sábado, 20 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 17 (Gibraltar - Tavira)

King's Chapel
2010/03/20

Acordar depois das nove, com a sensação de se ter limpo todo o cansaço é bom. Melhor ainda é ir, calmamente, tomar o pequeno-almoço. Geralmente, nos hotéis isto implica apanhar um elevador e ir a uma sala a meia dúzia de metros do dito mas, no hotel onde estava, implicou um pouco mais: apanhar o elevador, atravessar a receção, atravessar uma sala, subir umas escadas, virar à esquerda, atravessar um longo corredor, abrir uma porta, virar à direita, atravessar o bar e, finalmente, ir dar a um pavilhão ao lado da piscina :)

O pequeno almoço era em jeito de self-service: umas mesas com comida, compotas, pãezinhos... o costume. Nada que impressionasse mas o suficiente para reconfortar o estômago. Aproveitou-se o momento para planear o passeio do dia.

Saímos do hotel e fomos visitar o museu que havia quase nas traseiras. Fica numa casa antiga, com vários níveis e é um daqueles cantinhos cheio de recordações históricas. Há de tudo ali: arqueologia, pintura, natureza, uniformes, armas, mapas... o diabo a quatro. Foi uma visita que valeu - e muito -, a pena. Na rua, cruzámo-nos com vários judeus (vestidos a preceito) que se encaminhavam para a sinagoga ali bem pertinho. Muitos dos antepassados dos atuais judeus de Gibraltar eram portugueses.

Apontámos à King's Chapel, uma capela colada ao palácio do governador, na Main Street. Do templo saía um grande grupo de crianças (tipicamente inglesas) acompanhadas dos pais. Como era Sábado e já estávamos bem a meio da manhã, era provável que viessem de algum serviço religioso com coro infantil.

Entrámos na capela que é grande e de decoração bastante simples. Os pormenores que rapidamente saltam à vista são o belíssimo teto que parece feito de flores e as inúmeras lápides colocadas nas paredes. Também há um conjunto de antigas bandeiras britânicas, nomeadamente militares. É uma visita que se faz com gosto mas que não deixa grandes memórias.

Voltámos ao hotel porque eram horas de fazer o checkout (e ter de tirar o carro de junto da porta). A rececionista era uma mulher de poucas simpatias, do tipo que nem agradece aos hóspedes.

O canhão com cem toneladas
Agora, tínhamos como objetivo ir visitar um canhão. Exatamente: em Gibraltar há um canhão que é tão grande que ele e as instalações onde está se tornaram atração turística. Chamam-lhe os ingleses "The 100 ton gun" (a arma de 100 toneladas). Esta preciosidade da engenharia militar do Séc. XIX está no extremo sul do território, vagamente apontada para Marrocos, e é de visita obrigatória por quem goste de coisas ligadas às armas. Estamos a falar de um canhão tão grande, que usava munições tão pesadas que, do momento em que era dada ordem de disparar, até ele efetivamente o fazer, passavam três horas, tal era a força que o sistema hidráulico tinha de reunir para conseguir mover o monstro!

Deixámos o carro a uma centena de metros da entrada do "museu" do canhão numa zona de prédios modernos. Pagámos a entrada (com libras de Gibraltar) e entrámos no pequeno aquartelamento onde há uma exposição dedicada à história do canhão. Uma vez dentro do complexo que serve a arma, podemos andar nos túneis e examinar todo o mecanismo que fazia funcionar aquela. Cá fora, no pátio, temos a melhor noção do tamanho da bisarma quando vemos alguém junto dela. Toda a gente quer tirar a fotografiazinha da prache encostada ao super-canhão. Da amurada, com bom tempo, a vista deve ser boa mas, infelizmente, havendo bastante sol, também havia nuvens que impedia grande visibilidade.

À saída, aproveitei para pedir ao homem da bilheteira para me trocar uma nota por outras, por forma a satisfazer um amigo com gosto pela numismática. O homem, um daqueles ingleses de pele queimada e tatuagens nos braços, com um certo ar de aventureiro, acedeu simpaticamente, procurando as melhores notas num grande maço que tinha.


Europa point
O ponto seguinte do passeio era o "Europa point", um sítio mesmo ao sul, onde há uma mesquita e um farol. Supostamente, é o local onde a Península Ibérica acaba. Para lá chegarmos fomos por uma estrada no sopé da montanha, atravessando um túnel junto do qual escorria bastante água vinda lá do alto. Chegados ao sítio, o que vemos é a mole da mesquita e, em frente desta um grande descampado com o farol lá ao fundo. É daqueles sítios que só vale a pena visitar se não houver melhor para fazer ou se o tempo estiver muito bom e permitir vistas largas.

De volta ao carro, resolvemos continuar pelo lado direito do território onde sabíamos que a estrada acabaria a meio (não tendo sido ainda feito o planeado túnel que permitirá dar a volta completa ao território). Mas enganámo-nos e acabámos por estar de volta ao lado esquerdo da montanha. Toda a outra zona ficou, portanto, por ver, tirando alguns vislumbres aquando da visita à "base" dos macacos ou aos túneis. Ainda assim, fomos por caminhos diferentes que nos permitiram ver mais ruas de Gibraltar.

Chegados à fronteira passámos livremente pela alfândega inglesa para - como não podia deixar de ser! -, sermos parados pelos espanhóis: abrir a bagageira, dizer que não, não trazíamos tabaco e... seguir caminho. Ora, se não me engano nas contas, isto fez três controlos desde que saímos de Tânger.

Dali, era seguir para a santa terrinha, a cruzar a Andaluzia, mirando Sevilha ao largo e apenas parando num restaurante/quinta para almoçar. Comer em Espanha... pois... Mandámos vir porco preto (mal servido em quantidade) e ele veio... com sangue. Para cúmulo, era fraco de sabor. Palavras para quê, a má fama culinária dos nossos vizinhos insiste em se manifestar comigo.

Tomámos a autoestrada com gosto e foi com alegria que passámos a metade da ponte sobre o Guadiana, ali perto de Vila Real de Santo António. Há coisas que só se explicam pelo sentimento mas, ninguém me tira da cabeça que, deste lado da fronteira, o ar cheira melhor e a paisagem é mais bonita. Abri a janela para melhor apreciar o fenómeno ao mesmo tempo que comecei a ver as placas indicando os quilómetros que faltavam para uma pausa familiar em Tavira.

Estavam terminadas as férias.

sexta-feira, 19 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 16 (Tânger - Gibraltar) - parte 2

Monumento aos
Pilares de Hércules
2011/03/19

O primeiro ponto da excursão pelo "Rochedo" é um monumento alusivo ao facto de a montanha de Gibraltar ser considerada um dos Pilares de Hércules (o outro sendo algures do outro lado do estreito), míticas marcas que "guardavam" a entrada do Mediterrâneo. O local, em si mesmo, é desinteressante e apenas poderia ter interesse como miradouro mas, para isso, era necessário que não houvesse nuvens.

Minutos depois, com todos na carrinha, estávamos a caminho da "St. Michael's cave", uma bela gruta com uma "sala" tão grande que é usada para espetáculos. O local tem uma atmosfera muito interessante, com as iluminações, diversos caminhos e uma grande humidade. Cá fora, podemos ter o primeiro contacto com os célebres macacos de Gibraltar, a única espécie existente na Europa e contra a qual somos logo avisados aquando do embarque. "Não lhes deem de comer nem lhes toquem!". Os bichos ali estão, espertos como são sabem que sempre conseguem sacar qualquer coisa para comer. Os guias já os conhecem e têm com eles uma confiança que lhes permite mexer nos animais com segurança. Mas... o ponto seguinte da excursão era dedicado aos simpáticos símios.

Começando a conversar com as pessoas, o guia aproveitou para ir dando pormenores sobre o território, falando da sua história e gentes e, claro, veio à tona a questão da exigência espanhola de retorno do território (escusado é dizer que não há a mesma preocupação relativamente a Olivença ou Ceuta). O guia fez questão de frisar que, embora a população fale Inglês e Castelhano e haja fortes relações entre as populações dos dois lados, os Gibraltinos são e querem continuar sendo Ingleses e que já o tinham mostrado de forma esmagadora em referendo. Para quem tivesse dúvidas, elas teriam acabado ali.

Macaco de Gibraltar
Continuando a subir a montanha, chega-se ao ponto mais alto ao qual os civis podem ir. A partir dali, só o pessoal ligado às instalações militares que estão lá bem em cima pode continuar o caminho. Mas esta limitação de acesso não entristece quem ali está: a vista é deslumbrante, apanhando todo o lado ocidental de Gibraltar e estendendo-se bem longe sobre Espanha; depois, há os macacos que ali têm uma pequena base onde todos esperam que eles brilhem para as fotografias. Há adultos e muitas crias que se entretêm a brincar umas com as outras. Independentemente da idade, todos chafurdam nos restos da comida que turistas e guias lhes deixam naquele local. Os macacos estão tão perto de nós que a tentação para brincar com eles é grande e há que resistir. Não só há o problema de podermos gerar alguma reação agressiva como também há casos em que os macacos roubam objetos como bolsas e malas que não estejam bem "guardadas". Foi, portanto, com imensa curiosidade  e alegria que andei pelo meio daquelas criaturinhas mas, ao mesmo tempo, com pena por não poder brincar com elas. Havia um macaco, já adulto, encostado a um muro, à sombra, e que olhava tudo aquilo com um ar de preocupação que me dava vontade de sentar ao seu lado e perguntar "Então, rapaz, isso anda mal?".

Túneis do Cerco
Terminado o momento divertido da tarde (havia quem se demorasse a entrar na carrinha por não parar de tirar fotografias), começava a descida da montanha, em direção à entrada para o grande complexo de túneis escavados pelos Ingleses aquando do cerco imposto por tropas espanholas e que durou de Julho de 1779 a  Fevereiro de 1783. Hoje, uma boa parte dos túneis está fechada ao público, embora continue a ser possível circular por eles. A zona "turística" é relativamente pequena (quando comparada com a extensão total das galerias) mas é de visita agradável. São túneis largos, escavados à força de explosivos, com muitas "janelas" viradas para Espanha, à qual estão apontados grossos canhões. Aqui e ali há conjuntos de manequins fardados a rigor, recriando cenas daquela época. Infelizmente, esta visita já foi feita olhando para o relógio e com a preocupação de ter de voltar para a carrinha, o que foi uma enorme pena. Cá fora, a vista da zona de espera voltava a ser grandiosa e animada por alguns macacos.

Patriotismo britânico
O último ponto da excursão ficava "uns metros" mais abaixo, já quase a chegar à zona urbana e era o "castelo mouro" que, na verdade,  é apenas uma torre. No entanto, naquele dia estava fechado e continuámos descendo até chegar ao centro, onde saímos. O passeio tinha valido bem a pena!

