sexta-feira, 5 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 2 (Porto - Aix-en-Provence)

2010/03/05

Acordo lentamente, sentindo o conforto da cama e despertando aos poucos nessa eterna luta do viajante entre o sair para a rua e o descansar mais um bocadinho, só mais um bocadinho... Quando se viaja, está-se em descanso ou em passeio?

Aproveito para ligar a TV e rodar os canais: nada de novo nas notícias, e as milhentas meninas que ontem se revezavam na TV convidando-me a telefonar-lhes já lá não estão. Deixo a televisão a fazer ruído de fundo e levanto-me.

A casa-de-banho do quarto é pequena mas é ótima. A cabina de duche convida-me a um banho prolongado e eu aceito, entregando-me ao ritual da higiene matinal com toda a calma que merece uma obrigação transformada em prazer.

Visto-me e saio do quarto para a segunda etapa do dia: o pequeno-almoço. Ao chegar ao rés-do-chão do hotel apercebo-me de bastante movimento e noto a existência no local de muitas rapariguinhas com aspeto de ginastas, quase todas com ar estrangeiro. O pequeno-almoço é servido em jeito de cantina, numa sala luminosa e colorida. Há de tudo para comer e levo algum tempo a decidir qual a linha a seguir: doces ou salgados? Opto pela mistura.

Acabado o pequeno-almoço, vou buscar as coisas para partir para as horas de passeio pelo Porto. À saída, um pequeno mar de confirmadas ginastas (parece que havia um qualquer festival na zona) obriga-me a romper caminho até à porta.

O dia está chocho mas não ameaça trazer problemas. Faço o caminho inverso ao da noite anterior, desta feita com mais calma e apreciando os edifícios tradicionais que se me vão deparando no trajeto. Por todo o lado se notam exemplos mais ou menos degradados de casas tipicamente nortenhas, com o seu revestimento de azulejo, muitas janelas e clarabóia para iluminar a escada interior de acesso ao primeiro-andar. Ao fim de algum tempo, já acumulo algumas dezenas de fotografias na minha máquina nova que está a ter agora o seu batismo.

Igreja de Cedofeita
Alcanço a zona da Rotunda da Boavista e procuro orientar-me para a Cedofeita, onde espero visitar uma capela românica que já tinha em tempos vislumbrado a partir de um autocarro mas cuja recordação é difusa. Antes de lá chegar, a minha atenção é desviada por um belíssimo liceu (Rodrigues de Freitas) e pelo edifício da Junta de Freguesia da Cedofeita. Um pouco mais abaixo, resistindo a mais de doze séculos, lá está a capela, simples e pura como é típico nos templos do seu estilo. A porta está aberta e algumas mulheres parecem preparar um qualquer evento. O interior da igreja não tem grande interesse e demoro-me apenas o tempo de girar sobre os meus calcanhares. Cá fora, tiro algumas fotos amaldiçoando os poucos carros estacionados no local mas que teimam em infiltrar-se nos enquadramentos.

Abandono o local sem rumo certo, apenas me orientando pela ideia de que a baixa da cidade está "algures para ali". Após passar por alguns locais bem interessantes (pracetas, mansões, ruelas e casinhas) e que, calculo, não fazem parte dos roteiros turísticos, vejo a torre acastelada que existe defronte da entrada para o parque do Palácio de Cristal. A partir daqui já tudo é conhecido até chegar a São Bento.

Sento-me para comer qualquer coisa num café defronte do Museu Soares dos Reis, aproveitando para rever as já muitas fotografias tiradas. Após retemperar as forças (e secar-me de alguns pingos entretanto apanhados) contorno o Hospital de Santo António e dirijo-me para os Clérigos. Quando vejo um elétrico passar (os do Porto bem precisam de um "restyling") aponto-lhe a máquina fotográfica e o condutor tem a simpatia de abrandar, permitindo ao elétrico "pousar" para a foto. :) Entro numa igreja com um esplendoroso revestimento de azulejos pintados (à semelhança de outra existente no caminho para o hotel) mas está a decorrer a missa e, naturalmente, saio.

