sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A bela do comboio


2008/11/03

Reparei nela enquanto, no cais de uma localidade qualquer umas paragens depois de Estrasburgo, se despedia de um grupo de jovens amigos. Observei-a levado pela necessidade de me entreter nos minutos da paragem e pelo facto de a achar atraente. Passados alguns instantes, ela estava sentada à minha frente.

Era jovem mas com aquele ar que nos deixa na dúvida, hesitantes entre a classificação de "adolescente" ou de "jovem adulta". Tinha uns cabelos bastante escuros, a pele moderadamente bronzeada e uns belíssimos olhos esverdeados que imediatamente me cativaram. Por ser desconfiada ou sentir-se insegura, tinha trazido para a cabina o malão com que viajava e esforçava-se para se acomodar sem que a sua bagagem me incomodasse. Mirei-a e preparei-me para concentrar a minha atenção na paisagem francesa.

Estávamos ambos sentados junto à janela e, naturalmente, aconteceu os nossos olhares se cruzarem uma ou duas vezes no reflexo do vidro, enquanto a França desfilava do lado de fora. A viagem era longa (mais de cinco horas) e, instalada alguma monotonia, ocorreu-me substituir os campos gauleses por uma sua nativa. Comecei a olhar fixamente para ela, sempre pelo vidro, gozando a beleza da rapariga e a ideia de criar algum ambiente. Por uma ou outra vez ela reparou no meu olhar e correspondeu, ainda que por breves segundos.

Com o passar do tempo senti aquela excitação própria de quem antecipa um "rendez vous" com uma bela mulher. A rapariga não correspondia propriamente ao meu insistente olhar mas também não mostrava qualquer incómodo até ali. Não se levantava, não mudava de lugar, não me olhava de forma reprovadora e não me dizia nada. Parecia aceitar a situação, simplesmente. Comecei a rogar pragas aos outros dois ocupantes da cabina que me impediam de tentar a sorte. A vergonha própria de uma alma tímida e o meu fraco francês (para situações destas, calculo) impediram-me de meter conversa à frente daquele reduzido público. Na minha cabeça ia imaginando frases seguras que pudesse dizer à moça, coisas nas quais não hesitasse ou ficasse parado a escolher palavras. Pensei em confrontá-la perguntando se a estava incomodando para avaliar a sua reação mas deixei a coisa arrastar-se sem me decidir.

A viagem continuou e eu resolvi subir a parada passando a olhá-la na cara, pondo de parte a "barreira" do vidro. Ia alternando, é certo, mas, agora, era quase sempre em frente que eu olhava. Ela começou a reparar mais e notei-lhe alguma atrapalhação. Senti-me um sacaninha mas, ao mesmo tempo, era tão excitante a situação (sem que se entenda isto no estrito sentido sexual) que não parei. E ia continuando a tentar perceber a idade da beleza que ali estava.

Lyon começou a ficar mais próxima e, com isso, o momento da verdade. Ia eu meter conversa com ela, ou não? Rendi-me à evidência de não ter suficiente competência linguística para dar o passo decisivo e contentei-me com a contemplação ostensiva da sua beleza. Conforme os quilómetros para a chegada iam encurtando a moça começou a mostrar nervosismo: olhava rapidamente para mim, mexia nos auscultadores, enrolava o fio nos dedos, mordia-o e repuxava-o... e eu ali, divertindo-me com aquele meu estúpido e inútil "poder" sobre uma, quase de certeza, adolescente.

O comboio parou finalmente e todos saímos calmamente. Uma vez no cais, a rapariga afastou-se e perdi-a no meio da multidão para a reencontrar uns metros à frente na descida de umas escadas. Calmamente, sem mostrar qualquer repúdio, desceu ao meu lado até que, ao chegarmos ao piso principal, nos afastámos.

Para trás tinha ficado uma divertidíssima viagem na qual me entreti a atormentar uma bonita rapariga mas na qual o verdadeiro atormentado fui eu...

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Males que vêm por bem


2008

O Pico do Arieiro, na ilha da Madeira, era uma daquelas imagens que preenchiam o meu imaginário. A montanha e as suas companheiras mais próximas formavam, no meu espírito, um daqueles cenários onde a natureza adquire contornos monumentais e nos faz sentir miseravelmente pequenos ou donos do mundo - consoante estejamos na base das elevações ou lá no cimo dos picos.

Para ir ao sítio desejado, há duas hipóteses: ou vamos em viatura própria ou apanhamos a camioneta. Eu fui na carreira (e bem me arrependi...).

A camioneta que parte do Funchal atravessa a ilha de sul a norte e o parque natural do qual faz parte o Arieiro é apenas uma paragem entre várias. Quem conhece a ilha sabe que ali ou andamos a direito junto ao mar ou é sempre a subir. Para sair do Funchal há que trepar, trepar e a camioneta assim o fez, primeiro na malha urbana e, depois, em estradas de montanha rodeadas de uma densa vegetação. A certa altura, uma cancela marca a entrada em zona de paisagem protegida. A camioneta para junto a um casarão (o Poiso) e é tempo de ganharmos a longa estrada rumo ao pico. Até aqui, tudo ótimo.

Foi com alegria que palmilhei os quilómetros até chegar ao ponto de onde partem os trilhos de montanha que nos permitem caminhar nas nuvens. E se não fosse estas estarem em excesso e não permitirem ver quase nada, eu bem teria andado e andado e só pararia quando não visse mais o caminho. Mas não foi isto que fiz: explorei um pouco os trilhos, voltei para trás, comi qualquer coisa no restaurante que há lá bem no cimo e fiz de novo o longo caminho até à "estalagem" onde tinha saltado da camioneta.

Ao chegar ao restaurante do Poiso, fui reconfortar-me com uma poncha. Naquele sítio ela é preparada bem à nossa frente, com os empregados num afã, misturando a aguardente de cana de açúcar com os outros ingredientes, garrafa atrás de garrafa que a malta é muita e bebe bem. Sim, o restaurante está numa estrada de montanha mas a perigosidade do caminho não parece fazer qualquer impressão a quem vai ali beber uma poncha que é tão boa que até se faz engarrafada para vender nos supermercados.

Restaurante "Casa de abrigo do Poiso"
Ainda faltava muito mais de uma hora para que a última camioneta para o Funchal passasse e dei por mim com a necessidade de matar o tempo. Bebi uma ou duas ponchas, comi um prego em bolo de caco (um pão achatado e ligeiramente adocicado) e sentei-me no alpendre vendo aquela gente convivendo e... bebendo.

