treino... À saída, vejo mais uma pessoa chegar, com um misto de satisfação por escapar à confusão e de pena por não continuar algo que talvez fosse mais simples do que parecia.

Em Skaftafell informam-me dos trilhos existentes. Para tristeza minha, a fonte de água quente onde pretendia ir tomar banho fica a umas horas de caminho. Sobram um cascata e um miradouro sobre um glaciar. Subo pelo monte e sigo as indicações para a cascata de Sevifoss. Pelo caminho, cruzo-me com aves que se atravessam despreocupadamente no trilho, pulando de arbusto em arbusto. Um corvo passa, fazendo barulho. Mais acima, uma primeira queda de água (Hundafoss). Depois, uma zona de "palha". Deixo-me cair no chão e preparo-me para uma sesta ao sol (o céu tinha aberto, entretanto), devidamente protegido pelo carapuço. Só para arreliar, o sono não veio...

A cascata de Sevifoss é em dos pontos dos folhetos turísticos devido ao seu enquadramento por negras colunas de basalto, assemelhando-se o local a um órgão de igreja invertido. Depois da sesta falhada na palha - que marcaria uma estreia minha nesse clássico do "relax", surgiu-me a ideia de tentar outro clássico: o banho de cascata. Como trazia calções e toalha (para a tal fonte, afinal, distante), a concretização da coisa parecia-me fácil. Descida a encosta até à base da cachoeira, tiradas as fotos da praxe, lá me despi e vesti os calções (confesso: por cimas das cuecas). O equilíbrio nas pedras era difícil mas tudo correu bem e entrei na água. Esta, era gelada (não a esperava quente...) e, ao chegar aos joelhos, era como se me queimasse as pernas. Desisti do temerário banho!

Feito o primeiro percurso, subi mais, seguindo outras indicações. Atravessando campo de diferentes naturezas e cores, sempre enquadrado pelas montanhas circundantes, fui dar ao miradouro sobre o glaciar. A vista era gloriosa: em baixo, um manto branco listado de cinzento; para a esquerda, um imenso mar de gelo; para a direita, a planície negra acabando no mar.

Desci até um penhasco e, na crista deste, sentei-me em pose dominadora. A cena era tão bela que decidi dar-lhe uma banda sonora: Jorge Palma e Anathema. Vantagens do PDA...

A vontade de ver mais fez-me continuar monte acima, percorrendo um terceiro trilho por caminhos por vezes alagados, mas o ângulo de visão que eu procurava obter sobre o coração do glaciar tardava em chegar e, após algum tempo, desisti.

De novo na estrada, já a caminho de "casa", vou reparando em pormenores que antes me tinham escapado. Paro e volto a parar, para guardar sempre mais uma imagem.

Faço um desvio para ir ver a quinta de Núpsstadur e as suas casinhas cobertas com turfa, entre as quais uma capela cuja conservação pertence ao Estado. Mesmo a existência de um monumento assinalado não é suficiente para levar de vencida a timidez e fazer-me entrar pela quinta adentro até junto da casa de família. Fotografo a capela ao longe e alguns barracões de perto. A cascata por trás da quinta é desinteressante mas, à volta, os montes de cume plano são monumentais, fazendo-me lembrar as imagens do Grande Canyon (EUA), mas em versão verde.

A charneca junto à pousada de Hvoll
O albergue fica perto deste último local. Ao chegar, apercebo-me da vida que por ali pára. Há um bando de patos (gansos?) espalhado pelo campo, uns pássaros voam enquanto outros cantam, outros patos nadam num dos diversos pequenos lagos existentes e, apesar desta actividade, uma atmosfera de sossego reina...

Entro pelo campo para fotografar uma carrinha velha à beira de um lago. O cenário é idílico e, novamente, a fazer-me lembrar certas imagens dos EUA. Junto à pousada, descubro cantos que me tinham passado despercebidos no dia anterior. O céu tem uma filial neste local.

A diversidade de paisagens é total: para cada ângulo, um cenário diferente. Disparo constantemente a máquina fotográfica.
Os animais são um bónus no local. Ao tentar aproximar-me de um grupo de patos vejo o patusco cão da quinta vindo na minha direcção, cheirando cuidadosamente as poças e a palha. A imagem é ternurentemente cómica, com a criaturinha roçando o chão num passo lento e bamboleante enquanto abana a cauda acima da vegetação rasteira. Chamo-o e, devagarinho, vem ter comigo. Nesse momento, do cimo de uma elevação, ouve-se o balir do amoroso cordeiro da quinta que, aos saltos, vem ter comigo e com o cão. Este faz-se às festas e, sentados na palha, ficamos os dois fazendo companhia mútua num entardecer perfeito...

sábado, 25 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 5 (Reiquejavique - Hvoll)

2009/04/25

O quinto dia das minhas férias (terceiro na Islândia) era de viagem. Menos de 300km entre Reiquejavique e Hvoll, onde passaria as duas noites seguintes, numa pousada de juventude.

Quando planeei toda a "operação", pensei fazer a viagem de camioneta mas rapidamente cheguei à conclusão de que mais valia alugar um carro. Em termos comparativos saía mais barato e nem se fala nos ganhos de mobilidade e conforto. Dono do meu tempo e livre de fazer o que muito bem me apetecesse certamente gozaria muito melhor tudo aquilo. 

A primeira coisa a fazer, portanto, seria ir buscar o carro à empresa de aluguer. Já estava feita uma reserva pela internet e apenas teria de tratar das burocracias do costume para poder partir. Na rifa saiu-me um Nissa Micra, vermelho. Feita uma rapidíssima inspeção, meti-me no carro e saí rumo à parte sul daquilo a que, no jargão turístico, se chama "the ring road", uma estrada que dá a volta completa à ilha mas da qual eu só iria conhecer cerca de um quarto da distância. 

Fui seguindo as placas indicativas, ao mesmo tempo que ia olhando para um grande mapa que tinha (nada de GPS, portanto) e saí com relativa facilidade da "grande Reiquejavique", entrando ao fim de pouco tempo em estradas "abertas". A paisagem era agradável sem impressionar: planícies cobertas de turfa amarelada, aqui e ali umas casas e, ao longe, a silhueta de montes.

