terça-feira, 16 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 13 (Tânger - Tetuan - Chefchaouen - Tânger)

2010/03/16

Plano do dia: ida a Tetuan e Chefchaouen.

Saímos de manhãzinha, rumo ao norte, passando pela moderna marginal de Tânger. Abrandamos junto ao que teria sido um parque de campismo para observar uma coluna de camelos "turísticos" passando. Não me refiro a turistas, entenda-se, mas sim a uma pequena cáfila que ali costuma andar para gáudio de quem queira experimentar a sensação de montar uma enorme marreca. Continuando a viagem em ritmo mais acelerado chegamos, um pouco depois da saída da cidade, ao cabo Martil, para termos uma vista panorâmica da cidade velha, lá ao longe. A vista é bonita sem no entanto deslumbrar. Ao fim de poucos minutos e por causa do muito vento, voltamos ao carro com alívio. Arrancamos e passamos por um castelo construído a pouca distância da estrada, sobranceiro à costa e que é, na realidade, falso, já que se trata de um capricho de alguém que tinha, obviamente, dinheiro e mau gosto em quantidades apreciáveis. Digo isto não porque o edifício seja feio (é um castelo...) mas sim porque se trata de uma saloíce, esta coisa de recriar fortalezas fora da sua época. No Algarve também há uma e vê-se a partir da Via do Infante (infelizmente).

A costa marroquina é toda ela em estilo mediterrânico, sem ter propriamente pontos que se destaquem, e apenas a novidade me impediu de cair no enfado. A certa altura, a estrada desceu até quase ao nível do mar, num desvio para dar uma vista de olhos a Alcácer Seguer e aos restos da fortificação portuguesa ali existente. Esta está praticamente na praia e um pouco escondida por uma sinstalações nas quais não pudemos entrar. Talvez dando a volta e molhando os pés ou pedindo um favor a alguém que tomasse conta do que me pareceu ser uma espécie de parque de campismo. Mas não estava lá ninguém... Como ali não havia muito mais a fazer do que espreitar, retomámos a estrada que, a partir deste ponto, se tornou mais interessante. O caminho começou a ser mais sinuoso e a ganhar altitude e a paisagem tornou-se mais majestosa. Sempre em tom esverdeado (por causa da erva e dos arbustos) e com a cor avivada por chuva que tinha caído, as encostas sucediam-se agradavelmente. Para dar alguma excitação à viagem, começaram a surgir grandes falhas na estrada que, em alguns casos, tinha visto ser-lhe comido metade do piso pela chuva já referida. Por vezes, os nossos pneus esquerdos rasavam a parte abatida e cada vez que passávamos por um destes pontos perguntávamo-nos se ainda acabaríamos levados por uma derrocada. Mas, apesar do grande perigo, tudo correu bem e a verdade é que não vimos nenhum acidente.

Chegámos a uma zona próxima da fonteira com o território de Ceuta (que começa bem antes da cidade) e fizemos o desvio. Chegados ao local, bem junto do mar, damos com terrenos cheios de automóveis (sobretudo Mercedes velhos - muito populares em Marrocos) e filas de carros alinhados para passar na fronteira. Mal parámos, imediatamente veio ter connosco um homem oferecendo os seus préstimos para preencher os papéis para a alfândega. Esta gente parece fazer ali bastante negócio e, provavelmente, presta um serviço útil a quem não tem à vontade com a burocracia fronteiriça. O tempo estava a ficar bastante cinzento e ameaçar borrasca e o mar, escuro, fazia ondas algo violentas que começavam a salpicar quem estava em terra pelo que tratámos de nos irmos embora dali. Um último olhar para a feia vista de Ceuta e ala que se faz tarde.

A partir da fronteira com Ceuta, o caminho foi junto à costa e urbano. Daquele ponto em frente começa uma infindável sucessão de aldeamentos turísticos, servidos por uma boa estrada. O aspeto faz lembrar um pouco algumas zonas do Algarve (as mais arranjadinhas) e facilmente nos imaginamos passando umas férias de papo para o ar em qualquer um daqueles apartamentos/casas. Desconhecendo eu a zona e ainda trazendo comigo algum do preconceito com que abordei o país, não pude deixar de ficar surpreendido com o que vi, parecendo haver, até, algum exagero nos cuidados postos na manutenção dos locais (mais uma vez, vi gente a varrer o pó dos passeios).

Uns quilómetros à frente, avistei de relance o que parecia ser as ruínas de uma igreja a alguma distância da estrada (que, nesse ponto, só tinha urbanizações do lado do mar, sendo o outro de campo). O meu tio prontamente parou o carro junto a uma má estrada de terra - recusando-se, por preguiça e cuidado, a seguir-me -, e eu fiz-me ao caminho que não tinha mais do que poucas centenas de metros. Aquilo que, ao longe, parecia ser uma igreja, teria sido, aparentemente, o edifício principal de uma "fazenda" na qual entrei passando por um portão que até incluia uma cabina para guarda. O enorme espaço estava abandonado e completamente entregue à decadência. Antes de chegar à "igreja", reparei numa zona que teria sido um conjunto de pátios para descanso, cobertos com barrotes de madeira (provavelmente para serem ligados com videiras). Depois, o edifício principal que era composto por duas "torres", corpo central e que tinha um tamanho bastante apreciável. Ainda era possível entrar no átrio e ver as escadas que dele saíam. Não se via vivalma, nem um bicho. Começou a pingar e apressei o meu regresso, saindo daquele espaço perdido no tempo com a pena de não poder passar ali muito mais tempo.

