terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O mais longo abraço

É sobejamente conhecido o medo que muita gente tem de andar de avião. No meu caso, o único verdadeiro receio que tenho é de não conseguir distrair-me na viagem (preferencialmente dormindo) e ter de suportar uma entediante viagem por cima das nuvens, feita de horas de intermináveis horizontes de algodão. Mas há, realmente, quem tenha pavor de se imaginar planando lá em cima e tudo faça para não ser metido num avião. É famoso o caso de um futebolista holandês de topo que, quando a sua equipa viajava por causa das competições europeias, partia dois dias antes... de comboio. E se tal não era mesmo possível, tinham de lhe dar uma injeção antes de ir para o aeroporto. Outros, impossibilitados de substituirem as asas pelos carris, recorrem a comprimidos, rezas ou álcool para acalmarem os nervos. E há, também, quem use uma manta...

Na minha segunda ida a Macau já o aeroporto do território estava construído, para grande orgulho da administração lusa que via nisso um marco fundamental da herança a deixar à sua sucessora chinesa. O voo da TAP para Lisboa estava razoavelmente preenchido, levando uma mistura de nacionalidades onde os passageiros portugueses eram, naturalmente, a maioria. Uma fila à frente de mim, ocupando dois lugares da coluna central do avião, um casal de jovens irmãos abraçava-se fortemente, num evidente esforço para ultrapassarem o medo que os invadia. Enquanto a aeronave se preparava para descolar, uma hospedeira esteve à conversa com eles, tentando acalmá-los mas a sua simpatia teve efeito nulo nos adolescentes, que continuaram desesperadamente abraçados. Os motores do avião rugiram, o pássaro ganhou balanço e, quando já se preparava para saltar, a descolagem foi abortada. Ninguém achou necessário prestar qualquer esclarecimento durante os quarenta e cinco minutos que se seguiram e aos medrosos irmãos tudo serviu apenas para ainda aumentar o pavor que sentiam. Finalmente, surgiu uma informação sobre a causa da paragem: um aviso de avaria tinha surgido aos pilotos e tinha-se estado a verificar o que se passava. Por esta altura, os irmãos cobriram-se com uma manta e suspeito que, debaixo desta, devem ter começado a ouvir-se orações a tudo quanto fosse santo...

O avião subiu, rompendo a noite até chegar ao ponto onde estabilizou e apontou à longínqua Bruxelas onde iria fazer uma escala. Ao todo, cerca de catorze horas de voo. Para ganharmos ânimo, serviram-nos o jantar logo que foi possível o que, no meu caso, foi uma espécie de pós-banquete já que a minha família, em jeito de despedida, me tinha levado antes a jantar a Coloane, às "tendinhas" (umas arcadas que eram o lugar do melhor "chao min" que alguma vez provei). Pois o par de irmãos, debaixo da sua manta, até o jantar recusou e nem por um momento se largou até o avião estacionar no aeroporto da Portela... Eu cá digo que aquilo devia ter entrado para o Guinness como "o mais longo abraço da História".

domingo, 18 de dezembro de 2011

Oh yeah! em Dublin

2005/05

Não poderia vir mais a propósito nesta semana que agora acaba, a recordação de uma ida a um concerto de Bryan Adams na... Irlanda.

Era de manhã quando a camioneta da Bus Éireann (a rodoviária local) partiu para realizar o circuito "Newgrange and the Boyne Valley", uma daquelas excursões diárias que, quase sempre, são magníficos passeios onde podemos, de uma assentada, ver um sortido de coisas que pelos nossos próprios meios seriam difíceis de alcançar. A "ementa" do dia era, entre outras coisas, a ida a um enorme túmulo pré-histórico e a visita a Tara, uma espécie de "santuário" para o patriotismo irlandês já que era ali que os antigos reis da ilha se faziam. Pelo meio - e como seria de esperar naquela terra -, muito verde.

Quando a camioneta percorria uma estrada paralela ao rio Liffy, ainda na feia Dublin, o motorista/guia comentou o nome de Bryan Adams. Distraído que ia observando a paisagem urbana não me apercebi na altura da razão de ser da referência a um dos meus artistas preferidos. "Talvez tenha uma casa aqui", pensei, e anotei a coisa mentalmente.

No fim do dia, ao desembarcar, procurei imediatamente um dos muitos quiosques de internet que havia no centro da cidade (era uma zona repleta de imigrantes e estes têm grande necessidade de internet e telefones). Lido o correio, satisfeitas algumas curiosidades, procurei o que teria Bryan Adams a ver com Dublin. Nada podia ser mais simples: o homem tocava lá nessa mesma noite. Olhei para o relógio e assustei-me. O concerto ia começar daí a um par de horas.

Com uma ou duas indicações e a relativa facilidade do caminho (bastava seguir o rio, repetindo o caminho matinal mas mudando de margem), apenas tive de me preocupar com a velocidade. A distância de onde eu estava até ao recinto do espetáculo, não sendo grande, era feita com o cansaço de fim de dia mas, quem corre por gosto não cansa - dizemos -, e se isto é válido para corridas, ainda mais o é para caminhadas.

À chegada, dou com algum movimento mas menos do que eu esperaria para um concerto. Quando me aproximo da entrada bate-me forte a consciência de que estou com toda a tralha de um turista comigo: mochila, impermeável, máquina fotográfica, guia turístico, canivete suíço e, até, uma lata de cerveja daquelas grandes! Estava lixado, não me iam deixar entrar. A lata ainda podia ir para o lixo mas o canivete...

Péssima foto: não é minha :)
O que havia eu de fazer? Arriscar, claro. Afinal de contas, a revista, a ser feita, era antes das bilheteiras (exatamente) e, portanto, não havia nada a perder. O pior seria ficar com um grande galo e mais umas boas horas para gastar naquela desinteressante cidade. Avancei para o segurança. A seu pedido abri a mochila e lá estava a lata, grande, cheia e pesada, mostrando-se arrogantemente. O homem mandou-me fechar a mochila e seguir. Claro, numa terra de bêbedos (recentemente, tinha sido proibido beber na rua, como forma de combater o flagelo do alcoolismo), a coisa mais natural do mundo é que um tipo ande com uma latona "para as necessidades". Oh alívio!

Atravessei o parque de estacionamento no fim do qual ficava o contentor onde se vendiam os bilhetes. Umas raparigas ainda tentaram vender-me uma entrada que tinham a mais mas a possibilidade de pagar com cartão de crédito fez a organização ganhar o negócio. E qual o preço do ingresso? € 45!!! - Isto em 2005! Ainda hoje, na Lisboa do ano 2011 não se praticam semelhantes preços mas a Irlanda era um país remediado com preços "à inglesa". A única diferença (e que jogava a favor do turista) é que as coisas eram em euros e não em libras.

Munido do precioso bilhete, entrei na sala que, a essa altura, ainda estava com pouca gente. Verdade seja dita que nunca poderia ficar com muita... Trongamongas, segurando roupa e mochila, lá me ajeitei no meio da plateia, sabendo de antemão que não iria poder mexer-me muito, obrigado que estava a tomar conta dos meus pertences. Que se lixasse - ao menos, estava lá.

A primeira parte do concerto foi feita por um artista australiano - que me era perfeitamente desconhecido -, chamado Keith Urban e que ainda hoje é mais conhecido por ser o marido da Nicole Kidman do que propriamente pela sua carreira discográfica. O rapaz era jeitoso, as meninas gostavam dele e a música era suficientemente animada para dar boa onda ao público mas, felizmente, a coisa não durou mais do que 45 minutos. A seguir veio o canadiano e, pela segunda vez nesse ano lá me deleitei com  toda aquela alegria.

Para encerrar um belo dia, nada melhor do que um belo concerto. Oh yeah!!!

sábado, 17 de dezembro de 2011

Quando "snob" é um elogio...

Eu e dois colegas de trabalho andávamos por Londres, tentando voltar ao albergue onde estávamos hospedados e que era um dos St. Christopher's Inn perto da London Bridge. Já tínhamos dado uma volta grande e estávamos numa zona menos urbanizada de onde partiam várias ruas. Qual delas a certa?

Havia pouca gente por perto e, quando um sujeito passou junto de nós fisgámo-lo logo. Não tinha bem a certeza de onde ficava a "nossa" rua. Talvez fosse "para ali". De qualquer forma, será que nós não queríamos comprar-lhe um blusão de ganga? E logo ali nos mostrou, com um ar algo ansioso, uma peça de roupa para que nós a apreciássemos. Não, não queríamos, obrigado, e despedimo-nos cordialmente.