Quando faltavam cerca de quinze minutos para a hora da camioneta, vejo, para meu espanto, um autocarro passar em grande bisga e sem fazer qualquer tenção de parar. Fiquei boqueaberto. Era a única hipótese que eu tinha de voltar para "casa" e ali tinha ela passado, quinze minutos antes da hora. Uma situação inadmissível!

O que havia eu de fazer? Comecei a pensar nas hipóteses. Ir a pé até ao Funchal seria uma questão de umas boas hora de caminhada a descer. O pior era a escuridão da estrada e o perigo de levar uma traulitada de algum carro que passasse. Resolvi pedir boleia. Mas... a quem? Eu só via era gente a dar forte e feio na poncha!

Acerquei-me de um jovem casal com ar sóbrio. Perguntei-lhes se iam para o Funchal e contei-lhes a minha situação. Lamentavam, mas iam na direção contrária. Olhei em redor: no restaurante, só gente a beber; cá fora, quase ninguém. Reparei num camião que parecia estar de partida (depois de umas ponchas...). Perguntei ao homem se me dava boleia até ao Funchal. Ele acedeu enquanto eu me justificava com a bizarria do incumprimento do horário por antecipação.


Há males que vêm por bem e a irresponsabilidade do motorista da carreira deu-me hipótese de fazer uma viagem bem engraçada com aquele homem (meia idade, de compleição miúda) que, ao longo do caminho, me foi contando histórias da sua infância e de como a Madeira era... Contou-me (com um forte sotaque que ainda lhe dava mais graça) de quando era miúdo e ia com outros gaiatos "buscar" o gado que chegava dos Açores e precisava de ser conduzido até ao destino e de como se vivia antigamente na ilha...


Enfim, foi um daqueles momentos de ternurenta partilha de histórias de vida que, de forma paradoxal, eu tenho de agradecer ao incompetente motorista que, na sua pressa, é capaz de deixar pessoas apeadas no meio de uma montanha. Obrigado, ó patifório!


domingo, 18 de setembro de 2011

Pousando com estranhos

Eu e a minha irmã esperávamos um voo para Hong Kong, calmamente sentados no aeroporto de Kuala Lumpur. Quando nos levantámos para ir em direção aos portões de embarque, um homem levantou-se e veio pedir para tirar uma fotografia connosco. Assim, sem mais nem menos. Ficámos sem saber o que dizer já que a situação era absolutamente estranha. O indivíduo colocou-se ao meu lado e outro homem que estava com ele tirou uma fotografia. Depois, colocou-se ao lado da minha irmã e... nova chapa. Agradeceu rapidamente e sumiu-se, juntamente com o companheiro (que mantinha um ar muito sério), enquanto nós olhávamos embasbacados..

Ficámos ali, tentando perceber que raio tinha sido aquilo. A minha irmã aventou uma explicação "paternalista", dizendo que alguns asiáticos gostavam de tirar fotografias com ocidentais para, depois, dizerem que eram seus conhecidos (como se isso lhes desse um estatuto especial) mas depois, pensando melhor, optou pela teoria da conspiração ligando aquela estranha ocorrência a alguns eventos à volta da questão de Timor Leste (então, em crescendo de contestação a nível internacional) e que tinham envolvido portugueses naquela zona do mundo. Supostamente, nós poderíamos ser suspeitos e os homens das fotografias seriam agentes malaios a controlarem-nos...

É claro que nunca soubemos que raio foi aquilo mas não deixo me perguntar, de vez em quando, o que raio terá acontecido com as nossas imagens.

O bairro português de Malaca

A entrada da "Praça Portuguesa"
 Quem vai a Malaca sabe que pelo menos três pontos turísticos têm a nossa marca. O primeiro é a chamada "fortaleza portuguesa", também conhecida como "A Famosa" (que, na realidade, se resume quase só a uma entrada); o segundo é o museu marítimo, que está instalado numa imponente réplica da famosa nau "Flor de la mar", naufragada na zona em 1511 (sim, o nosso tesouro mais conhecido tem um nome "espanhol"); finalmente, o terceiro ponto é o "bairro português" que, na língua local, é chamado de "Medan Portugis".

Quando estive em Malaca, a visita ao "bairro português" não estava incluída no limitado itinerário da excursão em que eu ia pelo que eu e a minha irmã tivemos de aproveitar o tempo livre, à noite, para lá dar um pulo. Mandámos parar um táxi à porta do hotel e combinámos o preço com o motorista (é assim que funciona ali). Daí a pouco tempo estávamos defronte da entrada da "praça portuguesa" e que fica entre a "Jalan Daranjo" e a "Jalan Dalbuquerque" (esta última, cruza-se com a "Jalan Texeira" e a "Jalan Squera", tudo nomes cuja origem salta à vista).

A praça é um quadrado, com arcadas sob as quais há comes e bebes. A sensação de desilusão é quase imediata para quem vá ali esperando encontrar, efetivamente, um cantinho de Portugal em tão longínquas paragens. Há estabelecimentos com nomes que nos remetem para o nosso país, como é o caso do "Restoran de Lisbon", e, de resto, mais nada faz aquele sítio ser diferente de qualquer praça ou praceta dedicada aos prazeres da comida e da bebida.

Sentámo-nos numa esplanada no meio da praça e mandámos vir umas Coca-Colas. O local estava com pouca frequência e esta era sobretudo de malaios. Provavelmente, éramos nós os únicos turistas. Como não estávamos a sentir a "portugalidade" do sítio começámos a falar um pouco mais alto na tentativa de captar a atenção de alguém que resolvesse meter conversa connosco mas os esforços foram em vão. Ao fim de algum tempo e sentindo que não havia ali nada de interesse, resolvemos ir-nos embora.

Quando já estávamos prestes a por o pé na rua, um malaio mais corpulento, de cabelo grisalho e mais comprido do que o habitual, saiu de perto da porta do "Restoran de Lisbon" e veio falar connosco. Era "George", o dono do restaurante e, muito provavelmente, a única pessoa ali que era capaz de se expressar em Português. Levou-nos ao interior do seu estabelecimento e mostrou-nos as fotografias que tinha expostas na parede, quase todas suas com personalidades portuguesas que ali tinham ido. Uma delas, Krus Abecasis era ainda tida por si como o Presidente da Câmara de Lisboa, o que já não era verdade há uns bons anos. Por delicadeza, não o informámos da sua completa desatualização relativamente à vida portuguesa.

De calções, George, o dono do "Restoran de Lisbon"
No decurso da conversa ficámos a saber que os "portugueses de Malaca" (que não falam Português mas sim um crioulo chamado "Papiá kristáng" eram obrigados a ter nomes próprios ingleses (daí o "George") e que se dedicavam, sobretudo, à pesca. O George também aproveitou para se queixar de que não lhe mandavam coisas em Português e que, embora já tivesse pedido discos e livros a uma qualquer instituição pública, nada lhe chegava.