Explorámos as ruas "traseiras" onde há algumas coisas interessantes. São ruas sossegadas, a subir e descer onde, aqui e ali, surge uma casa mais "inglesa" e que se destaca dos prédios "funcionais".

Atravessámos a rua principal e fomos ver um resto de muralha onde há uma plataforma com vários canhões. Hoje, todos eles estão apontados a parques de estacionamento, armazéns ou pacatas ruas já que a linha da costa afastou-se imenso do ponto original.

Uma grande parte do território é conquistado ao mar e, de repente, parece estranho ver aquelas estruturas ao nível da rua, em pleno centro da cidade. Olhar para elas e perceber a pequenez do território antigamente dá-nos uma  boa ideia do heroísmo daquelas gentes (entre as quais muitos compatriotas nossos) que ali resistiam contra cercos e ataques e eram obrigadas a fazer a vida, numa estreita faixa de terra,  entaladas entre a montanha e o mar.

Canhões na rua
Cansados que estávamos, resolvemos ir beber uma cervejola num pub junto do palácio do governador. Era o típico bar inglês, instalado numa casa de traça britânica, e ali ficámos um bom bocado, saboreando o possível gosto de uma "pint" e alguns amendoins.

Quando precisei de ir à (minúscula) casa de banho reparei que nesta havia três máquinas de venda: uma de preservativos, outra de cuecas de mulher e, ainda, uma de... vibradores. Nem quero pensar nas coisas que se passam por ali numa sexta-feira à noite...

(continua)

França/Marrocos 2010 - dia 16 (Tânger - Gibraltar) - parte 3

2010/03/19

Terminado o descanso para uma loura, o meu tio decidiu ir dar repouso ao corpo no hotel. Ainda estávamos a meio da tarde e, para mim, isso era impensável: há que andar, há que ver, há que aproveitar. Decidi ir mesmo até ao fim da Main Street, onde há uma praça de algum tamanho com várias zonas de comes e bebes. Não parei em nenhuma por preferir continuar a ver a "cidade". Passei debaixo dos pequenos túneis de acesso (aquilo era a praça principal da zona fortificada) e resolvi ir conhecer os quarteirões mais modernos.

A área mais recente de Gibraltar é suficientemente desinteressante para não ser um ponto turístico mas, ao mesmo tempo, suficientemente interessante para valer uma volta, numa lógica de "queimar tempo". Percorri uma rua inteira até chegar mesmo àquela ponta do território onde se viam, ao longe barcos perto de Algeciras.

As ruas tinham pouco ou nenhum movimento e comecei o caminho de regresso, passando pelo moderno hospital local. Também ali se ouvia mais Castelhano do que Inglês e não é difícil imaginar os vizinhos do território tentando aproveitar um sistema de saúde que deve ser superior ao que têm na sua terra natal.

Claramente, todos aqueles quarteirões são os de crescimento da habitação de luxo, tal é o aspeto dos edifícios e o tipo de carros que passam. Há também uma espécie de hipermercado (à escala local). Nota-se igualmente um maior número de jovens convivendo na rua pelo que a animação noturna de Gibraltar deve estar localizada por ali.

Quando já estava perto do centro, virei à esquerda e fui ver a marina, zona onde também está um casino. É um sítio agradável, com esplanadas e restaurantes como se espera em semelhante local. Também havia pouco movimento e aproveitei para passear por um dos pontões admirando os barcos atracados. Lá mesmo no fim estava a uma distância do começo da pista do aeroporto que não excedia os duzentos metros. Pensava eu nisto quanto um avião aterrou, ali pertinho.

Resolvi voltar para o hotel fazendo, no entanto, uma volta grande que me levou a alguns sítios por onde tinha passado de manhã, quando entrámos em Gibraltar. Reentrei na rua principal e segui-a até ao descanso do hotel. Este estava bastante quente, resultado do excesso de alcatifas e de uma possível má ventilação mas isso não me incomodou por aí além já que estava bem cansado de caminhar

França/Marrocos 2010 - dia 16 (Tânger - Gibraltar)

Tânger, vista de um barco
2010/03/19

Dia de voltar à Europa. O carro tinha ficado carregado de véspera e foi só o tempo de colocarmos as últimas coisas. Feita pela última vez a difícil manobra de tirar o carro da garagem (umas colunas muito mal colocadas obrigavam a um grande cuidado para não haver surpresas na chapa), partimos em direção ao porto de Tânger. Uma vez lá chegados e cumpridas as formalidades dirigimo-nos para o ferry-boat que nos levaria a Tarifa. Quando já estávamos encarreirados, um homem empunhando um walkie-talkie apareceu fazendo-nos sinais. O que é? O que é? Era um polícia à paisana dizendo-nos que tínhamos de voltar atrás e, para garantir que tal acontecia, entrou no carro. Tudo sem qualquer agressividade mas é claro que nos deixando apreensivos. Andadas umas centenas de metros, disse-nos para pararmos junto a um posto que havia perto da entrada para a zona de acesso aos barcos. Aí, outros dois ou três homens esperavam-nos. Saímos do carro e o meu tio perguntou o que se passava, tendo recebido a resposta de que não tínhamos parado a um sinal feito por eles. Verdade seja dita que, se o fizeram, fomos dois a não o ver. Bom, não havia o que discutir, até porque o ambiente continuava a ser sereno. Pediram-nos para abrir a mala, perguntaram-nos para onde íamos, enfim, as coisas do costume e, após poucos minutos, disseram-nos para seguirmos. Ficámos com a sensação de que tudo não tinha passado de uma forma de marcar posição (provavelmente, fizeram algum sinal muito discreto e sentiram-se desautorizados por não o vermos).

Voltámos à fila para embarque e num instante estávamos com o carro instalado na "barriga" do barco. Saímos e fomos explorar o navio. Sempre achei piada aos ferry-boat: este tinha muito bom aspeto e era confortável, tendo várias zonas diferentes por onde podíamos andar. Para quem sentisse vontade de uma rapidinha religiosa, havia uma sala com tapetes no chão onde se podia estar de rabo para o ar em conversa com o Altíssimo.

O tempo estava nublado e isso estragou um bocado a viagem porque me impediu de apreciar bem a costa de Tânger e o aspeto geral do famoso Estreito de Gibraltar. Paciência, não se pode ter tudo sempre a 100%. Isto quer dizer que o trajeto foi feito com alguma monotonia, recorrendo a pequenas deambulações como forma de distração. Ao fim de algum tempo vemos costa novamente e o barco passa por dois pilares com figuras de santos. Estávamos a chegar a Espanha. A partir daqui, o meu pensamento era todo em rumar a Gibraltar, local que, como todos os "micromundos", sempre me despertara bastante curiosidade.

A saída do barco leva bastante mais tempo do que a entrada. Isto deve-se a duas razões: sai tudo ao mesmo tempo e há controlo na fronteira. Lá secámos um bocado, andando com o carro uns metrinhos de cada vez e, quando chegou a nossa vez de passar pela polícia, lá nos mandaram parar novamente. É certo que o meu tio tem bigode, que eu estava com uma grande barba e que o carro vinha carregadíssimo mas - que raio! -, já começava a fartar. Como se não bastasse irmos ser controlados novamente, ainda tivemos de esperar um bocado porque o divertido pelo-de-arame que andava a farejar os carros procurando por droga estava presentemente ocupado com um veículo lá mais à frente. Resolveram mandar o meu tio mostrar as coisas do porta-bagagens. Lá foi tirando umas tralhas e mostrando-as aos polícias até que o cão chegou. Cheirou aqui e ali (só por fora) e, como não deu sinal, mandaram-nos arrancar. O meu tio começou a tentar arrumar as coisas um pouco melhor e começaram logo a pedir que se despachasse. Eles que esperassem, essa agora. Arrumadas as coisas como foi possível, lá arrancámos, com mais um controlo policial para o nosso currículo.

Tarifa não parece ter grande interesse e nem nós o tínhamos em nos demorarmos. Foi apenas o tempo de uma curta paragem para o meu tio ir beber um café e desanuviar a bexiga. Aproveitei para ficar ali pela praceta onde tínhamos parado, com um olho no monumento a um guerreiro e o outro no carro (que os espanhóis têm fama de ladrões). Cumprida a paragem técnica, lançámo-nos a caminho de Gibraltar.

A paisagem a caminho do território britânico não é das mais interessantes: colinas e mais colinas de tom amarelado, ocasionalmente pintadas com o branco de alguma aldeia. Ainda assim, do lado direito havia algumas vistas do mar mas que, infelizmente, estavam estragadas pelas nuvens. A certa altura achámos melhor ligar o GPS para que não houvesse enganos na rota já que começávamos a atravessar povoados maiores. Quando começámos a ver uma montanha do lado do mar passámos a ter um bom ponto de referência.

Gibraltar, vista de La Linea
O único acesso terrestre a Gibraltar faz-se através de La Linea. Esta cidade tem o aspeto que se espera de uma localidade costeira: marginal com palmeiras, marina, etc. mas não aparenta qualquer interesse que não seja o acesso ao "rochedo". Para atravessarmos a fronteira lá tivemos de enfrentar nova fila, feita em voltas. Mais uma seca apenas mitigada pela contemplação da imponente montanha. É, realmente, uma formação que domina tudo à sua volta. Chegando ao controlo, mostrámos os passaportes aos guardas espanhóis e, poucos metros depois, fizemo-lo novamente aos guardas ingleses. É no que dá as birras da espanholada. Feitas as apresentações, entrámos na antiga colónia de Sua Majestade, cheios de curiosidade em ver como é que aquilo era. Atravessámos a pista do aeroporto (sim, a estrada atravessa-a) e entrámos na cidade. Mais uma vez recorremos ao GPS para nos dirigirmos ao hotel onde eu esperava que tivesse ficado acertada a nossa estadia. Lá chegados deparámos com um pequeno edifício tipicamente britânico, decorado com aquele ar que só os hotéis mais antigos (e felizmente pouco preocupados com ambientes "lounge") têm. A alcatifa dominava tudo ali.

Fizemos o check-in tendo a boa surpresa de poder deixar o carro estacionado à porta (o estacionamento é um bocado difícil naquela terra), deixámos as coisas no quarto (é sempre giro o momento em que se abre a porta e se aprecia o espaço) e - ala que se faz tarde -, toca a passear. A primeira surpresa que tive em Gibraltar foi que os Ingleses parecem ser turistas em terra própria tal é a inundação de espanhóis que ali se sente. Praticamente não se ouve falar Inglês e, como se não fosse pena suficiente ouvir o Castelhano (na sua pior versão, a andaluza), ainda somos brindados com o "Lhanito", uma mistura ridícula de Inglês com Castelhano e que leva as pessoas a dizerem coisas como "Hola, I telephoned a ti last noche" (isto foi inventado agora mas, acreditem, a realidade difere pouco). Felizmente, se a população tem pouco de Inglês, a verdade é que tudo o que seja construído tem muito pouco de espanhol e isso é uma alegria para o turista.

