segunda-feira, 15 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 12 (Tânger - Cabo Spartel - Arzila - Larache - Tânger)

Farol do Cabo Spartel
2010/03/15

Nove horas e meia na cama! Uma espécie de record ao qual só me pude entregar pelo facto de não estar de férias sozinho e estar dependente de "motorista". O menu do dia era uma ida ao cabo Spartel (tido como um dos pontos essenciais à volta de Tânger) seguida de uma passagem pela famosa Arzila a caminho de Larache.

O dia estava solarengo e tive o especial cuidado de não me esquecer de levar o meu chapéu de aba larga. O meu tio resolveu que, antes de ir ao cabo, me havia de mostrar uns túmulos antiquíssimos que existem em plena rua. Após algumas voltas, lá encontrámos os ditos. Numa zona residencial, calma, num canto que talvez pudesse ter sido, em tempos, um minijardim, lá estão algumas covas quadrangulares. O espaço está abandonado, sem informação e, verdade seja dita, vale mais a ida ao local só para ter um cheirinho de mais um bairro de Tânger do que, propriamente, para ver aquilo que mais tarde viemos saber serem os vestígios de umas tumbas fenícias. Para sairmos dali foi necessário passar pela baixa da cidade: uma mistura de prédios deixados pelos espanhóis (nota-se o estilo) e de muita construção recente. Embora não tenha achado tudo aquilo propriamente interessante, não deixei de ficar com curiosidade em passear pelas ruas.

Fizémo-nos à estrada a caminho do Cabo Spartel. O caminho estava regularmente enfeitado com conjuntos de bandeiras marroquinas e via-se muita polícia plantada à beira da estrada. Nem era preciso dizerem-nos porque já tínhamos percebido: o rei andava ou andaria por ali. O ridículo da cerimónia a que esta gente se entrega para manter as aparências perante a presença do monarca vai ao ponto de haver pessoal a varrer o pó da berma da estrada (!!!) e a esconder os contentores do lixo.

A certa altura passámos numa rotunda onde havia mais polícia. No local havia uma saída para o caminho que levava à Gruta de Hércules (outro ponto turístico) mas também a entrada do que parecia ser uma estância ou palácio. Seguimos em frente através de uma paisagem costeira agradável acompanhados da habitual sensação de familiaridade com o que se via. Em dado momento, num ponto onde a estrada desce bastante, pudemos ver o que teria sido um forte colocado numa espécie de foz de um ribeiro. Seria nosso? A estrada subiu (o local fez-me pensar na chegada à Ericeira, junto à foz do Lizandro - mas com menos casas) e, passado pouco tempo, chegámos ao cabo, anunciado a alguma distância pelo seu farol.

Verdade seja dita que, embora se esteja num cabo, não se tem bem a perceção disso. O local é alto, tem muita vetegação e o mar apenas se vê em frente. Em dias límpidos, avista-se dali a Península Ibérica. Bem me esforcei mas a Europa não se quis mostrar...

No local, como não podia deixar de ser, há um restaurante e um ou dois vendedores de recordações. O primeiro estava a abrir e os segundos ainda montavam as bancas. Chegámos à porta da zona do farol (que parecia abandonado) e encontrámo-la fechada e com um aviso de passagem proibida. Por incentivo do meu tio, ignorámos a placa e entrámos. O farol é de base quadrangular e pintado de amarelo pálido. Há palmeiras por perto através das quais se tem uma vista bonita para o resto da costa e pode-se ir à "esplanada" do edifício. Mais uma vez, puxei pelos olhos mas a Europa não se via. Pena.

Voltámos para trás (eu com o alívio de ninguém ter aparecido a dizer que tínhamos invadido uma zona militar) e resolvemos ir beber um café ao restaurante. Éramos os únicos clientes. O sítio era grande e agradável, com mobília feita de cana e palhinha e facilmente se imagina como um êxito na época alta. Mandámos vir café com leite o que nos reconfortou bastante atendendo à brisa marítima que se sentia.

No caminho de volta, passámos por um conjunto de camelos que languidamente caminhavam num areal, conduzidos pelo seu "patrão". Os animais estavam ali para efeitos turísticos já que não têm nada a ver com aquela zona do país.

