domingo, 14 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 11 (Rabat - Tânger)

2010/03/14

Rabat acordou-nos cheia de sol mas com uma temperatura agradável. Como, mais uma vez, o tipo de estadia no Ibis não incluia pequeno-almoço, foi com mais pressa que nos despachámos, rumo ao centro da cidade.

Percorremos, no sentido contrário, as estradas e avenidas por onde tínhamos passado na noite anterior, agora melhorando a rota aqui e ali, devido à vantagem de ser dia. A cidade não parecia ser nada feia (segundo padrões marroquinos): ruas mais arranjadas, espaço livre, etc.

Cruzámos as muralhas e, pouco depois, estávamos entrando na Av. Mohamed V, a principal artéria da capital de Marrocos, um local composto por uma alameda central decorada com palmeiras ladeada por edifícios brancos com um estilo misto que trai a sua origem francesa. A meio, passámos pelo edifício da assembleia nacional.

Ao chegar quase ao fim, junto a um sítio onde o espaço se abre e existem alguns edifícios públicos de arquitetura local, invertemos o sentido e estacionámos o carro na sombra. O dia estava mesmo bom e a zona era uma ótima variação ao que até então tínhamos visto do país. Estes dois fatores combinados encheram-me daquela sensação de leveza que se tem quando se anda a passear com gosto. Atravessámos a avenida para o lado onde parecia haver cafés e entrámos no primeiro que apanhámos aberto. Era um sítio muito agradável que, embora tendo sido remodelado, se enquadrava ainda muito bem no tipo de edifício onde estava. Havia apenas duas ou três mesas ocupadas. Mandámos vir café com leite e croissants e aproveitámos para dar uma olhadela aos planos para o passeio.

Catedral de Rabat
De barriga reconfortada, subimos a avenida, quase sempre debaixo de arcadas. A pé confirmou-se a boa impressão com que tinha ficado da zona, aquando da passagem em automóvel. A certa altura, virámos à esquerda para apontarmos à catedral de Rabat, outra herança deixada pela França. A rua que lá levava tinha prédios modernos mas também outros mais antigos em estilo europeu. Por "mais antigos" quero dizer coisas dos anos 50, 60. A estrada estava toda em obras para instalação de uma linha de elétricos mas, como era domingo, tudo estava parado e aproveitámos para ir andando calmamente pelo meio do caminho.

Chegámos à praça da Catedral, vindos das traseiras, o que terá diminuido um pouco o impacto do edifício mas sem lhe tirar qualquer graça. Avancei pela rotunda adentro para ter mais espaço para contemplar o volume. Branco, grande, combinando (mais uma vez) vários estilos, claramente ocidental mas cheio de pormenores "exóticos" (o rendilhado das janelas, por exemplo), a catedral gera uma sensação de familiaridade nostálgica. Sendo ateu, não deixo no entanto de me sentir sempre em casa quando, num país não-cristão, entro numa igreja. Ali, não houve exceção à regra e por momentos tentei imaginar como seria o Marrocos colonial, com a sua mistura de gentes e costumes, quando esta zona seria, provavelmente, uma pequenina Europa. No interior, a simplicidade própria da época em que o templo foi construído. De resto, tudo igual a qualquer outra igreja católica.

Na volta para o carro, passámos por ruas secundárias, mantendo a boa opinião sobre toda aquela zona. À chegada ao carro, a fatal gorjeta a um arrumador... Embora o segundo ponto de visita (a medina) fosse a apenas algumas centenas de metros, o meu tio optou por deixar o carro mais próximo da área antiga da cidade. Novo estacionamento, nova gorjeta, claro...

Ao sair do carro, estacionado do lado de fora da muralha da medina, dou de caras com uma das muitas amostras do interesse marroquino no futebol espanhol: uma carrinha completamente enfeitada com cores e símbolos do Barcelona. Do mal, o menos... Atravessamos a passagem sob a muralha e entramos nas ruas velhas onde se acumulam vendedores ambulantes e pequenas lojas de estilo pouco sofisticado. Estamos quase, quase no coração da cidade que acaba por ser composta de vários núcleos muralhados, quase como se tivessem sido juntas várias cidades (o mesmo acontecia em Fez).

O sol já começava a queimar a cabeça e socorri-me de um carapuço que levava. Juntamente com uns óculos escuros, terei adotado uma figura um pouco exótica :) Seguimos pela rua principal da medina, em direção ao mar. Antes de chegarmos a este, ainda há um grande núcleo cujo ponto principal é um grande cemitério que faz uma espécie de fronteira entre a cidade e as praias. Entrámos na necrópole, apreciando a vista e a paisagem de túmulos. Aqui e ali, das campas emerge uma espécie de cubo rematado por uma meia esfera: trata-se do túmulo de um homem santo. Havia vários por ali. O cemitério não tinha qualquer componente soturno: apesar da organização caótica (isto existe?), a brancura das campas, o seu aspeto tradicional e o enquadramento paisagístico davam ao local um visual em nada desagradável.