Igreja católica na "Main Street"
Entrámos na rua principal (pedestre) e que está cheia de lojas de todo o tipo, claramente viradas para o "tax free". No entanto, fica o aviso: não só pode haver controlo alfandegário no lado espanhol como os preços não são nada de especial. Eu bem olhei para máquinas fotográficas e bebidas mas não consegui entusiasmar-me. Talvez noutros tempos valesse a pena...

Após algumas voltas (e muitas fotografias), aportámos a um típico pub britânico para almoçarmos. Mandei vir um strogonoff com pimenta e batatas fritas (bem servido) e, para molhar a gargantela, uma cidra. Eu julgava que estava a pedir cerveja (as perguntas da empregada confundiram-me) mas não perdi muito com a confusão. Acabado o almoço (que soube bem pela comida, pelo descanso e pela oportunidade de organizar o passeio), voltámos atrás pela rua principal, rumo ao palácio do governador. Junto a este, estava a terminar uma pequena cerimónia militar (mudança da guarda?), tipicamente britânica: três ou quatro militares vestidos a rigor, um ou dois de camuflado olhando aquilo e... mais nada. Os turistas gostam, claro.

Seguimos em frente, com a ideia de ir apanhar o teleférico para subir à montanha e, quando lá chegamos e eu começo a ver os preços da subida, surge-me um guia tentando convencer-me a ir numa excursão à montanha e que até estava quase a partir. A oferta não parecia má: vinte e cinco euros por uma volta de hora e meia na montanha, ida a diversos sítios e entrada em duas ou três atrações fundamentais (em Gibraltar, paga-se para se andar na montanha). Acedemos e embarcámos numa daquelas carrinhas para nove pessoas, eu indo sentado ao lado do condutor/guia. Os outros passageiros eram um casal de velhotes americanos e uns hispânicos indeterminados. O guia alternava o Inglês e o Castelhano com a maior das facilidades (aliás, toda a gente ali o faz e, a certa altura, nem se percebe quem é inglês e quem é espanhol).

(continua)

quinta-feira, 18 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 15 (Tânger)

Vendedor de caracóis.
(repare-se no pormenor do lavatório...)
2010/03/18

Último dia em Tânger.

Fomos tomar o pequeno almoço ao Kadinsky, um café cosmopolita na avenida marginal da cidade. Durante o curto repasto, tivemos a companhia de um simpático gato que andava às sobras e que, mesmo expulso pelos empregados, encontrava sempre uma nesga por onde voltar a entrar. :)

Partimos dali e fomos deixar o carro junto à entrada do porto que fica numa grande praça e que, na sua simplicidade, é bem engraçada. Trata-se de um daqueles espaços amplos, com edifícios portuários de um lado, casas antigas do outro e, no meio, uma alameda com palmeiras. Acaba por ficar pertinho do forte que visitáramos no dia anterior.

Subimos por umas escadinhas junto dos prédios antigos, edifícios de estilo incerto mas que, como conjunto funcionam bem, e acabámos num pátio onde, a um canto, estava um painel com as armas da Espanha franquista. Era, claramente, uma espécie de miradouro onde, antigamente, talvez tivesse havido uma esplanada. A vista sobre toda aquela praça, sem deslumbrar, era boa e ainda melhor foi a visão de uma bela marroquina de formas particularmente sensuais e anca bamboleante que passou por mim. Imerso que estava naquela bonita visão - a qual acompanhei enquanto pude -, até esqueci esse dever fundamental entre machos que é o alertar quem nos acompanha com um "olha aquela gaja tão boa!". Fiquei com ela só para mim...

Subimos pela Rua de Portugal com a expetativa de ir visitar a Delegação Americana que ficaria algures por ali. Esta "Delegação" é um edifício propriedade dos EUA onde funcionam serviços diplomáticos. Trata-se de outro ponto turístico da cidade que também "apresentei" ao meu tio. Andámos às voltas pelas ruelas da Medina até que finalmente demos com o sítio (estávamos mal orientados, diga-se). Vimos uma porta de metal abrir-se e duas pessoas entrarem, olhámos, e o porteiro fez-nos sinal para também entrarmos: era ali.

Pátio da Delegação Americana
A "Delegação Americana", tal como o Café Paris, é um daqueles espaços com "ambiente". Bem sei que insisto no termo mas é mesmo o que consegue dar melhor ideia da coisa (apesar de vago). O edifício é secular e está decorado da forma que imaginaríamos uma "embaixada": com um misto de coisas locais e referências ao país proprietário. Há pinturas, tapetes, lareiras... Por todo o lado se sente aquela calma que nos faz imaginar sentarmo-nos num cadeirão, acender um cachimbo e iniciar uma conversa sobre política... A visita é gratuita e embora haja vigilantes, pode-se andar à vontade pelo espaço, quase como se estivéssemos em casa. A certa altura, passa por mim um indivíduo alto, de cabelos brancos e uns papéis na mão, o que me fez entender que o edifício, apesar da quase ausência de movimento, ainda deve ter utilização diplomática.

Deixando os aposentos mais "íntimos" da Delegação, podemos aceder aos pátios e a umas salinhas onde estão expostos uns diaporamas relativos a batalhas ocorridas em Marrocos. Num deles está representada a batalha de Alcácer Quibir. Eu e o meu tio bem tentámos perceber onde raio estava o D. Sebastião mas, no meio de tantos bonecos de camelos, árabes e portugueses (mortos e vivos), também nós não encontrámos o Desejado. Sacana da criatura que gosta mesmo de não aparecer...

Descemos até ao pátio inferior e passámos junto a uma sala onde funcionava uma espécie de aula para mulheres. Pareceu-me ser uma daquelas coisas do tipo de "ação comunitária". Saímos da Delegação Americana contentes por lá termos ido. É, realmente, um espaço acolhedor, incrustrado na cidade velha mas tão diferente da mesma.

Agora, era tempo de irmos à procura da Sinagoga. Andámos por aquelas ruelas tristes, para a frente e para trás mas, da sinagoga, nem sinal. Acabámos por desistir e fizémos o caminho de volta para o porto, com a intenção de ir comprar os bilhetes para o regresso à Europa.

Praça defronte do porto
Para comprarmos os bilhetes tivemos de entrar mesmo na zona "funcional" do porto o que, para mim, sempre tem graça porque gosto de todo aquele vai e vem de veículos, gente e navios. Chegados à bilheteira, fomos surpreendidos pela insistência do vendedor marroquino em responder em Castelhano ao nosso bom Francês. Há coisas que deixam um tipo sem jeito..

Com tudo isto, era hora de almoçar. O meu tio, sempre conhecedor destas coisas de comes e bebes, resolveu que iríamos comer uma "tajine" (prato típico) ao restaurante de uma estação de serviço (em tudo parecida com as que temos cá nas autoestradas). Acho que já o escrevi neste blog: a comida marroquina foi a minha única desilusão com aquele país. Se não fosse uma agradável sobremesa de tarte com creme de limão (nada típica), tinha ficado esfomeado.

Voltámos ao centro de Tânger, parando para reabastecer numa bomba (sim, bem sei, tínhamos vindo de uma...). A dita ficava junto a uma rotunda movimentadíssima onde era preciso suster a respiração para circular. Enquanto esperava que o carro ficasse pronto, diverti-me "descodificando" alguns carateres árabes, comparando o logotipo da gasolineira com a sua versão europeia (era a Total).

Voltámos a casa para descansar mas, antes, demos uma volta grande por zonas recentes, mas feias, da cidade. Trata-se daqueles bairros mais populares, desordenados, uma espécie de versão pior dos bairros sociais que vemos, por exemplo, no Algarve.

Chegados à base, aproveitei a tarde para pesquisar sobre o que ver em Gibraltar (de onde continuava sem confirmação da reserva feita no dia anterior). À noite, carregámos o carro com toda a tralha que viria para Lisboa. No fundo, acabava aqui a minha visita a Marrocos.

quarta-feira, 17 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 14 (Tânger)

Entrada da medina
2010/03/17

Finalmente, chegou o dia de ir conhecer Tânger, a famosa cidade que oferecemos aos Ingleses como parte do dote de Catarina de Bragança, no já distante Séc. XVII. Fomos de carro até perto da entrada da Medina, deixando-o junto a uma praça redonda onde, como não podia deixar de ser, lá largamos a inevitável moedinha para um arrumador.

Entrámos na zona antiga - àquela hora ainda com pouco movimento -, e descemos a rua até chegarmos a uma zona um pouco mais larga onde aproveitámos para tomar qualquer coisa numa esplanada de um café de renome no local. Estivemos pouco tempo ali, até porque a contemplação dos transeuntes oferecia pouco interesse. Seguimos para baixo até chegarmos aos restos de um forte português, já pertinho do mar. Segundo o meu tio, a zona costumava ser frequentada pelo "pessoal da ganza" mas, tão cedo, não havia vivalma por ali. Explorámos o sítio, subindo e descendo pelas rampas, entrando nas guaritas e apreciando dois grandes canhões de artilharia costeira que para ali estão abandonados desde, imagino, a 2ª Guerra Mundial. Tudo aquilo está ao deus dará e, francamente, como ponto turístico tem pouco interesse.

Andámos pelas ruas que começavam a ganhar vida ao mesmo tempo que o sol começava a carregar na minha cabeça (chapéu, para que te quero). As ruas de Tânger são uma mistura de prédios de traça tradicional e de muita influência do tempo do protetorado espanhol. A fama romântica que Tânger tem só poderá ser compreendida à luz de outros tempos em que a população da cidade era uma enorme mistura de gentes locais e estrangeiros de muitas proveniências. Hoje, esse caldinho cultural parece ter desaparecido e o que fica são ruas velhas habitadas por gente de ar mais ou menos pobre. Há que descer do nosso padrão habitual de exigência para poder apreciar a graça decadente de toda aquela paisagem urbana.

Sempre que alguém tentava meter conversa - fosse numa loja ou tentando vender algo -, a cena era a mesma: "Espanhóis? Não? Ah, Portugueses...". E lá se seguiam umas palavras em Castelhano... Aqui e ali, um tipo mais cosmopolita sabia uns termos portugueses.