Para seguir a indicação do londrino tínhamos de atravessar uma espécie de rotunda e resolvemos usar uma passagem subterrânea. Uma vez nela, parámos para conferenciar sobre o caminho. Uma rapariga aproximou-se de nós tentando vender-nos uma revista (uma "Cais" local?). Disse-lhe que não. Após alguns segundos, ela insistiu - com um forte sotaque "popularucho" -, e eu, novamente, disse-lhe que não queríamos a revista. A moça não desarmou e voltou à carga, momento em que eu, puxando do meu mais britânico sotaque lhe disse "For God's sake, no!" (uma espécie de "porra, desanda daqui", muito bem educado). O sotaque saiu tão apurado e tão "upper class" que a indivídua se afastou remungando que eu era um snob enquanto ia imitando o meu tom "bem".

Convenhamos, desta vez "snob" foi um elogio, para mim. :)

Morrer em Londres

Quem vai a Londres tem à sua disposição um grande número de diversões que se baseiam na história local. Uma das mais conhecidas é "The London Dungeon" ("A masmorra de Londres"). Este espaço é composto por uma sucessão de cenas históricas soturnas - ou mesmo macabras -, que os visitantes atravessam e onde vão "vivendo" os diversos ambientes, sempre animados por empenhados figurantes.

Lembro-me de que, quando lá fui, nos tiravam logo à entrada uma fotografia (como se faz em todos os parques de diversões) e que nós pousávamos para o boneco com a cabeça apoiada num suporte, pronta a ser cortada por um carrasco (ou por quem nos acompanhava). Percebem o estilo da coisa, certo?

A meio da visita, uma das cenas era a chegada a uma praça onde parávamos e, de repente, surgia um juiz do Séc. XVIII, com aquelas características cabeleiras e um péssimo humor. O homem queria condenar alguém a todo o custo e, do meio da dezena de pessoas que constituiam o "meu" grupo, escolheu-me logo a mim...

A minha gravíssima falta teria sido urinar para um lago onde o distinto juiz tinha os seus patos a passear e os pobres bichos teriam morrido em consequência disso. Quem era eu? De onde vinha? De Portugal, respondi, obviamente. E no seu país costuma fazer isso?! - perguntou irado o magistrado. Eu, armando-me em carapau de corrida respondi que sim, que fazia sempre isso. Resultado: fomos todos condenados à morte, logo ali. Encaminhados para a saída, colocaram-nos num barco à frente do qual, ainda mal estávamos sentados, surgiu um esquadrão de fuzilamento que imediatamente arrumou connosco, lançando o batel por um canal abaixo numa abrupta descida que só terminou num lúgubre cais onde se iniciava um novo quadro histórico.

De toda a divertida visita apenas mantive na memória, bem fresco, o momento do julgamento. Afinal de contas, não é todos os dias que somos condenados à morte...

Ninguém chateia um deficiente!


1989/04/14


Já aqui escrevi que, onde quer que vá, acontece sempre virem pessoas fazerem-me perguntas ou pedidos na rua: onde é isto, onde fica aquilo, que horas são, pode tirar-me uma fotografia?

Numa das minhas idas a Madrid - e já com com algumas situações na contabilidade -, ao passear-me junto ao Palácio do Oriente, vejo uma velhota aproximar-se de mim como quem vinha perguntar-me algo. Dito e feito. Eu, por não a ter entendido logo, levei instintivamente o dedo ao ouvido como quem lhe dizia "não ouvi, repita". A senhora fez uma cara de ligeiro desconsolo, pediu desculpa e continuou o seu caminho. Imediatamente percebi que ela tinha julgado que eu lhe indicara ser surdo. Eureka!

Foi lição que me ficou e ainda hoje, passados muitos anos, recorro à "história do surdo" quando não me apetece parar para responder a perguntas de estranhos. Ninguém chateia um deficiente!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sucesso na Invicta

(não, a camisola não é esta)
2007/09/01

Estava no Porto já nem me lembro bem porquê. Naquele dia, porque o tempo estava agradável, resolvi vestir uma camisola preta com o "Jack Nightmare", a personagem do "Nightmare before Christmas", de Tim Burton. Tratava-se de uma t-shirt preta, com a "cara" do dito Jack e com "A nightmare before Christmas" escrito por baixo, em letras vermelhas em relevo, que eu tinha comprado em Mendoza (Argentina), num centro comercial de vários andares unicamente ocupado por lojas de camisolas de bandas, centros de tatuagens e coisas afins (lá, o tema estava na voga).

Saí à rua e fiz-me ao centro da cidade para ir ver o Palácio da Bolsa. De vez em quando notava as pessoas a olharem para mim. Quando estou quase a chegar, um carro para num sinal e dois homens olham de forma quase espantada (um deles sendo o famoso Cameraman Metálico). Topei que era a camisola que lhes tinha chamado a atenção. Ri-me para dentro e continuei. Entro na Bolsa, falo com a rapariga da "bilheteira" e, ao sair (não havia visita guiada tão cedo), ouço a voz dela lá atrás "Tem uma camisola muito gira!". Bom... já não havia que duvidar: a camisola estava a fazer sucesso na "capital do norte". Volto atrás e digo à (apetitosa) moça: "Não sei o que se passa aqui mas é só gente a olhar para a camisola. Em Lisboa, ninguém lhe liga.". Ela sorriu e disse "Ah é?". "É" - respondi -, e saí. Se a minha vida fosse um filme isto teria acabado com uma cena de sexo mas, como todos sabemos, a vida é uma fita mas poucas vezes a história é boa.

Continuei o meu passeio pelo Porto e, de vez em quando, lá esbugalhava alguém os olhos. De repente, ao passar numa qualquer esquina, vejo um cartaz de um concerto: Moonspell + Kreator no Coliseu, naquele mesmo dia! Ali estava eu, andando ao deus dará, com uma camisola "gótica" e um belo concerto em perspetiva. Percebi a dica do destino e rumei à grande sala portuense, rompendo pela baixa da Invicta com a minha fantástica - espantosa - magnífica camisola que continuou a fazer sucesso, fosse na rua, à mesa a lutar com o queijo de uma francesinha ou no meio dos headbangers.

A volta a Lisboa foi, também, a volta à normalidade. Na "grande alface" ninguém se espantava com o sorriso da simpática caveira...

domingo, 4 de dezembro de 2011

A fruta da terra


2008/12


Uma das grandes graças de ir à ilha da Madeira é apreciar a flora local, muito diferente daquela que vemos no continente. Quem diz flora, diz fruta e, para encontrar esta última, nada melhor do que dar um pulo até ao mercado municipal do Funchal.

Subindo ao segundo piso (ou primeiro andar, ou aquilo que está acima do rés-do-chão), somos confrontados com um festival de cor e formas "exóticas" que nos cativa imediatamente. Não fosse o facto de tudo aquilo ter um ambiente de "caça ao turista", e o prazer de passear, mexer e provar ainda seria muito maior.

"Venha cá, prove, venha, venha!" - é um bocado como passear nalgumas zonas de restauração e ter os empregados de menu na mão a tentarem fazer-nos entrar. Detesto-o em Lisboa e detesto-o em qualquer lado, quer me ofereçam bitoques ou maracujás.

De qualquer forma, posta de parte a irritação pelo assédio, resta-nos ainda deleitar a vista no mosaico colorido que as bancas constituem: há verde, amarelo, vermelho, laranja, roxo, castanho, preto e mais qualquer coisa ainda. O ar é fresco e a curiosidade levar-me-ia a comprar um pouco de tudo se não fosse, precisamente, não poder mostrar muito interesse. São feitios...

Quando estive na Madeira, guardei para o último dia a compra de fruta local. Aproveitei uma ida ao Machico para entrar numa discreta frutaria onde esperava encontrar as "estranhas" frutas que tinha visto no Funchal. Achei que, para além do interesse gastronómico, também eram uma ótima prenda para levar para Lisboa e andei à volta no estabelecimento tentando encontrar muitas coisas de cujos nomes já não me lembro. Apenas arranjei umas anonas (enormes, como cá não se vê) e o "tomate inglês". Quando estava a pagar, perguntei à empregada se não tinha nada daquelas coisas que havia no Funchal. A resposta, dada com um sorriso divertido foi: "Isso são coisas para os Ingleses!".

sábado, 26 de novembro de 2011

2500 km por Portugal - parte 6 (2011/10/02)

Pelourinho manuelino
Castelo Branco

Atendendo a que a Sé de Castelo Branco estava encerrada àquela hora (Hã?! O quê? - leia o post anterior), resolvi seguir para o Paço Episcopal, afinal de contas, o verdadeiro ex-libris da capital da Beira-Baixa. O passeio é relativamente curto - umas centenas de metros -, e tem alguns pontos de interesse: ao fundo da Rua das Olarias, discretamente colocada numa parede na entrada da Rua dos Ferreiros, uma grande placa escrita em Latim; à direita, o começo da pequena alameda arborizada que vai dar ao Paço e onde, a meio, encontramos o Largo de São João com o seu pelourinho manuelino que é Monumento Nacional.

