terça-feira, 9 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 6 (Arles/Marselha)

2010/03/09

Se há coisa de que me posso orgulhar é de, nas minhas diversas viagens, sempre ter sabido organizar tudo impecavelmente, nunca falhando um transporte, nunca me enganando num horário e sempre tendo tido a sorte de não ser vítima de qualquer azar. Este dia estava destinado a ser a exceção.

Tendo dormido muito cedo na noite anterior, era natural que acordasse mais cedo e, dando-se esse caso, era natural que ou saísse mais cedo do hotel ou me entregasse à ronha. Como Arles já estava mais do que vista não achei compensador abandonar o conforto da cama para mais um tempo extra de passeio. Ná!, a ronha impunha-se. E assim me deixei ficar por ali, aproveitando o descanso até que este se tornou fastidioso e resolvi ligar a televisão. Quando o écran se encheu de imagens, apenas um pormenor me despertou a atenção: a hora! Não é que faltava apenas uma hora para o meu comboio, estando eu ali deitado, com tudo por arrumar e a higiene por fazer? Olhei para o PDA incrédulo. O bicho (pela única vez na sua vida) estava com uma hora errada e indicando-me ainda muito tempo livre. Saltei da cama e, com uma velocidade que espantaria o próprio Pepe Rápido, tratei de tudo de modo a fazer-me ao caminho. Em quinze minutos estava lavado, vestido e com as tralhas arrumadas: um recorde pessoal, certamente.

À saída do hotel, para piorar as coisas e quando eu julgava que me bastaria entregar as chaves e dizer adeus, ainda tive de perder uns minutos a pagar uma ninharia de uma taxa cobrada pelo município.

Faltavam 45 minutos para o comboio que me levaria até Nîmes e eu ainda tinha de atravessar a cidade toda. Estamos a falar de uma cidadezinha de província mas o receio de perder o transporte começou a atormentar-me. Para agravar a coisa, o chão continuava extremamente traiçoeiro e eu via-me obrigado a dar cada passo com toda a atenção. A certa altura, após vários ameaços (num dos quais me valeu a grade de uma janela) mas quando julgava estar já em terreno mais seguro, um pedaço de gelo surgido sabe-se lá de onde encarregou-se de me mandar ao chão em grande estilo. Valeu-me a mochila que me amparou a queda e protegeu as costas. Na verdade, foi cair e levantar-me.

Com as pernas a ameaçarem cãibras consegui chegar à estação de comboios uns minutos antes da hora. O meu esforço tinha sido compensado e não iria perder o comboio. Uma pequena alegria invadiu-me até que olhei com atenção para o painel informativo. Havia várias ligações canceladas e a minha era uma delas. Fui às informações e informaram-me de que comboios para Nîmes, nem vê-los, por causa da neve que se tinha acumulado. Oh porra! E agora? Ocorreu-me logo ir ao posto de turismo que ficava do outro lado da entrada da estação mas imediatamente me lembrei de que o dito estava fechado (provavelmente só abre no verão). Pedi a devolução do valor do bilhete para o cartão de crédito (*) (em França, semelhante processo é normalíssimo em caso de problemas e também há direito a devoluções parciais em caso de grandes atrasos).

Junto à estação, há uma zona que é pomposamente apelidada de estação de camionagem mas que não passa de umas placas onde param camionetas, tudo isto misturado com um parque de estacionamento (ao lado está a ser construído um edifício a sério). Comecei a procurar informação sobre algum transporte para Nîmes mas... nada. Nas informações da SNCF apenas me souberam dizer que havia uma camioneta que ia para lá mas que não tinham mais informações. Já estava a ver o que me ia acontecer: tinha de atravessar mais uma vez a cidade para ir ao posto de turismo...

Cumprido o que já começava a parecer uma espécie de caminho ritual, informaram-me no turismo de que havia efetivamente uma camioneta para Nîmes e que a poderia apanhar na estação que era a duzentos metros dali. Mmm... aquilo pareceu-me uma coisa vaga mas lá segui na direção indicada. Um pouco mais abaixo havia, realmente, uma zona com várias paragens de autocarro e um escritório de venda de bilhetes. Perguntei lá pelo transporte pretendido. Que não era deles mas que passava ali defronte, disseram-me. Como vi mais umas pessoas com ar meio-perdido, deixei-me ficar no local, tentando aperceber-me de uma camioneta que ostentasse a palavra mágica “Nîmes”. O tempo passou, passou, fiquei a conhecer todos os autocarros da cidade, vi chegar e partir gente e, camioneta para o meu destino... nada!

Resolvi voltar à “estação” de camionagem e dar mais uma vista de olhos às pouquíssimas informações afixadas. Nada... Perguntei a um motorista de um autocarro se sabia de algo e ele confirmou-me que sim, que passava ali a camioneta e que seria amarela. Muito bem – pensei eu -, finalmente uma informação concreta: procurar uma camioneta amarela!

Deixei-me ficar na placa central, brincando com os restos de neve e reparando nas raras pessoas que por ali apareciam. Notei, ao fim de algum tempo, que um rapaz também não se ia embora e perguntei-lhe se estava esperando o mesmo transporte. Não estava, mas já levava duas horas ali sentado!!! Informações, também não as tinha. Neste momento, desisti da ideia de ir a Nîmes e apeteceu-me amaldiçoar toda aquela incompetência. Fosse isto em Portugal e já se sabia o que o pessoal diria, não é?

Perguntei nas informações da estação de comboios se poderia usar o bilhete que já tinha para a ligação Nîmes-Marselha aproveitando-o para me ir embora naquele momento. Disseram-me que sim, que não haveria problema e assim o fiz, com prejuizo meu já que a viagem a partir de Arles seria mais barata. Este problemazinhoda neve custou-me uns bons euros, no final.

Uma vez dentro do comboio para Marselha, o alívio de estar, novamente, no caminho certo (embora muitas horas antes do planeado) sobrepos-se à desilusão de não ver a famosa Nîmes. Paciência, ela lá estará da próxima (se não nevar).

(continua...)


(*) É com tristeza que digo que esta devolução acabou por nunca ser feita, o que me surpreende.

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