quarta-feira, 7 de setembro de 2011

A chinesa da limpeza

Havia uma semana que estava em Macau e o meu corpo já pedia misericórdia a tanto calor e humidade. Eu que sempre preferi o fresco às cálidas temperaturas, logo havia de ter ido parar a uma espécie de sauna a céu aberto onde, por menos roupa que usasse e mais sombra que procurasse, apenas a santa presença de um ar condicionado me poderia devolver algum conforto. Felizmente para mim, a casa onde eu passava férias tinha um - compra inicial da minha irmã quando emigrou para o então canto mais oriental de Portugal -, e resolvi tirar uns dias para gozar o descanso.

O tempo passava-se vendo VCD's (o formato em voga na altura, juntamente com os Laser Discs, muito populares naquela zona) e saltitando pelos canais de televisão, ora vendo a de Hong Kong, ora espreitando a chinesa, ora ficando pela RTP Macau onde passavam muitos programas sobre o território. Foi nessa altura que me apercebi do enorme conforto que é para quem está "fora" poder aceder à televisão portuguesa, ouvir a nossa música e, até, estar horas agarrado àqueles programas matinais feitos no Porto.

Findo um programa do José Hermano Saraiva, dirigi a minha atenção para a pequena - mas preciosa -, coleção de música portuguesa cujos CD's se alinhavam no móvel à minha frente. Quando testava os meus dotes vocais acompanhando o Rui Veloso (rodava a mini-aparelhagem o "Mingos e os Samurais") bateram à porta... À minha frente estava agora uma mulher chinesa, já com alguma idade, munida dos apetrechos típicos de quem anda a fazer a limpeza da escada. Sem qualquer hesitação (como é próprio dos chineses) começou a falar comigo enquanto mostrava um molho de notas na mão esquerda. Topei que esperava o pagamento da faxina mas o meu desconhecimento da situação impedia-me de pagar fosse o que fosse. Resolvi explicar-lhe que a casa não era minha e que teria de falar com a inquilina. Por gestos - apontando para mim, apontado para trás, apontando para cima... -, acompanhados de expressões simples em Português, lá tentei que ela compreendesse que teria de voltar mais tarde. Cada esforço meu esbarrava no ar impávido da mulher que logo reiniciava uma longa série de monossílabos que deviam querer dizer imensa coisa mas que, para mim, eram... Chinês.

Resolvi explicar-lhe a situação com bonecos. Peguei numa folha de papel e nela desenhei um homem e uma mulher, da forma mais simples e infantil que pude. Apontei para os rabiscos que me representavam e apontei para mim, apontei para o desenho da rapariga e apontei para as notas que a mulher trazia. Nada... a não ser mais palavreado. Pensei que talvez os rabiscos pudessem se parecer demasiadamente com algum caracter local e resolvi desenhar um casal de forma mais percetível. Sempre perante o olhar impávido da chinesa, desenhei um homem e, para que não houvesse qualquer dúvida, esbocei uma mulher nua, com um assinalável "par". Num assomo de picuinhice - e não sem que me perguntasse se estaria a cometer alguma indelicadeza cultural -, veio-me à ideia completar a representação da Eva com as pilosidades próprias da zona púbica feminina. Pronta a obra, mostrei-a à mulher, novamente apontando para os bonecos, para mim e para um espaço incerto. Desta vez, o rosto da mulher alterou-se ligeiramente, apenas o suficiente para me parecer ver nele um espanto contido. Balbuciou qualquer coisa e virou costas.

Seis meses depois, ainda não tinha voltado.

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