Quem chega ao pelourinho já está a poucos metros de uma passagem superior que liga o jardim ao que é hoje o parque municipal. Passando por debaixo dos arcos, temos então, a escolha de tomar o portão da esquerda e entrar no bonito jardim barroco ou, virar à direita e optar pelo agradável jardim municipal. Segui pela esquerda.

O Jardim do Paço Episcopal foi criado no Séc. XVIII e é uma fantasia barroca onde largas dezenas de estátuas se enfileiram pelos caminhos traçados a régua e esquadro. Temos coleções de reis, santos, bispos, figuras alegóricas aos signos, épocas do ano, etc. O todo é muito bonito e é inimaginável passar por CB sem lá ir (a menos que já se conheça, claro). Não é o tipo de jardim onde se vá passear, fazer tempo ou namorar (para isso, atravessa-se a rua e vai-se ao do outro lado da estrada). É um local monumental, um bibelot, passe a expressão.

Quando ainda estava no patamar inferior - que fica junto à entrada -, e andava a admirar os bonitos painéis de azulejos que enfeitam as paredes, ouço alguém dizer "Tens ali um cliente!". Percebi que havia que pagar bilhete para visitar o espaço. Por mim, nada a dizer. Mas, antes, tentei aproveitar os conhecimentos turísticos do guarda, em meu proveito: perguntei-lhe se sabia a que horas abriria (se é que abria) a "Sé Concatedral". O homem abriu os olhos, fez um ar incrédulo e disse "A quê?!". "A Sé Concatedral" - repeti eu, apontando para o mapa que trazia na mão -, e, para que não houvesse dúvidas, mostrei-lho. "Eu nunca ouvi tal coisa!", disse o homem com aquele ar de quem se presta a vergastar os tempos modernos, "Conheço é a Sé, a Catedral, agora, isso que disse...". "Deve ser a mesma coisa" - atalhei eu -, "Sabe se abre?".  "Não está aberta? Então só à hora da missa - às cinco da tarde".

Obtida a informação sobre o horário da sé de Castelo Branco, dei sem qualquer problema os dois euros (ou terá sido um?) que o funcionário me pediu e subi as escadas que dão acesso ao espetáculo principal.



Uma vez no jardim, o que há a fazer é passear sossegadamente, sem olhar para o relógio e ir observando todas aquelas estátuas (cuja qualidade - diga-se em abono da verdade -, não é grande). Há também várias fontes que acrescentam graça ao espaço e entrecortam os retilíneos caminhos.


Jardim do Paço Episcopal
No fundo do jardim - e subindo mais um nível -, há um grande tanque alimentado por água vinda de uma espécie de escadaria e que, para além de valer pela sua beleza, tinha o fim muito prático de alimentar as fontes e servir para as regas. É deste sítio que temos a melhor vista sobre toda a zona e sobre as várias áreas de todo o jardim: a do "labirinto", a do tanque central que pega com a escadaria dos reis e uma à direita, com uma bonita "piscina" com decoração interior. Para quem quiser experimentar, há muitas laranjas (?) nas árvores e no chão.

Prestadas as homenagens aos nossos insignes monarcas na escadaria que lhes é dedicada achei que o jardim estava visto e que era altura de abalar. Virei à esquerda, em direção ao Largo José Lopes Dias, de onde é possível admirar melhor o próprio Paço Episcopal já que é para aí que dá a entrada. Com o incipiente mapa que tinha recolhido na Pousada de Juventude (já agora, há uma grande falta de informação turística nestes locais), fui seguindo o caminho que me levaria ao castelo. Não tinha memória de alguma vez ter avistado, sequer, a fortaleza que, afinal, até dá o nome à cidade e, verdade seja dita, dali também não a via...

Ao cimo de uma rua que estava em obras, chego ao começo de uma zona mais velha. Aí vejo, numa esquina,  duas placas: uma sinalizando um hotel e outra indicando o castelo. Ambas apontavam na mesma direção. Tomei o caminho que se me deparava com confiança. Fui andando, andando e... andando. Passei por uma zona de depósitos de água, cheguei a uma estrada pouco urbana, contornei uma zona de mata, subi uma estrada e, ao fim de um bom bocado, quando já me rogava pragas por não saber se havia de voltar para trás, lá vejo um hotel. Passado este, noto que o meu destino seria pouco depois. Mais um pedaço de caminho e, finalmente, ao reentrar na zona antiga, vejo o tão desejado acesso ao castelo. Para cortar caminho na história, deixem-me dizer-vos que a placa que eu segui me obrigou a dar a volta ao monte quando, afinal, se tivesse ignorado a indicação e tomado o caminho da esquerda, me teriam bastado duzentos metros para chegar ao castelo. Notável, não é? Ajudas destas não são precisas, obrigado.

Bom, e o castelo, vale a pena? Deste podemos dizer que é composto por duas torres (uma delas com uma vista bonita), um pedaço de muralha ligando-as e um ou outro vestígio de construções antigas. Temos um edifício que foi escola, depois sede de um associação de bombeiros e, agora, está a ver se o tempo o leva; e temos a igreja antiga, certamente cheia de história e sobreposição de elementos mas que eu não pude visitar porque estava... - adivinharam -, fechada.

Igreja do castelo
Ao fim de algum tempo lendo os painéis informativos e após descansar (que o local presta-se a isso), desci uma escadaria que liga o castelo a um miradouro um pouco mais em baixo. É um sítio sossegado, fresco mas que já deve ter sido mais bonito, antes de ser "modernizado". Avistei um quiosque multimédia - uma coisa grande, com ar de quem nos vai abraçar e cuja finalidade é ir-nos dando informação sobre aquilo para onde estamos virados. O único problema do avançado equipamento é que estava desligado (e, muito provavelmente, avariado). Como nestes sítios uma pessoa se cansa rapidamente (a menos que esteja numa de meditação ou "malandrice"), saí. Desci mais uma escadaria - que até tem a graça de ser uma espécie de túnel no meio de árvores -, e acabei por vir ter ao tal sítio onde estava a plaquinha que me fez dar a volta a toda a colina do castelo. Insultei mentalmente quem a pos ali e virei à direita, em direção ao núcleo histórico da cidade.

(continua)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mas que horas são?!


2006


Madrid

Uma das coisas irritantes quando se viaja (nem tudo é bom, portanto) é a questão das horas. Há que ter o cuidado de, mal se chega a outra terra (ou mal se embarca - no caso do avião), mudar imediatamente a hora no relógio (e telefone, e PDA, e portátil e mais não sei o quê que possamos levar connosco e tenha um relógio). Quando nos esquecemos de o fazer, acontecem azares...

Quando fui à Argentina, tive de ir apanhar um avião a Madrid. Desembarcado em Barajas, aproveitei para apreciar a bonita arquitetura do terminal novo. Andei por ali, devagarinho, olhando para os pormenores até que, ao passar junto a um placard, reparei num aviso que indicava que o voo para Buenos Aires estava já em fase de embarque.

Todos os alarmes tocaram dentro da minha cabeça. Em Espanha a hora está adiantada! Para piorar a coisa, o meu avião estava noutro terminal para o qual eu ainda tinha de apanhar um metro interno do aeroporto e, para chegar ao dito, ainda tinha de dar umas boas voltas no terminal onde estava, subir e descer escadas e rezar, rezar fortemente para que conseguisse apanhar um transporte e ainda chegar a tempo. Pernas para que te quero!

Tudo conseguido no limite, cheguei à fila de embarque ainda a tempo já que esta era grande e estava demorada. Safei-me, portanto, de perder um voo intercontinental. E vai uma...


Buenos Aires

Argentina, Uruguai e Brasil estão todos juntinhos mas nem por isso acertam pelos mesmos ponteiros.

Eu tinha ido passar dois dias e meio ao Uruguai. Saira de Buenos Aires e atravessara o Rio da Prata de barco. Ao aproximar-me do porto de Montevideu, mudei para a hora local (+1). Durante todo o passeio não me lembrei mais deste pormenor.


