quarta-feira, 17 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 14 (Tânger)

Entrada da medina
2010/03/17

Finalmente, chegou o dia de ir conhecer Tânger, a famosa cidade que oferecemos aos Ingleses como parte do dote de Catarina de Bragança, no já distante Séc. XVII. Fomos de carro até perto da entrada da Medina, deixando-o junto a uma praça redonda onde, como não podia deixar de ser, lá largamos a inevitável moedinha para um arrumador.

Entrámos na zona antiga - àquela hora ainda com pouco movimento -, e descemos a rua até chegarmos a uma zona um pouco mais larga onde aproveitámos para tomar qualquer coisa numa esplanada de um café de renome no local. Estivemos pouco tempo ali, até porque a contemplação dos transeuntes oferecia pouco interesse. Seguimos para baixo até chegarmos aos restos de um forte português, já pertinho do mar. Segundo o meu tio, a zona costumava ser frequentada pelo "pessoal da ganza" mas, tão cedo, não havia vivalma por ali. Explorámos o sítio, subindo e descendo pelas rampas, entrando nas guaritas e apreciando dois grandes canhões de artilharia costeira que para ali estão abandonados desde, imagino, a 2ª Guerra Mundial. Tudo aquilo está ao deus dará e, francamente, como ponto turístico tem pouco interesse.

Andámos pelas ruas que começavam a ganhar vida ao mesmo tempo que o sol começava a carregar na minha cabeça (chapéu, para que te quero). As ruas de Tânger são uma mistura de prédios de traça tradicional e de muita influência do tempo do protetorado espanhol. A fama romântica que Tânger tem só poderá ser compreendida à luz de outros tempos em que a população da cidade era uma enorme mistura de gentes locais e estrangeiros de muitas proveniências. Hoje, esse caldinho cultural parece ter desaparecido e o que fica são ruas velhas habitadas por gente de ar mais ou menos pobre. Há que descer do nosso padrão habitual de exigência para poder apreciar a graça decadente de toda aquela paisagem urbana.

Sempre que alguém tentava meter conversa - fosse numa loja ou tentando vender algo -, a cena era a mesma: "Espanhóis? Não? Ah, Portugueses...". E lá se seguiam umas palavras em Castelhano... Aqui e ali, um tipo mais cosmopolita sabia uns termos portugueses.

Reentrámos no coração da Medina, apontando à rua das lojas habitualmente frequentadas pelo meu tio em busca de recordações. Entramos num estabelecimento de artesanato, repleto de todas aquelas pequenas coisas que gostamos de comprar: candeeiros, quadros, bonecos,lamparinas... tudo coisas engraçadas e que apetece trazer às dúzias. Escolho um pequeno objeto para oferecer e segue-se a negociação do preço. Julgo já aqui ter dito que o regateio foi uma agradável supresa relativamente à ideia que eu levava quando viajei para Marrocos. Talvez por influência dos turistas, a discussão dos preços torna-se uma coisa bastante calma, em tudo diferente da quase "guerra" que nos é apresentada em filmes. Pergunta-se o valor. Pedem-nos X, fazemos de conta que pensamos, perguntamos se não nos fazem por Y, eles diminuem, nós contrapomos com Y+Z e lá se chega a uma conclusão. A meia voz, o meu tio ia-me aconselhando. No fim, tentou incluir na compra uns bonecos mas o vendedor escusou-se simpaticamente a aceitar a proposta e lá saímos apenas com as minhas compras.

De seguida, fomos a uma loja de cabedais, daquelas que tanto vende casacos elegantíssimos, como imitações de malas de marca. O vendedor - daqueles árabes brancos, de bigodinho bem tratado -, já conhecedor do meu tio cumprimentou-nos com alguma familiaridade. Escolhido o artigo, começou uma nova discussão de preço, na qual o meu tio incluia não só aquele artigo como também a encomenda de outro. Que não, que sim, que não, que sim e lá se trouxe o pretendido por um bom valor. Muitos sorrisos e até à vista e saímos. A coisa acaba por até ter graça.

