sábado, 20 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 17 (Gibraltar - Tavira)

King's Chapel
2010/03/20

Acordar depois das nove, com a sensação de se ter limpo todo o cansaço é bom. Melhor ainda é ir, calmamente, tomar o pequeno-almoço. Geralmente, nos hotéis isto implica apanhar um elevador e ir a uma sala a meia dúzia de metros do dito mas, no hotel onde estava, implicou um pouco mais: apanhar o elevador, atravessar a receção, atravessar uma sala, subir umas escadas, virar à esquerda, atravessar um longo corredor, abrir uma porta, virar à direita, atravessar o bar e, finalmente, ir dar a um pavilhão ao lado da piscina :)

O pequeno almoço era em jeito de self-service: umas mesas com comida, compotas, pãezinhos... o costume. Nada que impressionasse mas o suficiente para reconfortar o estômago. Aproveitou-se o momento para planear o passeio do dia.

Saímos do hotel e fomos visitar o museu que havia quase nas traseiras. Fica numa casa antiga, com vários níveis e é um daqueles cantinhos cheio de recordações históricas. Há de tudo ali: arqueologia, pintura, natureza, uniformes, armas, mapas... o diabo a quatro. Foi uma visita que valeu - e muito -, a pena. Na rua, cruzámo-nos com vários judeus (vestidos a preceito) que se encaminhavam para a sinagoga ali bem pertinho. Muitos dos antepassados dos atuais judeus de Gibraltar eram portugueses.

Apontámos à King's Chapel, uma capela colada ao palácio do governador, na Main Street. Do templo saía um grande grupo de crianças (tipicamente inglesas) acompanhadas dos pais. Como era Sábado e já estávamos bem a meio da manhã, era provável que viessem de algum serviço religioso com coro infantil.

Entrámos na capela que é grande e de decoração bastante simples. Os pormenores que rapidamente saltam à vista são o belíssimo teto que parece feito de flores e as inúmeras lápides colocadas nas paredes. Também há um conjunto de antigas bandeiras britânicas, nomeadamente militares. É uma visita que se faz com gosto mas que não deixa grandes memórias.

Voltámos ao hotel porque eram horas de fazer o checkout (e ter de tirar o carro de junto da porta). A rececionista era uma mulher de poucas simpatias, do tipo que nem agradece aos hóspedes.

O canhão com cem toneladas
Agora, tínhamos como objetivo ir visitar um canhão. Exatamente: em Gibraltar há um canhão que é tão grande que ele e as instalações onde está se tornaram atração turística. Chamam-lhe os ingleses "The 100 ton gun" (a arma de 100 toneladas). Esta preciosidade da engenharia militar do Séc. XIX está no extremo sul do território, vagamente apontada para Marrocos, e é de visita obrigatória por quem goste de coisas ligadas às armas. Estamos a falar de um canhão tão grande, que usava munições tão pesadas que, do momento em que era dada ordem de disparar, até ele efetivamente o fazer, passavam três horas, tal era a força que o sistema hidráulico tinha de reunir para conseguir mover o monstro!

Deixámos o carro a uma centena de metros da entrada do "museu" do canhão numa zona de prédios modernos. Pagámos a entrada (com libras de Gibraltar) e entrámos no pequeno aquartelamento onde há uma exposição dedicada à história do canhão. Uma vez dentro do complexo que serve a arma, podemos andar nos túneis e examinar todo o mecanismo que fazia funcionar aquela. Cá fora, no pátio, temos a melhor noção do tamanho da bisarma quando vemos alguém junto dela. Toda a gente quer tirar a fotografiazinha da prache encostada ao super-canhão. Da amurada, com bom tempo, a vista deve ser boa mas, infelizmente, havendo bastante sol, também havia nuvens que impedia grande visibilidade.

À saída, aproveitei para pedir ao homem da bilheteira para me trocar uma nota por outras, por forma a satisfazer um amigo com gosto pela numismática. O homem, um daqueles ingleses de pele queimada e tatuagens nos braços, com um certo ar de aventureiro, acedeu simpaticamente, procurando as melhores notas num grande maço que tinha.


Europa point
O ponto seguinte do passeio era o "Europa point", um sítio mesmo ao sul, onde há uma mesquita e um farol. Supostamente, é o local onde a Península Ibérica acaba. Para lá chegarmos fomos por uma estrada no sopé da montanha, atravessando um túnel junto do qual escorria bastante água vinda lá do alto. Chegados ao sítio, o que vemos é a mole da mesquita e, em frente desta um grande descampado com o farol lá ao fundo. É daqueles sítios que só vale a pena visitar se não houver melhor para fazer ou se o tempo estiver muito bom e permitir vistas largas.

De volta ao carro, resolvemos continuar pelo lado direito do território onde sabíamos que a estrada acabaria a meio (não tendo sido ainda feito o planeado túnel que permitirá dar a volta completa ao território). Mas enganámo-nos e acabámos por estar de volta ao lado esquerdo da montanha. Toda a outra zona ficou, portanto, por ver, tirando alguns vislumbres aquando da visita à "base" dos macacos ou aos túneis. Ainda assim, fomos por caminhos diferentes que nos permitiram ver mais ruas de Gibraltar.

Chegados à fronteira passámos livremente pela alfândega inglesa para - como não podia deixar de ser! -, sermos parados pelos espanhóis: abrir a bagageira, dizer que não, não trazíamos tabaco e... seguir caminho. Ora, se não me engano nas contas, isto fez três controlos desde que saímos de Tânger.

Dali, era seguir para a santa terrinha, a cruzar a Andaluzia, mirando Sevilha ao largo e apenas parando num restaurante/quinta para almoçar. Comer em Espanha... pois... Mandámos vir porco preto (mal servido em quantidade) e ele veio... com sangue. Para cúmulo, era fraco de sabor. Palavras para quê, a má fama culinária dos nossos vizinhos insiste em se manifestar comigo.

Tomámos a autoestrada com gosto e foi com alegria que passámos a metade da ponte sobre o Guadiana, ali perto de Vila Real de Santo António. Há coisas que só se explicam pelo sentimento mas, ninguém me tira da cabeça que, deste lado da fronteira, o ar cheira melhor e a paisagem é mais bonita. Abri a janela para melhor apreciar o fenómeno ao mesmo tempo que comecei a ver as placas indicando os quilómetros que faltavam para uma pausa familiar em Tavira.

Estavam terminadas as férias.

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