Ao fim de uns bons minutos, despedimo-nos do dono do "restaurante de Lisboa" e fizemo-nos ao caminho. Como era noite e estávamos bastante desiludidos com o que tínhamos visto, não fomos dar uma volta pelas ruas à volta da praça.

O caminho de volta era por uma estrada com pouco movimento e pouquíssimas casas o que em nada me incomodou mas preocupou bastante a minha irmã. A noite estava morna e agradável e o sossego da caminhada - aqui e ali pontuada por algum local mais interessante, como um cemitério muçulmano -, apenas foi prejudicado pelo medo de ser atacada e violada que a minha irmã transmitia frequentemente. Passear com mulheres tem destas desvantagens...

Chegámos ao hotel sem que nada nos tivesse acontecido mas com uma sensação amarga de termos ido a uma espécie de não-atração, um local para nós mítico mas onde o fino fio da nossa identidade ameaçava quebrar-se a qualquer momento deixando ali qualquer coisa que, tendo de ter várias entidades, acabava por não ter nenhuma. Um misto de curiosidade pelo exotismo daqueles nossos "compatriotas" e de saudosismo imperial faz-nos dar mais importância a um desinteressante local que mais parece saído do cosmopolitanismo saloio de uma loja chinesa do que a verdadeiras pérolas de outras culturas existentes no resto da cidade.

É pena...

O Japonês poliglota

2003

Estava sentado nas escadas de um dos principais templos de Quioto, descansando um pouco e apreciando o ambiente, quando um velhote japonês (que a memória me faz sempre comparar com o "mestre" do filme Karate Kid) se aproximou de mim. Sentou-se calmamente ao meu lado e cumprimentou-me em Inglês. Respondi-lhe e, como se esperaria, ele aproveitou para meter conversa. "De onde é?" - é daquelas perguntas que vêm nas primeiras palavras e desta vez nada se alterou nesse clássico do convívio "internacional". Disse-lhe, em Japonês, que era de Portugal. "Ah! Bom dia!" soltou imediatamente o homem com o sorriso próprio de quem tinha podido brilhar. Estupidamente, contrapus um "Boa tarde", fazendo tenção de lhe explicar que àquela hora já seria essa a saudação própria. Apesar do cumprimento, o homem não falava Português e logo se gerou uma atrapalhação entre os dois. A coisa resolveu-se prontamente voltando ao Latim dos nossos dias para, trocadas duas frases, se entender que o simpático japonês (que era viajado) também falava Francês. Mais uma vez mudámos de língua e foi no idioma franco que ali conversámos durante uns minutos.

Por vezes, a Babel tem alguma graça.

domingo, 11 de setembro de 2011

A chegada a Nagasáqui


2003/04

Sempre que alguém pensa em ir a países como o Japão ou a China, imediatamente surge a questão de saber como é que uma pessoa se orienta numa terra onde nem sequer percebe os caracteres usados para escrever os nomes das coisas. Felizmente, em muitos países há o hábito de também colocar nas placas os nomes escritos no alfabeto latino. Ora, isto já é meio caminho andado para não nos perdermos. Com um mapa e um conhecimento mínimo da língua da nação que visitamos, então, tudo correrá bem.

Antes de ir ao Japão, inscrevi-me num curso de Japonês na Universidade Nova de Lisboa. Ao fim de alguns meses, sentia-me capaz - se não de conversar com um nipónico -, pelo menos de conseguir ir de A a B fazendo um mínimo de perguntas.

(faço aqui um parêntese para dizer que a razão de ir aprender Japonês não foi uma ida ao Japão mas sim esta que surgiu na sequência - algo distante já -, do meu interesse pela língua.)

Portanto, quando dei comigo na terra do sol nascente, não tive problemas de maior: levava um bom guia comigo, tinha planeado bem a viagem, sabia Japonês suficiente para explicar coisas básicas (o Inglês dos japoneses é pavoroso...) e por todo o lado havia indicações usando o nosso alfabeto. Nem por um momento senti dificuldades em me orientar. Até que cheguei a... Nagasáqui.

Quando desembarquei na cidade japonesa com um passado mais "ocidental" (Portugueses e Holandeses são parte incontornável da história local), tudo, mas absolutamente tudo estava escrito unicamente em caracteres japoneses. Eu tinha uma boa ideia dos "alfabetos" Hiragana e Katakana, o primeiro usado para escrever palavras de origem japonesa e, o segundo, para termos estrangeiros mas, como se isto não fosse já suficientemente complicado (cada sistema de caracteres é composto por cinquenta símbolos representando sílabas), a escrita japonesa ainda é feita da mistura de Hiragana com Kenji (vulgarmente conhecidos como os caracteres "chineses"). Ou seja, não conseguia ler as palavras (primeiro passo para as conseguir traduzir). Recorri ao meu guia e a um mapa obtido na estação de comboios. A ideia era ir ter a um hotel-cápsula que existia logo ali junto à praça da estação ferroviária. Com jeitinho, lá fui tentando perceber onde seria o hotel. Dei uma, duas voltas à praça, saí dela e entrei numa avenida, voltei atrás e... nada. Comecei a irritar-me e fui acalmar-me passeando no centro comercial da estação (nesta, não havia qualquer posto turístico).

Acalmado o espírito, resolvi tentar de novo. Quando me preparava para mais uma ronda de ruas, lembrei-me de que a polícia japonesa era conhecida pelo seu apoio aos cidadãos. Ora, eu tinha visto um pequeno posto ali perto e foi para lá que me dirigi. O posto de polícia tinha um salinha muito simples, onde estava sentado um guarda por trás de uma secretária. Para além disto, não se via mais nada, havendo unicamente uma porta que daria para outra sala. Cumprimentei o guarda e, como a conversa poderia ser mais complicada do que a minha competência linguística permitia, perguntei-lhe se ele falava Inglês. Ele disse que só falava um bocadinho (e mal, acrescento) mas que, comigo dando uns toques de Japonês e ele de Inglês nos entenderíamos. Lá tentei explicar-lhe que andava à procura de um certo hotel mas que não o encontrava. Ele pensou e informou-me de que o dito estabelecimento já não existia. Isto estava cada vez melhor... Perguntei-lhe se conhecia um outro sítio onde pudesse ficar. Ele levantou-se e veio olhar para um mapa que estava na parede, também ele unicamente escrito em caracteres japoneses. Apontou vagamente para uma zona, o que me deixou, naturalmente, na mesma. Perante o meu ar desconsolado, o guarda (sempre com um ar sério), resolveu servir-me de guia. Disse qualquer coisa para a sala contígua, pos o chapéu e fez sinal para que eu o seguisse.