Finalmente chegámos a Tetuan. Esta movimentada cidade, cujo núcleo composto por edifícios civis espanhóis é património da humanidade, atraiu-me logo. A estrada de entrada era ladeada por prédios comuns mas, à direita, via-se um mar de casas típicas subindo um monte e tendo, no meio delas, uma pequena muralha do que em tempos terá sido um fortim. Havia ali aquele ar exótico que nos faz pensar em ruelas estreitas e buliçosas.

Antes de entrarmos na baixa da cidade, fizemos um desvio para ir almoçar. Comemos num cuidado restaurante de uma bomba de gasolina, sentados em cadeirões de palhinha. Como julgo já ter escrito antes, a comida marroquina é bastante desinteressante e vimo-nos a comer - uma vez mais -, frango assado acompanhado de Coca-Cola. A refeição foi barata e serviu para descansar, ao menos. De barriga reconfortada voltámos atrás e penetrámos na movimentada baixa de Tetuan. Ainda mal tínhamos chegado a uma das ruas principais, já um homem corpulento, de fato, com um cartão ao pescoço, queria ser nosso guia. Não foi o único porque outro se lhe juntou. As duas chagas acompanharam-nos correndo ao lado do carro (quais seguranças de VIP's) até dentro do grande parque de estacionamento (pago) que há no centro. E se o segundo "guia" desistiu facilmente, o primeiro (o do cartão) levou mais tempo a ir-se embora: que era guia oficial, que era bom, que nos mostrava as coisa... Foi preciso o meu tio dizer uma dúzia de vezes que já conhecia a zona e que morava em Marrocos para ele desistir. Enquanto esta conversa durava, eu ia contemplando o casario que se empilhava nas traseiras do parque (que é ao ar livre) sabendo no entanto que não iríamos lá.

Livres do "guia", fizemo-nos às ruas cheias de gente. É uma zona agradável, com quarteirões cheios de comércio e com um ar decadente q.b., ou seja, misturando um ar velho e sujo com a beleza dos edifícios dos tempos do Protetorado espanhol. Estes, embora sejam, efetivamente bonitos, não me pareceram merecer a classificação que têm. É certo que há o efeito do conjunto mas, mesmo assim... Um dos prédios maiores (antigo cinema?) alberga o centro cultural espanhol, coisa que se vê em várias terras em Marrocos e sempre em lugar de destaque. Começámos a notar gradeamentos nalgumas ruas nas quais não se podia circular de carro. Estranhámos mas fomos andando. A certa altura, já nem as pessoas podiam andar na estrada. Ao chegarmos à bonita praça principal, onde se encontra um palácio real (o país está cheio deles), fiz menção de tirar uma fotografia ao local. Imediatamente um polícia me faz (educadamente) sinal de que não o podia fazer. Porquê?, perguntámo-nos mutuamente eu e o meu tio. Bem... parecia que o nosso amigo, o Rei, também ia dar um pulinho a Tetuan e, por isso, voltava a causar-nos incómodos na nossa tarefa de "turistar". Chateados mas rindo-nos da situação, virámos o nosso interesse para o comércio local, feito de lojinhas em arcadas. Numa delas, resolvi comprar uma "djellaba", a roupa que uma grande parte dos homens veste e que é, basicamente, composta por uma só peça que se veste como um vestido e que tem um grande capuz em bico e que é usado precisamente de forma a realçar esse aspeto, conferindo às pessoas um ar de quem saiu do Senhor dos Anéis ou coisa parecida. Optei por um modelo em preto, feito de um tecido parecido com Polartec (uma djellaba moderna, portanto) na pespetiva de a usar no inverno, como roupa de andar por casa.

Embrenhámo-nos nas ruas, passando por algumas bem estreitas e das quais emanavam outras de igual largura. Finalmente, avistámos ao fundo uma praça redonda, larga, com palmeiras, uma igreja e prédios elegantes. Apontámos nessa direção. Pelo caminho, mais um ou dois cromos tentando ser guias mas que foram rapidamente despachados pelo meu irrepreensível "laa" ("não", em Árabe, e que se diz como o nosso "lá"). Um mais insistente e que queria conversa tentou adivinhar a nossa nacionalidade, o que conseguiu num ápice: "Portugueses? Temos muitos amigos lá. Somos todos antiespanhóis aqui.". Não pude deixar de sentir uma enorme familiaridade com os sentimentos do simpático marroquino...

Dada uma vista de olhos à praça, voltámos ao parque de estacionamento usando um caminho diferente e que nos permitiu ver mais alguns relances da cidade. O próximo destino seria Chefchaouen, a vila azul nas montanhas.

(continua)

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