quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Berna: polícia no quarto

2005/11

Sempre que ouvir falar na exemplaridade cívica dos Suíços, irei lembrar-me da minha estadia no albergue de juventude de Berna. Primeiro, foi apanhar com um grupo de estudantes adolescentes que, às seis da manhã percorriam em algazarra os corredores entre os quartos e as casas de banho. Depois, foram os dois adeptos da seleção local que, às duas da noite entraram pelo quarto adentro, vindos de um jogo, sem qualquer tipo de problema em acordarem toda a gente que ali estava e, finalmente, foi o despertar às tantas com dois ou três agentes da polícia em pleno quarto...

O quarto onde eu estava tinha quatro ou seis camas e apenas havia uma vaga. A certa altura, à noite, já naquele período onde uns reveem a agenda para o dia seguinte, outros conferem as fotografias tiradas e outros, ainda, só querem é dormir, chegou um novo hóspede. Era africano, preto e de sorriso fácil. Mal chegou, imediatamente começou a meter conversa com todos: de onde eram, o que faziam por ali, etc. Ele - o típico fura-vidas -, já tinha andado por uma boa parte da Europa (Portugal incluído), tentando desenrascar-se e, agora, procurava a sorte em terras helvéticas. Trocadas as palavras exigidas pela sua curiosidade relativamente a mim, remeti-me ao meu sossego, tendo adormecido pouco tempo depois de a personagem ter saído para ir sei lá onde.

Quando acordei, a primeira coisa que vi foi uma perna mesmo junto à minha cara. Abri esforçadamente os olhos e, com a visão toldada pelo sono, percebi pertencer a dita parte anatómica a uma mulher polícia que, acompanhada de um colega interrogava o novo hóspede. Sem quase levantar a cabeça, perguntei se havia algum problema ao que, sem sequer olhar para mim, a polícia respondeu com um sequíssimo "Não". Por ali ficou a minha conversa com a agente que insistia em pedir informações ao homem. Este, num tom de voz que alternava entre a indignação e a resignação, perguntava "Outra vez? Mas já me pediram a identificação há dois dias... Que mais posso eu fazer? É sempre a mesma coisa...". Logo percebi ser coisa de imigração e rapidamente caí no sono novamente. No dia seguinte, o simpático (embora um pouco chato) homem já não estava no quarto.

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