Reentrámos no coração da Medina, apontando à rua das lojas habitualmente frequentadas pelo meu tio em busca de recordações. Entramos num estabelecimento de artesanato, repleto de todas aquelas pequenas coisas que gostamos de comprar: candeeiros, quadros, bonecos,lamparinas... tudo coisas engraçadas e que apetece trazer às dúzias. Escolho um pequeno objeto para oferecer e segue-se a negociação do preço. Julgo já aqui ter dito que o regateio foi uma agradável supresa relativamente à ideia que eu levava quando viajei para Marrocos. Talvez por influência dos turistas, a discussão dos preços torna-se uma coisa bastante calma, em tudo diferente da quase "guerra" que nos é apresentada em filmes. Pergunta-se o valor. Pedem-nos X, fazemos de conta que pensamos, perguntamos se não nos fazem por Y, eles diminuem, nós contrapomos com Y+Z e lá se chega a uma conclusão. A meia voz, o meu tio ia-me aconselhando. No fim, tentou incluir na compra uns bonecos mas o vendedor escusou-se simpaticamente a aceitar a proposta e lá saímos apenas com as minhas compras.

De seguida, fomos a uma loja de cabedais, daquelas que tanto vende casacos elegantíssimos, como imitações de malas de marca. O vendedor - daqueles árabes brancos, de bigodinho bem tratado -, já conhecedor do meu tio cumprimentou-nos com alguma familiaridade. Escolhido o artigo, começou uma nova discussão de preço, na qual o meu tio incluia não só aquele artigo como também a encomenda de outro. Que não, que sim, que não, que sim e lá se trouxe o pretendido por um bom valor. Muitos sorrisos e até à vista e saímos. A coisa acaba por até ter graça.

Um dos pontos habitualmente indicados como sendo de interesse em Tânger é o Teatro Cervantes, uma sala de espetáculos deixada pelos espanhóis e que se tem degradado a grande velocidade, a ponto de eu ter encontrado o edifício em estado muito pior do que aquele mostrado na fotografia do guia da American Express. Naquele momento, nem sequer dava para "tocar" nas paredes porque o teatro já estava isolado por uma barreira de tapumes. Senti pena porque, não sendo propriamente uma grande obra, tem aquela graça exótica das construções que misturam estilos e, ali, mais do que uma obra de arquitetura, é, também, um testemunho da História. Voltei para trás desiludido.

Antes de sair da Medina, atravessámos o mercado para ver os produtos à venda. Estou a falar de um mercado na aceção moderna da coisa - um edifício -, e não propriamente de tendinhas na rua. Logo à entrada, é um festival de azeitonas: várias bancas/lojas repletas de cestas com todo o tipo de azeitonas que se possa imaginar. E, como se isso ainda não fosse suficiente, ainda fazem misturas, conferindo àquela passagem um colorido particularmente castiço. Depois..., bom, depois era o que se esperava: carnes, peixe, bivalves, fruta... nada que fugisse ao comum dos mercados por cá.

Rumámos ao carro, demos umas voltas e fomos até à zona moderna da cidade onde fomos comer a um restaurante conhecido pelo bom peixe. Ficámos na esplanada, convenientemente protegidos do sol. O local era frequentado por europeus e marroquinos "de boa pinta" e em nada diferia do comum restaurante português. Já não me lembro do que comi mas ainda persiste a memória de que me apetecia muito uma cerveja e lá tive de beber Coca-Cola...

Depois do repasto, fomos até casa para descansar um pouco.

Voltámos à zona antiga, deixando o carro perto da entrada do porto e iniciámos mais um passeio. Subimos, subimos, aqui e ali explorando ruas transversais, até chegarmos a uma zona cujos edifícios serão, muito provavelmente, das décadas de 40 ou 50. É uma zona agradável, de ruas mais largas, com algumas moradias (ou prédios mais baixos) e que podia, perfeitamente, ser europeia. Ali junto há uma esplanada (no sentido urbano e não comercial) onde está um conjunto de canhões antigos virados para o mar. Entre eles estão, pelo menos, dois portugueses. É escusado dizer que são os mais bonitos.

Café Paris
Demos mais uma volta e fomos até ao Café Paris. Este sítio é um dos ex-libris da cidade, indicado em todos os guias, não só pelo ambiente em si mesmo mas também porque constituia um daqueles pontos de encontro "à antiga", repleto de histórias de espiões e de estrangeiros que demandavam aquelas paragens. O meu tio, ao fim de alguns meses em Tânger, ainda não tinha lá ido e foi por insistência minha que procurámos o local. Mal entrei, senti logo o seu encanto. Todo o espaço tem, ainda, o ar original: os espelhos, as cadeiras, a decoração... São décadas que voltamos atrás quando nos sentamos ali e mandamos vir algo. Não se trata de um sítio que salte à vista - atenção -, mas sim de um espaço com "ambiente". Não visitei o primeiro andar mas reparei que junto à escadas havia uma espécie de fonte em estilo andaluz e que ainda acrescentava mais graça ao todo. Enquanto bebia o meu chá de menta (oh, maravilha!)
tentei imaginar o vai e vem de gente que ali teria havido e as resmas de livros que dariam para ser escritos com as histórias e conspirações que naquele café terão tido lugar.

Depois desta experiência "retro" foi tempo de voltar para casa. Uma vez lá, tratei de reservar, pela internet, um quarto em Gibraltar, onde ficaríamos após a travessia. A coisa não correu a 100% e fiquei sem saber se teríamos onde dormir uma vez chegados a terras de Sua Majestade. A preocupação despareceu com a chegada do jantar à mesa: febras acompanhadas de cerveja Casablanca...

terça-feira, 16 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 13 (Tânger - Tetuan - Chefchaouen - Tânger) - parte 2

Centro de Tetuan,
Património da Humanidade
2010/03/16

Saímos do centro da cidade e procurámos a estrada para Chefchaouen, a vila pintada de azul nas montanhas. Parámos para perguntar a direção a um polícia de bigode, rechonchudo e simpático que lá nos apontou o caminho certo.

Quase à saída da cidade, vendo-se na necessidade de meter gasolina, o meu tio resolveu fazer uma inversão de marcha num sítio onde semelhante manobra era proíbida. Fê-lo no lugar e na altura errados já que estavam uns polícias a cerca de duzentos metros dali, e precisamente na nova direção por nós tomada. É claro que nos mandaram parar...

De onde éramos?, perguntou o polícia que nos abordou. De Espanha? Por amor de Deus!, respondeu o meu tio ao mesmo tempo que o Carlos Guilherme começava a cantar o "Granada" no leitor de CD's do carro - :). Algumas perguntas e reparos depois, o meu tio lá apertou a mão ao polícia, colocando-lhe na mão uma nota de 50 Dirhams. Sorrisos e desejos de boa viagem e lá fomos à bomba de gasolina no sítio que o polícia indicou.

À volta - pelo mesmo caminho -, os mesmos polícias mandaram-nos parar: sorriram e voltaram a desejar-nos boa viagem.

Saídos de Tetuan, entrámos no campo. Estradas em montes e montanhas, num interior verde e pouco povoado. A certa altura, mais uma barragem policial e uma ordem para abrandar. Olharam e mandaram seguir...

Finalmente, após algum tempo de agradável passeio, chegámos a Chefchaouen, uma encantadora vila cujas casas - e ruas -, são parcialmente pintadas de um azul quase elétrico, mais uma vez relembrando algumas cenas do nosso próprio país (ao sul).

Deixámos o carro na zona inicial, ainda sem graça, numa rua anónima e atravessámos uma rua e uma praça com movimento. Vê-se muita gente mais nova com aquele ar de quem anda a ver se se desenrasca. A isso não será alheio o facto de estarmos na zona do haxixe onde muitos europeus vinham para se abastecer. Ainda assim, ninguém incomodou e em momento algum houve qualquer situação minimamente desagradável.

Entrámos, finalmente, na zona típica, feita de ruas e ruelas muito limpas, com casas brancas às quais são aplicados contrastes de azul e, por vezes, laranja. Uma beleza que nos faz sentir vontade de andar por ali... ao Deus dará. A sensação de familiaridade que senti várias vezes em Marrocos voltou a manifestar-se aqui. Vêem-se vários ateliês de artistas, albergues para turistas e negócios locais sempre com muito colorido. Uma ou outra vez, alguém passava e deixava soltar um quase impercetível "haxe?" que nem chegava para causar embaraço.

Ao fim de muitas voltas, desembocámos na praça principal, para a qual dá o castelo da localidade. Antes, entrámos num pátio partilhado por vários comerciantes de artesanato (as recordações para os turistas) e onde se viam coisas muito giras.

Lojas em Chefchaouen
Chefchaouen é um daqueles sítios onde apetece fazer muitas compras: uma mantinha, um candeeiro, um espelho, um quadro, etc. Eu, fiquei interessado em duas coisas simples: umas "janelas" de madeira, pequeninas e pintadas com motivos marroquinos e que, ao abrirem-se, mostravam um pequeno espelho. Iniciei o regateio:

Eu: quanto é?
Vendedor: 80.
Eu: Não, é muito. Dou 20
Vendedor: 20? Um bocadinho mais...
Eu: 30.
Vendedor: Só 30? Um bocadinho mais, por favor...
Eu: 35
Vendedor: Está bem

Como se vê, e ao contrário dos mitos com que somos bombardeados, esta coisa do regateio acaba por ser bastante serena...

O meu tio ainda tentou meter no "pacote" umas coisas mas não conseguiu levar a negociação a bom porto. "É duro..." disse-me o vendedor, referindo-se à inamobilidade negocial do meu companheiro de viagem que aproveitou para saber o porquê de alguma polícia por ali. "O rei vem visitar-nos", respondeu o vendedor, aproveitando para se queixar de que, no dia seguinte, todo o comércio teria de fechar por razões de segurança. Pobre gente: não éramos só nós que andávamos a ser perseguidos pelo monarca...

Despedimo-nos com cordialidade e, contente com as compras, dei ainda mais uma volta por aquela pátio, onde, a um canto, uma gata dava de mamar a uma ninhada de gatinhos (havia muitos por lá, naquela altura). As prendas e aquela imagem ternurenta dispuseram-me bem para a continuação da visita a Chefchaouen.

Alguns metros à frente, já na praça principal e ao fazer tenção de entrar no castelo, fomos informados de que estava fechado (já sabem por culpa de quem...). Circundámos o edifício enquanto o meu tio me ia fazendo inveja contando o que lá tinha visto numa ocasião anterior. A certa altura, damos com um vendedor de tapetes, na rua, rezando em voz alta sobre um... tapete. O quadro era absolutamente pitoresco. Passámos pelo homem e reentrámos na praça, aproveitando para nos sentarmos numa das várias esplanadas/restaurantes do local, para descansar um pouco.