Ao fim de umas centenas de metros, entrámos num hotel, numa rua das traseiras da praça onde o posto estava. Na receção, estava uma senhora de alguma idade, de aspeto simpático à qual o polícia disse uma frase onde apenas entendi a palavra "gaijin" (estrangeiro). Devia estar dizendo alguma coisa do tipo "Está aqui um estranja que não se sabe orientar". Agradeci ao guarda e tratei do rapidíssimo checkin. Há males que vêm por bem. E a verdade é que o hotel onde o polícia me levou era ótimo. Simples, limpo e barato. Nos corredores havia pequenas estantes cheias de banda desenhada para que os hóspedes levassem para os quartos. Nestes, a casa de banho era uma espécie de "cápsula" em plástico onde podíamos fazer chiqueiro à vontade. A sanita era daquelas com tampo aquecido e esguichos de água (aquilo deve ser maravilhoso para as mulheres) e eu até tinha um "quimono" para usar.

No dia seguinte já consegui orientar-me melhor. Os pontos turísticos da cidade tinham uma boa sinalização e, afinal, era só junto à estação que se gerava confusão.

Nagasáqui foi das melhores coisas que vi no Japão...

sábado, 10 de setembro de 2011

Eles que entendam!


2009

O à vontade com que os hispânicos se passeiam por Portugal, falando com os locais a sua língua com a mesma desenvoltura com que o fariam nos seus países é daquelas coisas que sempre me irritou profundamente. Pior do que isso, só mesmo a complacência dos meus compatriotas para com semelhante falta de delicadeza.

Pois, numa ida a Madrid, tive a única oportunidade de assistir a uma situação inversa. Um dos rapazes que me acompanhava, alto, de voz forte e presença assertiva, comportava-se com os espanhóis exatamente com a mesma naturalidade com que eles se portam por cá. E foi giro vê-lo no MacDonalds fazendo perguntas sobre os menus às empregadas (que lá lhe iam respondendo com uns segundos de atraso) ou respondendo a alguma pergunta ocasional feita por alguém no albergue onde pernoitávamos. Aquele não tinha piedade por ninguém. E se pensam que se tratava de algum nacionalista ferrenho, posso dizer-vos que estão enganados...

Aliás, a "naturalidade" deste rapaz não se manifestava apenas com os hispânicos mas também com qualquer outra criatura. Ao instalarmo-nos no albergue onde nos hospedámos (um agradável estabelecimento gerido por argentinos) chegaram ao quarto dois rapazes "indianos" (eram holandeses). Pois o meu companheiro de viagem, imediatamente começou a falar com eles em Português: "Viva! Então, estão bons?" - perguntou ele com o seu vozeirão. "Olhem, estas camas ficam para nós. Vocês ficam aí, não é? Ótimo..." - Os holandeses olhavam para ele, embasbacados...

Os empregados portugueses em Madrid


2009

Eu e dois conhecidos fomos passar um fim de semana a Madrid. Para mim era a quarta vez mas, para eles tudo seria novidade. Na primeira noite que lá passámos, após muito caminhar, resolvemos entrar numa tasca de ar muito confortável e castiço, com quase toda a decoração baseada em objetos ligados à cerveja. Olhámos para o menu, sentimos dificuldade em perceber o que lá estava escrito e, enquanto não nos decidíamos, mandámos avançar com umas cervejas.

Quando as bebidas chegaram, a empregada (que já antes nos tinha cumprimentado e entregue o menu), foi ajeitando a mesa e colocando uns acepipes enquanto nós falávamos alegremente. Ao som de um pequeno palavrão, a rapariga saiu-se com um "olhem que eu percebo o que dizem". Disse isto com um sorriso e um fortíssimo sotaque espanhol. Ficámos admirados e, enquanto ela ia buscar a comida que finalmente tínhamos conseguido escolher (à nora, é certo), debatemos se estaríamos perante uma ave rara (uma espanhola a falar Português) ou uma imigrante de pronúncia desfeita pela convivência com o Castelhano.

Quando a refeição ia a meio e ela teve uns momentos livres, veio ter connosco e lá ficámos a saber a sua história. Era de Cantanhede e tinha ido para Madrid estudar teatro. Entretanto, tinha lá ficado e andava a juntar para comprar uma casa na terra. Desconheço há quantos anos ela estaria em Madrid mas a destruição da fala era um caso digno de estudo.


Na manhã seguinte, em vez de tomarmos o pequeno-almoço no albergue, convenci os meus companheiros a irmos provar um típico pequeno-lmoço madrileno, ou seja, uma fartura acompanhada de uma caneca de espesso chocolate quente. Entrámos num café que, àquela hora, estava vazio, sentámo-nos e, quando o empregado apareceu, eu pedi "chocolate y porras". Fi-lo sem qualquer tentativa de por um sotaque local nas palavras. Imediatamente o empregado me respondeu "Uma fartura, não é? Farturas e chocolate quente". Também este era português.


À noite, resolvemos voltar ao mesmo café. A essa hora o ambiente era completamente diferente, cheio de gente a dar na cerveja e nos petiscos. Ficámos por perto do balcão (nem havia onde nos pudéssemos sentar). O empregado, ao ver-nos, veio
cumprimentar-nos com alegria e prontamente nos ofereceu alguns petiscos para provarmos. Não eram nada de especial (comida espanhola...) mas é claro que na graça do momento nos souberam bem (a cerveja sim, era muito agradável). Sempre que o intenso serviço lhe permitia, o rapaz vinha trocar umas palavras connosco e oferecer-nos uma amostra de mais algum petisco, aqui e ali sob um olhar um pouco desaprovador do seu patrão, um galego hispanófono.

Na terceira noite que passei em Madrid, ao entrar num bar, já estava à espera de dar de caras com mais um empregado português mas a verdade é que apanhei com um que era tão espanhol que até dava uns passos de flamenco em cima do balcão...

O monge no WC


Nunca fui de alinhar em espiritualidades e sempre achei palermas aquelas tendências new age que nos tentam convencer da existência de "energias" e planos de consciência alternativos. Mas, se por princípio sou imune a estas coisas, ainda mais o sou quando vêm carregadas de complexos que pretendem ver noutras culturas uma espécie de superioridade moral e ética, uma santidade inerente a crenças religiosas mais "puras" e que, supostamente, desmascaram a nossa desonestidade materialista.

