domingo, 11 de setembro de 2011

A chegada a Nagasáqui


2003/04

Sempre que alguém pensa em ir a países como o Japão ou a China, imediatamente surge a questão de saber como é que uma pessoa se orienta numa terra onde nem sequer percebe os caracteres usados para escrever os nomes das coisas. Felizmente, em muitos países há o hábito de também colocar nas placas os nomes escritos no alfabeto latino. Ora, isto já é meio caminho andado para não nos perdermos. Com um mapa e um conhecimento mínimo da língua da nação que visitamos, então, tudo correrá bem.

Antes de ir ao Japão, inscrevi-me num curso de Japonês na Universidade Nova de Lisboa. Ao fim de alguns meses, sentia-me capaz - se não de conversar com um nipónico -, pelo menos de conseguir ir de A a B fazendo um mínimo de perguntas.

(faço aqui um parêntese para dizer que a razão de ir aprender Japonês não foi uma ida ao Japão mas sim esta que surgiu na sequência - algo distante já -, do meu interesse pela língua.)

Portanto, quando dei comigo na terra do sol nascente, não tive problemas de maior: levava um bom guia comigo, tinha planeado bem a viagem, sabia Japonês suficiente para explicar coisas básicas (o Inglês dos japoneses é pavoroso...) e por todo o lado havia indicações usando o nosso alfabeto. Nem por um momento senti dificuldades em me orientar. Até que cheguei a... Nagasáqui.

Quando desembarquei na cidade japonesa com um passado mais "ocidental" (Portugueses e Holandeses são parte incontornável da história local), tudo, mas absolutamente tudo estava escrito unicamente em caracteres japoneses. Eu tinha uma boa ideia dos "alfabetos" Hiragana e Katakana, o primeiro usado para escrever palavras de origem japonesa e, o segundo, para termos estrangeiros mas, como se isto não fosse já suficientemente complicado (cada sistema de caracteres é composto por cinquenta símbolos representando sílabas), a escrita japonesa ainda é feita da mistura de Hiragana com Kenji (vulgarmente conhecidos como os caracteres "chineses"). Ou seja, não conseguia ler as palavras (primeiro passo para as conseguir traduzir). Recorri ao meu guia e a um mapa obtido na estação de comboios. A ideia era ir ter a um hotel-cápsula que existia logo ali junto à praça da estação ferroviária. Com jeitinho, lá fui tentando perceber onde seria o hotel. Dei uma, duas voltas à praça, saí dela e entrei numa avenida, voltei atrás e... nada. Comecei a irritar-me e fui acalmar-me passeando no centro comercial da estação (nesta, não havia qualquer posto turístico).

Acalmado o espírito, resolvi tentar de novo. Quando me preparava para mais uma ronda de ruas, lembrei-me de que a polícia japonesa era conhecida pelo seu apoio aos cidadãos. Ora, eu tinha visto um pequeno posto ali perto e foi para lá que me dirigi. O posto de polícia tinha um salinha muito simples, onde estava sentado um guarda por trás de uma secretária. Para além disto, não se via mais nada, havendo unicamente uma porta que daria para outra sala. Cumprimentei o guarda e, como a conversa poderia ser mais complicada do que a minha competência linguística permitia, perguntei-lhe se ele falava Inglês. Ele disse que só falava um bocadinho (e mal, acrescento) mas que, comigo dando uns toques de Japonês e ele de Inglês nos entenderíamos. Lá tentei explicar-lhe que andava à procura de um certo hotel mas que não o encontrava. Ele pensou e informou-me de que o dito estabelecimento já não existia. Isto estava cada vez melhor... Perguntei-lhe se conhecia um outro sítio onde pudesse ficar. Ele levantou-se e veio olhar para um mapa que estava na parede, também ele unicamente escrito em caracteres japoneses. Apontou vagamente para uma zona, o que me deixou, naturalmente, na mesma. Perante o meu ar desconsolado, o guarda (sempre com um ar sério), resolveu servir-me de guia. Disse qualquer coisa para a sala contígua, pos o chapéu e fez sinal para que eu o seguisse.

Ao fim de umas centenas de metros, entrámos num hotel, numa rua das traseiras da praça onde o posto estava. Na receção, estava uma senhora de alguma idade, de aspeto simpático à qual o polícia disse uma frase onde apenas entendi a palavra "gaijin" (estrangeiro). Devia estar dizendo alguma coisa do tipo "Está aqui um estranja que não se sabe orientar". Agradeci ao guarda e tratei do rapidíssimo checkin. Há males que vêm por bem. E a verdade é que o hotel onde o polícia me levou era ótimo. Simples, limpo e barato. Nos corredores havia pequenas estantes cheias de banda desenhada para que os hóspedes levassem para os quartos. Nestes, a casa de banho era uma espécie de "cápsula" em plástico onde podíamos fazer chiqueiro à vontade. A sanita era daquelas com tampo aquecido e esguichos de água (aquilo deve ser maravilhoso para as mulheres) e eu até tinha um "quimono" para usar.

No dia seguinte já consegui orientar-me melhor. Os pontos turísticos da cidade tinham uma boa sinalização e, afinal, era só junto à estação que se gerava confusão.

Nagasáqui foi das melhores coisas que vi no Japão...

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