Os típicos cavalos islandeses
A certa altura, quando ia numa longa reta (coisa que há aos montes por ali), avistei um conjunto de cavalos islandeses. Estes bichos são tão únicos que a Islândia proibe terminantemente que um animal que saia do país possa alguma vez voltar, tal é o medo de que possa haver algum tipo de contaminação genética que ponha em perigo a pureza da raça (dizem que eram estes os cavalos que o viquingues usavam). Resolvi parar o carro na berma da estrada e ir tirar umas fotografias aos bichos. Mal me aproximei da cerca, logo aquelas criaturinhas vieram ter comigo tentando ganharem umas festas. Eu não me fiz rogado, claro. Foi o contacto mais próximo e simpático que tive com habitantes da Islândia.

De volta ao meu bólido rubro, o objetivo era a cascata Skógafoss que fica no lugar de... Skógar ("foss" quer dizer, precisamente, "cascata"). A paisagem começou a ganhar mais imponência. Muitas vezes na Islândia me lembrei - sempre na estrada -, daquelas imagens da América, com as estradas rasgando enormes planícies rumo a umas distantes montanhas. Ao longe via elevações cobertas de neve (uma delas, salvo erro, era um "perigoso" vulcão) e, pelo meio,  a imensidão amarelada, aqui e ali entrecortada por água, sob a  forma de rios ou lagos.

Skógafoss apareceu depois de a estrada deixar a planície e ganhar a companhia de uma plataforma próxima que quebrou a monotonia que me invadia há muitos quilómetros. É este o problema daquela paisagem islandesa: é bonita mas cansa rapidamente. A cascata está a um canto, a umas centenas de metros da estrada e nota-se logo que é um local turístico pela acumulação de carros. Pelos padrões locais, estamos a falar de... meia-dúzia de veículos.

Skógafoss
O meu plano era ver a queda de água e subir à plataforma para ver o curso de água rompendo o planalto. Após fotografar a beleza natural cá em baixo, mais ou menos perto, nas margens do "rio" ou sobre pedrinhas no meio deste, subi as escadas que conduzem ao cimo da cascata. Uma vez lá em cima, é possível ir mesmo até junto da precipitação mas, mesmo que isto não acontecesse, o esforço teria sempre valido a pena para poder olhar a paisagem na direção do mar. Cortando serenamente a planície, o rio dirige-se para o mar, às curvas através de charnecas e campos agrícolas sob o olhar vigilante do monte mais próximo.

Terminada a visita à cascata, o próximo ponto da viagem era Vík. Há vários "vík" ("baía", em Português) na Islândia, sendo o mais conhecido, claro, a capital Reykja... vík. Para chegar à dita localidade (na Islândia, praticamente só há "localidades"), é preciso voltar à estrada cuja paisagem começa a variar um pouco mais: planície, charneca, deserto de cinzas... A certa altura vi um caminho indicando Dyrhólaey, que é uma zona que fica do outro lado da baía de Vík (a esta altura já sabem que isto é um pleonasmo). Entre os dois sítios fica uma praia negra. O caminho não começou mal mas rapidamente me deixou preocupado por a estrada estar em muito mau estado. A presença de alguns equipamentos fez-me perceber que estava em obras mas estas ainda tinham feito pouco. Gravilha, buracos, pedregulhos... tudo aquilo me fez andar muito devagarinho e com receio de algum "azar". Para compensar o mau piso, a paisagem era linda. À minha esquerda, um lago refletia o céu nublado e as montanhas nevadas ao fundo, e tudo isto envolvido num silêncio que apenas eu rompia com a barulheira das rodas sobre as pedras emergindo da escura cinza.

Zona entre Dyrhólaey e Vík
No fim da estrada, numa zona mais elevada, parei o carro para ir dar uma volta. Subi a umas rochas para contemplar a monumentalidade da área. Uma baía rodeada de montes, misturando-se o mar com grandes línguas de areia preta e, ao fundo, uns solitários rochedos como sentinelas de tudo aquilo. 

Desci por um caminho em direção a uma praia que havia ali. Toda ela negra, ladeada por rochedos negros, parecia um cenário para um qualquer conto gótico ao qual não faltavam, sequer, umas cavidades onde podia entrar e imaginar lá um qualquer bizarro tesouro escondido ou, tão simplesmente, ficar a ver o mar ir e vir, emoldurado em pedra.

Andei um pouco por ali, olhando para as pedrinhas, sentindo o cheiro do mar...o tempo suficiente para aparecerem mais uns turistas, um casal com um filho. "Hey!", ele - "Olá!", eu.

Contornar a baía levou mais tempo do que podia parecer. Primeiro, porque tive de voltar a percorrer a má estrada, mantendo exatamente os mesmos cuidados que antes tinha tido e, depois, porque a estrada dá uma grande volta até Vík, obrigando-nos a subir bastante. Pelo meio ficam um ou dois sítios que darão magníficos miradouros. Quanto à localidade, é um sítio triste, um molho de casas sem graça entaladas entre o mar e os montes, e que não merece mais do que uns minutos de paragem por mera curiosidade.

A partir de Vík, orientei-me para Kirkjubæjarklaustur (pausa para respirar...). Não é que, ali, houvesse muitas escolhas (ou se vai em frente ou se volta atrás). Nada mais simples, portanto.  Mais umas boas dezenas de quilómetros solitários, mais planície, mais charneca, mais areia e cinza pretas, mais rochas, mais água e, finalmente, uma paisagem nova, composta de rochas arredondadas e juntas que me fez lembrar de batatas com um espessa molhanga por cima...

Systrafoss
Ao chegar a Kirkjubæjarklaustur (que quer dizer qualquer coisa como "Claustro da quinta da igreja"), tive a primeira grande emoção da viagem: uma rotunda. Pequenina, ao jeito islandês, apenas o suficiente para abrandar quem viesse mais afogueado e permitir uma entrada em segurança em "Kirk". Ao virar, cruzei-me com um carro da polícia (o qual voltaria a encontrar, passando exatamente no mesmo sítio, no meu caminho de volta). Diga-se aqui que as multas na Islândia são a doer e o medo de ser apanhado em falta tinha-me impedido de carregar no acelerador, o que foi uma pena porque a "ring road" se prestava precisamente a isso...