Dois dias mais tarde, ao voltar à capital argentina, vindo da Colónia do Sacramento, continuei sem me recordar da alteração. A meio da viagem, começo a olhar para o relógio e a notar que se aproximava a hora da camioneta que eu queria apanhar para ir a Puerto Iguazu. Se perdesse aquela, iria ter de passar o resto do dia e a noite em BA pois já só havia outro transporte no dia seguinte, logo de manhã.


A ansiedade começou a instalar-se em mim mas eu ainda sentia ter alguma folga. Ao atracarmos, o processo de desembarque (e alfândega) não foi dos mais rápidos e a folga começava a diminuir perigosamente. Quando finalmente me vi com a minha mochila disparei em direção à central de camionagem que, por sorte, não ficava muito distante do terminal dos barcos. E ali fui eu, num misto de corrida e marcha forçada, carregando umas boas dezenas de litros às costas (tudo o que era necessário para três semanas por aquelas paragens).

Com os bofes já de fora entro na central e procuro o guichet da companhia responsável pela "minha" camioneta. Em quase desespero, vendo-me na eminência de ficar com o planeamento da viagem baralhado, e para poupar cada precioso segundo, recorri ao famoso "portunhol" (no meu caso, de qualidade acima da média porque vejo muitos filmes). Fiz o pedido e o pagamento, sempre em ritmo acelerado, perante o olhar admirado da funcionária. Já com o bilhete nas mãos, procurei o primeiro écran que me indicasse para onde devia ir. Quando encontrei um, percebi o porquê do espanto da mulher que me atendeu: ainda faltava uma hora. Eu tinha-me esquecido de repor a hora argentina ao cruzar o rio!

Foi o alívio... de repente, tinha uma horinha inteira para descansar, dar uma volta pelas lojas e observar as pessoas. E vão duas...


Foz do Iguaçu


Saído de Puerto Iguazu, eu tinha atravessado a fronteira para ir ver o lado brasileiro das famosas cataratas locais. Após a visita a estas (que é relativamente rápida), resolvi dar uma volta por Foz do Iguaçu, a cidade que fica próxima. Sabendo que havia por ali uma grande barragem que era um ponto de visita aconselhado, apanhei um autocarro para a dita. Uma vez na receção do complexo, pude assistir a um filme sobre o grande empreendimento (vaiado por dezenas de argentinos por ser falado em Português e legendado em Inglês), findo o qual a ideia era apanhar um transporte gratuito que me levaria à barragem propriamente dita onde poderia visitar o interior da mesma.


Como aquela gente era quase toda de excursões, entraram nos seus autocarros e partiram para a barragem, deixando-me ali praticamente sozinho. Sentei-me, andei para trás e para a frente, fui à loja de recordações e, quando já passava da hora do transporte, resolvi perguntar, no balcão de informações, o que se passava. Era simples: eu tinha-me esquecido, mais uma vez, de mudar a hora e o autocarro já era. O próximo, só dali a umas horas. E vão três...

À terceira, a lição foi aprendida e nunca mais me esqueci de mudar a porcaria da hora. Até mais ver...




sábado, 5 de novembro de 2011

King Diamond e a correia maldita

É preciso dizer que isto é o bilhete do concerto?
1990/03/02

A caminho de um concerto

Eram ainda os reflexos dos fantásticos anos 80. King Diamond (então, um dos nomes grandes do Heavy Metal) tocava em Madrid. Um colega meu de liceu, fan absoluto do músico dinamarquês, resolveu ir lá vê-lo e logo entendi aproveitar a oportunidade para matar dois coelhos com uma só cajadada: viajar e ir ver um belo concerto. Não levou muito tempo até que surgissem mais dois turistas dispostos a partilhar as despesas da viagem e o exíguo espaço no frágil Fiat Panda que a mãe do meu colega pôs à sua disposição.

Organizada a viagem e reunida a tropa, partimos animadamente rumo à capital espanhola onde, no fim do dia nos esperaria, no pavilhão do Real Madrid, um trio de artistas composto pelo já referido rei do Black Metal (nessa altura os noruegueses ainda não tinham dado um rumo completamente diferente ao género), os suecos Candlemass e os catalães Legion.

O caminho até Madrid correu despreocupadamente. O carro portou-se bem, o tempo estava bom, os espíritos estavam alegres e o condutor (cuja carta de condução ainda tresandava a nova) foi do mais competente. A banda sonora da viagem foi - como se adivinha -, muito Heavy Metal.

Em Madrid, após deixarmos as coisas num hotel junto da Gran Via, resolvemos ir dar uma volta até ao sítio do concerto, numa espécie de reconhecimento de território. Depois, iríamos conhecer a cidade.

Quando estávamos próximo do recinto, um de nós avistou uma personagem familiar, a cerca de cem metros: era, nada mais, nada menos, do que o próprio King Diamond. Imediatamente concordámos que havia que chegar até ele para fotografias e autógrafos. O problema era que ele estava do outro lado da avenida (o enorme Paseo de la Castellana) e ainda havia uma rede pelo meio. Acelerámos tentando chegar a um sítio sem barreira e onde pudéssemos, num ápice, atravessar a via. Infelizmente, o dinamarquês, andando calmamente, venceu o bólido italiano e já não o apanhámos. Como era fim de tarde e ainda faltavam algumas horas para o espetáculo, fomos à nossa vida.

O concerto correu bem embora tivéssemos a desilusão de não ver os Candlemass que, afinal, se tinham cortado à digressão (sem que por cá se avisasse os compradores dos bilhetes).

King Diamond estava na fase do soberbo álbum Conspiracy e levava para palco todo o imaginário dos seus discos. O concerto acabou com o artista sendo colocado num caixão que, ao pegar fogo, se desfez.

Era tudo como se esperaria, para gáudio do público.


O dia seguinte

Acordámos com o propósito de irmos passear o nosso chame lusitano pelas artérias locais. Demos uma volta e, quando já tínhamos passado pela Cibelles e nos encaminhávamos para a Gran Via, o carro avariou. De repente, o espírito geral alterou-se radicalmente: no meio do intenso trânsito vimo-nos obrigados a empurrar a casca de noz, tentando sair do meio da avenida e chegar a um sítio onde pudéssemos deixar a máquina. Algumas buzinadelas, algumas bocas e lá alcançámos uma zona de estacionamento. Aí, pudemos embasbacar-nos com a forma local de arrumar o carro: uma pancada no carro da frente, uma pancada no carro de trás e a coisa fica feita (e a situação repetiu-se várias vezes enquanto por ali andámos).

O que fazer? Havia que encontrar uma oficina. Fomos na direção do Parque do Retiro, perscrutando as ruas mais desafogadas e onde talvez houvesse quem nos pudesse valer. Demos por nós andando quilómetros sem qualquer resultado: apenas apanhávamos locais de recolha de automóveis. Resolvemos ir para o centro da cidade, sempre alerta procurando um mecânico. Aqui e ali, encontrávamos algo que nos parecia ser de interesse mas, fatalmente, revelava-se meramente um parque. Uma oficina, propriamente dita, não se encontrava. E o tempo passava, e a cidade ia sendo vista... Quando já estávamos na zona da Plaza de España, entrámos numa espécie de silo onde tivemos a simpática ajuda de um empregado que andou às voltas com uma lista telefónica mas... nada. Não se arranjava um mecânico porque era Sábado!

Finalmente, alguém teve uma epifania e se lembrou do equivalente espanhol ao nosso ACP. Arranjou-se o contacto e mandou-se vir a "ambulância". Uma vez esta chegada, o mecânico disse-nos que o problema era de uma correia que se tinha partido. Reparada a avaria, o rapaz avisou-nos de que só dava garantia da reparação para pequenas voltas ao redor da cidade e que teríamos sempre de ter cuidado com as paragens. Mas a nossa volta era maior, muito maior...

A coisa começava a ficar preta. Todos tínhamos de estar em Lisboa na Segunda-Feira (eu até tinha um exame), e era absolutamente essencial que, no dia seguinte, estivéssemos sossegadamente em casa. Só podíamos arriscar e fizemo-nos à estrada, o bom do Pimentel com o coração na garganta já que era a ele que cabia manter a máquina em funcionamento.

Um Fiat Panda...
As centenas de quilómetros que separam Lisboa e Madrid pareceram duplicar. A noite começou a cair quando o Panda já rolava há um bom tempo e a confiança instalava-se em nós: íamos chegar sãos e salvos. A certa altura, deparou-se-nos uma serra e de novo surgiram receios de que o carro não aguentasse. Para agravar a coisa, contavam-se histórias de fantasmas e assombrações, o que colocou preocupação acrescida na cabeça do "motorista" que já se imaginava com o carro novamente avariado, no meio de uma serra, durante a noite escura e - sabe-se lá -, com almas a rondarem-nos. Fizemos-lhe a vontade e calámo-nos para que ele se pudesse concentrar na condução. E para termos a certeza de que não o incomodávamos, adormecemos.

