terça-feira, 16 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 13 (Tânger - Tetuan - Chefchaouen - Tânger) - parte 2

Centro de Tetuan,
Património da Humanidade
2010/03/16

Saímos do centro da cidade e procurámos a estrada para Chefchaouen, a vila pintada de azul nas montanhas. Parámos para perguntar a direção a um polícia de bigode, rechonchudo e simpático que lá nos apontou o caminho certo.

Quase à saída da cidade, vendo-se na necessidade de meter gasolina, o meu tio resolveu fazer uma inversão de marcha num sítio onde semelhante manobra era proíbida. Fê-lo no lugar e na altura errados já que estavam uns polícias a cerca de duzentos metros dali, e precisamente na nova direção por nós tomada. É claro que nos mandaram parar...

De onde éramos?, perguntou o polícia que nos abordou. De Espanha? Por amor de Deus!, respondeu o meu tio ao mesmo tempo que o Carlos Guilherme começava a cantar o "Granada" no leitor de CD's do carro - :). Algumas perguntas e reparos depois, o meu tio lá apertou a mão ao polícia, colocando-lhe na mão uma nota de 50 Dirhams. Sorrisos e desejos de boa viagem e lá fomos à bomba de gasolina no sítio que o polícia indicou.

À volta - pelo mesmo caminho -, os mesmos polícias mandaram-nos parar: sorriram e voltaram a desejar-nos boa viagem.

Saídos de Tetuan, entrámos no campo. Estradas em montes e montanhas, num interior verde e pouco povoado. A certa altura, mais uma barragem policial e uma ordem para abrandar. Olharam e mandaram seguir...

Finalmente, após algum tempo de agradável passeio, chegámos a Chefchaouen, uma encantadora vila cujas casas - e ruas -, são parcialmente pintadas de um azul quase elétrico, mais uma vez relembrando algumas cenas do nosso próprio país (ao sul).

Deixámos o carro na zona inicial, ainda sem graça, numa rua anónima e atravessámos uma rua e uma praça com movimento. Vê-se muita gente mais nova com aquele ar de quem anda a ver se se desenrasca. A isso não será alheio o facto de estarmos na zona do haxixe onde muitos europeus vinham para se abastecer. Ainda assim, ninguém incomodou e em momento algum houve qualquer situação minimamente desagradável.

Entrámos, finalmente, na zona típica, feita de ruas e ruelas muito limpas, com casas brancas às quais são aplicados contrastes de azul e, por vezes, laranja. Uma beleza que nos faz sentir vontade de andar por ali... ao Deus dará. A sensação de familiaridade que senti várias vezes em Marrocos voltou a manifestar-se aqui. Vêem-se vários ateliês de artistas, albergues para turistas e negócios locais sempre com muito colorido. Uma ou outra vez, alguém passava e deixava soltar um quase impercetível "haxe?" que nem chegava para causar embaraço.

Ao fim de muitas voltas, desembocámos na praça principal, para a qual dá o castelo da localidade. Antes, entrámos num pátio partilhado por vários comerciantes de artesanato (as recordações para os turistas) e onde se viam coisas muito giras.

Lojas em Chefchaouen
Chefchaouen é um daqueles sítios onde apetece fazer muitas compras: uma mantinha, um candeeiro, um espelho, um quadro, etc. Eu, fiquei interessado em duas coisas simples: umas "janelas" de madeira, pequeninas e pintadas com motivos marroquinos e que, ao abrirem-se, mostravam um pequeno espelho. Iniciei o regateio:

Eu: quanto é?
Vendedor: 80.
Eu: Não, é muito. Dou 20
Vendedor: 20? Um bocadinho mais...
Eu: 30.
Vendedor: Só 30? Um bocadinho mais, por favor...
Eu: 35
Vendedor: Está bem

Como se vê, e ao contrário dos mitos com que somos bombardeados, esta coisa do regateio acaba por ser bastante serena...

O meu tio ainda tentou meter no "pacote" umas coisas mas não conseguiu levar a negociação a bom porto. "É duro..." disse-me o vendedor, referindo-se à inamobilidade negocial do meu companheiro de viagem que aproveitou para saber o porquê de alguma polícia por ali. "O rei vem visitar-nos", respondeu o vendedor, aproveitando para se queixar de que, no dia seguinte, todo o comércio teria de fechar por razões de segurança. Pobre gente: não éramos só nós que andávamos a ser perseguidos pelo monarca...

Despedimo-nos com cordialidade e, contente com as compras, dei ainda mais uma volta por aquela pátio, onde, a um canto, uma gata dava de mamar a uma ninhada de gatinhos (havia muitos por lá, naquela altura). As prendas e aquela imagem ternurenta dispuseram-me bem para a continuação da visita a Chefchaouen.

Alguns metros à frente, já na praça principal e ao fazer tenção de entrar no castelo, fomos informados de que estava fechado (já sabem por culpa de quem...). Circundámos o edifício enquanto o meu tio me ia fazendo inveja contando o que lá tinha visto numa ocasião anterior. A certa altura, damos com um vendedor de tapetes, na rua, rezando em voz alta sobre um... tapete. O quadro era absolutamente pitoresco. Passámos pelo homem e reentrámos na praça, aproveitando para nos sentarmos numa das várias esplanadas/restaurantes do local, para descansar um pouco.

Um empregado chega e, antes mesmo de dizermos alguma coisa, pergunta: "Bica?". O meu tio, surpreendido, confirma, enquanto que eu mando vir um Sprite, na expetativa de me refrescar. Ao trazer as bebidas, o mesmo empregado, com um tom muito sério, acompanhou a entrega das coisas com um "Pão, pão, queijo, queijo" o que só não me fez desatar a rir por receio de o ofender. Despediu-se com um "Obrigado".

Deixámo-nos ficar mais alguns minutos por ali, obervando o movimento. Finalmente, resolvemos voltar ao carro e passar por uma ruela onde se acumulavam lojecas de rua, vendendo roupa. Parei para comprar uma camisola para um colega. O vendedor, um tipo novo, com ar de mitra, a certa altura da "negociação", e sem provavelmente fazer qualquer ideia do que dizia, largou um "foda-se, tá bem" com o qual me entregou a camisola. Como sempre, o meu tio tentou fazer conversa e a coisa acabou por ir parar ao futebol, o que não o deve ter deixado satisfeito já que o mitra conhecia era o Porto. (novamente, o Benfica mostrou ser um desconhecido por estas paragens).

Saíndo de Chefchaouen, voltámos a fazer a estrada para Tetuan, repetindo a bonita paisagem, agora alterada por algumas nuvens de fim de tarde. Pelo caminho, várias "barracas" (mais ou menos grandes), vendiam artesanato à beira da estrada. Sempre aquela familiaridade...

Ao chegar a Tetuan, e por incrível que pareça, voltámos a ser parados pelos nossos "amigos" polícias que, desta feita, só nos queriam cumprimentar. Rimo-nos com a situação.

De volta a Tânger, tomámos uma estrada mais moderna e rápida - praticamente uma autoestrada -, que nos levou a "casa" em muito menos tempo do que aquele necessário à vinda.

Chegámos a Tânger com a noite a cair, prazenteiramente cansados do que foi um bom passeio em que vi tanta coisa que, sendo nova, sempre me pareceu uma espécie de "casa". O norte de Marrocos é assim: não nos sentimos estranhos. E eu também não me fiz estranho quando se tratou de me atirar para a cama...

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