Um empregado chega e, antes mesmo de dizermos alguma coisa, pergunta: "Bica?". O meu tio, surpreendido, confirma, enquanto que eu mando vir um Sprite, na expetativa de me refrescar. Ao trazer as bebidas, o mesmo empregado, com um tom muito sério, acompanhou a entrega das coisas com um "Pão, pão, queijo, queijo" o que só não me fez desatar a rir por receio de o ofender. Despediu-se com um "Obrigado".

Deixámo-nos ficar mais alguns minutos por ali, obervando o movimento. Finalmente, resolvemos voltar ao carro e passar por uma ruela onde se acumulavam lojecas de rua, vendendo roupa. Parei para comprar uma camisola para um colega. O vendedor, um tipo novo, com ar de mitra, a certa altura da "negociação", e sem provavelmente fazer qualquer ideia do que dizia, largou um "foda-se, tá bem" com o qual me entregou a camisola. Como sempre, o meu tio tentou fazer conversa e a coisa acabou por ir parar ao futebol, o que não o deve ter deixado satisfeito já que o mitra conhecia era o Porto. (novamente, o Benfica mostrou ser um desconhecido por estas paragens).

Saíndo de Chefchaouen, voltámos a fazer a estrada para Tetuan, repetindo a bonita paisagem, agora alterada por algumas nuvens de fim de tarde. Pelo caminho, várias "barracas" (mais ou menos grandes), vendiam artesanato à beira da estrada. Sempre aquela familiaridade...

Ao chegar a Tetuan, e por incrível que pareça, voltámos a ser parados pelos nossos "amigos" polícias que, desta feita, só nos queriam cumprimentar. Rimo-nos com a situação.

De volta a Tânger, tomámos uma estrada mais moderna e rápida - praticamente uma autoestrada -, que nos levou a "casa" em muito menos tempo do que aquele necessário à vinda.

Chegámos a Tânger com a noite a cair, prazenteiramente cansados do que foi um bom passeio em que vi tanta coisa que, sendo nova, sempre me pareceu uma espécie de "casa". O norte de Marrocos é assim: não nos sentimos estranhos. E eu também não me fiz estranho quando se tratou de me atirar para a cama...

França/Marrocos 2010 - dia 13 (Tânger - Tetuan - Chefchaouen - Tânger)

2010/03/16

Plano do dia: ida a Tetuan e Chefchaouen.

Saímos de manhãzinha, rumo ao norte, passando pela moderna marginal de Tânger. Abrandamos junto ao que teria sido um parque de campismo para observar uma coluna de camelos "turísticos" passando. Não me refiro a turistas, entenda-se, mas sim a uma pequena cáfila que ali costuma andar para gáudio de quem queira experimentar a sensação de montar uma enorme marreca. Continuando a viagem em ritmo mais acelerado chegamos, um pouco depois da saída da cidade, ao cabo Martil, para termos uma vista panorâmica da cidade velha, lá ao longe. A vista é bonita sem no entanto deslumbrar. Ao fim de poucos minutos e por causa do muito vento, voltamos ao carro com alívio. Arrancamos e passamos por um castelo construído a pouca distância da estrada, sobranceiro à costa e que é, na realidade, falso, já que se trata de um capricho de alguém que tinha, obviamente, dinheiro e mau gosto em quantidades apreciáveis. Digo isto não porque o edifício seja feio (é um castelo...) mas sim porque se trata de uma saloíce, esta coisa de recriar fortalezas fora da sua época. No Algarve também há uma e vê-se a partir da Via do Infante (infelizmente).

A costa marroquina é toda ela em estilo mediterrânico, sem ter propriamente pontos que se destaquem, e apenas a novidade me impediu de cair no enfado. A certa altura, a estrada desceu até quase ao nível do mar, num desvio para dar uma vista de olhos a Alcácer Seguer e aos restos da fortificação portuguesa ali existente. Esta está praticamente na praia e um pouco escondida por uma sinstalações nas quais não pudemos entrar. Talvez dando a volta e molhando os pés ou pedindo um favor a alguém que tomasse conta do que me pareceu ser uma espécie de parque de campismo. Mas não estava lá ninguém... Como ali não havia muito mais a fazer do que espreitar, retomámos a estrada que, a partir deste ponto, se tornou mais interessante. O caminho começou a ser mais sinuoso e a ganhar altitude e a paisagem tornou-se mais majestosa. Sempre em tom esverdeado (por causa da erva e dos arbustos) e com a cor avivada por chuva que tinha caído, as encostas sucediam-se agradavelmente. Para dar alguma excitação à viagem, começaram a surgir grandes falhas na estrada que, em alguns casos, tinha visto ser-lhe comido metade do piso pela chuva já referida. Por vezes, os nossos pneus esquerdos rasavam a parte abatida e cada vez que passávamos por um destes pontos perguntávamo-nos se ainda acabaríamos levados por uma derrocada. Mas, apesar do grande perigo, tudo correu bem e a verdade é que não vimos nenhum acidente.

Chegámos a uma zona próxima da fonteira com o território de Ceuta (que começa bem antes da cidade) e fizemos o desvio. Chegados ao local, bem junto do mar, damos com terrenos cheios de automóveis (sobretudo Mercedes velhos - muito populares em Marrocos) e filas de carros alinhados para passar na fronteira. Mal parámos, imediatamente veio ter connosco um homem oferecendo os seus préstimos para preencher os papéis para a alfândega. Esta gente parece fazer ali bastante negócio e, provavelmente, presta um serviço útil a quem não tem à vontade com a burocracia fronteiriça. O tempo estava a ficar bastante cinzento e ameaçar borrasca e o mar, escuro, fazia ondas algo violentas que começavam a salpicar quem estava em terra pelo que tratámos de nos irmos embora dali. Um último olhar para a feia vista de Ceuta e ala que se faz tarde.

A partir da fronteira com Ceuta, o caminho foi junto à costa e urbano. Daquele ponto em frente começa uma infindável sucessão de aldeamentos turísticos, servidos por uma boa estrada. O aspeto faz lembrar um pouco algumas zonas do Algarve (as mais arranjadinhas) e facilmente nos imaginamos passando umas férias de papo para o ar em qualquer um daqueles apartamentos/casas. Desconhecendo eu a zona e ainda trazendo comigo algum do preconceito com que abordei o país, não pude deixar de ficar surpreendido com o que vi, parecendo haver, até, algum exagero nos cuidados postos na manutenção dos locais (mais uma vez, vi gente a varrer o pó dos passeios).

Uns quilómetros à frente, avistei de relance o que parecia ser as ruínas de uma igreja a alguma distância da estrada (que, nesse ponto, só tinha urbanizações do lado do mar, sendo o outro de campo). O meu tio prontamente parou o carro junto a uma má estrada de terra - recusando-se, por preguiça e cuidado, a seguir-me -, e eu fiz-me ao caminho que não tinha mais do que poucas centenas de metros. Aquilo que, ao longe, parecia ser uma igreja, teria sido, aparentemente, o edifício principal de uma "fazenda" na qual entrei passando por um portão que até incluia uma cabina para guarda. O enorme espaço estava abandonado e completamente entregue à decadência. Antes de chegar à "igreja", reparei numa zona que teria sido um conjunto de pátios para descanso, cobertos com barrotes de madeira (provavelmente para serem ligados com videiras). Depois, o edifício principal que era composto por duas "torres", corpo central e que tinha um tamanho bastante apreciável. Ainda era possível entrar no átrio e ver as escadas que dele saíam. Não se via vivalma, nem um bicho. Começou a pingar e apressei o meu regresso, saindo daquele espaço perdido no tempo com a pena de não poder passar ali muito mais tempo.

Finalmente chegámos a Tetuan. Esta movimentada cidade, cujo núcleo composto por edifícios civis espanhóis é património da humanidade, atraiu-me logo. A estrada de entrada era ladeada por prédios comuns mas, à direita, via-se um mar de casas típicas subindo um monte e tendo, no meio delas, uma pequena muralha do que em tempos terá sido um fortim. Havia ali aquele ar exótico que nos faz pensar em ruelas estreitas e buliçosas.

Antes de entrarmos na baixa da cidade, fizemos um desvio para ir almoçar. Comemos num cuidado restaurante de uma bomba de gasolina, sentados em cadeirões de palhinha. Como julgo já ter escrito antes, a comida marroquina é bastante desinteressante e vimo-nos a comer - uma vez mais -, frango assado acompanhado de Coca-Cola. A refeição foi barata e serviu para descansar, ao menos. De barriga reconfortada voltámos atrás e penetrámos na movimentada baixa de Tetuan. Ainda mal tínhamos chegado a uma das ruas principais, já um homem corpulento, de fato, com um cartão ao pescoço, queria ser nosso guia. Não foi o único porque outro se lhe juntou. As duas chagas acompanharam-nos correndo ao lado do carro (quais seguranças de VIP's) até dentro do grande parque de estacionamento (pago) que há no centro. E se o segundo "guia" desistiu facilmente, o primeiro (o do cartão) levou mais tempo a ir-se embora: que era guia oficial, que era bom, que nos mostrava as coisa... Foi preciso o meu tio dizer uma dúzia de vezes que já conhecia a zona e que morava em Marrocos para ele desistir. Enquanto esta conversa durava, eu ia contemplando o casario que se empilhava nas traseiras do parque (que é ao ar livre) sabendo no entanto que não iríamos lá.

Livres do "guia", fizemo-nos às ruas cheias de gente. É uma zona agradável, com quarteirões cheios de comércio e com um ar decadente q.b., ou seja, misturando um ar velho e sujo com a beleza dos edifícios dos tempos do Protetorado espanhol. Estes, embora sejam, efetivamente bonitos, não me pareceram merecer a classificação que têm. É certo que há o efeito do conjunto mas, mesmo assim... Um dos prédios maiores (antigo cinema?) alberga o centro cultural espanhol, coisa que se vê em várias terras em Marrocos e sempre em lugar de destaque. Começámos a notar gradeamentos nalgumas ruas nas quais não se podia circular de carro. Estranhámos mas fomos andando. A certa altura, já nem as pessoas podiam andar na estrada. Ao chegarmos à bonita praça principal, onde se encontra um palácio real (o país está cheio deles), fiz menção de tirar uma fotografia ao local. Imediatamente um polícia me faz (educadamente) sinal de que não o podia fazer. Porquê?, perguntámo-nos mutuamente eu e o meu tio. Bem... parecia que o nosso amigo, o Rei, também ia dar um pulinho a Tetuan e, por isso, voltava a causar-nos incómodos na nossa tarefa de "turistar". Chateados mas rindo-nos da situação, virámos o nosso interesse para o comércio local, feito de lojinhas em arcadas. Numa delas, resolvi comprar uma "djellaba", a roupa que uma grande parte dos homens veste e que é, basicamente, composta por uma só peça que se veste como um vestido e que tem um grande capuz em bico e que é usado precisamente de forma a realçar esse aspeto, conferindo às pessoas um ar de quem saiu do Senhor dos Anéis ou coisa parecida. Optei por um modelo em preto, feito de um tecido parecido com Polartec (uma djellaba moderna, portanto) na pespetiva de a usar no inverno, como roupa de andar por casa.