Ocasionalmente, eu acordava para ver onde estávamos. O meu colega tentava manter-se desperto com doses cavalares de Thrash Metal (que não nos beliscavam, por um momento que fosse, o sono) e assim se manteve firme ao volante. Ao chegarmos a Badajoz, surgiu o primeiro sinal de trânsito na viagem. Acordámos para experimentar o frisson da coisa: se o carro parasse, podia não voltar a andar. O sinal vermelho aproximava-se, cada vez mais lentamente porque a ideia era não ter de parar. Devagar, devagarinho, a arrastar, quase quase parado mas com a roda ainda a mexer e... o sinal fica verde. Respirámos todos de alívio e ainda mais quando, daí a pouco, entrámos na santa terrinha. Sentimos que aqui, mesmo que o carro resolvesse, finalmente, ter uma birra, tudo se comporia.

O Pimentel foi um herói. Fez a viagem Madrid-Lisboa de uma assentada, durante a noite, combatendo o sono e o medo e com a responsabilidade de por mais três pessoas sãs e salvas em casa.

Era para ter sido um fim de semana de música e diversão mas tudo veio abaixo por causa de uma correia... maldita.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O "gaijin" esfomeado

2003/04

A viagem para Tóquio tinha sido longa, como se imagina. Durante a noite não tinha dormido muito e, para quebrar a monotonia da insónia, apenas me restava ir espreitando as informações que apareciam nos écrans que já não passavam filmes. O meu parceiro do lado, um miúdo chinês, tinha descoberto que a British Airways era generosa e dava massas lá atrás. De vez em quando, divertia-me com a agitação com que aquela criaturinha se levantava e, após alguns minutos voltava com mais uns noodles que sorvia com grande gosto, sentado descalço e com o maior à vontade.

Chegado ao aeroporto de Narita, o cansaço que pudesse sentir por apenas ter passado pelas brasas num voo intercontinental foi suplantado pela natural curiosidade de quem se via, finalmente, no mítico Japão. Preparada que levava a minha viagem ao pormenor, com passe de comboio, horários detalhados (e que por ali são cumpridos quase ao segundo), alojamento marcado, etc., apenas me preocupei em gozar o ambiente. Este, por sinal, não era muito movimentado já que era um Sábado de manhãzinha.

Trocado o vale do passe da Japanese Railways pelo passe propriamente dito, apanhei o comboio para a megalópole nipónica sem me preocupar com mais nada que não fosse apreciar tudo aquilo. Estava na terra do sol nascente, num dos países tecnologicamente mais avançados do mundo, e nem me passou pela cabeça que pudesse acontecer uma coisa tão ridícula quanto não haver onde levantar dinheiro...

Sim. Eu não cambiei os euros que levava no aeroporto. Foi ideia que nem aflourou o meu pensamento. Afinal de contas, o país devia estar cheio de máquinas, certo?

Bom, chegado a Tóquio apanhei o comboio urbano que me levaria até perto do meu hotel. Este era bastante afastado do centro da cidade e, na verdade, de tudo. Embora estivesse em plena cidade, era uma boa caminhada até ao transporte que eu usaria enquanto lá estivesse. Coisas de quem quer poupar.

Por esta altura, já começava a sentir um certo desconforto nos pés com os quais eu não tinha tido cuidado durante a viagem. Sempre calçado, estavam agora um bocado inchados, o suficiente para sentir que vinham ali umas bolhas sérias...

Ao fim de um bom bocado tive a primeira dúvida no caminho e dirigi-me a um grupo de homens que estavam sentados junto a um campo de basquete. Eram já de alguma idade e com um aspeto muito pouco cuidado. Um deles levantou-se e acompanhou-me até à entrada do hotel que, afinal, ficava apenas a cem metros.


Na receção, enquanto fazia o check in fui informado de que no Japão nem todas máquinas "multibanco" aceitavam cartões de crédito pelo que não podia levantar dinheiro em qualquer lado. Olhando para o mapa, apercebi-me de que o único sítio onde o poderia fazer eram umas máquinas a muitos quilómetros dali. Paciência.

A fome começou a apertar e, juntamente com esta, a sede. Mas, se a segunda ainda se consegue matar nalgum jardim, a primeira já é bastante mais complicada. Urgia ir às longínquas máquinas arranjar dinheiro. Resolvi que nesse dia o meu passeio passaria obrigatoriamente pelas instalações bancárias.

Quando, ao fim de muito tempo, muitos quilómetros de passeio e já muitas dores nos pés, cheguei à esquina de uma avenida onde ficava o banco com as máquinas mágicas, a alma caiu-me aos pés: o banco estava fechado e os ATM não eram acessíveis do exterior. Ou seja, não havia nem haveria dinheiro durante todo o fim de semana! E ainda era, apenas, Sábado pela hora do almoço...

Eu tinha os bolsos com dinheiro e não o podia gastar e tinha cartão de crédito e não o podia usar. Rezei e ansiei por estar em Portugal com a sua extensa, moderna e útil rede Multibanco que não deixa ninguém ficar mal, independentemente da sua origem, raça e credo.

A pergunta que se faz é, porque razão não usei o CC num supermercado ou num restaurante? Pela simples razão de que não vi nada aberto. :) Sim, a menos que fosse alguma coisa de luxo, tudo o resto que estivesse aberto eram negócios pequenos.

Aguentei. Enrijeci. Esqueci.

Na Segunda-Feira, acordei com a esperança de uma vida nova, um renascimento do meu estômago, uma aurora da alimentação. Arrastei-me até ao centro da cidade (nessa altura tinha seis - 6 - bolhas nos pés que já ganhavam uma coloração verde) e fui a uma estação dos correios. No guichet do câmbio, entreguei as minhas notas de euros ansiando por ter nas mãos os yens da salvação. Para que tal sucedesse ainda tive de aguardar que o esmerado funcionário analisasse cuidadosamente as notas (o euro era recentíssimo), seguindo um dossiê com reproduções minuciosas e ampliadas da divisa europeia. 


Quando, após muita verificação, me vi com yens, não hesitei um momento e acelerei (bolhas que se lixassem - eu era um homem com fome) rumo à loja de conveniência mais próxima. À entrada, todos os empregados me cumprimentaram (onde quer que estivessem), sorrindo, mas a verdade é que eu é que estava felicíssimo por os ver. E ainda estava mais feliz por poder pegar numa bebida e num snack qualquer e matar a porra da fome. À saída, novamente uma saudação e agradecimento geral ao gaijin que se pisgava para, ao fim de dois dias, levar algum alimento à boca.

Deixei escorrer pela garganta o café com leite fresco com a mesma alegre voluptuosidade com que as meninas molhadas da publicidade emborcam Coca-Cola, arrefinfei o dente a um pão com qualquer coisa que me soube tremendamente bem e senti aqueles sabores artificiais de comida de plástico invadirem-me o espírito como uma primavera que desponta e enche os campos de vida.

De yens no bolso e estômago ressuscitado, sentia-me novamente pronto para ser turista a 100%.

O pior eram as seis bolhas...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

2500 km por Portugal - parte 5 (2011/10/02)

Casa de xisto em Martim Branco
Martim Branco


A ida a Martim Branco justificava-se, mais uma vez, por esta aldeia pertencer às “aldeias de xisto” e, embora já tivesse reparado que a localidade em questão não era particularmente interessante, tinha-me parecido minimamente merecedora de uma volta.

Após mais umas voltas e contravoltas pelo campo, acabei por chegar ao destino. Diga-se de passagem que aquilo que eu levava marcado para fazer era uma caminhada com início na aldeia mas, mal parei o carro fui invadido por uma mistura de preguiça e raiva ao forte sol e, cobardemente, entreguei as minhas armas logo ao primeiro tiro. Segui em frente com o carro, percorrendo vagarosamente a aldeia até chegar à “meta” do GPS e que era, no fim de uma estrada.

Cedo reparei que, ao contrário do que acontece em Sarzedas, Martim Branco tem, de facto, casas de xisto e até parece tê-las em número suficiente para se poder falar de efeito de conjunto.