Seguimos uma rua paralela ao grande cemitério até irmos dar a outra, mais larga que se cruzava com a primeira e que acompanhava mais uma zona de muralhas. Ali sim, era a medina "turística". Atravessámos a estrada, observámos alguns vestígios arqueológicos a serem escavados na zona, apreciámos a vista e dirigimo-nos para uma das entradas, onde está um pequeno forte de construção portuguesa.

Ao chegar junto ao portão, um rapaz faz-nos gestos para que tenhamos pressa. "Rápido, que a medina vai fechar", parece ele dizer-nos. O meu tio, já batido nas manhas daquele pessoal, parece desconfiar mas acabamos por achar que era natural que a zona tivesse algum tipo de horário. Entramos e cruzamos uma segunda porta, esta sim para a área do forte propriamente dito. Imediatamente se torna visível a intenção do rapaz: quer ser guia. Tenta informar-nos de coisas banais, perfeitamente escusadas, enquanto o meu tio lhe vai dizendo que não é preciso, que ele mora em Marrocos. o rapaz, lá acaba por desistir, sem deixar, primeiro, de pedir uma gorjeta. Não tem sorte e esta acaba por ir para o guarda à porta...

Saímos do forte (fortim) e subimos a uma esplanada adjacente. A vista é linda: mar, mar... uma cidade antiga defronte e o rio entre as duas urbes. Mais uma vez, sinto a sensação de liberdade que o viajante tem. Continuamos a subir umas escadinhas mais ou menos toscas e alcançamos uma praça rodeada de edifícios rasos e brancos, em estilo de parada de quartel, quase. Passando por debaixo de um vulgar arco, entramos no emaranhado de ruas brancas que formam o coração da medina, o kasbah. Algarve? Alentejo? Onde estava eu? A semelhança é tão grande que até o contraste do branco com o azul pintado na base ou à volta das janelas está presente para nos fazer sentir em casa. Se não fossem as pessoas e o seu aspeto diferente, qualquer português a sul do Tejo se sentiria na sua terra. Ali, qualquer porta pode ser a da nossa casa de família.

Parece Portugal, não é?
Descemos ruas e escadinhas até irmos dar a um local onde um grupo de músicos, sentados no chão, tocava músicas típicas. Um conjunto de turistas americanos obervava, ouvia e filmava. No fim, quando os artistas acabaram, ouviram elogios e viram sorrisos. Moedas? Nem uma... Passei por aquela cena sorrindo para mim do feitio forreta daquele pessoal. Virei para a direita e entrei numa zona acastelada e, ao mesmo tempo, ajardinana onde está um museu. No fim do desvio, eu e o meu tio chegámos a um terraço onde havia um café, com pequenas mesas de madeira debaixo de um alpendre. O sítio era claramente turístico mas era tão agradável que eu fiz questão de ficar ali um bocadinho. Fiz bem porque, não só o chá de menta era ótimo e o ambiente era descontraído como ainda assisti à engraçada conversa entre o meu tio e um vendedor de doces. Este, pediu por uma espécie de chamuça doce um valor que o meu tio achou elevado e imediatamente tentou baixar; o vendedor, sorriu e perguntou de onde o meu tio era. Português! Ah... Porto - disse o vendedor. O meu tio, ferido no seu orgulho de lampião, disse logo "Benfica!", ao que o vendedor, sorrindo, respondeu com um "diplomático" e sumido "Benfica...". Já se vê que as glõrias passadas do clube da Luz não parecem fazer grande eco por ali. O bolo lá foi vendido a um preço mais simpático e o vendedor despediu-se de um jeito bem-disposto. Saboreei o chá e, quando esse pequeno grande prazer chegou ao fim, continuámos o passeio.

Retornámos por parte do caminho feito até ali virando, no fim, em direção a uma das portas da muralha. Pelo caminho cruzámo-nos com o indivíduo que tinha tentado ser nosso guia. A nossa "desfeita" não o tinha embaraçado e já conduzia um pequeno grupo de turistas através de uma porta aberta por si e que pareceu dar acesso a um terraço com vista para o mar. Um pouco mais à frente, a ternurenta descoberta de um conjunto de gatinhos recém-nascidos que se acumulava no espaço debaixo de uma porta, aqui e ali caindo um para o passeio e logo tentando retornar atabalhoadamente para junto dos irmãos.

Saímos da zona antiga e voltámos para onde estava o carro, variando um pouco o caminho. Por todo o lado da rua principal havia comércio: roupas, comida, apetrechos vários. Ao passar por uma mesquita, começou a ser feita a chamada para a oração o que acrescentou graça ao ambiente.