Pensámos ir à Gruta de Hércules. O meu tio achava que eu devia conhecer o sítio. Simplesmente, ao chegarmos à rotunda que referi atrás, a estrada que dava acesso ao ponto estava fechada aos comuns dos mortais. Mais tarde, soubemos que andava pela zona um chefe de estado africano. Talvez tenhamos ficado a dever ao presidente do Burkina Faso ou outra potência de igual calibre o não podermos ir dar uma voltinha mais pela zona.

Torre de menagem portuguesa, em Arzila
Estrada para Arzila. Campos verdes à esquerda e areais à nossa direita. Entre a estrada e o mar, uma barreira de arbustos que só algumas vezes nos deixavam ver o azul do Atlântico. O caminho fez-se bem, sem qualquer sobressalto. Ao chegarmos à "nossa" Arzila, deixámos o carro numa zona de estacionamento em terra batida, à entrada da cidade velha. O local era em tudo igual ao que se encontra no Algarve: o mar, obras na margem e nos molhes, terra batida e autocaravanas estacionadas (os franceses e as suas "integrais"). Caminhámos um pouco pelo grande pontão que ali existe, tentando capturar a melhor imagem das muralhas e do casario branco. O vento estava fortíssimo e, antes que houvesse um homem ao mar, descemos. Entrámos na cidade pela porta principal, numa rua onde se acumulavam vários polícias e militares em trajo mais cuidado. Talvez alguma festa estivesse em preparação. Virámos à direita para a praça onde está o ex-libris de Arzila: a torre de menagem portuguesa, cuidadosamente recuperada e em todo o seu esplendor militar. Pregada à muralha está uma daquelas placas parolas recordando a visita de alguma autoridade portuguesa ou apelando à amizade entre os povos. Mais à frente, numa parede, existe uma grande pintura alusiva ao 25 de Abril.

Arzila é branca. Daquela brancura que só as culturas mediterrânicas conhecem. Como noutros locais, a sensação de se estar em casa é quase total. Embrenhámo-nos pelas ruas, aumentando em mim, a cada passo, o gosto pelo passeio. Atravessámos alguns arcos e fomos dar a uma área onde existem pequenos terraços junto ao mar. A vista é bela. O cenário envolvente convida-nos a ficar por ali, repartindo a nossa atenção pelo oceano, as casas e os vestígios militares. À nossa direita, antigos canhões espreitavam por entre as ameias. Abaixo de nós, alguns miúdos jogavam à bola numa zona mista de areia e rocha. Logo ali, alguns túmulos muçulmanos antigos enfeitavam um pequeno terraço com os seus ladrilhos coloridos.

O passeio seguiu, na pressa causada por haver muito para ver nesse dia. Envolvidos pelo omnipresente branco, damos por nós procurando a cor. As portas pintadas de azul ou verde vivos, algumas flores, paredes com desenhos alusivos a lojas de artesanato... Havia no ar um ambiente sereno de terra que ainda não tinha acordado bem ou que, por estarmos em época baixa, não estava propriamente em funcionamento. Saímos da zona fortificada, para poder ver umas armas portuguesas numa das portas da cidade e aproveitámos para seguir ao longo da parede da muralha à qual se encostavam algumas esplanadas sem ninguém. Ali, a terra já ganhava os contornos típicos dos sítios pouco cuidados. A cidade vivia normalmente, esquecida da beleza herdada que estava do outro lado do muro. Avisto uma mulher vestida com trajos tradicionais montando um burro. Paro para apreciar a cena e tirar fotografias.

Voltamos a entrar na zona antiga e a calcorrear as ruelas. Paramos para comer "pastilha", um petisco típico que não passa de uma espécie de massa extremamente fina (como a dos crepes), cozinhada sobre umas bolas de metal (?). Esperámos que alguns miúdos fossem atendidos e lá nos "empastilhámos". Achei o pitéu uma coisa totalmente sem graça. Voltámos à praça principal (a da torre) e saímos pelo arco que há perto desta. Metemo-nos no carro, demos uma ou duas voltas pelos quarteirões mais próximos enquanto tentávamos acertar com o caminho e lá tomámos as ruas mais largas da cidade "moderna", a caminho de Larache.

(continua)

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