Estive quase para sair do carro e ir dar uma voltinha até junto da ribeira, onde estão várias casas “bonitas” mas, como estava prisioneiro da lei do menor esforço, deixei a viatura deslizar, deslizar até sair da terra, completando, assim, uma visita quase relâmpago.

Vale a pena ir a Martim Branco? Talvez pela caminhada e só se um passeio do tipo for novidade. Caso contrário, talvez haja coisas muito melhores para fazer...

Apontei-me para Castelo Branco e lá fui, seguindo as indicações nas boas estradas. O caminho entre Martim Branco e Castelo Branco (tanta brancura que há por aquela zona) é bastante agradável, com momentos de paisagem grandiosa, até.



Castelo Branco

Um casarão "Português Suave"
Ao chegar à capital de distrito, a fome apertava-me fortemente e resolvi ir conhecer um dos centros comerciais da cidade: o Forum.

Quem tenha por hábito visitar centros comerciais já se deve ter apercebido de que acabam todos por ser iguais: as lojas são as mesmas, os comes e bebes são iguais, os cinemas são da mesma empresa. Ora, se é verdade que isto tira quase toda a “emoção” que pudesse existir, também não se pode negar que, onde quer que estejamos, já sabemos que, ao chegarmos, temos o que queremos. No caso, eu queria qualquer coisa rápida que me forrasse o estômago. Comi um hamburguer.

Satisfeita a necessidade alimentar e complementada esta com um revigorante café, guiei até ao centro de CB para gastar a tarde conhecendo a cidade. Não era a primeira vez que ali ia mas, desta feita, estava como turista mais “a sério”.

Passei pela estação de comboio, em frente da qual há uma agradável avenida com bastantes árvores. Conforme percorria a artéria, comecei reparando que havia várias moradias abandonadas ou perto disso. Casas dos anos 40 (?), de bom aspeto e que, vítimas daquele mal misterioso que assola a nação, estão entregues aos bichos. Foi um mau começo...

Deixei o carro por ali e dirigi-me para a zona central de CB, onde costumava estar o quartel de cavalaria. Os edifícios ainda lá estão mas, agora, afetos a serviços civis como, por exemplo, salas para acesso à internet. No cimo da grande “parada”, encontra-se um grande e moderno edifício que é a biblioteca municipal. A zona envolvente está arranjada em estilo contemporâneo. O todo deixa-nos uma agradável imagem de dinamismo.

O que é isto?!
Junto ao edifício principal do antigo quartel (que deve ser atravessado para ver os paineis de azulejos no interior, retratando diversas fases da vida militar) está uma “bizarra” construção: uma espécie de “grua” feita em cimento e acabando numa grande gaiola. Desconheço qual a ideia daquilo, se seria uma tentativa de miradouro sobre o Campo Mártires da Pátria ou simplesmente um delírio de alguém que escolheu a profissão errada mas o facto é que a construção é uma nódoa naquela área.

Defronte, fica o grande largo que tem, no topo, o famoso relvado com o nome da cidade escrito com flores. É um dos bilhetes postais da cidade. Na área pelo meio há agora diversos bares e cafés, com as respetivas esplanadas. Os nativos chamam àquilo “as Docas”, o que só pode merecer o comentário óbvio de que são docas... secas.

O Campo Mártires da Pátria está bem arranjado, com gosto, mantendo um ar de grande espaço aberto mas, ao mesmo tempo, servindo as pessoas. As construções existentes são recentes e agradáveis. Das vezes que tinha ido a CB, aquele local sempre me tinha parecido um vazio mas, agora, isso já não acontece.

Dei uma volta pela zona, voltando quase ao ponto de entrada para ir ver o bonito edifício “Português Suave” da Caixa Geral de Depósitos. Sou um fã deste estilo arquitetónico que a ditadura salazarista nos deixou. Criticada por muitos (provavelmente os que gostam do caos estético que se nota hoje em dia), a corrente que teve em Raul Lino um dos grandes teóricos ainda hoje embeleza as ruas das nossas cidades e vilas com os seus edifícios sólidos e elegantes. Que pena não haver uma cidade inteiramente assim. Seria Património da Humanidade com toda a certeza.

Cineteatro Avenida
Resolvi ir ver o centro histórico de CB e atravessei novamente a praça, fazendo uma diagonal para contemplar outra construção “suave”: o Cineteatro Avenida. É um bonito edifício que hoje serve de centro cultural. Embora tenha tido alterações que certamente o desvirtuaram (portas, por exemplo), continua a chamar a atenção de quem por ali passa. Olhei e reolhei o cartaz em busca de algo que acontecesse durante a minha estadia para poder ver o cineteatro por dentro mas, infelizmente, tudo parecia acontecer antes e depois da minha visita.

Subi para apanhar a Rua da Sé. Antes, num largo, um bonito edifício antigo, de ar forte, fez-me parar para uma foto. Ao seu lado um outro, onde parece estar (ou esteve) qualquer serviço ligado ao PSD exibe um estado de semiabandono Cem metros mais à frente, encontra-se a sé de Castelo Branco, também conhecida como “Igreja Matriz”, “Catedral”, “Sé Catedral” ou, conforme estava no mapa que eu trazia “Sé Concatedral”. Estava fechada.

(continua)

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os vendedores ambulantes argentinos

Catedral de La Plata
2006/12

De Buenos Aires a La Plata são cinquenta e tal quilómetros que se fazem calmamente, apanhando o comboio na estação de Constitucion. As composições à disposição (quando lá estive) eram de conforto mínimo, praticamente só em chapa, por fora e por dentro, e claramente feitas para irem resistindo...

Entre a metrópole do Rio da Prata e a cidade que foi construída para vir a ser a nova capital do país das pampas, a viagem pouco difere, numa boa parte do trajeto, daquelas que fazemos através das zonas suburbanas de qualquer urbe. Mas há um pormenor na viagem que lhe dá uma graça absolutamente ímpar: os vendedores ambulantes.

Da primeira à última paragem, sucedem-se nas carruagens os vendedores (e pedintes, também), numa espécie de ordem perfeitamente estabelecida e que não é rompida por ninguém: um vendedor por carruagem, o próximo só entra quando o primeiro sair. À primeira poderíamos pensar que fazer uma viagem - que para o turista é sempre de prazer -, sendo o tempo todo incomodado pelo pregões dos comerciantes, é uma coisa irritante. A verdade é que os vendedores da linha BA-La Plata não se limitam a mostrar os seus produtos: eles envolvem-nos com enormes histórias, descrevendo minuciosamente a qualidade das coisas que vendem de uma forma tão fluente e até colorida que rapidamente chegamos à conclusão de que aquilo que julgaríamos ir ser um incómodo será, na realidade, um festival de gente castiça.

O vendedor chega à carruagem. Para no início. Apresenta-se e cumprimenta a geral. De seguida, começa  a falar das coisas que traz consigo e de como elas são boas e a um excelente preço. Depois, percorre a carruagem e, ocasionalmente, deixa "amostras" às pessoas para, finalmente, na volta, recolher os produtos rejeitados e se fazer pagar por aqueles que forem tomados. A coisa pode variar, é claro, mas, de uma forma geral é assim:

- Senhoras e senhores, muito bom dia! Trago-vos hoje mais um produto com a grande qualidade a que já vos habituei. Trata-se de um guia das estradas do nosso país que, para além dos caminhos do norte, do centro e do sul, inclui igualmente os mapas das principais cidade da Argentina, tudo em formato de bolso para vossa comodidade. E se pensam que este utilíssimo livro é vendido a um preço elevado, enganam-se. Por apenas X pesos - repito -, por apenas X pesos, podem ter na vossa mão este guia (vejam como cabe facilmente num bolso) ...

(o vendedor folheia o livro, põe-no e tira-o do seu bolso)

- ... e como é fácil manuseá-lo. Por apenas X pesos, relembro-vos... Vejam, consultem e apercebam-se de como está a ser vendido a um ótimo preço. É um produto de qualidade e de confiança.

(o vendedor distribui alguns exemplares pelos passageiros)

- Mas há uma coisa que ainda não vos disse: é que, como se não bastasse a informação relativa às estradas, ainda é possível saber quais as principais linhas de comboio que atravessam o país. E, agora, pensem bem: tudo isto por X pesos. É ou não é uma grande compra? Claro que é. E está à venda apenas hoje, senhoras e senhores. Apenas hoje.

E a coisa continua neste tom, até à próxima paragem, altura em que o vendedor avança para a próxima carruagem, sendo imediatamente substituído pelo próximo cromo que, caso seja um pedinte, age da seguinte maneira: cumprimenta as pessoas e logo começa a entregar em mão ou a deixar junto a nós uns cartõezinhos com personagens da Walt Disney, em poses muito tristes e com dizeres do tipo "Nunca me esquecerei de ti". Na volta, o pedinte (provavelmente uma criança), espera receber uns trocos juntamente com os cartões.