Embrenhámo-nos nas ruas, passando por algumas bem estreitas e das quais emanavam outras de igual largura. Finalmente, avistámos ao fundo uma praça redonda, larga, com palmeiras, uma igreja e prédios elegantes. Apontámos nessa direção. Pelo caminho, mais um ou dois cromos tentando ser guias mas que foram rapidamente despachados pelo meu irrepreensível "laa" ("não", em Árabe, e que se diz como o nosso "lá"). Um mais insistente e que queria conversa tentou adivinhar a nossa nacionalidade, o que conseguiu num ápice: "Portugueses? Temos muitos amigos lá. Somos todos antiespanhóis aqui.". Não pude deixar de sentir uma enorme familiaridade com os sentimentos do simpático marroquino...

Dada uma vista de olhos à praça, voltámos ao parque de estacionamento usando um caminho diferente e que nos permitiu ver mais alguns relances da cidade. O próximo destino seria Chefchaouen, a vila azul nas montanhas.

(continua)

segunda-feira, 15 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 12 (Tânger - Cabo Spartel - Arzila - Larache - Tânger) - parte 2

2010/03/15

De Arzila até Larache, o tipo de paisagem não varia muito em relação ao que tinha sido até ali. Ocasionalmente, junto ao caminho, há rapazes vendendo fruta: morangos e amendoins sobretudo. O apetite por umas boas alcagoitas começou a aparecer e, após uma paragem num areal para ver o mar, resolvemos que eram coisa que caía muito bem na viagem. Assim sendo, o próximo vendedor de amendoins foi contemplado com o nosso interesse comercial.

Mal parámos o carro, veio logo a correr o moço que estava mais perto mostrando-nos um saco de tamanho razoável. "Quanto?", perguntou o meu tio? (aqui, começa a arte do regateio). "X", responde o vendedor. "É muito. Dou metade de X". Que não, que não..."Então, paciência", e arranca, para parar a cinquenta metros dali, junto a outra banca. O novo contemplado imediatamente aceita o nosso preço e vai buscar um saco. Ao voltar, noto que os amendois são mais pequenos do que os que se viam da estrada. "Ná, esses não quero", diz o meu tio e lá foi o rapaz buscar uns de tamanho adequado. Finalmente, temos um saco de amendoins por tuta e meia e retomamos o caminho enquanto mordiscamos alguns.

Imediatamente antes de chegar a Larache, mesmo junto à estrada, na base de uma colina, vêem-se umas ruínas. Fazem parte de um conjunto (a cidade de Lixus) que é património da humanidade e que se espalha pela elevação. Como não fazia parte do nosso plano, abrandámos para medir o interesse. Mal o fizemos, imediatamente se levantou de uma pedra um "guarda" para vir ter connosco. O que vinha a seguir já se sabia: indicar-nos-ia as ruínas, oferecer-se-ia para guardar o carro e estenderia a mão para a fatal gorjeta. Antes que ele chegasse até nós já tínhamos decidido não parar e ir logo para Larache. Não se pode ver tudo...

Larache é mais uma pequena cidade costeira onde ainda se nota bastante a influência espanhola (esta zona fazia parte do protetorado que ainda existia a meio do Séc. XX). Subimos a estrada que circunda a cidade pelo lado do mar e que passa do lado de fora das muralhas do antigo forte. Como andámos à procura de sítio onde parar, demos connosco em bairros feios e degradados, e que começavam logo junto a um bonito miradouro. A certa altura, numa das ruas, um burro circulava sozinho no meio da estrada, para espanto de muitos e diversão de ainda mais, atrasando o trânsito mas mantendo toda a calma de quem apenas andava a dar uma voltinha. Conseguimos voltar à zona mais desafogada e acabámos por deixar o carro junto ao centro, na rua. Nem ali nos escapámos ao pedincha. "Quando voltarmos", disse o meu tio.

Entrámos na zona da medina, com os olhos postos num belo edifício de estilo misto que já tínhamos avistado a partir da estrada de acesso. O local, estando descuidado, não deixava de ser bonito e de proporcionar uma bela vista sobre a zona em redor da cidade. Atravessada uma muralha, já estávamos no coração da zona histórica. Uma mesquita, as ruelas brancas, os populares passando... Tudo muito calmo, sereno até.

Descendo um pouco pelo que nos pareceu ser a artéria principal, fomos dar a uma praceta onde, a um dos cantos, havia a entrada para o que terá sido um quartel já que ainda havia umas guaritas de pedra, à entrada. Tudo aquilo era, agora, zona de habitação. As mulheres que se viam tinham um ar mais tradicional e, a certa altura, avistei uma mulher completamente tapada. Tentando não dar nas vistas, como quem tira uma fotografia ao espaço em geral, lá apontei a máquina à avantesma mas, no último momento, e estando ainda a uma certa distância, esse instinto que as mulheres têm alertou-a e a criatura virou-se. Desviei o meu interesse para um velho castiço sentando à porta de uma loja e aí tive melhor sorte conseguindo uma fotografia gira.

Medina
Continuámos ao deus dará pelas ruas e fomos ter a uma praça ladeada por arcadas sob as quais havia estabelecimentos comerciais. No meio, alinhavam-se vendedores de tralhas (aquilo era uma espécie de Feira da Ladra). O espaço tinha o encanto que se espera nos mercados de rua. A saída da praça ia dar à praça principal da cidade: um semicirculo de grandes arcadas com casas de pasto. No meio, árvores e bancos de jardim. Andámos à procura de uma espécie de fonte em estilo andaluz e que aparecia no meu guia turístico mas disseram-nos que tinha sido retirada. Toda aquela zona nos fazia lembrar as típicas localidades da Andaluzia, com a diferença de que a espanholada havia sido substituída por marroquinos.

Resolvemos almoçar. Demos umas voltas por ali mas nada nos estava a apelar. Um empregado de uma esplanada aconselhou-nos uma zona onde talvez houvesse alguma coisa mais a nosso contento (ali era mais cafés). Finalmente, após várias voltas, entrámos numa tasquinha modesta onde fomos simpaticamente atendidos. Comemos uma entrada feita de grão com uma qualquer especiaria de cor amarela, boas azeitonas e, para prato principal: tajine. O único senão foi a ausência de uma boa cervejola que teve de ser substituída por Coca-Cola. Por mim, eu perguntaria sempre se serviam "louras" mas o meu tio parecia achar isso algo de melindroso (o que sempre achei um exagero da sua parte). A tajine é uma espécie de guisado feito num recipiente composto por duas peças de barro: um prato e um cone. Francamente, não foi coisa que me motivasse minimamente. Aliás, achei a cozinha marroquina uma desilusão.

Após o almoço, demos uma voltinha pelas ruas mais próximas aproveitando para espreitar o simples e simpático exterior de uma igreja existente na rua principal. Voltando para o carro, conseguimos escapulirmo-nos sem ter de largar a moedinha da praxe. Serviu para nos divertirmos...

Place de la Libération
À saída de Larache, o meu tio resolveu comprar morangos à beira da estrada. Desta feita, a negociação foi bastante curta e imediatamente tomámos a estrada para Tânger onde, ao chegar, apanhámos com muita gente na beira da estrada e ainda mais polícia do que o habitual. Junto a uma pequena rotunda (profusamente enfeitada com bandeiras), acumulavam-se umas dezenas de pessoas com fotografias do rei, em tudo fazendo lembrar "fans" arregimentados. Rimo-nos com a situação - que o meu tio assegurou ser costumeira, por ali.

A tarde estava a chegar ao fim e fomos ao hipermercado. Lá dentro, para além de alguma comida, abastecemo-nos com cerveja e eu aproveitei para comprar algumas garrafinhas de licores típicos para dar como prenda. A zona das bebidas alcoólicas é de livre acesso através do hipermercado mas também tem um acesso a partir da rua, para quem lá queira ir mais discretamente, pagar e sair logo...

Na zona de caixas, uma das cervejas marroquinas que eu levava não queria passar no leitor e, de repente, lá estávamos nós com uma data de latas, ali parados enquanto se formava uma pequena fila de marroquinas. Não pude deixar de me sentir um bocado parvo, como se aquela gente olhasse para mim como o estrangeiro decadente que lhes faz perder tempo por causa das cervejas. Finalmente, lá veio o código correto da lata e pudemo-nos vir embora, na perspetiva de comer umas espetadas regadas a "Casablanca" (ou outra marca das que levávamos).

Mas, antes de ir para casa, ainda se deu mais uma voltinha, desta feita pela marginal onde se acumulam os restaurantes e as discotecas e onde bebemos café num confortável e cosmopolita estabelecimento enquanto víamos as pessoas passando. Esta zona de Tânger é muito agradável e arejada, em tudo igual às suas equivalentes em qualquer outra parte do mundo. Como elementos decorativos, também há canhões antigos, o que é sempre de especial interesse para quem goste de História.

Fim de mais um bom dia em Marrocos.

França/Marrocos 2010 - dia 12 (Tânger - Cabo Spartel - Arzila - Larache - Tânger)

Farol do Cabo Spartel
2010/03/15

Nove horas e meia na cama! Uma espécie de record ao qual só me pude entregar pelo facto de não estar de férias sozinho e estar dependente de "motorista". O menu do dia era uma ida ao cabo Spartel (tido como um dos pontos essenciais à volta de Tânger) seguida de uma passagem pela famosa Arzila a caminho de Larache.

O dia estava solarengo e tive o especial cuidado de não me esquecer de levar o meu chapéu de aba larga. O meu tio resolveu que, antes de ir ao cabo, me havia de mostrar uns túmulos antiquíssimos que existem em plena rua. Após algumas voltas, lá encontrámos os ditos. Numa zona residencial, calma, num canto que talvez pudesse ter sido, em tempos, um minijardim, lá estão algumas covas quadrangulares. O espaço está abandonado, sem informação e, verdade seja dita, vale mais a ida ao local só para ter um cheirinho de mais um bairro de Tânger do que, propriamente, para ver aquilo que mais tarde viemos saber serem os vestígios de umas tumbas fenícias. Para sairmos dali foi necessário passar pela baixa da cidade: uma mistura de prédios deixados pelos espanhóis (nota-se o estilo) e de muita construção recente. Embora não tenha achado tudo aquilo propriamente interessante, não deixei de ficar com curiosidade em passear pelas ruas.