Mas a rotunda não era o único sinal de civilização naquele local. Também havia uma bomba de gasolina e os respetivos minimercado e come-e-bebe. Este último caiu do céu porque a fome já apertava (e bem). Escolhi um típico menu de hamburgueres com batatas fritas e coca-cola que me soube divinalmente. Acabado o repasto, dei uma voltinha pela zona, que tinha como atrações a cascata de Systrafoss ("cascata das irmãs", ou seja, as freiras do tal "claustro da quinta da igreja"), e umas ruínas (adivinhem de quê? - sim, do "claustro da quinta da igreja"). Vi a primeira e falhei as segundas.

Já não faltava muito para chegar ao meu destino (Hvoll) mas, pelo meio, ainda ficavam alguns locais de interesse, nomeadamente uma zona com paredões de rochas basálticas e, ainda, mais uma cascata. Estes dois locais encontram-se defronte um do outro. Como o tempo piorou, as nuvens desceram e uma chuva miudinha começou a cair, abreviei a minha visita à zona e acelerei para o descanso que me esperava.

Hvoll, tal como muitos sítios aqui referidos, nem sequer é uma localidade. É um local, uma zona, onde tanto podem existir duas casas como nenhuma. Uma pequena placa junto à estrada indicava a direção do sítio, sendo necessário tomar um caminho de terra batida pelo campo adentro. Para trás ficava o asfalto e uns imponentes montes de topo plano, completamente ao jeito do "faroeste". O carro avançava, lentamente, para que apreciasse a planície coberta de turfa. Ao longe, uma casa e um celeiro formavam a quinta junto da qual estava outro edifício maior (mas discreto) e que era a pousada.

Estacionei o carro e imediatamente um cordeiro veio ter comigo, balindo alegremente. A poucos metros, um  cão de ar extremamente pachorrento mordia os restos de um osso. Avancei para a casa de habitação onde fui recebido pela dona. O cordeiro quis seguir-me para dentro de casa mas a mulher enxotou-o. A "receção" era um pequeno balcão junto à sala de estar da família onde uma criança estava sentada vendo televisão. Expliquei que tinha feito uma reserva, dei-lhe os pormenores mas a mulher não estava a encontrar o registo. Foi a outra sala, voltou, olhou novamente para umas coisas, e, num sofrido e chiado Inglês, insistiu que não estava a ver nada. Esta reserva, por a pousada não ter sistema automático na internet, tinha sido feita por vulgar correio eletrónico e, portanto, eu estava dependente da mulher encontrar a mensagem, o que eu viria a entender ser completamente ridículo por o local estar... vazio. Passa o marido - rumo à cozinha-, cumprimenta-me secamente e, ao fim de um minuto, a mulher, quase a contragosto, lá solta um "sim, sim, está aqui". Aleluia! - pensei eu.

Acabadas as formalidades, dirigi-me para a pousada, que ficava quase ao lado, tendo pelo meio uma pequena elevação coberta de relva. Era um edifício com rés do chão e primeiro andar, no qual se entrava pela sala de refeições. À entrada, calçado vário ali deixado fez-me pensar que houvesse lá mais gente e que a ideia fosse não andar com as coisas da rua dentro de casa. Ainda assim, continuei sem me descalçar e subi ao primeiro andar onde o meu quarto ficava. Nem uma alma por ali...

Da janela do quarto (cujo mobiliário eram dois beliches, uma mesinha e uma cadeira), via-se uma bela paisagem. Um curso de água serpenteava pelo meio da turfa, alargando-se mesmo defronte da pousada. Patos brincavam na água enquanto que muitas aves voavam em bandos à volta de um lago um pouco mais à frente. Senti-me imediatamente rendido...

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 4 (Golden Circle)

2009/04/24

Em todas as informações turísticas que me chegaram às mãos (e ao écran) aparecia como fundamental fazer uma excursão num circuito turístico a que chamam "Golden Circle". Partindo de Reiquejavique, executa-se uma espécie de triângulo (pois, o nome não está bem...) abarcando, no caminho, três pontos principais: a zona de Þingvellir (o Þ lê-se como um "t"-sopinha de massas), a cascata de Gullfoss, e a zona de Haukadalur.

Já ia de Lisboa com a passagem comprada e, de manhã, às 08:00, lá estava um mini-autocarro à minha espera, junto ao albergue. A expectativa era grande e a ideia de andar a passear durante oito horas, com pouco esforço da minha parte, ainda me tornava mais agradável a ideia do passeio.

Os mini-autocarros andam por Reiquejavique recolhendo pessoas e, depois, levam-nas para a sede da empresa de turismo onde as ovelhas são distribuídas pelas camionetas afectas às diversas excursões. A mim, coube-me ir exactamente no mesmo veículo, conduzido pela Christine, uma guia barriguda (o condutor é, também, o guia) que, antes de andar a passear turistas, tinha sido guarda-florestal.

O dia estava bom: um pouco nublado mas sem que as núvens incomodassem a plácida actividade de turista-fotógrafo. A temperatura estava, mais uma vez, agradavelmente fresca (para alguns, estaria frio) mas já se notava um ventinho a querer tornar-se forte (e gelado!).

Saímos de Reiquejavique, por uma espécie de autoestrada que vai passando pelos subúrbios da cidade mas, pouco depois, a guia anuncia-nos que vamos entrar num atalho, uma estrada de montanha que tinha estado fechado até há pouco. Chamar-lhe "estrada de montanha" não era muito apropriado já que não atravessava, realmente, uma montanha. Era, antes, uma estrada de campo. O piso estava bom, com uma ou outra zona a precisar de um pequeno arranjo. Aqui e ali, carros estavam parados na estrada, o que fez a guia reclamar de que os turistas nunca se lembram de que atrás vem alguém. Agradeci-lhe a "reprimenda" dizendo que, no dia seguinte, também eu andaria a fazer aquilo. Ela sorriu e "aconselhou-me" a pensar sempre em quem viesse atrás.

