terça-feira, 9 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 6 (Arles/Marselha) - parte 3


2010/03/09

Retomo a avenida (Boulevard Michelet) e dirijo-me para um ponto onde, por cima das árvores, noto a silhueta do famoso edifício de Le Corbusier. A distância é bastante pequena. Abrando o passo para saborear melhor o momento em que o histórico prédio se revela. Lá está a escadaria exterior, em espiral, lá estão as paredes interiores coloridas, lá estão os pilares sobre o qual tudo aquilo assenta...

Não há pressa mas há alguma ansiedade. Dou a volta por trás, aproveitando para tirar fotos e ver a zona envolvente. O local está cheio de automóveis e, por debaixo do edifício, há um estacionamento de motas. Tudo isto são sinais de vida da "cidade", ainda assim. Entro no edifício. A própria zona de entrada é, por si só, interessante, com a sua grande pala e o interior algo frio mas, ao mesmo tempo, confortável. Deixo-me andar por ali, vendo os pormenores, olhando para alguns quadros com informação sobre o local, espiolhando as pequenas coisas ligadas à vida do edifício (zonas para jornais e folhetos vários, por exemplo). Finalmente, dirijo-me à receção. Sei bem o que pode ser visto no sítio, os locais "públicos" (ou turísticos)... mas algum pudor impede-me de entar por ali dentro de forma triunfal, de máquina fotográfica em riste. Na receção, o guarda informa-me de que posso ir ao terceiro andar mas que o terraço se encontra fechado para obras de reparação. "Não!!!" - mais uma vez (e já era a segunda, em tão pouco tempo em Marselha) deparo com locais de acesso condicionado. É a praga da "época baixa", bem sei. E, sempre que planeio umas férias, sei que irei perder qualquer coisa mas, custa sempre um pouco, sobretudo quando se trata de algo tão desejado como era subir ao terraço da Cité Radieuse. Ainda assim, do mal o menos: podia ir até ao último piso e espreitar através de uma janela que dava para o famoso espaço.

Enfiei-me num elevador - só por si característico -, e ala lá para cima! Ao chegar, deparo com um átrio calmo. À direita, umas janelas permitem uma vista larga sobre os subúrbios de Marselha. Junto delas, um candeeiro de design da época da construção, de um modelo presente em todo o edifício. À esquerda, outra janela dá para o terraço, entre duas portas. Uma, de madeira, está fechada e não sei para onde vai (escada de emergência?); a outra, igualmente fechada, dá acesso ao terraço. Tento forçar a sorte mas a porta não se abre mesmo. Lá fora, há materiais de construção e os vidros das janelas (da parede e da porta) estão um pouco sujos. Ainda assim, consigo aperceber-me de que daquele local não conseguiria nunca ter uma grande ideia do exterior, embora conseguisse ver o torreão que domina a zona. Conformo-me e aproveito para sentir melhor o espaço. Acho graça às portas coloridas dos elevadores. Retomo o elevador, desta feita para ir até ao terceiro andar.


Chegado ao andar "público", onde existe um restaurante e, até, um hotel (aproveitamento de vários apartamentos), o ambiente é algo triste, soturno até. Há um corredor enorme que atravessa o edifício de um lado ao outro, corredor esse que se encontra mergulhado na semipenumbra, apenas iluminado por luzes de presença no topo de cada porta. Estas, são de corres garridas (amarelo, verde, vermelho e azul) alternando também de tamanho (há-as duplas e simples). Também há um bloco de caixas de correio, pintadas de amarelo. Percorro o corredor (onde não circula ninguém e apenas se ouve, ocasionalmente, um som vindo do despovoado restaurante). Há pequenas placas nalgumas portas, indicando um habitante ou uma profissão. Volto para trás, passando pelo restaurante. Com exceção de um empregado que passa empurrando um carrinho, não vejo mais ninguém. O espaço é agradável e a vista parece ser bonita (virada para o mar). Logo a seguir, começa uma pequena sucessão do que seriam estabelecimentos comerciais. Convém dizer que este andar já faz parte do que o arquiteto tencionava que fosse a zona comercial do edifício, numa lógica de quase auto-suficiência para os habitantes.


Passo por uma espécie de pastelaria, pequenina, quase apertada, com ar de loja parada no tempo. Na altura, nem se via ninguém lá dentro. A montra tem umas garrafas de espumante, há umas amostras de bolos sem graça e é tudo. "Abandono" é o que aquilo parece ser. Mais à frente, um gabinete de arquitetura. Aqui, as paredes do corredor alternam entre pedra e madeira. Ao fundo do corredor o espaço alarga-se, fazendo uma espécie de pátio que dá entrada a um outro corredor onde há uma fileira de espaços que seriam para lojas. Estamos em pleno "centro comercial". Logo ao início há uma livraria pequena, também ela sem ninguém à vista, onde se acumulam obras de arquitetura na montra. A seguir, uma espécie de escritório. Depois... sabe-se lá. No andar de cima há também escritórios mas em todo o lado se nota a ausência de gente, mesmo que os espaços estejam de porta aberta. É um local fantasma tudo aquilo...