E o que se vende no comboio? Roteiros de estradas, conforme já contei (e ainda hoje me arrependo de não o ter comprado porque custava, realmente, uma absoluta ninharia), lápis de cor, cadernos, carteiras, revistas... de tudo um pouco.

No fim da linha, temos a cidade de La Plata que vale bem uma visita para ver o seu teatro, o museu (em estilo antigo, com grandes e vestutas estantes), o edifício feito por Le Corbusier e a belíssima praça central com o edifício da câmara municipal e a magnífica catedral neogótica a cujo topo se pode subir. Ir a La Plata é algo fundamental para quem for a Buenos Aires.

Quanto aos vendedores, fica aqui um vídeo a partir do qual poderão aceder a outros para verem este giríssimo espetáculo:


domingo, 30 de outubro de 2011

À nora por Cantão

1996

Hoje, por força da mania de uns e da ignorância de muitos, chamam-lhe Guangdong (em Cantonense) ou Guanzhou (em Mandarim) mas, em 1996, Cantão era o nome que toda a gente dava à província e à cidade chinesas que tanto dizem a quem se interesse pelas coisas do "nosso" Oriente.

Era comum os portugueses residentes em Macau irem de passeio a Cantão e fazerem-no recorrendo aos serviços de taxistas chineses, geralmente parentes ou conhecidos de pessoas que tinham negócios dos dois lados da fronteira e em quem os residentes depositavam confiança. Isto era assim porque, por força da burocracia chinesa, para que um carro de Macau pudesse circular na China, tinha de também estar lá registado, andando, portanto, com duas matrículas: uma para Macau e outra para território chinês. Como a maioria dos portugueses não estava para estas complicações (e outras que viriam atrás), o esquema dos taxistas contratados por um dia era um êxito junto da comunidade lusitana.

A minha irmã tinha-me prometido uma ida a Cantão (que ela também não conhecia) e eu ansiava por esta incursão mais profunda na China, de cujo gigantesco território eu só conhecia Zhuhai e Shenzhen, ou seja, as cidades que faziam fronteira com Macau e Hong-Kong, respetivamente. O plano do passeio era atravessar a fronteira e encontrarmo-nos com um taxista cunhado de uma chinesa muito popular entre as portuguesas por as abastecer de atoalhados locais (produto que parecia por as nossas senhoras em êxtase).

Mas, há dias em que tudo parece correr mal...

Logo ao saírmos das instalações alfandegárias, a minha irmã deu-se conta de que se tinha esquecido das folhas com as indicações dos sítios a ver em Cantão. O problema acabava por ser menor já que o taxista que nos levaria já conhecia o roteiro. Confiantes de que não perderíamos nada do que contasse, avançámos de forma otimista para o local do encontro com o motorista.


Esperámos, esperámos e, do táxi, nada. Ao fim de algum tempo, e com o nervosismo a instalar-se, a minha irmã conseguiu falar com a comerciante chinesa que lhe informou que o seu cunhado tinha sido recentemente multado pela polícia por circular em zonas para as quais não tinha licença e que, por isso, não nos poderia levar. A coisa complicava-se...


Falha-me a memória no que toca à forma como arranjámos um novo taxista. Não me lembro se a comerciante arranjou uma alternativa à queima ou se a minha irmã "engajou" um novo motorista ali mesmo mas a verdade é que tínhamos como ir a Cantão.

Este motorista alternativo era um sujeito novo, muito sorridente, com aquele ar de boa pessoa que nos habituámos a ver nos filmes de tom paternalista. Estava contente por nos levar, claro, já que aquilo que lhe pagaríamos, sendo barato para nós, era, para ele, um negócio da... China (piada fácil, bem sei).

Só havia um problema com o taxista: ele não falava uma só palavra de Português ou Inglês. Para cúmulo da coisa, apesar de ter um mapa de Cantão, este estava unicamente escrito em carateres chineses pelo que, para nós, era tão inútil quanto uma lanterna ao meio-dia. Estávamos lixados...

Conformados com a forma ruinosa como a "expedição"a Cantão estava a decorrer, acabámos por nos rir da situação e preferir gozar as bonitas paisagens pelas quais íamos passando. Aqui e ali, o motorista apontava-nos alguma coisa fazendo comentários dos quais, como é natural, nós não percebíamos patavina. Sorríamos...

Após bastante tempo, chegámos finalmente à cidade de Cantão onde o motorista nos deixou junto a um parque. A escolha do local tinha sido feita olhando para o "enigmático" mapa da cidade que havia a bordo e, quase ao calhas, escolhendo um ponto. Como se tratava de uma área verde e grande, as hipóteses de ser escolhida tinham sido maiores...

A única fotografia em Cantão
Combinámos com o taxista que ele nos recolheria ali a uma certa hora e, ávidos de pisar Cantão, saltámos do carro em direção a um grande muro "à chinesa" onde tirei a única fotografia que tenho de todo esse dia (o que ainda hoje me deixa aparvalhado).

Na entrada do parque tivemos de comprar um bilhete. Uma vez dentro do recinto, demos por nós num verdejante local onde, ao fim de alguns minutos, passou por nós um grupo de rapazes brancos, o que nos fez pensar que talvez estivéssemos num dos sítios que fizessem parte do circuito turístico local. Foi um pequeno consolo, é certo mas, ainda assim, serviu para nos animar.

Ao fim de algum tempo, e visto tudo o que havia para ver naquele grande jardim, aproximou-se o momento do reencontro com o taxista. Pontualmente, lá estava ele à nossa espera, sempre com o seu sorriso.

À nossa frente estava a repetição da viagem feita desde Zhuhai com a agravante de, antes de ganharmos a estrada, termos de romper o trânsito de uma cidade chinesa em hora de ponta. Desesperámos sentados naquele táxi, com tudo fechado, percorrendo vagarosamente ruas feíssimas no meio de carros que surgiam de todo o lado.

Ocasionalmente, um pormenor resgatava-nos da profunda monotonia em que estávamos mergulhados. Lembro-me sempre da oficina de um escultor que tinha, alegremente reunidos junto à entrada, a Virgem Maria, duas ou três deusas chinesas e alguns bonecos da Walt Disney onde estaria, com toda a certeza, um dos anões da Branca de Neve. Era um grupo com um aspeto hilariante.

Passada uma eternidade, libertámo-nos dos subúrbios da cidade de Cantão da qual apenas guardo dois ou três instantâneos na minha cabeça: o parque, uma enorme lagosta na parede de um prédio onde havia um restaurante e, claro, as esculturas.

Já na estrada, o taxista carregou no acelerador, para alívio de todos: nosso, que não víamos hora de voltar a Macau e dele, que devia estar cheio de receio de ser apanhado e multado por andar fora da sua área de serviço. O pobre talvez se tenha ainda assustado algumas vezes ao passar por alguns dos muitos bonecos imitando polícias que existem ao longo da estrada. A ideia é óbvia: enganar e levar a que os automobilistas andem dentro da linha...

Chegados a Zhuhai, a minha irmã pagou pagou ao taxista o que havia sido combinado de manhã e ainda acrescentou uma gorjeta, tendo na altura comentado que, embora sendo barato para nós, aquilo devia ser uma semana de trabalho para o pobre homem. Como que dando-lhe razão, o taxista deu-nos um sorriso ainda maior do que o costume.

Talvez um dia volte àquelas paragens. Se o fizer, não deixarei de ir, finalmente, conhecer Cantão como deve ser, i.e., com um guia turístico debaixo do braço. Até lá, fico com a memória do mais atabalhoado passeio que alguma vez dei...

sábado, 29 de outubro de 2011

Um Tarzan no GP de Macau

1996

O Grande Prémio de Macau é uma daquelas provas automobilísticas que faz parte do imaginário de quem aprecia "as coisas dos carros".

Estando no então "território chinês sob administração portuguesa" e tendo a oportunidade de arranjar bilhetes gratuitos por via de cunhas, não perdi a hipótese de assistir à prova bem como, previamente, aos treinos, nos dias que antecederam a corrida.

O meu lugar era no fim de uma reta, antes do Hotel Lisboa e tinha-me sido prometido por quem já tinha experiência da prova, um fartote de acidentes já que os carros, ali, eram obrigados a fortes desacelerações antes de virarem à direita e era comum acontecerem "precalços"...

