sexta-feira, 30 de setembro de 2011

A bela do comboio


2008/11/03

Reparei nela enquanto, no cais de uma localidade qualquer umas paragens depois de Estrasburgo, se despedia de um grupo de jovens amigos. Observei-a levado pela necessidade de me entreter nos minutos da paragem e pelo facto de a achar atraente. Passados alguns instantes, ela estava sentada à minha frente.

Era jovem mas com aquele ar que nos deixa na dúvida, hesitantes entre a classificação de "adolescente" ou de "jovem adulta". Tinha uns cabelos bastante escuros, a pele moderadamente bronzeada e uns belíssimos olhos esverdeados que imediatamente me cativaram. Por ser desconfiada ou sentir-se insegura, tinha trazido para a cabina o malão com que viajava e esforçava-se para se acomodar sem que a sua bagagem me incomodasse. Mirei-a e preparei-me para concentrar a minha atenção na paisagem francesa.

Estávamos ambos sentados junto à janela e, naturalmente, aconteceu os nossos olhares se cruzarem uma ou duas vezes no reflexo do vidro, enquanto a França desfilava do lado de fora. A viagem era longa (mais de cinco horas) e, instalada alguma monotonia, ocorreu-me substituir os campos gauleses por uma sua nativa. Comecei a olhar fixamente para ela, sempre pelo vidro, gozando a beleza da rapariga e a ideia de criar algum ambiente. Por uma ou outra vez ela reparou no meu olhar e correspondeu, ainda que por breves segundos.

Com o passar do tempo senti aquela excitação própria de quem antecipa um "rendez vous" com uma bela mulher. A rapariga não correspondia propriamente ao meu insistente olhar mas também não mostrava qualquer incómodo até ali. Não se levantava, não mudava de lugar, não me olhava de forma reprovadora e não me dizia nada. Parecia aceitar a situação, simplesmente. Comecei a rogar pragas aos outros dois ocupantes da cabina que me impediam de tentar a sorte. A vergonha própria de uma alma tímida e o meu fraco francês (para situações destas, calculo) impediram-me de meter conversa à frente daquele reduzido público. Na minha cabeça ia imaginando frases seguras que pudesse dizer à moça, coisas nas quais não hesitasse ou ficasse parado a escolher palavras. Pensei em confrontá-la perguntando se a estava incomodando para avaliar a sua reação mas deixei a coisa arrastar-se sem me decidir.

A viagem continuou e eu resolvi subir a parada passando a olhá-la na cara, pondo de parte a "barreira" do vidro. Ia alternando, é certo, mas, agora, era quase sempre em frente que eu olhava. Ela começou a reparar mais e notei-lhe alguma atrapalhação. Senti-me um sacaninha mas, ao mesmo tempo, era tão excitante a situação (sem que se entenda isto no estrito sentido sexual) que não parei. E ia continuando a tentar perceber a idade da beleza que ali estava.

Lyon começou a ficar mais próxima e, com isso, o momento da verdade. Ia eu meter conversa com ela, ou não? Rendi-me à evidência de não ter suficiente competência linguística para dar o passo decisivo e contentei-me com a contemplação ostensiva da sua beleza. Conforme os quilómetros para a chegada iam encurtando a moça começou a mostrar nervosismo: olhava rapidamente para mim, mexia nos auscultadores, enrolava o fio nos dedos, mordia-o e repuxava-o... e eu ali, divertindo-me com aquele meu estúpido e inútil "poder" sobre uma, quase de certeza, adolescente.

O comboio parou finalmente e todos saímos calmamente. Uma vez no cais, a rapariga afastou-se e perdi-a no meio da multidão para a reencontrar uns metros à frente na descida de umas escadas. Calmamente, sem mostrar qualquer repúdio, desceu ao meu lado até que, ao chegarmos ao piso principal, nos afastámos.

Para trás tinha ficado uma divertidíssima viagem na qual me entreti a atormentar uma bonita rapariga mas na qual o verdadeiro atormentado fui eu...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados