sábado, 6 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 3 (Aix-en-Provence)

2010/03/06

Após uma boa noite de sono, acordo preparado para ir explorar Aix-en-Provence. O dia parece bom, visto da janela do quarto, virado para uma zona que começa a ser campestre. Mato a fome com a maçã que sobrou da generosidade do rececionista aquando da minha chegada e arranjo-me.

Decido ir para o centro da cidade de autocarro, ficando a paragem deste a poucos metros da entrada do hotel. A viagem dura alguns minutos e é agradável, passando por bairros residenciais com bom aspeto, uma faculdade, a estação do comboio e, finalmente, chegando perto do Cours Mirabeau (um pequeno boulevard que é a artéria principal da cidade). Apeio-me e começo a dar trabalho à máquina fotográfica.

A cidade já está acordada mas ainda se espreguiça. As pessoas ocupam as primeiras mesas nas esplanadas, tomando café e lendo o jornal. É Sábado e, naturalmente, o movimento será menor do que num dia de semana. Vou até meio da avenida e aproveito para aquecer as mãos numa antiga fonte de água quente plantada no meio da estrada (Aix é uma zona termal - os Romanos descobriam-nas todas). A sensação de "lavar" as mãos é de alívio - o frio que se sente é seco, o céu está limpo mas as mãos resentem-se bastante, apesar das luvas.

Sento-me numa esplanada para tomar o pequeno-almoço. Tenho a ideia de pedir um equivalente a "um café e um pão-de-deus". Trazem-me um cesto com dois croissants à francesa (pudera) e um "mont", precisamente o equivalente gaulês ao nosso divino pãozinho, com a diferença do tropical coco ter sido substituído por uns grãos quadrados de açúcar que fazem de neve no... monte.

Acabado de reconfortar o estômago e já com a primeira cachimbada do dia, abro o mapa que antes tinha conseguido no posto de turismo e começo a explorar as ruas que partem do Cours Mirabeau. Aix-en-Provence tem o ar que eu esperava: ruas ordenadas, limpas, com edifícios feitos de pedra amarelada, todos eles perfeitamente franceses na sua traça. Aqui e ali nota-se um prédio mais moderno mas cujas linhas respeitam absolutamente a envolvente.

Chego a uma pracinha com uma bonita fonte com golfinhos (Place des Daulphins) e daí sigo para a grande e antiga igreja de St. Jean de Malte, tradicional local de sepultura dos condes de Barcelona. Junto à porta está estacionada uma carrinha funerária, toda ela de uma discrição exemplar, sem nada dos adereços soturnos tão típicos de semelhantes veículos. Dir-se-ia um vulgar transporte. No interior da igreja realiza-se um serviço fúnebre e adio a minha visita para mais tarde. Entro na Rue d'Italie onde imediatamente sou cumprimentado por uma pedinte "romena" sentada no chão. É coisa que hei-de ver com alguma frequência.

Decido voltar para trás e ver alguns quarteirões que tinham escapado. Ao longe noto um velhote em tudo correspondendo à típica imagem do francês: casaco à pintor, boina preta e pães debaixo do braço. Uma irritante lentidão da máquina fotográfica e alguns carros que se atravessaram à minha frente apenas me permite fotografar a personagem
ao longe e já de fugida. Pena...

Após uma volta, reentro na Rue d'Italie para logo fugir em direção a cantos que me parecem mais interessantes, sensação confirmada pela ocasional existência de placas com informação turística sobre mansões e locais de interesse. Descendo uma rua, visito uma igreja e apanho, uma vez mais, a Rue d'Italie, subindo-a desta feita em direção à igreja de St. Jean. O funeral já acabou e posso visitar o templo. A monumentalidade medieval exterior não é acompanhada pelo interior, certamente fruto das pilhagens e vandalismo a que o edifício foi sujeito em várias ocasiões, tal como é explicado num painel informativo. Apenas um túmulo ladeado por duas bonitas estátuas me desperta a atenção.

Retorno ao Cours Mirabeau onde atravesso uma passagem antiga, pelo interior de um quarteirão, animada por algumas lojas de "estilo" e que vai desembocar numa zona onde decorre um grande e animado mercado de rua que se espraia por diversas artérias, cheio de bancas de roupa, mercearia e frutas. Ando pela zona, apreciando o movimento e os edifícios. Já há quem esteja a beber cerveja e a comer ostras :)

Na Place des Prêcheurs, um obelisco acrescenta encanto ao local, rodeado do colorido das bancas dos vendedores e enfrentando a bela fachada da Église de la Madeleine, infelizmente fechada. Escapo-me por ruas e ruelas, sucedendo-se umas às outras, sempre num contínuo urbano característico. Nas esquinas dos edifícios, há nichos para santos e muitos têm inquilino. Algumas das imagens estão pintadas, oferecendo uma gota de alegria às fachadas por vezes monótonas. Também no cimo das portas se vêem muitas cabeças esculpidas, nos edifícios um pouco mais elegantes.

Atravesso o centro histórico, passando pela bonita praça onde se situa a câmara municipal e que está repleta de bancas de venda de flores. A um canto, uma torre de relógio com figuras tem, na sua base, uma passagem para a rua que vai dar à catedral da cidade. Passo por esta sem entrar e vou em direção ao que resta da muralha da cidade e que é, apenas, uns poucos metros de parede e uma torre (essa sim, interessante) um pouco mais abaixo. Já estou numa área mais moderna o que, aqui, significa um "pouco menos antiga". A esta hora (quase de almoço) já há muito movimento nas ruas - gente que anda às compras com os seus cestinhos de mão com as fatais baguettes saindo deles, casais passeando e alguns turistas.