Dizia o Karl Marx que "O homem faz a religião, a religião não faz o homem". E devemos ter sempre como guia esta ideia de que, na base de tudo, estão sempre os homens que lidam com a "fé". Homens, como quaisquer outros, com defeitos, virtudes, desejos e necessidades como qualquer mortal.

Uma vez, estava eu no aeroporto de Kuala Lumpur, aguardando o embarque para Hong Kong e senti vontade de ir à casa de banho. Ao abrir a porta, dou com um monge budista, defronte de um urinol, afastando as pernas, levantando o manto, chegando-se à frente e, com um "aaahhh" de prazer, começar a urinar. Era um daqueles monges já de alguma idade, que muita gente tanto gosta de apresentar como seráfica imagem de uma sabedoria que, por qualquer razão, se acha que só existe no Oriente. Ali, como certamente em tantas outras situações da vida, era um vulgar homem...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Um molho para lisboetas


A única vez em que tive algum tipo de formação profissional paga pela empresa em que trabalho foi em Braga. Como se não bastasse o prazer de viajar até à capital do Minho, ainda por cima o evento dava-se num encantador hotel precisamente no ponto mais turístico da cidade: o Bom Jesus.

No dia anterior, quando estávamos a caminho, resolvi levar o colega que me acompanhava a jantar ao Porto. Porque as tradições são para cumprir, quisemos comer uma francesinha e eu lembrei-me de um agradável restaurante, de seu nome "Poema de Pedra" e que fica na zona antiga da cidade, a caminho da Alfândega. O sítio tem graça pelo seu ar granítico e pela envolvente urbana.

Mandámos vir as francesinhas (que, ali, têm uma forma retangular) e lá fomos jantando. A meio da refeição, o meu colega diz-me que gostava que a sua fosse mais picante. Chamei o empregado e pedi-lhe o condimento, notando-lhe um leve trejeito de incredulidade. O meu colega tratou da sua francesinha e, quase terminada esta, voltou a comentar que gostava delas bem picantes.

Quando um outro empregado, de passagem, nos perguntou se estava tudo bem, gracejei aludindo ao "pouco" picante. Com um ar gozão, o empregado olhou para nós e disse "A sério?! Olhe que eu tenho ali um molho especial para lisboetas!...".

O meu colega não o quis experimentar...

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Mais papistas do que o papa


2002/09

Numa excursão pela Turquia, um dos pontos a visitar era o mosteiro dos derviches, em Konya. Por se tratar de uma instituição religiosa muçulmana (ainda que de um país laico), imediatamente algumas das mulheres da comitiva começaram a ficar preocupadas sobre se teriam de usar um lenço na cabeça. Diga-se em abono da verdade que, de todas as representantes do belo sexo que ali iam, foram poucas as que se preocuparam com tal coisa mas as que o fizeram sentiram-se algo ansiosas com o facto.

Chegada a camioneta junto do mosteiro, já as ditas senhoras estavam em polvorosa tentando arranjar qualquer coisa com que cobrirem a cabeça. Lá desencantaram uns lenços quaisquer e toca de os porem atabalhoadamente sobre as cabeleiras. Todas as outras se mantiveram olimpicamente à parte daquilo até porque a própria guia que nos acompanhava não tinha avisado sobre qualquer preceito a respeitar na visita ao templo (na realidade, apenas ao pátio de entrada e a uma sala com túmulos).

Saímos e, como seria de esperar num local turístico, o que era importante mesmo era pagar a entrada, comprar umas recordações e, basicamente, passear pelo local com o bom senso exigível em qualquer monumento. Mas as senhoras, tão imbuídas das suas preocupações politicamente corretas lá continuaram, com os lenços colocados, passeando-se pelo meio de gente em calções, t-shirts e todas as indumentárias próprias de quem anda de férias num local quente.

Há gente assim...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Cinema na Irlanda


2005/05

Em Kilkenny (leia-se câlquèni),na Irlanda, fiquei duas noites. As atrações da localidade não eram muitas: um bonito parque com um castelo/palácio de belos interiores, uma igreja antiga com uma das características torres em forma de "foguetão" que enxameiam a paisagem irlandesa, uma rua com prédios antigos coloridos e, tirando isso, pouco mais restava que fosse verdadeiramente digno de destaque. À noite, então, era a pasmaceira.

Decidi ir ao cinema para matar o tempo. A preços que só chegariam a Lisboa vários anos mais tarde, fui duas noites às fitas. O choque foi tremendo. Habituado a criticar os meus compatriotas por falarem no escuro do cinema ou por fazerem demasiado barulho com as pipocas, eu não estava preparado para a maneira irlandesa de ver cinema. Basicamente, o espetador local levanta-se várias vezes durante a fita - para ir à casa de banho, para ir buscar comida, para ir esticar as pernas -, fala durante a sessão e passa o tempo a comer e a beber. Se não fosse aquele relaxamento que sentimos quando estamos de férias e que nos predispõe a sermos condescendentes com os outros (sobretudo no estrangeiro), eu acho que teria tido um ataque de nervos.

Após a "pancada" que foi a primeira noite nas fitas (onde vi uma comédia qualquer da qual pouco percebi), resolvi proteger-me na segunda incursão ao cinema de Kilkenny: fui para um lugar isolado e que era o assento dos namorados (era de corpo e meio). O descanso foi tanto que, embalado por uma daquelas chuchadeiras da "nova" Guerra das Estrelas, dormi o tempo quase todo. Eles que ruminassem, passeassem e bebessem à vontade que eu não estava nem ali...

Hoje não se paga


Estava passando uns dias em Paris com uma querida namorada que, tal como eu, era pessoa que gostava de ver monumentos e museus e, por ser a nossa primeira vez na capital francesa, tivemos a natural vontade de ir ao Louvre. O dia estava macambúzio, com nuvens baixas ameaçando chuva, ou seja, era o dia perfeito para ser gasto naquela visita.

Chegados à praça da pirâmide (cedinho, para evitarmos bichas) já lá encontrámos dez ou vinte pessoas que se enfileiravam a partir da porta da famosa estrutura de metal e vidro mandada fazer por Miterrand. Aproximou-se a hora da abertura e começou a pingar. Do "outro lado", via-se uma concentração anormal de funcionários, ao jeito de reunião de trabalhadores e sem que ninguém parecesse fazer questão de abrir a porta aos visitantes.