O vento estava cada vez mais forte, a ponto de a trajectória do mini-autocarro ser influenciada pelas rajadas. Por uma questão de segurança, íamos pelo meio da estrada e não pela direita. Por várias vezes, a "tampa" de respiração no tejadilho do autocarro foi aberta abruptamente, tendo um passageiro de a ir fechar. Na Islândia, existem, junto a alguns pontos da estrada, mostradores electrónicos com informação sobre o vento. Isto diz tudo.

Atravessámos uma paisagem bonita, misto de planície e montanha onde existiam ainda muitas "poças" de gelo. Começámos a avistar, à direita, um grande lago e, pouco depois, chegámos a Þingvellir. Quando saí do autocarro fui cumprimentado por uma forte rajada de vento que, de uma assentada me gelou as mãos e a cabeça. Acelerei o passo e fui meter-me no "centro interpretativo", um pequeno edifício desinteressante onde existe uma maqueta da zona e alguns conteúdos multimédia. Já com um carapuço colocado, enfrentei novamente o vento para começar a visitar o local "sagrado" para os Islandeses. Afinal de contas, dizem eles que ali (no meio de dois longos paredões de rocha) se reuniam os seus antepassados anualmente, formando o Alþingi. Este "parlamento" é considerado como o mais antigo do mundo.

A guia tinha combinado ir ter connosco ao outro lado do vale. A ideia era fazermos o percurso a pé, visitando os pontos de interesse. No cimo do cabeço onde fica a entrada pode-se ver a beleza do vale e do lago. Lá em baixo, um conjunto de casinhas brancas (onde pontifica uma igreja) acrescenta um ar bucólico ao sítio.

Þingvellir
Era difícil estar ali muito tempo porque não havia protecção contra o vento. As minhas mãos estavam geladas e nem com palmadas as aquecia. Comecei a descer a rampa para a zona do "parlamento". Esta rampa está protegida por altas paredes de pedra, formando uma espécie de garganta onde o vento não entrava. A mudança era radical e, sem vento, o tempo estava óptimo!

Duzentos metros mais abaixo, um mastro (onde deveria estar a bandeira nacional) marca o local sobre o qual se pensa que, durante as reuniões, estaria a principal figura do parlamento: um homem eleito anualmente e que tinha como função principal conhecer de cor as leis. Junto ao pedregulho colocaram umas fileiras de tábuas formando um anfiteatro sobre um estrado. Ao sítio acede-se através de uma passadeira de madeira e é muito agradável a vista que se tem. Mas o vento...

Por trás da rocha, continuando um pouco mais no caminho entre os paredões, chega-se a uns "degraus" de pedra onde corre água. É suficientemente interessante para merecer o desvio mas não para ficar muito tempo.

Retomei as passadeiras para atravessar os cursos de água que separam as duas "margens" de Þingvellir. Lá ao fundo, à direita, estavam as casinhas brancas (que não iria visitar). A guia já estava à nossa espera e o percurso para o autocarro foi feito mais depressa do devia, para fugir ao frio do vento. Pelo caminho, mais algumas fotografias foram inevitáveis.

Já no autocarro, tentei vários expedientes para devolver vida às minhas mãos: bati-lhes, sentei-me sobre elas, esfreguei-as e mordi-as. À base de alguma violência reganharam cor.

O próximo ponto de paragem era uma "confort stop" (coomo chamava a guia às paragens para comer e comprar coisas). No meio de nenhures, um cafézinho dava aos excursionistas a oportunidade de tomarem qualquer coisa quente e de irem ao WC. 250 coroas por um café
(um euro e tal), correspondente a pelo menos duas bicas (o café lá é à inglesa - em copo e grande quantidade) que fez, realmente, uma diferença grande em termos de conforto do corpo. O café encontra-se numa zona onde ainda é possível acompanhar com o olhar as marcas das placas tectónicas americana e europeia.

Gullfoss
A cascata de Gullfoss (traduzível como Cascata Dourada) é uma das estrelas da Islândia e a segunda paragem turística do "Golden Circle". Para quem já tenha estado na zona de Iguaçu o cenário perde alguma grandiosidade mas não deixa de ser um local admirável. Uma larga frente de água que se precipita para uma longa garganta (que não se consegue ver, a menos que saiamos do trilho). A ideia aqui é andar a ver a queda de água e, depois, subir para um restaurante que há num campo acima. Uma vez lá, almoça-se qualquer coisa. Mas, estar num sítio tão bonito faz-nos esquecer do estômago e todo o tempo parece pouco para observar mais um pormenor "mágico" ou para nos deixarmos molhar um pouco mais pela chuva que vem da cascata.

Quando já estava na zona por cima da cascata, aproveitei para deliciar-me com a vista das montanhas nevadas à distância, fechando o horizonte da planície coberta por uma vegetação rasteira amarelada. O vento voltou a tornar-se mais forte e comecei a ver pontinhos brancos no ar: estavam a cair flocos de neve. Não nevava, propriamente, no sentido de que não estava a "chover" mas tão somente a "pingar". No entanto, tão pequena manifestação dessa coisa bonita que é a neve já é o suficiente para alegrar um visitante das terras do sul.

Percorri o caminho até ao restaurante calmamente, saboreando a zona. Entra-se no edifício por uma loja de recordações, cheia de coisas sem graça (porta-chaves, canecas e demais quinquilharia turística), onde também é possível comprar roupa quente e produtos de lã (típicos). Senti-me tentado a levar umas luvas mas achei um desperdício de dinheiro. Afinal de contas, tinha dois pares no albergue e só o meu excesso de confiança me tinha impedido de as trazer. Quanto às lãs, disso tinha eu em Portugal.

