segunda-feira, 8 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 5 (Arles)

2010/03/08

Acordei cheio de fome e imediatamente me vali dos pouco saudáveis restos que tinham ficado do "jantar" da noite anterior. A modalidade de estadia que eu tinha escolhido não incluia pequeno-almoço e bem pena tive disso já que aquela fatia fria e gordurosa de pizza "Provençal" não só não me alimentou como me deixou um pouco agoniado. Nada que um bom banho não fizesse passar, no entanto.

Ao sair para a rua tive direito ao pós-nevão. Já não havia precipitação e a beleza do tapete branco do dia anterior tinha sido substituída por uma mistura de gelo e lama que, não só tinham pouca graça, como também eram perigosas. Em apenas cem metros contei três situações de quase "bate-cu" nas quais me valeram reflexos rápidos que me permitiram equilibrar-me ou agarrar-me a qualquer coisa: as grades de uma janela, por exemplo. O piso era absolutamente enganador já que onde parecia estar mais limpo era, precisamente, onde o perigo espreitava por causa da invisível camada de gelo assente no cimento do chão. Rapidamente percebi que era mais seguro andar chafurdando na lama do que procurar as zonas limpas dos passeios. Estes, iam sendo calmamente limpos por alguns moradores, formando pequenos montes de neve suja junto à estrada.

Ao fim de algum tempo - muito mais do que o normalmente necessário -, cheguei ao posto de turismo de Arles, que fica junto a um daqueles carrosséis bonitos, "à antiga", que se vêem muito por França. Ambos estavam rodeados de neve. Ao entrar no posto tive a sensação de ser um daqueles sítios onde há funcionários a mais e vontade de ajudar a menos (também isto me parece ser comum em França). Dirigi-me a uma funcionária para saber como ir até à abadia de Montmajour. Aquando do planeamento das férias contava alugar uma bicicleta e pedalar na aparentemente curta distância entre a cidade e o monumento, aproveitando ainda para dar umas voltas extras. No entanto, o nevão ocorrido veio baralhar-me as contas e tornou-se óbvio que apenas lá poderia ir de transporte público. No posto, após alguma hesitação, lá chegaram à conclusão de que a abadia estaria fechada naquele dia. Fiquei sem saber se por causa da neve, do dia da semana ou da época do ano... Consolei-me com a ideia de ver com mais calma as coisas na própria cidade.


A alameda dos túmulos

Alyschamps, uma alameda com sarcófagos
Neste dia, os Alyschamps já estavam abertos. Transpus o portão da entrada e dirigi-me até um pequeno edifício de pedra (um antigo mausoléu, pareceu-me) onde percebi estar a bilheteira. A distância ainda era de algumas dezenas de metros, feitos enterrando alegremente os pés e as pernas na neve alta e fofa que, ali, por não haver uso nem limpeza, se conservava em toda a sua beleza. A simpática funcionária verificou o meu passe e saiu do seu conforto para ir abrir a igreja ao fundo da alameda. Eu era o primeiro visitante do dia.

Segui caminho pelo meio, ocasionalmente variando de rota para observar com mais atenção algum dos muitos sarcófagos de pedra que se acumulavam nos lados. O cenário era belíssimo: uma alameda branca, flanqueada por árvores escuras cobertas de neve e simples túmulos que pareciam emergir do manto invernal. Ao fundo, erguia-se a massa cinzenta de uma igreja agora abandonada. Havia uma paz, uma serenidade no local que em momento algum me deixou pensar que, afinal de contas, aquilo devia ser um local lúgubre e misterioso.

Chegado junto à igreja, evitei passar por um nível inferior onde a acumulação de túmulos era maior por notar que o terreno poderia ser traiçoeiro. Acidentes para quê? "Parti uma perna ao enfiá-la num túmulo" não parece ser, propriamente, uma história de que nos possamos orgulhar... Entrei no pátio da igreja onde a sensação de mistério se fez notar mais. Continuava a haver túmulos e árvores e neve mas, agora, ainda havia um templo abandonado... O interior deste era espaçoso, completamente despido de quaisquer adereços. No ar esvoaçavam constantemente pombos que moravam no alto das colunas centrais. À direita, uma sala guardava no seu interior um grande sarcófago de pedra trabalhada. De quem seria?

Quando entramos numa igreja apreciamos a sua arquitetura, as suas obras de arte. Mas, quando essa igreja está entregue ao tempo, a sua nudez revela-nos a essência das formas e de todas as pedras parece vir um chamamento longínquo à pureza dos princípios que levaram à sua construção. É por isso que prefiro as igrejas de estilo românico: a sua simplicidade assemelha-se a um convite a uma fé honesta e à meditação.

Ao fundo, ao centro, a zona do altar estava num plano elevado. Por baixo, uma escada mergulhava na semi-obscuridade. Não era preciso mais nada para que eu me pusesse em rápido andamento, com a curiosidade ao rubro. Descida a escada, havia uma sala vazia de onde partiam dois pequenos túneis. Um estava tapado mas o outro imediatamente foi percorrido por mim, tendo eu ido dar a uma das zonas que ladeavam a do altar. Nada de mistérios ou segredos escondidos: era apenas uma mera passagem "de serviço". Aproveitei para filmar calmamente toda a igreja, os seus espaços, os seus túmulos e algumas esculturas e inscrições nas paredes. Ainda filmando, saí para o pátio e fiz uma rápida visita a anexo com marcas góticas.

De novo no exterior da igreja, contornei-a para ir ver os túmulos mais distantes. Aí, decidi começar a fazer um boneco de neve mas, irritantemente, ao baixar-me, as velhas calças com que andava resolveram reformar-se abruptamente. Entretanto, chegou a segunda visita do dia e eu achei que andar a fazer bonecos de neve, com as calças rotas, em público, era coisa menos própria e fiz-me ao secante caminho de volta ao hotel (e ao conforto de umas calças "inteiras").

(continua mais tarde...)

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