Ao fundo do "centro comercial", umas escadas dão acesso ao andar de cima - novamente de habitação mas também de acesso aos gabinetes superiores. A uma certa distância três crianças pequenas aparecem, brincando, senhoras de todo aquele vazio. Imediatamente me lembro do filme Shinning... Passam por mim despreocupadamente enquanto eu cusco através de uns vidros um espaço (apartamento?) vazio e em obras. Dou um salto até à escada de emergência por onde os miúdos se parecem ter ido e resolvo voltar para atrás, certo de que aquele andar nada de diferente teria relativamente ao que já tinha visto.


Deixo-me andar pela zona comercial, sento-me no banco corrido que segue a linha das janelas, tiro fotografias e continuo sem ver ninguém. A livraria, tão abandonada como há pouco. Volto ao corredor onde do restaurante e, desta vez, vejo, na pastelaria Regency, um homem sentado lá ao fundo, numa zona de serviço. Tem alguma idade e está em camisola interior de alças... Tudo aquilo cheira a decadência e abandono. Há uma atmosfera de exagerado sossego no andar que devia ser o de maior movimento, até. Sente-se que qualquer coisa parece ter parado no tempo, ali.

Novamente no rés-do-chão, saio pelo mesmo sítio por onde entrei (há, pelo menos, duas zonas de acesso), virando à esquerda. Subo por uma escada que sai da barriga do "monstro" e que é a saída de emergência. Aqui, estou perto do corpo do edifício, a alguns metros de altura e com uma vista privilegiada dos pilares. Também por ali há obras. Desço e vou reparando em pormenores de mobiliário urbano que antes me haviam escapado. Tudo o que ali está faz parte de um todo, seja o edifício propriamente dito, bancos, protetores de iluminação...


Na frente do prédio, junto à entrada, há elementos interessantes: figuras gravadas na parede com o famoso Modulor (a medida do homem, para Le Corbusier) e outros pequenos pormenores decorativos.

O dia começa a pedir para se ir embora e eu também. Tiro mais fotografias enquanto percorro o jardim circundante. Encho uma última vez a vista com a "Cidade Radiosa" em toda a sua largura e despeço-me deste ícone da ARTEtetura.

Resolvo não ir apanhar o metro à mesma estação e aproveitar para percorrer a agradável avenida. Mais à frente chego à zona do estádio do Olympique de Marselha. É um espaço largo (como convém) mas agradável (como toda aquela zona, aliás), por onde se cruza gente que volta a casa. Apanho o metro e saio na mesma estação onde tinha entrada há algumas horas. Vou em direção à marina (Vieux Port - "porto velho") e chego já lá com o sol a por-se.


Vieux Port

O "Porto Velho" de Marselha é, hoje, uma grande marina de forma retangular à volta da qual estão edifícios de épocas e estilos bastante diferentes mas que, no todo, acabam por ter um ar homogéneo. Ao fundo, a saída para o mar é ladeada por dois grandes fortes, quais sentinelas da cidade perante o mar Mediterrâneo.

A zona é movimentada, seja por causa dos turistas, dos vendedores, ou dos naturais da cidade que por ali passam. Há agradáveis bancos espalhados por uma das margens (que, claramente, está mais preparada para zona de passeio), onde nos podemos sentar apreciando o marulhar e admirando os barcos. Igualmente nos podemos sentar numa das muitas esplanadas dos restaurantes da zona.

Ao contrário do que seria de esperar pela localização, a zona do porto velho não é mal frequentada nem apresenta o ar gasto e sujo típico das zonas "baixas" das cidades. A impressão que tive ao chegar ao sítio foi de modo a descontrair-me e fazer-me ter vontade de aproveitar o anoitecer para dar uma volta pela marina e por algumas das ruas "interiores".

Aproveitei para tirar algumas fotos testando diversas configurações da máquina fotográfica e que permitem variações bem bonitas àquela hora: por-do-sol em tons de azul ou em tons de dourado.

Cansado e, sobretudo, esfomeado, resolvi fechar o dia passando por um MacDonald's. Comida rápida mas, ainda assim, comida, e com a vantagem de ter wifi gratuitamente (coisa comum nos Mac's franceses), situação que aproveitei para contactar o dono do telemóvel encontrado no Porto.

Finda a refeiçãozeca, descansados um pouco os pés, fiz o curto caminho de volta ao "hotel".

Uma vez no quarto, conheci a minha parceira: uma rapariga francesa sentada a uma secretária escrevendo afincadamente ao computador. Cumprimentámo-nos rapidamente. Tudo indicava ser alguém que estava à vontade no local - provavelmente uma "residente" (termo usado para quem passa temporadas nestes sítios) -, já que havia muitas coisas suas pelo quarto (comida, bebida, compras). Aproveitei para ir tomar banho e, quando acabei, ela já estava acabando de trabalhar.

Subi para a cama (era um beliche e eu fiquei por cima - sim, venham as piadas...), vestido com a roupa da rua (é o mal dos quartos mistos: o pouco à vontade) e aí me despi enquanto a moça fechava o seu "estaminé".

Fim de dia em Marselha.


Para ver todas as fotografias, carregue aqui ou aqui

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados