quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Males que vêm por bem


2008

O Pico do Arieiro, na ilha da Madeira, era uma daquelas imagens que preenchiam o meu imaginário. A montanha e as suas companheiras mais próximas formavam, no meu espírito, um daqueles cenários onde a natureza adquire contornos monumentais e nos faz sentir miseravelmente pequenos ou donos do mundo - consoante estejamos na base das elevações ou lá no cimo dos picos.

Para ir ao sítio desejado, há duas hipóteses: ou vamos em viatura própria ou apanhamos a camioneta. Eu fui na carreira (e bem me arrependi...).

A camioneta que parte do Funchal atravessa a ilha de sul a norte e o parque natural do qual faz parte o Arieiro é apenas uma paragem entre várias. Quem conhece a ilha sabe que ali ou andamos a direito junto ao mar ou é sempre a subir. Para sair do Funchal há que trepar, trepar e a camioneta assim o fez, primeiro na malha urbana e, depois, em estradas de montanha rodeadas de uma densa vegetação. A certa altura, uma cancela marca a entrada em zona de paisagem protegida. A camioneta para junto a um casarão (o Poiso) e é tempo de ganharmos a longa estrada rumo ao pico. Até aqui, tudo ótimo.

Foi com alegria que palmilhei os quilómetros até chegar ao ponto de onde partem os trilhos de montanha que nos permitem caminhar nas nuvens. E se não fosse estas estarem em excesso e não permitirem ver quase nada, eu bem teria andado e andado e só pararia quando não visse mais o caminho. Mas não foi isto que fiz: explorei um pouco os trilhos, voltei para trás, comi qualquer coisa no restaurante que há lá bem no cimo e fiz de novo o longo caminho até à "estalagem" onde tinha saltado da camioneta.

Ao chegar ao restaurante do Poiso, fui reconfortar-me com uma poncha. Naquele sítio ela é preparada bem à nossa frente, com os empregados num afã, misturando a aguardente de cana de açúcar com os outros ingredientes, garrafa atrás de garrafa que a malta é muita e bebe bem. Sim, o restaurante está numa estrada de montanha mas a perigosidade do caminho não parece fazer qualquer impressão a quem vai ali beber uma poncha que é tão boa que até se faz engarrafada para vender nos supermercados.

Restaurante "Casa de abrigo do Poiso"
Ainda faltava muito mais de uma hora para que a última camioneta para o Funchal passasse e dei por mim com a necessidade de matar o tempo. Bebi uma ou duas ponchas, comi um prego em bolo de caco (um pão achatado e ligeiramente adocicado) e sentei-me no alpendre vendo aquela gente convivendo e... bebendo.

Quando faltavam cerca de quinze minutos para a hora da camioneta, vejo, para meu espanto, um autocarro passar em grande bisga e sem fazer qualquer tenção de parar. Fiquei boqueaberto. Era a única hipótese que eu tinha de voltar para "casa" e ali tinha ela passado, quinze minutos antes da hora. Uma situação inadmissível!

O que havia eu de fazer? Comecei a pensar nas hipóteses. Ir a pé até ao Funchal seria uma questão de umas boas hora de caminhada a descer. O pior era a escuridão da estrada e o perigo de levar uma traulitada de algum carro que passasse. Resolvi pedir boleia. Mas... a quem? Eu só via era gente a dar forte e feio na poncha!

Acerquei-me de um jovem casal com ar sóbrio. Perguntei-lhes se iam para o Funchal e contei-lhes a minha situação. Lamentavam, mas iam na direção contrária. Olhei em redor: no restaurante, só gente a beber; cá fora, quase ninguém. Reparei num camião que parecia estar de partida (depois de umas ponchas...). Perguntei ao homem se me dava boleia até ao Funchal. Ele acedeu enquanto eu me justificava com a bizarria do incumprimento do horário por antecipação.


Há males que vêm por bem e a irresponsabilidade do motorista da carreira deu-me hipótese de fazer uma viagem bem engraçada com aquele homem (meia idade, de compleição miúda) que, ao longo do caminho, me foi contando histórias da sua infância e de como a Madeira era... Contou-me (com um forte sotaque que ainda lhe dava mais graça) de quando era miúdo e ia com outros gaiatos "buscar" o gado que chegava dos Açores e precisava de ser conduzido até ao destino e de como se vivia antigamente na ilha...


Enfim, foi um daqueles momentos de ternurenta partilha de histórias de vida que, de forma paradoxal, eu tenho de agradecer ao incompetente motorista que, na sua pressa, é capaz de deixar pessoas apeadas no meio de uma montanha. Obrigado, ó patifório!


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