O restaurante da cascata de Gullfoss tem como especialidade (anunciada nos folhetos turísticos) a sopa de carne. Já me estava a apetecer prová-la mas uma olhadela ao preço fez-me perder a fome: alguns seis euros por uma malga pequena de algo que cheirava a sopa de rabo de boi e onde se via um bocado de carne misturado com qualquer outra coisa (legumes?). A carne era de carneiro ou borrego, julgo. Achei caríssimo e fiquei-me por algo d emuito mais singelo: um chocolate quente. Foi uma boa escolha porque era absolutamente delicioso e soube-me muito bem bebê-lo calmamente sentado numa mesa com vista...

Já cá fora, enquanto esperava que toda a gente se reunisse, aproveitei para ir visitar uma casinha próxima onde está informação sobre a zona. Infelizmente, tudo está em Islandês.

Água a ferver
A partir de Gullfoss vai-se à zona de Geyser onde se pode visitar um campo geotermal, com poças de água a ferver e dois guêiseres (o fenómeno ganhou o seu nome neste lugar). O guêiser "original" está, agora, extinto mas a pouca distância um outro, de nome Strokkur, dá espectáculo de vez em quando. O local é de uma beleza árida, feita de terra amarelada e manchada. À saída do autocarro, a guia avisa-nos para não sairmos dos caminhos porque o chão pode ceder e cairmos numa poça de água a ferver. A ideia é desagradável mas, a dada altura, torna-se difícil perceber o que é e o que não é um caminho já que acabamos por andar a deambular pelo parque. No ar, há o característico cheiro a ovos podres derivado do enxofre.

O vento está, como desde o início da excursão, muito forte e ainda mais gelado. Por vezes há que lutar para nos mantermos no mesmo sítio, há que fincar bem os pés e fazer esforço para conseguir tirar uma fotografia sem tremer. O guêiser Strokkur, de vez em quando, "explode" mas o vento não o deixa ganhar a altura que se espera. Começo a perguntar-me se não vou, ainda, levar com um banho de água fervente. Curiosamente, apesar do tempo, a erupção não invade as zonas onde os turistas se acumulam. Vejo várias erupções, de força diferente e decido filmar uma. Só para contrariar, o guêiser tarda em repetir o seu número. Tenho as mãos completamente geladas e já estou cansado de lutar com o vento. Quanto desisto, dá-se uma erupção, da qual só consigo apanhar um momento sem graça. Paciência... volto para o autocarro. Uma vez lá dentro, vejo ao longe a maior das erupções e não deixo de admirar a força com que a água sai para conseguir ganhar ainda alguma altura apesar do vento.

Igreja de Skálholt
De volta à estrada dirigimo-nos para Skálholt onde existe uma igreja moderna sobre um sítio ocupado desde tempos remotos e que teve o primeiro bispo do país. A igreja em si mesma é agradável pelas suas linhas sóbrias mas o interior, embora luminoso, é desinteressnte. No entanto, pode-se ir à cave onde está um pequeno museu com vestígios recolhidos no local: um sarcófago, algumas pedras tumulares e o acesso a um túnel que ligava a igreja a outro edifício próximo (do qual já só existem as bases). Este é um daqueles lugares que, um pouco à imagem de Tara, na Irlanda, é capaz de dizer muito aos locais mas pouco aos turistas. O estrangeiro quer ver vestígios palpáveis e não "sentir" os lugares. A História existe para quem vem de fora apenas enquanto algo de material. Tiro várias fotografias à branca igreja, apreciando o contraste com o céu e a "relva". Esta, é turfa, um chão mole e que sempre se usou na construção, nomeadamente para isolar as casas.

De Skálholt vamos para uma terra próxima onde, supostamente, vamos visitar uma antiga estufa que está a ser transformada num museu dedicado aos deuses viquingues. A zona tem nascentes de água quente e notam-se fumos a sair do chão nalguns sítios. É também, uma terra onde há muitas estufas. Chegados ao local de mais uma "confort stop", deparo-me apenas com uma espécie de pavilhão com artigos para turista - novamente, as coisas sensaboronas que já tinha visto na loja do restaurante. Também há uma geladaria cujos produtos tinham sido recomendados pela guia (deve ser o habitual esquema de comissões). Não compro nem como nada. Saio e venho fumar uma cachimbada enquanto aproveito para apreciar uma estudante da escola de turismo que acompanhava a excursão. Há muitos tipos de belezas naturais... A poucos metros de onde estou sentado, junto a uma parede, vejo sair fumo. Vou até lá e reparo que, o que normalmente seria um canteiro é, ali, uma fonte de água quente.

Daqui partimos para a última paragem da excursão: a central geotérmica que abastece Reiquejavique. A dita fica num planalto ainda cheio de pedaços de gelo e rodeado de bonitas montanhas brancas. Vê-se ao longe grandes nuvens de fumo saindo do edifício.

Esta paragem foi o pior momento da excursão. Uma vez no interior da central (onde, praticamente não se vê qualquer movimento), uma funcionária conta-nos alguns pormenores sobre o seu funcionamento e "abandona-nos" no primeiro andar para que possamos dar uma olhadela. Mas, não há muito que se possa fazer: espreita-se através de um vidro para uns pavilhões com enormes máquinas, vai-se a um terraço onde se vê chaminés e fumo e olha-se para uns écrans onde passa informação sobre tremores de terra (acompanhados de forte som). Há qualquer coisa de irreal por ali... não se percebe o interesse do local enquanto ponto turístico. Rapidamente me vou sentar na entrada do edifício (onde já estão mais pessoas) e fico aguardando pela ordem de marcha. Quando esta chega, é com alívio que me levanto.

Da central geotérmica até Reiquejavique, percorre-se um longo plananlto, rasgado por uma estrada com algum movimento (para os padrões Islandeses). A paisagem é bonita mas dá pena a sensação de se estar a voltar para "casa". Peço para ficar no centro da cidade e começo a mentalizar-me para o facto de ir repetir locais...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 3 (Reiquejavique)

2009/04/23

Acordo pronto a ir explorar a "exótica" Reiquejavique. Pelo que me foi dado ver pela caminhada feita na noite anterior rumo ao albergue, a cidade deve ser diferente do que eu imaginava. A verdade é que sempre imaginei a capital da Islândia como uma espécie de entreposto frequentado por marinheiros e aventureiros antes de partirem para as suas viagens. Uma terra de fronteira, portanto, último bastião da civilização humana antes da natureza selvagem. Admito que fosse uma ideia romântica e facilmente destrutível com a leitura de informação sobre a cidade mas também confesso que tentei não saber muitas coisas sobre o local para, precisamente, manter um certo efeito de surpresa.

