terça-feira, 9 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 6 (Arles/Marselha) - parte 2

2010/03/09

Já a caminho de Marselha, passa duas vezes por mim um trio de chungas que imediatamente me traz à memória todas as coisas que tinha lido na internet acerca da segunda maior cidade francesa. A perspetiva de ir passar dois dias a uma terra povoada de basofes e outras animalárias do tipo não era das mais agradáveis mas, felizmente, o meu ceticismo relativamente às pessoas soprava-me ao ouvido que talvez tudo não passasse de exagero.

A paisagem era o que eu já esperava: de um lado o Mediterrâneo e, do outro, montes, numa espécie de muralha contínua, de tom acinzentado. Em termos de beleza, nada que espante.

A maior densidade de casas anunciou a chegada aos subúrbios de Marselha e, daí a pouco, à cidade. As primeiras impressões foram neutras: o caminho de ferro é ladeado por prédios anónimos e os habituais graffitti urbanos, compondo o cenário costumeiro nas zonas urbanas. Finalmente (e novamente), a estação.

Nesta segunda chegada a Marselha já noto mais árabes e jovens adultos com aquele ar de quem está a ver se se orienta mas, no fundo, nada que não se veja em qualquer parte, hoje em dia. Um ronco na barriga faz-me procurar o que comer. Paro no McDonald's, esse oásis salvador para o turista que apenas quer matar a fome. Quando viajo, o sentimento de culpa que sinto ao entrar neste tipo de estabelecimentos desaparece, substituído pela quase gratidão de poder comer rapidamente, sem esforços de adaptação cultural e por um preço baixo. E, às vezes, "descobrem-se" coisas boas. No caso, um delicioso hamburguer com pão "diferente" e queijo parmesão.

Cumprido o intervalo para almoço, era tempo de me atirar de cabeça para Marselha. Primeira paragem: o hotel. Descida a bela escadaria monumental da estação ferroviária, curvando e contracurvando numa curtíssima distância de 200 m, lá estava eu à porta do Hotel Vertigo, estabelecimento que ostentava o título de "melhor albergue de França". Sim, aqui, o nome Hotel era enganador porque, na realidade, tratava-se daquilo a que, hoje, as pessoas catitas chamam um "hostel", palavra que não é mais do que uma forma sofisticada de evitar um nome que, para os palermas, é associado a coisa para pobres. Até os nossos antigos "Albergues de Juventude" passaram a "Pousadas de Juventude". Mas o formato continua exatamente o mesmo...

A rua onde o estabelecimento está é mais uma daquelas ruelas típicas das zonas mais tradicionais, com pequenas lojas de imigrantes e algumas pessoas encostadas à parede mas sem que se possa de alguma forma dizer que tenha mau ambiente. A porta do albergue estava fechada e foi preciso tocar à campainha, o que fiz acompanhando com um sorriso de "olá, chegou mais um!".

O espaço era agradável e misturava bem o aconchego ("cozyness" como dizem as pessoas sofisticadas) com o ar mais ou menos cosmopolita destes sítios. Havia mapas, quadros com informação, um balcão de café, etc. Esperei um pouco para que o empregado (que até falava Inglês) acabasse de aviar um americano e me atendesse.

No meio das formalidades de entrada aproveito para perguntar se a má fama de Marselha era real ou fruto do exagero de alguns (muitos, na verdade). A resposta que tive foi a que já esperava: Marselha era como qualquer outra grande cidade ("é de onde?" - "de Lisboa" - "há-de ser como lá...") e não seria preciso mais do que bom senso para evitar problemas. Fiquei tranquilizado. Esperei um par de minutos para que o quarto ficasse pronto e subi as escadas de madeira até ao primeiro andar onde, num canto ficava o meu descanso.

Quando se faz uma reserva de estadia, tenta-se sempre um equilíbrio entre o melhor preço e o menor número de camas. Neste caso, consegui a invulgar situação de ficar num quarto para apenas duas pessoas, partilhando um beliche. E era um quarto misto, ou seja, que não é reservado apenas a um sexo. Isto é uma situação que, nas nossas fantasias, pode ser engraçada e prometedora de divertimento mas que, na maior parte das vezes se revela um pouco confrangedora já que muitas raparigas não parecem sentir-se à vontade com o facto de partilharem um espaço com rapazes. Para além disto, sujeitamo-nos a levar com "Barbies" irritantes, casalinhos e, de um modo geral, com o habitual comportamento de "isto é tudo nosso porque somos quiduchas".

O pequeno quarto já estava ocupado e notei logo que iria partilhar o espaço com uma rapariga. A mesinha de apoio estava ocupada com coisas, o armário estava cheio de embalagens de comida e, até, garrafas de vinho e a prateleira da casa-de-banho estava repleta de produtos de higiene. Logo aquela sensaçãozinha de ter de lutar pelo espaço...