Passou-se a hora em que o museu devia abrir, acumulavam-se as pessoas à espera e... nada. Mais tempo passou, a chuva começou a engrossar e absolutamente ninguém se dignava a dar alguma informação a quem esperava cá fora. Lá dentro, continuava a reunião. Como os candidatos a visitantes eram de nacionalidades muito diferentes não se gerou a habitual conversa que há nestas ocasiões e onde toda a gente resolve deitar cá para fora qualquer tipo de irritação. Não, o povo estava sereno - pasmado mas sereno. No entanto, uma rapariga indignou-se e foi bater à porta da pirâmide exigindo explicações. Ao fim de algum tempo e muito a contragosto, ums mulher abriu a porta e explicou-lhe que os trabalhadores do Louvre estavam em greve por causa de diminuições de pessoal que tinham ocorrido.

Sabida a razão da longa espera, a preocupação dos turistas passou a ser se o museu iria, ou não, ser aberto. Novamente se esbarrou na total ausência de informação. Por esta altura, a chuva já era forte e à impaciência e cansaço ainda se veio somar todo o desconforto causado pelo involuntário duche. Apesar de termos um chapéu de chuva, pensámos ir abrigar-nos numa das áreas laterais da praça mas, ao reparar que toda a gente se mantinha irredutível na fila, achámos que, no fim, alguma recompensa haveria pelo nosso estoicismo. E ali nos mantivemos.

Ao fim de pelo menos duas horas de espera, reparámos que o grupo de trabalhadores "en colère" (ou seja, "em luta") que se reunia na pirâmide começou a dispersar. Finalmente, a porta abriu-se e foi dada ordem para entrar aos visitantes.

Para compensar os visitantes pelo incómodo ou - o que é mais provável -, para lixar a administração do museu, não foram cobradas entradas nessa manhã. Poupou-se em dinheiro o que se gastou em tempo e nervos...

Quanto ao museu: é magnífico, claro.

Fronteira expresso


Na primeira vez que fui a Macau ainda o aeroporto não estava construído e quem lá quisesse ir tinha de voar até Londres, daí até Hong Kong e, finalmente, apanhar o barco para a Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal (ufa...)


À chegada, eu já sabia ter à minha espera um familiar que, na altura, ocupava um lugar de destaque nas forças de segurança do território. Desembarcado no terminal portuário de Macau, dei comigo nas habituais bichas que se formam para as formalidades próprias das fronteiras. Um pouco mais à frente, vejo calmamente alinhados (e distantes um do outro) o Nicolau Breyner e o Francisco Pinto Balsemão.

Enquanto esperava a minha vez de mostrar o passaporte, vejo chegar o meu familiar, com as naturais demonstrações de alegria que a situação exigia. Abraços e beijos e... toca a andar que as filas são só para os outros. Conduzido, passei à frente de toda aquela gente até chegar à cabina onde um agente chinês da PSP controlava os passaportes.

- Está aqui o passaporte ...
- aaahhh
- Vá lá...
- aaah
- Eh pá, está bem isso tudo
- Siiimm....
- Vá, toca a andar

Melhor do que isto nem com o passaporte eletrónico...

O francês lusófilo


2010

O albergue de juventude de Génova (Itália) fica no cimo de uma grande encosta que exige coragem para se subir a pé. Mas, uma vez lá chegados, a vista que se tem a partir do enorme terraço que antecede a entrada no desinteressante edifício compensa-nos um pouco pelo tremendo esforço. Uma vez lá dentro, temos à nossa disposição um prédio com um certo estilo de hospital, corredores longos e despidos e a partir dos quais se tem acesso a uns quartos amplos cuja única mobília são uns beliches metálicos e uma mesinha debaixo de umas grandes janelas.

Quando cheguei, tive a agradável surpresa de o quarto que me havia cabido em sorte apenas ter lá mais uma pessoa, i.e., estavam lá as roupas dela. Tive, portanto, todo o à vontade para tratar de mim antes de me deitar.

Como tinha várias baterias para carregar, ocupei a tomada que me cabia em sorte e ainda uma na outra ponta do quarto que, naturalmente, seria "território" do hóspede ausente.

A meio da noite, ao pressentir que entravam no quarto e que procuravam onde ligar uns fios, levantei-me e fui desligar as minhas coisas tendo na altura, no escuro, trocado umas rapidíssimas palavras de ocasião.

No dia seguinte, ao fim da tarde, vi finalmente o meu colega de quarto que me cumprimentou timidamente. Lá se trocaram mais umas palavras e fiquei a saber que o moço era francês (curiosamente, eu estava a ler um livro na sua língua mas ele não o tinha notado). Ao saber que eu era português, imediatamente ficou o rapaz muito entusiasmado porque... não só falava o nosso idioma (muito razoavelmente) como também era um autêntico lusófilo. Lá conversámos, ficando eu a saber que ele estava em Génova para uma conferência internacional sobre nanotecnologia e que tinha grande vontade de vir viver e trabalhar para Portugal. Disse-lhe que, em Braga, se estava a construir um centro de investigação, o que o deixou bastante curioso.

No dia seguinte, apanhámos o mesmo autocarro que descia do monte para o centro de Génova e lá continuámos a nossa conversa, sempre com ele elogiando Portugal. A certa altura, perante uma dificuldade dele em se expressar, comecei a falar em Francês, para espanto deste simpático gaulês. Falámos mais um pouco até que a conversa morreu e, quando ele saiu do autocarro, nem sequer se despediu...

Pergunto-me se já estará a viver o seu sonho português...

O fotógrafo no comboio

2005/11

Numa viagem de comboio para Lausanne (Suíça), um homem com uma máquina fotográfica sentou-se à minha frente e pediu para me tirar uma fotografia. Andava ele arranjando material para uma exposição dedicada a "pessoas que andam de comboio" (na Suíça vos garanto que são muitas). Achei piada e disse-lhe que sim, lá tendo me esforçado para parecer natural e não pousar para o "boneco". A obrigatoriedade (se não legal, pelo menos ética) de pedir autorização às pessoas para lhes tirar uma foto tem esta desvantagem: perde-se a naturalidade.

Tirada a fotografia, o artista pediu-me para lhe escrever alguns dados numa folha onde já constavam várias outras assinaturas e, também, indicar o meu endereço eletrónico para que ele me avisasse se a minha imagem tivesse sido selecionada para a exposição. Como nunca mais me disse nada, suponho que o meu rosto não tenha sido escolhido para abrilhantar uma qualquer parede.

Cumprida a "formalidade", trocámos algumas frases e, ao saber de onde eu era, o homem disse-me que na Suíça havia muitos portugueses (como se alguém não o soubesse). Fez uma ligeira pausa e acrescentou "Talvez demasiados para si, não?".