Com a forte luz do dia, foi-me possível perder a inocência relativamente à cidade. Se o albergue está numa zona de casinhas e prédios baixos, alguns minutos de caminhada levam-me a zonas de expansão da cidade, com estradas ladeadas por armazéns, hotéis, parques de estacionamento e edifícios de habitação.

Tomo o rumo da marginal que acompanha a bonita baía enquadrada, ao longe, por montanhas nevadas (a península de Snæfellsnes). A temperatura está agradavelmente fresca (tal como na noite anterior) e apenas necessito do carapuço para me defender de um vento que ameaça tornar-se incómodo.

Passam por mim algumas pessoas a correrem e um ou outro ciclista. Na estrada, poucos veículos circulam. Tiro a minha primeira fotografia. O caminho para o centro da cidade é longo mas, sendo feito de dia e por outro curso, permite-me começar a "ver" a cidade. Quando entro numa rua marcada no mapa que trago como sendo "comercial", um balde de água fria abate-se sobre mim: perto das 10:00 tudo está fechado e, mesmo que estivesse aberto, dificilmente as lojas me despertariam algum interesse. Se isto é uma das artérias comerciais da capital de um país...

O desinteresse causado pelos estabelecimentos comerciais é compensado pelo ar de casa-de-bonecas que muitas das coloridas moradias típicas têm. Há casas amarelas, verdes, azuis, vermelhas, como se houvesse uma intenção colectiva de combater a tristeza do Inverno com a cor das habitações. Umas casas são em madeira à mostra e outras têm um revestimento em chapa metálica ondulada. Todas me fazem imaginar habitações decoradas de forma simples (em jeito IKEA) mas confortáveis, ideia que nasceu em mim na noite anterior, enquanto deambulava por ruas onde muitas janelas não tinham cortinas.

Aproximo-me ainda mais do centro da cidade e reparo estar junto a um posto de atendimento a turistas. Recolho algumas brochuras e mapas enquanto espero a minha vez para comprar o Reykjavik Welcome Card, um passe que dá acesso a museus, transportes públicos e piscinas (entre outras vantagens). Podia ter adquirido o cartão no albergue e poupado tempo mas, conforme veria depois, tempo seria o que me sobraria em Reiquejavique...

Na posse do cartão faço um curtíssimo passeio até ao Centro Cultural, onde está uma exposição de antigos manuscritos com algumas "sagas" ("história" em Islandês). Ao chegar lá, o guarda informa-me de que só abrem às 11:00. Como só faltam 20 minutos, o rapaz da recepção deixa-me entrar, dando-me, primeiro, uma chave para que eu vá deixar a mochila num cofre. Na cave noto a existência de bengaleiros para que as pessoas deixem os casacos. À saída, os cabides (sem vigilância) estarão ocupados com casacos de adolescentes em visita de estudo.

A exposição tem um interesse relativo. Se é verdade que há objectos interessantes, também o é que falta alguma espectacularidade ou, dito por outras palavras, faltam objectos que satisfaçam uma curiosidade menos "letrada". Há livros muito antigos, há objectos associados à cultura da ilha mas dificilmente se poderia considerar esta exposição um must numa capital "normal". No primeiro andar da casa há uma sala de cerimónias (a "sala de leitura") e uma micro exposição de animais empalhados. Ambas são para ver de passagem e sem que valha a pena perder mais do que dois minutos em cada. Já no terceiro piso - que ocupa o sótão da casa -, estava uma exposição sobre cinema islandês, com uma decoração engraçada, baseada em enormes bobinas e com "quiosques" onde era possível ouvir o som de filmes que estavam passando. Olhei mas não ouvi. Percebe-se porquê...

Depois de sair da Casa da Cultura, e tendo já passado pela casa que servia de sede ao Governo, dei uma espreitadela à estátua que domina a pequena elevação junta. Daí, e já com a irritante noção de ter, em nenhum tempo, coberto três dos pontos de interesse da cidade, dirigi-me ao coração da urbe. O pouco movimento nas ruas continuava e fui na direcção do lago que existe logo ali. É um sítio bonito, rodeado por casas elegantes e cujas águas são percorridas por muitos patos. No fim do parque, tomei o caminho do Museu Nacional onde esperava ver, finalmente, objectos da herança viquingue.

Não fiquei desiludido com o museu. De facto, são muitos os objectos e vestígios da História islandesa que podemos observar no museu, desde armas a mobiliário, passando por roupas tradicionais e objectos religiosos. Para descontrair, numa salinha que pode passar desapercebida, temos a hipótese de experimentar um capacete viquingue, um escudo e uma espada. Também há roupas diversas para quem queira vestir outras personagens. Será necessário dizer que, para as crianças, é sucesso garantido?

No fim da visita, resolvi beber um café e comer um bolo (que esperava que fosse qualquer coisa típica). Pedi a ajuda do rapaz que me atendeu para traduzir os nomes. Escolhi uma espécie de bolo com camadas de bolacha e doce. Rijo e sem interesse... O café (que tive de ser eu a colocar - o que até é uma vantagem), estava nuns grandes termos e era possível escolher um de dois tipos. Não era mau.

Sentado à mesa, pude ver o começo da chuva a cair sobre a cidade. Um contratempo absolutamente desnecessário mas que serviu para mostrar a rapidez com que o tempo muda por aquelas zonas...

De volta ao centro da cidade, fui até à "Settlement Exhibition" (falha-me o nome em Islandês), uma exposição na cave de um edifício onde foram encontradas as fundações de uma casa viquingue. À volta destas foram colocados conteúdos multimédia e todo o espaço é interessante e, até, acolhedor.