Escolhemos rapidamente um local para almoçar já que não havia muita variedade. Entrámos num restaurante simples, do tipo que se encontra em mercados (que era o sítio onde estávamos), e cuja especialidade parecia ser peixe. Preferimos a carne e mandámos vir umas desinteressantes espetadas de frango. Para beber, contentámo-nos com Coca-Cola que, ali, não havia cerveja.

De novo sentados no carro, procurámos o próximo ponto turístico: as ruínas de uma mesquita que caiu sob o efeito do "nosso" terramoto de 1755 e que são o ex-libris da cidade. Mas, antes, fizémos uma paragem na marginal que corre paralela ao rio para bebermos um café numa simpática esplanada, apreciarmos o ambiente e tirarmos fotografias a outro ângulo da zona velha bem como à cidade de Salé que fica na outra margem e que se pode alcançar (se assim se quiser) de barquinho típico. Aliás, o colorido das poucas embarcações acumuladas no local vale, só por si, um bom par de fotografias.

Acabado o café enganámo-nos numa curva e resolvemos atravessar a ponte e dar uma volta por Salé. A cidade segue o modelo habitual por aquelas zonas: uma extensa muralha contendo no seu interior a urbe. Não notámos nada que se destacasse e voltámos a atravessar o rio acertando, desta vez, com o caminho para a mesquita. Deixámos o carro ali perto, numa zona agradável de moradias e onde estavam estacionadas muitas autocaravanas de matrícula francesa.

A sentinela desconfiada...
Junto às ruínas da mesquita (da qual só subsiste a torre e uma floresta de restos de colunas), há ainda um mausoléu do rei Mohamed V, edifício lindíssimo, profusamente decorado e com uma guarda cerimonial de soldados em farda de gala. Tentei tirar uma fotografia a uma das sentinelas que, ao aperceber-se de mim, imediatamente se esquivou... Mais tarde, tentei apanhá-lo por trás (salvo seja) e não é que o instinto da criatura a avisou? Desta vez, quase que deu um salto para fugir à foto! Que sentinela... Felizmente, nenhum outro guarda sofria do mesmo problema (Seria por o assustadiço ser preto? Viria de uma cultura diferente?) e pude fotografar livremente as coloridas personagens, inclusivamente as que guardavam uma das entradas da praça e que estavam a cavalo. Toda aquela zona tem um encanto especial e proporciona ótimos enquadramentos para fotografias.

Deixámos o local rumo às ruínas de Chellah, um núcleo amuralhado (as cidades marroquinas são compostas por vários núcleos separados e com muralhas próprias, como se fossem cidades diversas separadas por uma simples rua), em cujo interior se misturam vestígios romanos e mouriscos. O local é deveras interessante (entrada: 10 din.) e tem bastante encanto. Para além dos vestígios de construções romanas, há ruínas de uma mesquita e edifícios adjacentes, muitas árvores e imensas cegonhas bem como gatos meigos pedindo festas. Também há alguns túmulos de homens-santos, que, como atrás referi, são como pequenas casas de forma cúbica com um teto semiesférico. Ao longe, a paisagem era feita de colinas cobertas de árvores em tudo lembrando o Alto-Alentejo.

Muralhas de Chellah
A nossa visita a Rabat estava terminada. Àquela hora, as já de si vermelhas muralhas da cidade ganhavam um tom quase de fogo. Senti alguma pena de deixar a cidade que, decididamente, me agradou bastante.

Na estrada, ainda nos arredores de Rabat, passámos por campos onde muita gente pairava, entre piqueniques e jogos de futebol, num clima de diversão de fim de tarde.

Mais à frente, já em estrada aberta, eram inúmeras as mulheres recolhendo ervas à beira do caminho, vestidas com roupas típicas e, algumas delas, transportando gigantescas trouxas às costas. Infelizmente, nem abrandando a marcha foi possível compensar a lentidão de disparo da máquina fotográfica e obter uma imagem capaz. Uma pena...

O resto do caminho fez-se por entre a familiaridade da paisagem (a tal coisa de aquilo parecer o Alentejo) e as canções de Vitorino e Carlos Guilherme. Música "árabe" no carro do meu tio? Nem pensar!

Passámos por grandes zonas alagadas - algumas das quais onde se viam bosques inteiros semisubmersos -, e áreas cobertas de estufas. A certa altura da agradabilíssima viagem - e porque tudo o que é bom tem um fim -, o meu idílio turístico foi interrompido pela "necessidade" de ouvir o relato de um jogo do Benfica. Entrámos em Tânger já com a noite instalada, ao som dos pontapés do DiMaria e seus companheiros. Havia muito movimento nas ruas e tive pena de não poder continuar o passeio, agora pelas ruas da cidade. Em casa, deixei o meu tio entregue ao vício da bola (agora vista pela internet) e fui deitar-me. O relógio andava à volta das 21:30 e a mesquita mais próxima começou a chamada. Foi embalado neste som que rapidamente adormeci.

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