Fizémo-nos à estrada a caminho do Cabo Spartel. O caminho estava regularmente enfeitado com conjuntos de bandeiras marroquinas e via-se muita polícia plantada à beira da estrada. Nem era preciso dizerem-nos porque já tínhamos percebido: o rei andava ou andaria por ali. O ridículo da cerimónia a que esta gente se entrega para manter as aparências perante a presença do monarca vai ao ponto de haver pessoal a varrer o pó da berma da estrada (!!!) e a esconder os contentores do lixo.

A certa altura passámos numa rotunda onde havia mais polícia. No local havia uma saída para o caminho que levava à Gruta de Hércules (outro ponto turístico) mas também a entrada do que parecia ser uma estância ou palácio. Seguimos em frente através de uma paisagem costeira agradável acompanhados da habitual sensação de familiaridade com o que se via. Em dado momento, num ponto onde a estrada desce bastante, pudemos ver o que teria sido um forte colocado numa espécie de foz de um ribeiro. Seria nosso? A estrada subiu (o local fez-me pensar na chegada à Ericeira, junto à foz do Lizandro - mas com menos casas) e, passado pouco tempo, chegámos ao cabo, anunciado a alguma distância pelo seu farol.

Verdade seja dita que, embora se esteja num cabo, não se tem bem a perceção disso. O local é alto, tem muita vetegação e o mar apenas se vê em frente. Em dias límpidos, avista-se dali a Península Ibérica. Bem me esforcei mas a Europa não se quis mostrar...

No local, como não podia deixar de ser, há um restaurante e um ou dois vendedores de recordações. O primeiro estava a abrir e os segundos ainda montavam as bancas. Chegámos à porta da zona do farol (que parecia abandonado) e encontrámo-la fechada e com um aviso de passagem proibida. Por incentivo do meu tio, ignorámos a placa e entrámos. O farol é de base quadrangular e pintado de amarelo pálido. Há palmeiras por perto através das quais se tem uma vista bonita para o resto da costa e pode-se ir à "esplanada" do edifício. Mais uma vez, puxei pelos olhos mas a Europa não se via. Pena.

Voltámos para trás (eu com o alívio de ninguém ter aparecido a dizer que tínhamos invadido uma zona militar) e resolvemos ir beber um café ao restaurante. Éramos os únicos clientes. O sítio era grande e agradável, com mobília feita de cana e palhinha e facilmente se imagina como um êxito na época alta. Mandámos vir café com leite o que nos reconfortou bastante atendendo à brisa marítima que se sentia.

No caminho de volta, passámos por um conjunto de camelos que languidamente caminhavam num areal, conduzidos pelo seu "patrão". Os animais estavam ali para efeitos turísticos já que não têm nada a ver com aquela zona do país.

Pensámos ir à Gruta de Hércules. O meu tio achava que eu devia conhecer o sítio. Simplesmente, ao chegarmos à rotunda que referi atrás, a estrada que dava acesso ao ponto estava fechada aos comuns dos mortais. Mais tarde, soubemos que andava pela zona um chefe de estado africano. Talvez tenhamos ficado a dever ao presidente do Burkina Faso ou outra potência de igual calibre o não podermos ir dar uma voltinha mais pela zona.

Torre de menagem portuguesa, em Arzila
Estrada para Arzila. Campos verdes à esquerda e areais à nossa direita. Entre a estrada e o mar, uma barreira de arbustos que só algumas vezes nos deixavam ver o azul do Atlântico. O caminho fez-se bem, sem qualquer sobressalto. Ao chegarmos à "nossa" Arzila, deixámos o carro numa zona de estacionamento em terra batida, à entrada da cidade velha. O local era em tudo igual ao que se encontra no Algarve: o mar, obras na margem e nos molhes, terra batida e autocaravanas estacionadas (os franceses e as suas "integrais"). Caminhámos um pouco pelo grande pontão que ali existe, tentando capturar a melhor imagem das muralhas e do casario branco. O vento estava fortíssimo e, antes que houvesse um homem ao mar, descemos. Entrámos na cidade pela porta principal, numa rua onde se acumulavam vários polícias e militares em trajo mais cuidado. Talvez alguma festa estivesse em preparação. Virámos à direita para a praça onde está o ex-libris de Arzila: a torre de menagem portuguesa, cuidadosamente recuperada e em todo o seu esplendor militar. Pregada à muralha está uma daquelas placas parolas recordando a visita de alguma autoridade portuguesa ou apelando à amizade entre os povos. Mais à frente, numa parede, existe uma grande pintura alusiva ao 25 de Abril.

Arzila é branca. Daquela brancura que só as culturas mediterrânicas conhecem. Como noutros locais, a sensação de se estar em casa é quase total. Embrenhámo-nos pelas ruas, aumentando em mim, a cada passo, o gosto pelo passeio. Atravessámos alguns arcos e fomos dar a uma área onde existem pequenos terraços junto ao mar. A vista é bela. O cenário envolvente convida-nos a ficar por ali, repartindo a nossa atenção pelo oceano, as casas e os vestígios militares. À nossa direita, antigos canhões espreitavam por entre as ameias. Abaixo de nós, alguns miúdos jogavam à bola numa zona mista de areia e rocha. Logo ali, alguns túmulos muçulmanos antigos enfeitavam um pequeno terraço com os seus ladrilhos coloridos.

O passeio seguiu, na pressa causada por haver muito para ver nesse dia. Envolvidos pelo omnipresente branco, damos por nós procurando a cor. As portas pintadas de azul ou verde vivos, algumas flores, paredes com desenhos alusivos a lojas de artesanato... Havia no ar um ambiente sereno de terra que ainda não tinha acordado bem ou que, por estarmos em época baixa, não estava propriamente em funcionamento. Saímos da zona fortificada, para poder ver umas armas portuguesas numa das portas da cidade e aproveitámos para seguir ao longo da parede da muralha à qual se encostavam algumas esplanadas sem ninguém. Ali, a terra já ganhava os contornos típicos dos sítios pouco cuidados. A cidade vivia normalmente, esquecida da beleza herdada que estava do outro lado do muro. Avisto uma mulher vestida com trajos tradicionais montando um burro. Paro para apreciar a cena e tirar fotografias.

Voltamos a entrar na zona antiga e a calcorrear as ruelas. Paramos para comer "pastilha", um petisco típico que não passa de uma espécie de massa extremamente fina (como a dos crepes), cozinhada sobre umas bolas de metal (?). Esperámos que alguns miúdos fossem atendidos e lá nos "empastilhámos". Achei o pitéu uma coisa totalmente sem graça. Voltámos à praça principal (a da torre) e saímos pelo arco que há perto desta. Metemo-nos no carro, demos uma ou duas voltas pelos quarteirões mais próximos enquanto tentávamos acertar com o caminho e lá tomámos as ruas mais largas da cidade "moderna", a caminho de Larache.

(continua)

domingo, 14 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 11 (Rabat - Tânger)

2010/03/14

Rabat acordou-nos cheia de sol mas com uma temperatura agradável. Como, mais uma vez, o tipo de estadia no Ibis não incluia pequeno-almoço, foi com mais pressa que nos despachámos, rumo ao centro da cidade.

Percorremos, no sentido contrário, as estradas e avenidas por onde tínhamos passado na noite anterior, agora melhorando a rota aqui e ali, devido à vantagem de ser dia. A cidade não parecia ser nada feia (segundo padrões marroquinos): ruas mais arranjadas, espaço livre, etc.

Cruzámos as muralhas e, pouco depois, estávamos entrando na Av. Mohamed V, a principal artéria da capital de Marrocos, um local composto por uma alameda central decorada com palmeiras ladeada por edifícios brancos com um estilo misto que trai a sua origem francesa. A meio, passámos pelo edifício da assembleia nacional.

Ao chegar quase ao fim, junto a um sítio onde o espaço se abre e existem alguns edifícios públicos de arquitetura local, invertemos o sentido e estacionámos o carro na sombra. O dia estava mesmo bom e a zona era uma ótima variação ao que até então tínhamos visto do país. Estes dois fatores combinados encheram-me daquela sensação de leveza que se tem quando se anda a passear com gosto. Atravessámos a avenida para o lado onde parecia haver cafés e entrámos no primeiro que apanhámos aberto. Era um sítio muito agradável que, embora tendo sido remodelado, se enquadrava ainda muito bem no tipo de edifício onde estava. Havia apenas duas ou três mesas ocupadas. Mandámos vir café com leite e croissants e aproveitámos para dar uma olhadela aos planos para o passeio.

Catedral de Rabat
De barriga reconfortada, subimos a avenida, quase sempre debaixo de arcadas. A pé confirmou-se a boa impressão com que tinha ficado da zona, aquando da passagem em automóvel. A certa altura, virámos à esquerda para apontarmos à catedral de Rabat, outra herança deixada pela França. A rua que lá levava tinha prédios modernos mas também outros mais antigos em estilo europeu. Por "mais antigos" quero dizer coisas dos anos 50, 60. A estrada estava toda em obras para instalação de uma linha de elétricos mas, como era domingo, tudo estava parado e aproveitámos para ir andando calmamente pelo meio do caminho.

Chegámos à praça da Catedral, vindos das traseiras, o que terá diminuido um pouco o impacto do edifício mas sem lhe tirar qualquer graça. Avancei pela rotunda adentro para ter mais espaço para contemplar o volume. Branco, grande, combinando (mais uma vez) vários estilos, claramente ocidental mas cheio de pormenores "exóticos" (o rendilhado das janelas, por exemplo), a catedral gera uma sensação de familiaridade nostálgica. Sendo ateu, não deixo no entanto de me sentir sempre em casa quando, num país não-cristão, entro numa igreja. Ali, não houve exceção à regra e por momentos tentei imaginar como seria o Marrocos colonial, com a sua mistura de gentes e costumes, quando esta zona seria, provavelmente, uma pequenina Europa. No interior, a simplicidade própria da época em que o templo foi construído. De resto, tudo igual a qualquer outra igreja católica.

Na volta para o carro, passámos por ruas secundárias, mantendo a boa opinião sobre toda aquela zona. À chegada ao carro, a fatal gorjeta a um arrumador... Embora o segundo ponto de visita (a medina) fosse a apenas algumas centenas de metros, o meu tio optou por deixar o carro mais próximo da área antiga da cidade. Novo estacionamento, nova gorjeta, claro...