A chuva aumentava e aproveitei para uma pausa. Arrependia-me constantemente de ter deixado o guarda-chuva no albergue. Arriscava-me a ficar ali enfiado durante um bom bocado. Ganhei coragem e saí. A chuva amainou um pouco e subi uma rua em direcção a uma igreja (a catedral católica). Fui reparando em casinhas bonitas que compunham as ruas que, de outra forma, seriam absolutamente cinzentonas.

A igreja era simples, quase ao modo protestante. Estava lá bastante gente e ia chegando mais. Como havia um grupo de recepção, nem sequer entrei e limitei-me a espreitar pelos vidros da porta interior. Abalei, descendo uma rua em direcção ao porto.

Quarteirões de casinhas de habitação a, literalmente, 200m do centro da cidade, dificilmente permitiriam adivinhar estar onde estava. No fim da rua, um café/hamburgaria num edifício ao estilo das estações de combustível dos anos 50 chamou-me a atenção. Ao chegar perto, reparei num estaleiro à esquerda onde dois barcos estavam em doca seca, deixando apreciar a desproporção das formas que deverão ficar acima e debaixo de água. Aproveitei para dar uma volta por entre os armazéns agora convertidos em restaurantes e abriguei-me da chuva que tinha começado a cair mais fortemente. Quando os pingos se tornaram menos insistentes, rumei para uma das duas praças centrais de Reiquejavique, onde está o Posto de Turismo e onde, segundo o guia, se costuma reunir a população noctívaga.

Há alguns comes e bebes na zona e adolescentes versão "skateboard" que se juntam por ali. A partir da praça saem duas ruas com alguma animação comercial - ao estilo de Reiquejavique -, e que se vêem em três minutos. Virando à direita, acede-se a outra praça, onde fica o edifício do parlamento e que ainda ostenta nas janelas as muitas marcas dos tumultos ocorridos há algum tempo, quando a população se revoltou devidou à bancarrota a que o país chegou por causa da crise económica e da aplicação especulativa das economias nacionais.

Por esta altura, era possível dizer que a cidade estava vista. Pelo menos, no que se refere ao seu centro. Resolvi aproveitar o cartão para ir a uma piscina. Já tinha vindo preparado com calções, touca e chinelos e, como ao lado do albergue está, nada mais, nada menos do que a maior piscina da cidade (a céu aberto), escolhi-a para experimentar a exótica sensação de estar a banhar-me em água quente sob um céu de chuva. No caminho, passei pelo ex-libris da cidade, a feia igreja Hallgrimskirkja que parece uma espécie de grosso foguetão (ou uma gigantesca bomba) no cimo de uma colina. Felizmente para os meus olhos, o edifício está a sofrer obras de conservação e encontra-se entaipado. Mas também não deixo de ter alguma pena de não ter visto a coisa, ainda que, pelas fotos, ela seja, realmente feia!

Chegado à piscina de Laugardalslaug (aberta até às 22:00), aluguei uma toalha por 350 ISK (não me apeteceu andar 100m até à pousada) e fiz-me à piscina. Toda a gente devia notar que era estrangeiro porque levei comigo a toalha e a touca, acessórios com que ninguém andava (e já não falo aqui dos pelos corporais, praticamente ausentes entre a população local).

O espaço era composto por uma piscina coberta e outra ao ar livre, um lago grande e outro pequenino, quatro tanques com água a diferentes temperaturas, um jacuzzi e ainda uma sala de banho turco. O lago (que costuma aparecer nas fotos) é agradável mas rapidamente nos habituamos à temperatura amena da água e só com movimento sentimos calor. A piscina - também aquecida -, não tem nada que se destaque. Existe um grande escorrega mas que, pelo menos naquele dia, estava encerrado. Quanto aos tanques de água quente, este macho que aqui escreve, resolveu ir directamente ao mais quente (42º) e só com algum esforço e paciência (devagarinho...) é que se conseguiu sentar lá dentro. Mas valeu a pena! - embora por pouco tempo porque a coisa tende a tornar-se monótona.

É curioso é reparar que os islandeses (supostamente com um elevado nível de educação) andam completamente descalços pela piscina, banho turco, cabinas de duche, etc. :(

Acabados os banhos, foi a vez de ir para o albergue tratar do estômago, com uma das maravilhosas comidas "é só acescentar água quente" da marca Continente (provavelmente os piores produtos "brancos" desta cadeia de hipermercados), sabiamente trazidas de Lisboa para poupar dinheiro.

Quando o repasto terminou, o corredor do meu quarto estava invadido por adolescentes nórdicos que se entretinham nas actividades preferidas desta faixa etária: fazer muito barulho e perseguirem-se uns aos outros. O pior foi que istou durou pelo menos até às 23:00, com uma forte recaída às 03:00.

Um dia, hei-de ir só para hotéis...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 2 (Londres-Reiquejavique)

2009/04/22

Vir apanhar um avião a Londres e não aproveitar para cá ficar um dia é crime. Como sou um tipo honesto, lá fiquei umas boas horas na cidade. Saí da St. Cristopher's Inn de manhãzinha - tempo de ir comprar uns pensos para os calcanhares e por-me a caminho da zona de Chelsea. Não, não fui ver o estádio - se bem que o tenha avistado -, mas sim o primeiro dos meus dois pontos da a genda londrina: o National Army Museum.

Saído do Metro, andei um bocado perdido e tentei usar o GPS mas este só serve se soubermos o nosso destino. Enviei um SMS para Lisboa e recebi resposta pronta. Agora sim, com a ajuda de um colega de trabalho e do GPS, ia chegar ao museu.