Berna: polícia no quarto

2005/11

Sempre que ouvir falar na exemplaridade cívica dos Suíços, irei lembrar-me da minha estadia no albergue de juventude de Berna. Primeiro, foi apanhar com um grupo de estudantes adolescentes que, às seis da manhã percorriam em algazarra os corredores entre os quartos e as casas de banho. Depois, foram os dois adeptos da seleção local que, às duas da noite entraram pelo quarto adentro, vindos de um jogo, sem qualquer tipo de problema em acordarem toda a gente que ali estava e, finalmente, foi o despertar às tantas com dois ou três agentes da polícia em pleno quarto...

O quarto onde eu estava tinha quatro ou seis camas e apenas havia uma vaga. A certa altura, à noite, já naquele período onde uns reveem a agenda para o dia seguinte, outros conferem as fotografias tiradas e outros, ainda, só querem é dormir, chegou um novo hóspede. Era africano, preto e de sorriso fácil. Mal chegou, imediatamente começou a meter conversa com todos: de onde eram, o que faziam por ali, etc. Ele - o típico fura-vidas -, já tinha andado por uma boa parte da Europa (Portugal incluído), tentando desenrascar-se e, agora, procurava a sorte em terras helvéticas. Trocadas as palavras exigidas pela sua curiosidade relativamente a mim, remeti-me ao meu sossego, tendo adormecido pouco tempo depois de a personagem ter saído para ir sei lá onde.

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi uma perna mesmo junto à minha cara. Abri esforçadamente os olhos e, com a visão toldada pelo sono, percebi pertencer a dita parte anatómica a uma mulher polícia que, acompanhada de um colega interrogava o novo hóspede. Sem quase levantar a cabeça, perguntei se havia algum problema ao que, sem sequer olhar para mim, a polícia respondeu com um sequíssimo "Não". Por ali ficou a minha conversa com a agente que insistia em pedir informações ao homem. Este, num tom de voz que alternava entre a indignação e a resignação, perguntava "Outra vez? Mas já me pediram a identificação há dois dias... Que mais posso eu fazer? É sempre a mesma coisa...". Logo percebi ser coisa de imigração e rapidamente caí no sono novamente. No dia seguinte, o simpático (embora um pouco chato) homem já não estava no quarto.

Ó tai iszi?

2003/04

Há uma coisa que me acontece com uma frequência fora do normal: perguntarem-me coisas na rua. E isto é algo que ocorre em qualquer parte, por mais deslocado que eu pareça estar relativamente ao ambiente. Por qualquer razão que me escapa, devo ter um ar de quem está informado e é capaz de uma pequena atenção...

Em Tóquio, quando estava hospedado num típico hotel - com quartos com piso de tatami onde se dormia... no chão -, ao sair da casa de banho que havia no corredor (casa de banho à japonesa, com duches "sentados" e banheira comum), uma indiana olhou para mim e perguntou "ima nanji desu ka", o que, traduzido, quer dizer "que horas são?". Olhei para ela espantado por, sendo eu branco e ela indiana, a pergunta me ter sido feita em Japonês. De uma forma talvez um pouco antipática, perguntei-lhe se não falava Inglês, o que imediatamente a fez repetir a pergunta (com um certo ar atrapalhado), tendo eu lhe dado a resposta desejada.

Como no Japão muita coisa parece funcionar ao contrário, se a indiana no hotel me falou em Japonês, um japonês na rua resolveu falar-me em Inglês, i.e., na sua versão da língua inglesa. Passeando eu num parque, um jovem homem que com outro fazia umas filmagens chegou-se a mim e perguntou "ó tai iszi?", o que só teve como reação minha aquele ar que pomos quando ficamos à nora. O homem repetiu a pergunta: "ó tai iszi?". Valeu-me que, desta segunda vez, acompanhou os estranhos sons com um toque no pulso o que me salvou de ficar ali a fazer figura de parvo. "What time is it?" disse eu em jeito de quem confirmava a pergunta e o corrigia. Lá lhe disse, pois, as horas, para grande satisfação sua por ter comunicado com um "gaijin" (estrangeiro).

Wish you were beer

2003/04

O albergue onde fiquei em Quioto era relativamente pequeno. Se bem me lembro, tinha um quarto para homens, outro para mulheres, uma salinha com uma mesa e uma estante onde os viajantes deixavam livros que já não queriam, outra sala - à japonesa -, com uma televisão e, finalmente, uma pequeníssima cozinha. Acrescenta-se a isto a entrada onde ficava o balcão da receção e o "depósito" de calçado.

O espaço onde estava a mesa e a estante era mais concorrido do que a sala de televisão, provavelmente porque tinha cadeiras e não éramos obrigados a sentarmo-nos no chão. Naquela noite, estava ali eu e três divertidos holandeses que me tinham acabado de garantir que o preço da cerveja no Japão (então, qualquer coisa como uns chocantes €3) era exatamente o mesmo que no país das tulipas (na altura, em Portugal, uma imperial custava €0,5). Terminada a troca de informação sobre os preços do sumo de cevada, um dos holandeses (o mais bem disposto) começou a escrever um postal para casa que achou por bem terminar com um anglófilo "wish you were here" (oxalá estivesses aqui). Só que, por influência da conversa, o rapaz enganou-se e acabou por escrever "wish you were beer" (oxalá fosses cerveja), para galhofa geral de quem ali estava.

As vénias nos comboios japoneses

2003/04

O Japão é uma terra muito característica. Com isto quero dizer que, quando pensamos naquela nação, conseguimos "isolar" um conjunto de coisas que temos como imediatamente reconhecíveis como fazendo parte da "alma japonesa". Há-as de tipo estético, culinário, comportamental, etc.

As vénias não são, nem de longe, únicas do Japão mas as situações em que elas são feitas, essas, já têm uma marca muito própria...

Nos comboios japoneses (esse exemplo de absoluta pontualidade), há dois tipos de funcionários que circulam constantemente pelas carruagens: os revisores e as vendedoras de comida. Ambos fazem vénias sempre que entram numa carruagem e, depois, ao chegarem ao fim da mesma, viram-se e fazem outra vénia, ou seja, se uma composição tiver, digamos, cinco carruagens, um funcionário faz, pelo menos, oito vénias em cada passagem (nos vagões dos extremos calculo que não se verguem junto das paredes). E isto é feito sem que alguma vez falhe já que cumprimentar os passageiros/clientes é um ato de básica cortesia e respeito.

Pergunto-me se os ortopedistas terão muitos funcionários da JR (Japan Rail) entre os seus clientes...

Os bizarros brasileiros

2005/05

Num dia em que, estando em Londres, me preparava para ir apanhar um voo para a Irlanda, resolvi gastar as últimas libras que tinha em algo que nunca tinha provado: um típico pequeno-almoço inglês. Procurei um sítio onde comer e encontrei um café-restaurante com boa apresentação e que ficava no quarteirão de onde partiam os transportes para o aeroporto de Stansted.