Ao sair do carro, estacionado do lado de fora da muralha da medina, dou de caras com uma das muitas amostras do interesse marroquino no futebol espanhol: uma carrinha completamente enfeitada com cores e símbolos do Barcelona. Do mal, o menos... Atravessamos a passagem sob a muralha e entramos nas ruas velhas onde se acumulam vendedores ambulantes e pequenas lojas de estilo pouco sofisticado. Estamos quase, quase no coração da cidade que acaba por ser composta de vários núcleos muralhados, quase como se tivessem sido juntas várias cidades (o mesmo acontecia em Fez).

O sol já começava a queimar a cabeça e socorri-me de um carapuço que levava. Juntamente com uns óculos escuros, terei adotado uma figura um pouco exótica :) Seguimos pela rua principal da medina, em direção ao mar. Antes de chegarmos a este, ainda há um grande núcleo cujo ponto principal é um grande cemitério que faz uma espécie de fronteira entre a cidade e as praias. Entrámos na necrópole, apreciando a vista e a paisagem de túmulos. Aqui e ali, das campas emerge uma espécie de cubo rematado por uma meia esfera: trata-se do túmulo de um homem santo. Havia vários por ali. O cemitério não tinha qualquer componente soturno: apesar da organização caótica (isto existe?), a brancura das campas, o seu aspeto tradicional e o enquadramento paisagístico davam ao local um visual em nada desagradável.

Seguimos uma rua paralela ao grande cemitério até irmos dar a outra, mais larga que se cruzava com a primeira e que acompanhava mais uma zona de muralhas. Ali sim, era a medina "turística". Atravessámos a estrada, observámos alguns vestígios arqueológicos a serem escavados na zona, apreciámos a vista e dirigimo-nos para uma das entradas, onde está um pequeno forte de construção portuguesa.

Ao chegar junto ao portão, um rapaz faz-nos gestos para que tenhamos pressa. "Rápido, que a medina vai fechar", parece ele dizer-nos. O meu tio, já batido nas manhas daquele pessoal, parece desconfiar mas acabamos por achar que era natural que a zona tivesse algum tipo de horário. Entramos e cruzamos uma segunda porta, esta sim para a área do forte propriamente dito. Imediatamente se torna visível a intenção do rapaz: quer ser guia. Tenta informar-nos de coisas banais, perfeitamente escusadas, enquanto o meu tio lhe vai dizendo que não é preciso, que ele mora em Marrocos. o rapaz, lá acaba por desistir, sem deixar, primeiro, de pedir uma gorjeta. Não tem sorte e esta acaba por ir para o guarda à porta...

Saímos do forte (fortim) e subimos a uma esplanada adjacente. A vista é linda: mar, mar... uma cidade antiga defronte e o rio entre as duas urbes. Mais uma vez, sinto a sensação de liberdade que o viajante tem. Continuamos a subir umas escadinhas mais ou menos toscas e alcançamos uma praça rodeada de edifícios rasos e brancos, em estilo de parada de quartel, quase. Passando por debaixo de um vulgar arco, entramos no emaranhado de ruas brancas que formam o coração da medina, o kasbah. Algarve? Alentejo? Onde estava eu? A semelhança é tão grande que até o contraste do branco com o azul pintado na base ou à volta das janelas está presente para nos fazer sentir em casa. Se não fossem as pessoas e o seu aspeto diferente, qualquer português a sul do Tejo se sentiria na sua terra. Ali, qualquer porta pode ser a da nossa casa de família.

Parece Portugal, não é?
Descemos ruas e escadinhas até irmos dar a um local onde um grupo de músicos, sentados no chão, tocava músicas típicas. Um conjunto de turistas americanos obervava, ouvia e filmava. No fim, quando os artistas acabaram, ouviram elogios e viram sorrisos. Moedas? Nem uma... Passei por aquela cena sorrindo para mim do feitio forreta daquele pessoal. Virei para a direita e entrei numa zona acastelada e, ao mesmo tempo, ajardinana onde está um museu. No fim do desvio, eu e o meu tio chegámos a um terraço onde havia um café, com pequenas mesas de madeira debaixo de um alpendre. O sítio era claramente turístico mas era tão agradável que eu fiz questão de ficar ali um bocadinho. Fiz bem porque, não só o chá de menta era ótimo e o ambiente era descontraído como ainda assisti à engraçada conversa entre o meu tio e um vendedor de doces. Este, pediu por uma espécie de chamuça doce um valor que o meu tio achou elevado e imediatamente tentou baixar; o vendedor, sorriu e perguntou de onde o meu tio era. Português! Ah... Porto - disse o vendedor. O meu tio, ferido no seu orgulho de lampião, disse logo "Benfica!", ao que o vendedor, sorrindo, respondeu com um "diplomático" e sumido "Benfica...". Já se vê que as glõrias passadas do clube da Luz não parecem fazer grande eco por ali. O bolo lá foi vendido a um preço mais simpático e o vendedor despediu-se de um jeito bem-disposto. Saboreei o chá e, quando esse pequeno grande prazer chegou ao fim, continuámos o passeio.

Retornámos por parte do caminho feito até ali virando, no fim, em direção a uma das portas da muralha. Pelo caminho cruzámo-nos com o indivíduo que tinha tentado ser nosso guia. A nossa "desfeita" não o tinha embaraçado e já conduzia um pequeno grupo de turistas através de uma porta aberta por si e que pareceu dar acesso a um terraço com vista para o mar. Um pouco mais à frente, a ternurenta descoberta de um conjunto de gatinhos recém-nascidos que se acumulava no espaço debaixo de uma porta, aqui e ali caindo um para o passeio e logo tentando retornar atabalhoadamente para junto dos irmãos.

Saímos da zona antiga e voltámos para onde estava o carro, variando um pouco o caminho. Por todo o lado da rua principal havia comércio: roupas, comida, apetrechos vários. Ao passar por uma mesquita, começou a ser feita a chamada para a oração o que acrescentou graça ao ambiente.

Escolhemos rapidamente um local para almoçar já que não havia muita variedade. Entrámos num restaurante simples, do tipo que se encontra em mercados (que era o sítio onde estávamos), e cuja especialidade parecia ser peixe. Preferimos a carne e mandámos vir umas desinteressantes espetadas de frango. Para beber, contentámo-nos com Coca-Cola que, ali, não havia cerveja.

De novo sentados no carro, procurámos o próximo ponto turístico: as ruínas de uma mesquita que caiu sob o efeito do "nosso" terramoto de 1755 e que são o ex-libris da cidade. Mas, antes, fizémos uma paragem na marginal que corre paralela ao rio para bebermos um café numa simpática esplanada, apreciarmos o ambiente e tirarmos fotografias a outro ângulo da zona velha bem como à cidade de Salé que fica na outra margem e que se pode alcançar (se assim se quiser) de barquinho típico. Aliás, o colorido das poucas embarcações acumuladas no local vale, só por si, um bom par de fotografias.

Acabado o café enganámo-nos numa curva e resolvemos atravessar a ponte e dar uma volta por Salé. A cidade segue o modelo habitual por aquelas zonas: uma extensa muralha contendo no seu interior a urbe. Não notámos nada que se destacasse e voltámos a atravessar o rio acertando, desta vez, com o caminho para a mesquita. Deixámos o carro ali perto, numa zona agradável de moradias e onde estavam estacionadas muitas autocaravanas de matrícula francesa.

A sentinela desconfiada...
Junto às ruínas da mesquita (da qual só subsiste a torre e uma floresta de restos de colunas), há ainda um mausoléu do rei Mohamed V, edifício lindíssimo, profusamente decorado e com uma guarda cerimonial de soldados em farda de gala. Tentei tirar uma fotografia a uma das sentinelas que, ao aperceber-se de mim, imediatamente se esquivou... Mais tarde, tentei apanhá-lo por trás (salvo seja) e não é que o instinto da criatura a avisou? Desta vez, quase que deu um salto para fugir à foto! Que sentinela... Felizmente, nenhum outro guarda sofria do mesmo problema (Seria por o assustadiço ser preto? Viria de uma cultura diferente?) e pude fotografar livremente as coloridas personagens, inclusivamente as que guardavam uma das entradas da praça e que estavam a cavalo. Toda aquela zona tem um encanto especial e proporciona ótimos enquadramentos para fotografias.

Deixámos o local rumo às ruínas de Chellah, um núcleo amuralhado (as cidades marroquinas são compostas por vários núcleos separados e com muralhas próprias, como se fossem cidades diversas separadas por uma simples rua), em cujo interior se misturam vestígios romanos e mouriscos. O local é deveras interessante (entrada: 10 din.) e tem bastante encanto. Para além dos vestígios de construções romanas, há ruínas de uma mesquita e edifícios adjacentes, muitas árvores e imensas cegonhas bem como gatos meigos pedindo festas. Também há alguns túmulos de homens-santos, que, como atrás referi, são como pequenas casas de forma cúbica com um teto semiesférico. Ao longe, a paisagem era feita de colinas cobertas de árvores em tudo lembrando o Alto-Alentejo.

Muralhas de Chellah
A nossa visita a Rabat estava terminada. Àquela hora, as já de si vermelhas muralhas da cidade ganhavam um tom quase de fogo. Senti alguma pena de deixar a cidade que, decididamente, me agradou bastante.

Na estrada, ainda nos arredores de Rabat, passámos por campos onde muita gente pairava, entre piqueniques e jogos de futebol, num clima de diversão de fim de tarde.

Mais à frente, já em estrada aberta, eram inúmeras as mulheres recolhendo ervas à beira do caminho, vestidas com roupas típicas e, algumas delas, transportando gigantescas trouxas às costas. Infelizmente, nem abrandando a marcha foi possível compensar a lentidão de disparo da máquina fotográfica e obter uma imagem capaz. Uma pena...

O resto do caminho fez-se por entre a familiaridade da paisagem (a tal coisa de aquilo parecer o Alentejo) e as canções de Vitorino e Carlos Guilherme. Música "árabe" no carro do meu tio? Nem pensar!

Passámos por grandes zonas alagadas - algumas das quais onde se viam bosques inteiros semisubmersos -, e áreas cobertas de estufas. A certa altura da agradabilíssima viagem - e porque tudo o que é bom tem um fim -, o meu idílio turístico foi interrompido pela "necessidade" de ouvir o relato de um jogo do Benfica. Entrámos em Tânger já com a noite instalada, ao som dos pontapés do DiMaria e seus companheiros. Havia muito movimento nas ruas e tive pena de não poder continuar o passeio, agora pelas ruas da cidade. Em casa, deixei o meu tio entregue ao vício da bola (agora vista pela internet) e fui deitar-me. O relógio andava à volta das 21:30 e a mesquita mais próxima começou a chamada. Foi embalado neste som que rapidamente adormeci.
Textos relacionados