Na altura, André Couto era a grande esperança lusa na corrida e juntava à representação da nação o facto de ser filho da terra. Se bem me lembro, a coisa não lhe saiu particularmente bem naquele ano. Mas, ali estava eu, sentado nas bancadas, começando a perguntar-me que raio de piada havia em ver, de dez em dez minutos, passar uma série de carros para, depois, ficarmos para ali à seca quando, por força de me entreter a brincar com a minha máquina fotográfica, esta me cai das mãos e passa pelo meio dos degraus que compunham a bancada (que era do tipo desmontável), indo aterrar uns bons metros mais abaixo numa zona de terras empapadas.

A máquina não era grande coisa mas era a que eu tinha e, ainda por cima, onde estava o rolo com as fotos daquelas minhas férias. Nem pensar em deixá-la perdida à espera que um caranguejo a encontrasse...

Levantei-me e, tentando não perder a referência a onde estava sentado, saí das bancadas. Expliquei a um segurança filipino o que tinha acontecido, este ficou um pouco à nora mas lá me deixou passar para as traseiras das bancadas onde me esperava uma selva de "tubos" de bambu. Como quem vive na selva é o Tarzan, achei que a única maneira de chegar à minha máquina seria mesmo imitar o homem-macaco. E por ali fui eu, na invejável forma física dos vinte e poucos anos, balançando e rodopiando pelo meio do "canavial" - qual trapezista, por vezes -, até chegar ao ponto onde tinha avistado a câmara. Fielmente esperando pelo dono, lá estava ela, meio enterrada no lodo. Recuperei-a e refiz o caminho, desta feita com mais calma.

No fim, esqueci-me de bater no peito mas devia tê-lo feito para comemorar o único momento emocionante do "meu" Grande Prémio de Macau.

Ah... e acidentes? - nem um...

O sereno madeirense

Praia de Sâo Vicente
2008/12

O homem estava sentado na paragem de camioneta em São Vicente, sozinho e olhando serenamente para o monte que ficava defronte. Uns momentos depois de também eu me sentar no banco perguntou-me pelas horas. Por estarmos ali apenas nós dois e aquela parte da ilha da Madeira não ser, nem de longe, um ponto de grande movimento, começámos a conversar para ocupar o tempo que ainda restava para a chegada da carreira que me levaria de volta ao Funchal.

Uma vez dentro da camioneta, sentámo-nos ao lado um do outro, um em cada lado do corredor e continuámos a praticar sobre diversas coisas. Era ele que dizia quase tudo, lembrando e contando pequenas histórias suas que iam desde a infância por aquelas paragens até à guerra colonial, todas elas com toques característicos que me deleitavam. A sua pronúncia madeirense, em grau ligeiro que lhe emprestava um tom ponderado ao discurso, assentava bem ao seu olhar claro e calmo, vagamente perdido.

- Nós partimos daqui, um regimento cá da zona, e fomos para a Guiné. Eu tinha lá uma preta que me tratava da roupa e... "coise".

O homem terminava quase todas as frases com um sumido "coise" que eu achava cada vez mais ternurento. Notava-se nele o ar do solitário, condenado pelas circunstâncias da vida a "andar por ali". Falou-me da sua única vinda a Lisboa "durante cinco dias para andar com a minha filha em hospitais". Da cidade nada viu e a filha, perdeu-a por cá.

- Aqui é seguro mas, no outro dia fui roubado, na Ribeira Brava. Andava a passear na praia e três sujeitos chegaram perto de mim e "coise".

O seu semblante não variava muito consoante a história fosse divertida, triste ou revoltante. O olhar, sempre apontado lá para a frente da camioneta, como se procurasse no fundo da estrada as imagens do que tinha vivido, apenas aqui e ali um pouco alterado, quase impercetivelmente, como no caso da recordação da morte da filha....

Disse-lhe que estava a gostar da Madeira, que era bonita e que estavam a ser umas boas férias. Apeteceu-me acabar com um "coise" mas isso só faria de mim um fraco imitador.

Quando a camioneta chegou à Ribeira Brava, o homem despediu-se de mim. Ia mudar de carreira ali enquanto que eu continuaria para o Funchal. Vi-o sair com pena minha. A conversa estava agradável e o ar tranquilo do ilhéu aveludava o passeio.

A partir dali, voltei a ter a paisagem como companhia: havia mar, sol e... "coise".


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O trilho na selva

2006/11

No parque das cataratas de Iguaçu (ou, na língua local "Iguazu"), na Argentina, há um trilho que avança pela selva adentro. O interesse de o percorrer é que passamos por uma ou duas pequenas quedas de água, escondidas e onde é possível tomar um belo banho já que formam um pequeno lago junto de si e as próprias cachoeiras não têm, nem por sonhos, a violência que salta à vista nas prima-donnas do parque.

À entrada do trilho há um aviso chamando-nos a atenção para o facto de irmos entrar numa zona selvagem onde podem acontecer encontros com animais... selvagens. Quando lá estive, olhei para aquilo mas não liguei muito. Avancei pelo caminho sem grandes preocupações mas, quando dei por mim já afastado da linha do pequeno comboio que atravessa o parque (há uma paragem perto do começo do trilho), comecei a pensar exatamente em que bicharada poderia eu vir a encontrar. Lagartos e cobras não seriam problema porque é mais o medo que têm de nós do que o contrário mas... e onças ou jaguares ou lá como chamam aos gatos grandes e bravos que vivem por aquelas paragens? Um encontro com uma onça (ou equivalente) é possível e mesmo que a dita estivesse fora do seu horário de trabalho a ideia não me agradava. Resolvi voltar para trás.

Quando já estava à espera de que o comboio passasse por ali, vi um casal entrar no trilho, da forma mais descomprometida possível. Comecei a pensar que talvez estivesse a ter zelo em excesso e que o aviso seria apenas uma coisa para situações extremas. Respirei fundo e retomei o trilho.

Dei por mim perfeitamente sozinho no caminho pelo meio do mato. De ambos os lados, arbustos e árvores e um silêncio que apenas era, aqui e ali, cortado pelo som de coisas mexendo-se na vegetação. Ah, mas que coisas? Comecei a sentir-me observado. Não ganhei medo mas, pelo sim, pelo não, resolvi pegar na única e fraca arma que tinha à minha disposição: o cinto das calças.

Enrolei a ponta do cinto ao pulso e comecei a rodá-lo vigorosamente à minha frente. Isto teve, desde logo, a vantagem de afastar as nuvens de mosquitos que se me deparavam. Senti-me mais confiante, pelo menos.

A certa altura, e após um bom tempo, comecei a ouvir umas vozes e, uns metros mais à frente, pude chegar a um ponto onde via, à esquerda e mais abaixo, uma queda de água em cujo lago dois rapazes tomavam banho. O cenário pareceu-me tão à vontade que até achei tola a minha preocupação com os bichos do mato. Cruzei-me com o casal que tinha visto antes e que já fazia o percurso de volta. Andei mais um pouco e também eu resolvi voltar para trás.


Os receios que tinha tido, agora, eram quase inexistentes. Embora mantivesse a "hélice" feita com o cinto em perfeito movimento não deixei de ir tomando atenção aos sons. A certa altura, e seguindo-se a um som nos arbustos, vejo um lagarto do tamanho de um braço aparecer no caminho, uns metros à frente. Tratava-se de mais um exemplar de um réptil muito vulgar por ali e que já aprendeu a aproveitar a comida dos visitantes, não fugindo deles. No entanto, aquele espécime era menos social e, ao ver-me, desatou numa correria que qualquer um de nós pensaria impossível em tão pequeno bicho. Patas bem levantadas, pousando só a pontinha dos dedos, o lagarto (lagartão, ficaria melhor...) desapareceu num ápice, deixando-me ali parado a apreciar-lhe a velocidade.


Continuando no trilho, ainda vi mais alguns lagartos (devia ser a hora do seu passeio), todos eles se refugiando de volta aos arbustos quando me viam. De onças, nada vi e foi melhor assim.

Conclusão: se me tivesse deixado dominar pelo receio causado pelo aviso, teria deixado de fazer um passeio agradável e de ter visto (mais) uns pontos bonitos do parque argentino de Iguaçu. Não quer isto dizer, de forma alguma, que se deva ignorar os letreiros e avisos mas apenas que se deve pensar que, se os caminhos estão abertos, é porque é para as pessoas os percorrerem e, portanto, só mesmo em situações extremas (provavelmente à noite) é que poderá haver algum problema. Há que manter uma dose de despreocupação q.b. para podermos aproveitar o que nos aparece à frente.
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