Um dos pontos habitualmente indicados como sendo de interesse em Tânger é o Teatro Cervantes, uma sala de espetáculos deixada pelos espanhóis e que se tem degradado a grande velocidade, a ponto de eu ter encontrado o edifício em estado muito pior do que aquele mostrado na fotografia do guia da American Express. Naquele momento, nem sequer dava para "tocar" nas paredes porque o teatro já estava isolado por uma barreira de tapumes. Senti pena porque, não sendo propriamente uma grande obra, tem aquela graça exótica das construções que misturam estilos e, ali, mais do que uma obra de arquitetura, é, também, um testemunho da História. Voltei para trás desiludido.

Antes de sair da Medina, atravessámos o mercado para ver os produtos à venda. Estou a falar de um mercado na aceção moderna da coisa - um edifício -, e não propriamente de tendinhas na rua. Logo à entrada, é um festival de azeitonas: várias bancas/lojas repletas de cestas com todo o tipo de azeitonas que se possa imaginar. E, como se isso ainda não fosse suficiente, ainda fazem misturas, conferindo àquela passagem um colorido particularmente castiço. Depois..., bom, depois era o que se esperava: carnes, peixe, bivalves, fruta... nada que fugisse ao comum dos mercados por cá.

Rumámos ao carro, demos umas voltas e fomos até à zona moderna da cidade onde fomos comer a um restaurante conhecido pelo bom peixe. Ficámos na esplanada, convenientemente protegidos do sol. O local era frequentado por europeus e marroquinos "de boa pinta" e em nada diferia do comum restaurante português. Já não me lembro do que comi mas ainda persiste a memória de que me apetecia muito uma cerveja e lá tive de beber Coca-Cola...

Depois do repasto, fomos até casa para descansar um pouco.

Voltámos à zona antiga, deixando o carro perto da entrada do porto e iniciámos mais um passeio. Subimos, subimos, aqui e ali explorando ruas transversais, até chegarmos a uma zona cujos edifícios serão, muito provavelmente, das décadas de 40 ou 50. É uma zona agradável, de ruas mais largas, com algumas moradias (ou prédios mais baixos) e que podia, perfeitamente, ser europeia. Ali junto há uma esplanada (no sentido urbano e não comercial) onde está um conjunto de canhões antigos virados para o mar. Entre eles estão, pelo menos, dois portugueses. É escusado dizer que são os mais bonitos.

Café Paris
Demos mais uma volta e fomos até ao Café Paris. Este sítio é um dos ex-libris da cidade, indicado em todos os guias, não só pelo ambiente em si mesmo mas também porque constituia um daqueles pontos de encontro "à antiga", repleto de histórias de espiões e de estrangeiros que demandavam aquelas paragens. O meu tio, ao fim de alguns meses em Tânger, ainda não tinha lá ido e foi por insistência minha que procurámos o local. Mal entrei, senti logo o seu encanto. Todo o espaço tem, ainda, o ar original: os espelhos, as cadeiras, a decoração... São décadas que voltamos atrás quando nos sentamos ali e mandamos vir algo. Não se trata de um sítio que salte à vista - atenção -, mas sim de um espaço com "ambiente". Não visitei o primeiro andar mas reparei que junto à escadas havia uma espécie de fonte em estilo andaluz e que ainda acrescentava mais graça ao todo. Enquanto bebia o meu chá de menta (oh, maravilha!)
tentei imaginar o vai e vem de gente que ali teria havido e as resmas de livros que dariam para ser escritos com as histórias e conspirações que naquele café terão tido lugar.

Depois desta experiência "retro" foi tempo de voltar para casa. Uma vez lá, tratei de reservar, pela internet, um quarto em Gibraltar, onde ficaríamos após a travessia. A coisa não correu a 100% e fiquei sem saber se teríamos onde dormir uma vez chegados a terras de Sua Majestade. A preocupação despareceu com a chegada do jantar à mesa: febras acompanhadas de cerveja Casablanca...

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