Andava eu a caminho, aproveitando para tirar fotos, quando um carro da polícia pára à minha frente. De dentro do veículo sai uma agente, de ar simpático, e dirige-se a mim. Bom-dia, blá, blá, que eu tinha sido visto a tirar notas e a fotografar uma ponte, que aquela zona era "sensível", se eu me importava que ela visse as minhas coisas. Não ia, portanto, ser sujeito a uma humilhante revista corporal na via pública mas tão-só da mochila, percebi logo (da mochila porquê? - pergunto-me). A agente, sempre muito calma e simpática, pergunta-me o que acho daquilo, se eu compreendo a razão de ser do seu procedimento. Digo-lhe que sim, que é uma história para contar aos amigos. Ri e concorda comigo, aproveita para perguntar se estou a gostar de Londres. Queixo-me do calor e ela concorda, acrescentando que, em Agosto, mal se pode respirar na cidade. A polícia, sempre mantendo a simpatia, abre a mochila, dá uma vista de olhos superficial e fecha-a com todo o cuidado. Informa-me de que já houve dois ataques às pontes da área e passa-me um recibo da busca! Exactamente: fiquei com uma prova da sua actuação para poder apresentar queixa (caso o pretendesse) bem como um papel explicando o tipo de situação. Como último pormenor, tive de indicar a minha etnia: como não era "branco inglês" nem "branco irlandês", escolhi "outro tipo de branco".

Enquanto coloco a pesada mochila às costas, ela olha, como quem se prepara para oferecer ajuda. Trocámos uns comentários de circunstância , não sem que a agente, primeiro, me indicasse o melhor caminho para o museu. Despedimo-nos, finalmente.

Recibo de busca
Que dizer disto?
Mais do que a acção em si mesma (que nem foi embaraçante pela ausência de pessoas no local), fica o modo como a agente lidou comigo: calma, simpática, sem qualquer autoritarismo,de uma maneira que nem sequer provocou irritação ou nervosismo em mim
. Em resumo, minutos depois nem me lembrava mais do assunto. Um acaso ou uma maneira de estar? Vou pela segunda hipótese, só pelo pormenor do "recibo"...

Quanto ao museu do exército (entrada gratuita), valeu certamente a visita. Inferior ao nosso em área e espólio da antiguidade (compensa com material da 2GM), tem a graça de nos permitir experimentar material (chapéus, capacetes, etc.). Não é todos os dias que podemos por na cabeça um genuíno capacete do Séc. XVII, da guerra civil inglesa! - uma visita a não perder.

Acabados os assuntos castrenses, rumei à outra margem do rio, até à antiga central de produção de electricidade de Battersea (o edifício na capa do álbum "Animals", dos Pink Floyd). Mesmo sem porcos a voar, é um "monstro" impressionante. Infelizmente, só é possível vê-lo a uma certa distância porque o parque em que se insere esté entaipado.

O calor em Londres era muito. No ar sentia-se uma certa poluição. A verdade é que entre os 26º de Lisboa e aquilo, devia haver pouca diferença. Ora, andar com duas camadas de Polartec, um blusão e uma mochila e levar com uma caloraça daquelas não é coisa agradável! E com esta, já é a segunda vez que a capital britânica me deixa, se não queimado, pelo menos "aquecido"...

Uma coisa boa que se nota agora é que os preços em Londres, com a desvalorização da Libra estão, finalmente, próximos do normal. Já não custa beber um café ou uma cerveja e sentimo-nos mais próximos dos locais bem como com mais acesso aos bens.

À tarde, apanhei a camioneta para o agradável aeroporto de Standsted. O caminho é longo - uma verdadeira viagem que nos permite ver os subúrbios (imediatos e mais distantes) da cidade. Aqui (na camioneta), o problema era a frescura do ar condicionado. Acabei o dia pasteurizado, suponho :)

À noite, voo para Reiquejavique. De uma ilha para outra. De uma cidade "familiar" para outra "misteriosa"...

terça-feira, 21 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 1 (Lisboa-Londres)

2009/04/21

Viajar nas companhias de baixo custo obriga a um exercício de comparação e escolha dos melhores horários (i.e., os mais baratos). Normalmente, o que dá mais jeito é logo de manhã ou ao fim do dia. Neste segundo caso, podemos partir de férias no fim de um dia de trabalho e, se é bem verdade que os meus nervos já sofreram bastante com esta "partilha", também não é menos verdade que se ganha um período precioso. Chega-se à hora de dormir e, no outro dia, acorda-se logo pronto para passear.

Baixo-custo, para mim, tem sempre querido dizer EasyJet. Com a honrosa excepção da utilização da Ryanair para ir à Irlanda, há já uns bons anos que os meus voos na Europa são pintados de laranja.

Desta vez, no aeroporto da Portela, não me mandam descalçar. Curiosamente, será o único dos quatro voos que farei onde isso não acontece (imagine-se o trabalhão de tirar umas botas da tropa)...

As duas horas e uns trocos que dura a viagem para Londres passam muito lentamente e nem a leitura do guia turístico que comprei para preparar a viagem (não me ajeito com PDF's), consegue entreter-me ou fazer esquecer-me da falta de espaço.

Num dos momentos que a tripulação guarda para tentar vender perfumes e outros bens de "qualidade a baixo preço", o assistente de bordo resolve entreter os passageiros com uma divertida apresentação dos perfumes. Toda a gente acha graça e bate palmas, no fim. Por momentos, deu para esquecer o desconforto.

O avião chega, finalmente, ao aeroporto de Gatwick (onde eu nunca tinha ido). No terminal das chegadas, a polícia faz-se notar, ostentando enormes metralhadoras. É um mundo diferente, este...

Agora, há que ir apanhar o comboio para a estação de London Bridge. O dito chega a horas e leva pouquíssima gente. A viagem não tem graça porque pouco se vê através da janela (devia ter ido lá mais para trás, para onde se sentou uma atraente mulata vinda de Lisboa...).

Chegado a Londres, venço em pouco tempo os quinhentos metros que separam a estação de comboios da recepção do albergue onde sempre tenho ficado na antiga Londinium. Como de costume, o bar no R/C tem bastante gente a emborcar cerveja e há movimento um pouco por todo o lado. As duas St. Cristopher's Inn da Borough St. (Village e Orient Expresso) não são, decididamente, locais para quem procura muito descanso mas são uma boa escolha em termos de localização e, apesar de, originalmente, eu pretender experimentar a versão da zona de Hammersmith, a verdade é que a noção da impossibilidade de chegar a horas decentes à cama me fez alterar a reserva para a Orient Expresso. Do mal, o menos e até se deu o caso de o quarto onde fiquei ser sossegado.
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