quinta-feira, 4 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 1 (Lisboa - Porto)

Alfa-pendular da CP
2010/03/04

Fim de dia de trabalho e começo de férias mais ou menos "grandes". Excecionalmente, a habitual azáfama de última hora antes do grito de liberdade não ocorre e dou por mim a perguntar aos colegas se há alguma coisa para fazer. Parece que sim mas nada que valha a pena começar.

Preparo-me para a largada e, meia-hora antes do encontro com o Alfa, abalo de forma apressada. Há compras de última hora a fazer, minudências como um desodorizante ou uma caixa de pastilhas para tentar abafar o cheiro do tabaco. Alargo o passo e faço um gancho pelo quarteirão: em cinco minutos estou de volta e no caminho certo para a estação.

Entrecampos está cheia de gente. Os comboios sucedem-se, abrindo as portas para engolir os grupos de pessoas que procuram voltar a casa e deixando escapar, aqui e ali, alguém cuja vida se faz no sentido inverso da multidão.

Conto os minutos para o "meu" comboio, verifico e reverifico o bilhete e os painéis informativos enquanto mastigo uma sandes comprada num quiosque de comes e bebes e troco uns cobres por uma garrafa de água fresca.

Finalmente, o aviso: vem aí o Alfa para o Porto. Estou no quilómetro zero da minha viagem e antecipo os primeiros momentos de tudo: as paisagens rumo ao norte, o hotel modernaço onde ficarei, as indispensáveis voltinhas na Invicta...

O conforto do nosso TGV nunca assumido convida-me à leitura. Comprada no dia anterior, uma edição em conta do "1808" (a "história" de D. João VI no Brasil) ocupar-me-á o tempo morto pelo dia escuro e pelo adiantado da hora. Ao fim de pouco tempo, as paisagens deixam-se engolir pela noite e apenas as peripécias tropicais da nossa família real me impedem de, pelo sono, ceder à monotonia do trajeto. Aqui e ali, um pouco mais de luz deixa-me descobrir, sob a ameaça de um torcicolo, uma mansão, uma aldeia, uma planície fugaz...

O país anoitecido vai passando pela minha janela, riscado por traços amarelados onde o comboio mais se esforça por chegar cedo: 200... 220... 223km por hora logo a seguir a Aveiro. A sensação de desperdício assalta-me quando noto o quão passageiras são estas corridas. O Alfa é como um sprinter: dispara em corridas curtas para logo ter de começar a travar. Como a linha não permite melhor, e em vez de se mudar esta, tentam vender-nos a loucura de todo um novo sistema de alta-velocidade que, mais certo do que fazer-nos chegar ao Norte mais cedo, é levar-nos para um poço de dívidas.

A chegada ao Porto tem o tom da novidade. Nunca tinha estado na Estação de Campanhã, embora já por lá tivesse passado. Saio da carruagem, respiro o ar diferente, observo o local e procuro a linha do Metro. Embora veja muitas indicações, dou por mim com a sensação de andar meio perdido em busca da paragem do famoso e sempre aumentado sistema. Sigo os sinais, saio e entro da estação e, finalmente, após subir e descer escadas, lá entro num espaço despido onde carrego um "Andante" levado de Lisboa. As estações do Metro do Porto são desconsoladas. Frias física e visualmente, despidas de adereços, fazem juz ao minimalismo oficial da "escola do Porto". É pena que assim seja...

Apanho a composição e saio na Carolina Michaelis. Já conheço o local e dirijo-me para a Rotunda da Boavista com dois objetivos: jantar e apanhar o autocarro para o hotel. Cumpro o primeiro num estabelecimento dividido entre um restaurante utilitário e um clube de bilhar. A ementa, só podia ser uma: francesinha!

Acabado o jantar, peço indicação ao empregado sobre a paragem do autocarro que pretendia apanhar. Mandam-me para a Av. de França, ali perto da Casa da Música mas logo percebo que tão ignorante é o turista como o local. Faço-me ao caminho do hotel Star Inn, ali junto à Estrada da Circunvalação, enquanto a canção de Sérgio Godinho vai marcando os meus passos. "Circunvalação, Estrada da Circunvalação...".

O caminho acaba por ser agradável. Não chove, há muitos edifícios antigos para ir apreciando e em pouco tempo dou por mim vencendo a distância que julgava ser grande, cruzando a famosa estrada e tendo de confirmar que tinha de voltar para trás.

Quarto no Star Hotel
Chego ao hotel, que fica no fim de uma rua secundária, e espero junto ao balcão, enquanto o rececionista acaba de atender um telefonema. Curiosamente, alguém lhe perguntava por um assunto que também eu levava no bolso: as condições da estadia, diferenciadas na versão online e no recibo da reserva, com clara vantagem para o cliente na segunda versão. Que não, que o hotel não tinha sauna, nem piscina, nem os hóspedes tinham direito a um roupão... Sorri quando o telefonema acabou e disse ao empregado que eu também ia à espera dessas coisas. Era uma esperança ténue já que o baixo preço da estadia certamente não permitiria semelhantes luxos.

Acabadas as formalidades, rumo ao descanso, não sem que antes tivesse de voltar à receção para me corrigirem o cartão magnético que servia de chave. Uma vez no quarto, foi o deslumbramento: o Star Inn, de facto, não enganava na sua pretensão de ser um hotel com design. As cores, a decoração, o conforto e o ar limpo de tudo imediatamente me fizeram sentir num verdadeiro refúgio onde logo me espraiei gozando o espaço. Por pouco menos de EUR 30, estava num local excelente!

Já na cama, passeio pelos canais à disposição. Paro quando uma estrondosa louraça nua me diz adeus debaixo de uma queda de água. Achei simpático e fiquei por ali até adormecer...

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