Do local onde estou já vejo bem a Torre dos Clérigos e aponto nessa direção. Passo pela porta da livraria Lello (que estava apinhada de adolescentes) e começo a prestar atenção às vetustas lojas da zona, ainda com grandes estantes "à antiga": um tesouro. Fotografo as ruas interiores e retomo o caminho natural para a Av. dos Aliados onde alguns militares instalavam uma torre para rappel. A partir da placa no meio da avenida fotografo as belíssimas coberturas dos edifícios com os seus grupos escultóricos e dou por mim invejando aquela gente por diariamente se passear por ali.

Mais abaixo, atravesso a Estação de São Bento (mais uma vez, magníficos painéis de azulejos) e decido entrar pela ruela que sobe a colina, logo ali junto ao prédio mais patriota de Portugal, ano após ano coberto de bandeiras nacionais, cujo estado - é certo -, começa a não ser o melhor (tal como o do edifício). Estou a entrar numa zona mais "tradicional", com ruas apertadas, prédios velhos e aquele ar castiço que só estas áreas têm. Nas lojas notam-se muitos "paquistaneses", entregues ao seu comércio habitual de drogarias e telemóveis. A rua desemboca num largo muito bonito no qual é um crime existir qualquer automóvel. Tomo uma via à esquerda em cujo final vou dar à praça onde fica o cinema Batalha. Por todo o percurso ecoa na minha cabeça a letra do "Porto Sentido".

Uma vez em ruas mais desafogadas, o meu objetivo é ir visitar o Museu Militar do Porto, local da "mítica" espada do D. Afonso Henriques e de uma notável coleção de soldadinhos de chumbo. O caminho é praticamente a direito com apenas duas paragens: para mudar a bateria da máquina e para fotografar a bela entrada de um prédio (uma escola?), toda ela pintada. Ao acabar de tirar as fotos, reparo que duas mulheres haviam esperado pacientemente por mim. Outras imagens foram sendo guardadas aqui e ali: um graffito bem apanhado, um prédio curioso, um edifício mais antigo, tudo isto num percurso onde nunca deixei de sentir o prazer da descoberta de novos espaços - afinal de contas, o objetivo do turismo.

Chego ao largo onde fica o Museu Militar e a entrada para o cemitério do Prado do Repouso (nome bonito). Evito um e o outro e decido conceder à minha gula a satisfação de uma francesinha.

Após o almoço - e como o museu ainda não tinha reaberto -, dou uma volta por um centro comercial ao lado (C.C. Stop), um daqueles espaços muito à anos 80, fechados, contando apenas com luz artificial, onde milhentas lojas se desenvolviam por vários andares, mais ou menos ligadas por uma via central em espiral. Tudo aquilo é um deserto onde apenas meia-dúzia de tristes estabelecimentos ainda se mantêm vivos à entrada. Percorro três andares, gozando a suspensão no tempo: há "restos" de máquinas de jogos, salões fechados, muitos bares e discotecas encerrados (pelo menos àquela hora), vidros pintados... ando, ando e os únicos sinais de vida são o som da distorção que se ouve de um qualquer local onde alguém ensaia e três homens que fazem uma vistoria à instalação elétrica. De resto, é um prédio fantasma, digno de um filme de suspense onde a única razão para se entrar é andar perdido ou ir à casa-de-banho.

Aberto o Museu, galgo com entusiasmo a escada da entrada. No cimo, um funcionário civil vende-me um bilhete e, de seguida, vai acender a luz das salas. Também aqui noto aquela sensação de paragem... de tempo que se arrasta. Enquanto estive no museu fui o seu único visitante. Visito as salas com a imensa coleção de soldadinhos de chumbo e de plástico, tendo notado, nestes últimos, vários exemplares que ainda guardo da minha infância. Não resisti a meter conversa com o guarda só para poder falar das minhas recordações da secção de brinquedos dos Armazéns do Chiado ("...aqueles que arderam, em Lisboa / Ah, sim.., sim.. estou a ver...").