Esperei a minha vez e lá pedi a refeição. Antes de pagar, a empregada vira-se para uma colega e troca com ela algumas palavras em Português. As duas eram brasileiras. Sorrindo, disse à moça da caixa qualquer coisa como "Há pouco podíamos ter-nos entendido melhor" o que não provocou nela qualquer reação. Achei aquilo estranho mas não insisti, tendo ido sentar-me.

Passados alguns minutos, a rapariga com quem eu tinha ouvido a "caixa" falar veio trazer-me o potente pequeno-almoço. Estava lá tudo o que aparece nos livros de Inglês, quando estudamos as tipicidades do Reino Unido: pão, ovos, salsicha, morcela, etc... Agradeci à empregada com um "Obrigado", o que a fez olhar para mim e retorquir com um "Thank you". Agora... a coisa era mesmo estranha.

Um pouco depois, um rapaz que servia à mesa (e que também era brasileiro), veio trazer-me o café. Mais uma vez, agradeci em Português e, mais uma vez, a resposta veio em Inglês (acompanhada do mesmo tipo de olhar da situação anterior). Era oficial: aquela gente era absolutamente bizarra.

Acabada a refeição, levantei-me e já nem me dei ao trabalho de os cumprimentar. Ainda me saía um "Vão se foder", ao qual eles responderiam, obviamente, com um "You too"...

Gritar por silêncio

A cadeia de albergues "St. Cristopher's Inn" tem dois "pólos" perto da London Bridge, separados por poucas centenas de metros, e onde tenho ficado das vezes que tenho ido a Londres. Numa noite, após horas de animação passadas no bar existente no local onde estava hospedado, eu e dois colegas com os quais passava aquele fim de semana subimos até ao quarto para finalmente dormirmos um pouco. Eram quatro da manhã mas nem a hora tardia nem a mistura de cidra e cerveja pareciam ser suficientes para me colocar nos braços de Morfeu ao primeiro contacto com a almofada. Fiquei, portanto, vigilante. Pouco depois de já estarmos deitados, entraram três australianos (um rapaz e uma rapariga) para quem um quarto às escuras às quatro da matina não parecia ser indicação suficiente de necessidade de silêncio. Falavam e falavam como se mais ninguém estivesse ali e a mostarda começou a subir-me ao nariz (em Inglês "the mustard started coming up to my nose"). Recorrendo ao meu melhor sotaque londrino e apelando à possível força dos pulmões berrei no escuro um "Shut the bloody fuck up!!!" (qualquer coisa como "Calem a porra da matraca!!!") que teve o condão de imediatamente desligar as vozes dos hóspedes vindos dos antípodas. Foi como se uma coisa tivesse fulminado os irrequietos turistas. Ao fim de um minuto ouviu-se, baixinho, o rapaz dizer "I think we'd beter sleep" ("Acho melhor dormirmos").

De manhã, conforme iam acordando as pessoas, trocavam-se discretos olhares tentanto perceber quem se teria passado no escuro. Eu e os meus colegas ríamos por dentro...

A chinesa da limpeza

Havia uma semana que estava em Macau e o meu corpo já pedia misericórdia a tanto calor e humidade. Eu que sempre preferi o fresco às cálidas temperaturas, logo havia de ter ido parar a uma espécie de sauna a céu aberto onde, por menos roupa que usasse e mais sombra que procurasse, apenas a santa presença de um ar condicionado me poderia devolver algum conforto. Felizmente para mim, a casa onde eu passava férias tinha um - compra inicial da minha irmã quando emigrou para o então canto mais oriental de Portugal -, e resolvi tirar uns dias para gozar o descanso.

O tempo passava-se vendo VCD's (o formato em voga na altura, juntamente com os Laser Discs, muito populares naquela zona) e saltitando pelos canais de televisão, ora vendo a de Hong Kong, ora espreitando a chinesa, ora ficando pela RTP Macau onde passavam muitos programas sobre o território. Foi nessa altura que me apercebi do enorme conforto que é para quem está "fora" poder aceder à televisão portuguesa, ouvir a nossa música e, até, estar horas agarrado àqueles programas matinais feitos no Porto.

Findo um programa do José Hermano Saraiva, dirigi a minha atenção para a pequena - mas preciosa -, coleção de música portuguesa cujos CD's se alinhavam no móvel à minha frente. Quando testava os meus dotes vocais acompanhando o Rui Veloso (rodava a mini-aparelhagem o "Mingos e os Samurais") bateram à porta... À minha frente estava agora uma mulher chinesa, já com alguma idade, munida dos apetrechos típicos de quem anda a fazer a limpeza da escada. Sem qualquer hesitação (como é próprio dos chineses) começou a falar comigo enquanto mostrava um molho de notas na mão esquerda. Topei que esperava o pagamento da faxina mas o meu desconhecimento da situação impedia-me de pagar fosse o que fosse. Resolvi explicar-lhe que a casa não era minha e que teria de falar com a inquilina. Por gestos - apontando para mim, apontado para trás, apontando para cima... -, acompanhados de expressões simples em Português, lá tentei que ela compreendesse que teria de voltar mais tarde. Cada esforço meu esbarrava no ar impávido da mulher que logo reiniciava uma longa série de monossílabos que deviam querer dizer imensa coisa mas que, para mim, eram... Chinês.

Resolvi explicar-lhe a situação com bonecos. Peguei numa folha de papel e nela desenhei um homem e uma mulher, da forma mais simples e infantil que pude. Apontei para os rabiscos que me representavam e apontei para mim, apontei para o desenho da rapariga e apontei para as notas que a mulher trazia. Nada... a não ser mais palavreado. Pensei que talvez os rabiscos pudessem se parecer demasiadamente com algum caracter local e resolvi desenhar um casal de forma mais percetível. Sempre perante o olhar impávido da chinesa, desenhei um homem e, para que não houvesse qualquer dúvida, esbocei uma mulher nua, com um assinalável "par". Num assomo de picuinhice - e não sem que me perguntasse se estaria a cometer alguma indelicadeza cultural -, veio-me à ideia completar a representação da Eva com as pilosidades próprias da zona púbica feminina. Pronta a obra, mostrei-a à mulher, novamente apontando para os bonecos, para mim e para um espaço incerto. Desta vez, o rosto da mulher alterou-se ligeiramente, apenas o suficiente para me parecer ver nele um espanto contido. Balbuciou qualquer coisa e virou costas.

Seis meses depois, ainda não tinha voltado.
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