Sigo em direção às termas da cidade, um moderno edifício construído no mesmo local onde os romanos estabeleceram o seu complexo (do qual é possível ver, através de uma montra, alguns vestígios). Este é um caso em que, mudando-se os tempos, não se mudam, no entanto, as vontades e as pessoas continuam a beneficiar das virtudes das águas locais, agora certamente em maior estilo e de forma menos "democrática" do que os
nossos antepassados.

A fome começa a apertar e apetece-me comer sentado. Ignoro os omnipresentes estabelecimentos com balcão para a rua, vendendo as tostas cobertas de queijo e os paninis e procuro um restaurante informal. Mas, em França, tal como acontece em Inglaterra, parece que o à-vontade dos nossos restaurantes não existe e tudo tem sempre um ar arranjado, mais parecendo que o ato de comer não é a satisfação de uma necessidade mas sim um evento social. Exagero? Talvez, mas certo é que o turista abandalhado, só e sem conhecimento dos hábitos locais certamente terá mais "vergonha" em entrar num restaurante em França do que numa pastelaria-restaurante portuguesa. Resta a praga das pizzarias (que até na Lua devem existir) e das casas de sanduíches.

Volto a embrenhar-me pelo centro antigo da cidade indo dar uma vez mais ao Cours Mirabeau, agora repleto de gente e com as esplanadas completamente à pinha. Noto do outro lado da rotunda que fica no extremo da avenida, uma zona mais moderna, pedonal e com o que parece ser um centro comercial. Eu apenas queria comer descansadamente qualquer coisa, num ambiente descomprometido. O centro comercial, afinal, não existe e há sim, uma série de grandes lojas abertas para a rua. Lá estão as habituais cadeias de pronto-a-vestir e, também, uma FNAC. Encontro, já no fim da rua, uma pequena casa de sandes/padaria onde, tranquilamente, como uma baguette com vários queijos e bebo uma gasosa de marca francesa (não tinham cerveja, para minha grande
tristeza). Aproveito para rever o espólio fotográfico da manhã e mudar a bateria à câmara.

Depois do "almoço", atravesso a rua para ir ver o edifício modernaço do novo teatro da cidade cuja entrada está numa rotunda rebaixada e que, depois, se desenvolve numa série de níveis que acabam por formar uma espécie de colina artificial. Do cimo desta, uma bela vista sobre a cidade e, ao fundo, o monte Sainte Victoire. O sol estava castigador e abriguei-me à sombra de uma das árvores colocadas no terraço
enquanto observo toda a envolvente. Na descida - tal como na subida -, faço imagens do edifício, que se presta a bons enquadramentos.

De volta ao centro da cidade, atravessando a zona por onde tinha vindo mas escolhendo outro caminho, tenho como objetivo ir ver a catedral de St. Sauveur. O interior, sem ser de forma alguma deslumbrante, vale todo o tempo da visita, havendo vestígios de várias eras para observar. O claustro só é visitável com guia e sou obrigado a esperar que um grupo acabe a sua volta. Fico sentado, gozando o ambiente e a agradável frescura que se sente por ali. Passado um bocado, os visitantes do claustro saem e o guia informa-me de que se tinha atrasado um pouco e se eu me importaria de esperar para que ele pudesse ir ao café. Por mim, tudo bem, e como nenhuma das alminhas que por ali pairavam sem saberem bem o que fazerem reclamou lá foi o guia ao seu descanso. Todo o tempo de espera não me desanimou e foi bem compensado pela qualidade da visita: o claustro é bonito, embora pequeno, e o guia explicou detalhadamente toda a história do espaço e os porquês de tudo o que víamos (a visita era grátis, já agora). Pelo meio, tentei saber como é que, em Francês, se faz a diferença entre "romano", "românico" e "romeno" mas não fui muito bem sucedido. Coisas de pronúncia, talvez.

A tarde já ia adiantada quando saí e o cansaço que sentia dizia-me que já não valia a pena grandes passeios. "Mais do mesmo", insinuava-me o bichinho da preguiça. Ainda assim, lutando contra a óbvia estupidez que é entregarmo-nos ao cansaço quando andamos em viagem, recusei ir para o hotel sem antes dar mais uma volta por ruas ainda desconhecidas. Passado algum tempo aporto na esplanada de um café/cervejaria de nome "Le Cintra" que se anúncia com um "Le Cintra, c'est sympa". Talvez o Cintra viesse de Portugal (até tinha Super-Bock) mas, se alguém ali era simpático, de certeza que não era o empregado que, sem ser desagradável, tinha um pouco aquele ar de "não me diga que quer alguma coisa?". Mando vir uma baguette recheada com qualquer coisa e uma "cervoise", bebida que me despertou a curiosidade pela mistura de cerveja, champanhe e outro ingrediente. No fim, sabia a um vulgar "panaché". Não foi a única desilusão porque a baguette vinha, mais do que aquecida, torrada. Não fosse o enorme conforto provocado pela bateria de aquecedores que lançavam um precioso calor sobre quem estava na esplanada (o frio tinha voltado a sentir-se) e tinha acabado a tarde desmoralizado.

Fiz o caminho até ao hotel de forma mais ligeira do que na noite anterior: o conhecimento da distância e da rota ajudaram a que o tempo se passasse melhor.

Já na cama, aproveito para ver a RTPi, desta feita com o Festival RTP da Canção substituindo o Malato. Salvou-me da miserável sorte (o sono ainda não tinha aparecido), um filme porno francês, provavelmente das mais monótonas fitas do género que eu já vi, quanto mais não fosse pelo facto de a fruta ser toda mostrada logo a partir da segunda cena, levando a que estivessemos sempre a ver os mesmos intérpretes, fazendo a mesma coisa... É certo que os diálogos e os cenários variavam mas...

Findo o filme, acabou também o dia para mim. Aix-en-Provence estava vista.

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