Pousei as coisas, refresquei-me e aproveitei para ir ver o "cagatório" que ficava num outro quartinho defronte, embora fosse de uso exclusivo daquele quarto. Estava tudo nos conformes. Nada de luxos, simplicidade em tudo mas conforto q.b. - Marquei algum espaço com as minhas coisas e resolvi não perder mais tempo e ir conhecer Marselha.

Peguei um mapa na receção e orientei-me na direção do que me pareceu serem ruas maiores e mais movimentadas. O caminho foi curto porque o albergue está muito bem localizado. Em poucos minutos já estava a tirar algumas fotos de ruas tipicamente francesas, com os seus prédios dos fins do Séc. XIX e... árabes. Sim, há, realmente, muitos árabes em Marselha. Há-os em todo o lado e de várias proveniências, o que se nota pelos diferentes tipos físicos e, até, vestuário (embora este pareça mais variar com a idade - blusão negro para os jovens, parka verde/cinzenta para os mais velhos). Mas, ao contrário do que me sucedeu em Paris, ali, não senti um ambiente pesadão e aquela gente quase parecia fazer parte do local (bem... e fazem). Como de costume, há esplanadas inteiras ocupadas por eles, não importando a idade dos clientes.

Avistei uma igreja em estilo neogótico (Église des Réformés) e dirigi-me para ela. Era bonita, e gastei alguns minutos vendo-a com cuidado. À saída, resolvi procurar de forma decidida um dos ex-libris da cidade: o Palais Longchamp. Ao fim de algum tempo seguindo o caminho do elétrico (ou Metro de superfície) cheguei, então, à morada de um dos pontos turísticos fundamentais da cidade, uma daquelas coisas às quais é impossível escapar e que nos deixa de boca aberta pela sua beleza e tamanho. Basicamente, estamos a falar de dois edifícios unidos por um semicírculo de colunas, tendo ao meio uma fonte monumental ladeada por enormes escadarias. É daqueles locais onde apetece tirar fotografias atrás de fotografias, cobrindo todos os ângulos, todas as variações de luz, tudo!, porque tudo parece belo. Subi as escadas, percorri as colunatas, fotografei as estátuas, os lagos, a fonte (talvez tenha incomodado alguns casalinhos) e banhei-me em toda aquela beleza monumental e, ao mesmo tempo, tão delicada.

Infelizmente, como julgo já ter escrito de outra vez, pareço ser perseguido pela maldição do "este edíficio está em obras", fruto do meu hábito de passear em época baixa. Desta vez, um dos edifícios - que albergam museus -, estava todo tapado com painéis que, ainda assim, reproduziam com desenhos o que estava por baixo. Do mal o menos porque, sendo o conjunto simétrico, ao ver um dos lados, sabia como era o outro...

Onde ir agora? Resolvi apanhar o metro e "queimar" já naquele dia um dos momentos mais antecipados por mim e que poderia, por si só, justificar a visita a Marselha: a ida à Cité Radieuse. Esta "cité" que na verdade é "apenas" um edifício (embora leve muita gente) é uma das obras mais conhecidas desse "monstro" da arquitetura chamado Le Corbusier e há muitos anos que era uma referência para mim dado o meu gosto pela arte de desenhar edifícios.

Procurei uma estação, o que me fez quase voltar ao ponto de partida do passeio e comprei um bilhete. A estação era um pouco triste, apesar de estar arranjada com uma exposição de grandes maquetas de veículos antigos dos transportes públicos marselheses. Chegado o comboio, entrei nele com o entusiasmo de quem está quase a atingir um objetivo há muito esperado. A composição tinha cores vivas - um misto de laranja e amarelo suave -, e não levava muita gente. Mais uma vez, mesmo estando num metro, tudo parecia perfeitamente igual a qualquer outra cidade.

Saí quase no fim da linha, numa zona perto do estádio do Olympique de Marselha (parece haver uma certa obsessão com a equipa, na cidade), claramente uma área mais "arejada", mas com blocos habitacionais típicos de subúrbios urbanos (feitos com tino, ainda assim). Andei por ruas secundárias, um pouco perdido à procura de uma referência, até que fui dar a uma enorme avenida que já vinha desde a baixa da cidade. Imediatamente os meus olhos foram atraídos por um edifício alto, semicurvo, com uma escada exterior em espiral que me fez lembrar de uma enorme broca. Estuguei o passo e fui tirar-lhe fotografias, sempre com a sensação de já ter visto aquele prédio nalgum lado. Mas não era, ainda, a Cité Radieuse. Esta, estava um pouco mais abaixo, escondida daquele ângulo por muitas árvores.

(continua)

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