Numa vitrina central no primeiro andar, discreta, a espada do nosso primeiro rei, afinal, não parece nada que faça juz à lenda de serem precisos quatro homens só para a levantarem, balela quase tão grande quanto a que parece ser a autenticidade da própria arma (segundo alguns). Vistas algumas fardas e mais umas centenas de bonecos, passo ao pavilhão anexo à moradia, atravessando um pátio onde se amontoam ordenadamente canhões, autometralhadoras e mais umas coisas. No interior do pavilhão, uma pequena e algo desinteressante "exposição" sobre a Guerra Peninsular está rodeada da habitual parafernália de material bélico que se espera encontrar num museu militar. Dou uma volta rápida pelo sítio e subo ao piso superior onde, aí sim, várias peças medievais (e não só) são dignas de atenção. Vistas estas, saio da antiga sede da PIDE na Invicta, rumo à Estação de Campanhã (onde tinha estado na noite anterior) para ir apanhar o Metro para o aeroporto. De caminho, aproveito para ver sempre mais uns pedacinhos do Porto.

Ao chegar ao Metro da Campanhã, já sentado e esperando, um voluntária da Cáritas crava-me um donativo. Lá lhe dou algum cascalho, oferta que, apesar de pouca, tocou a senhora a ponto de me comparar com Jesus Cristo. "Com essa barba...". "E a careca, também é parecida?" - pergunto, já apetecendo-me ajavardar a conversa. Ela não desarma e responde "Nós não sabemos se ela era careca..." e insiste "Nunca fez de Jesus Cristo em nenhuma peça?", ao que eu disparo "Graças a Deus que não!". A simpática mas já chata troca de palavras espalha-se a um homem ao meu lado e, entre uma ou duas graças a voluntária lá desanda, deixando-me à conversa com o meu vizinho. Era um minhoto, antigo condutor da Carris que, agora reformado, ia todas as semanas à Póvoa de Varzim para tocar saxofone. E como o mundo é um lugar mesmo pequeno, a mulher dele trabalha na mesma rua que eu :)

Chegado o meu metro, abalo para o aeroporto, numa viagem de vinte e tal minutos numa carruagem que parecia uma amostra de sotaques nacionais: portuenses, lisboetas, açorianos...

Já no aeroporto, mata-se algum tempo e entra-se para a zona de passageiros onde um irritante e pouco habitual nervoso miudinho me faz recorrer a um caríssimo café antes de ir para o embarque. Aí - na zona de embarque -, uma enorme fila de gente esperando a chamada faz-me borrifar no lugar no aparelho e sentar numa cadeira que, felizmente, tinha vista para uma cara bonita.

Mesmo antes de partir, uma ida à casa-de-banho proporcionou-me o momento mais excitante do dia que, ao contrário do que poderão pensar as cabeças mais torpes, não foi nenhuma coisa esquisita mas tão só um Blackberry caído pelo chão e que eu prontamente guardei (tendo o cuidado de, para evitar vergonhas, lhe retirar a bateria antes). Era de um francês e, estando eu numa zona de vôos para França, imediatamente me assaltou a dúvida sobre o que fazer: entregar o aparelho a um guarda, ficar com ele ou guardá-lo para dar ao dono já em terras gaulesas? Descartei a primeira hipótese e deixei para mais tarde a decisão...

Apesar da muita gente, ainda pude escolher confortavelmente o meu lugar para a relativamente curta viagem até ao aeroporto de Marseille-Provence onde, à chegada, apanhei uma camioneta para Aix-en-Provence. Era já noite e esta estava fria. Soube-me bem o descanso confortável nas dezenas de minutos que durou a viagem até à cidade mergulhada em pleno repouso noturno.

Uma vez no centro de Aix-en-Provence, começava a pequena (e dispensável) aventura de encontrar o hotel Ibis. Valeu-me uma imagem do Google Maps guardada no PDA e a qual fui seguindo de forma mais ou menos hesitante até apanhar uma rua/estrada até à periferia (entendida como, "bastante longe do centro") onde, finalmente, encontrei o hotel. Neste, o acolhimento foi bastante simpático apenas falhando o facto de já não estar aberto nem o restaurante, nem o bar (a fome e a sede apertavam). A situação foi resolvida pela simpatia do rececionista que me ofereceu uma maçã e um iogurte, após eu recusar uma lasanha. Se soubesse que era oferta... :))

A chegada ao quarto fez-se com a habitual alegria de mais uma etapa cumprida e, sobretudo, do descanso iminente. Para descontrair, ligo a TV e descubro que da grelha disponível faz parte a RTPi. Olha o Malato!

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