quarta-feira, 10 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 7 (Marselha)

Catedral de Sainte-Marie Majeure
2010/03/10

Acordar, arranjar-me e sair para a rua o quanto antes, com ou sem paragem para o pequeno-almoço. É a rotina diária deste turista quando em férias. Como a minha reserva não incluia o "petit déjeuner" despachei-me ainda mais rapidamente.

A primeira paragem pretendida era a Catedral de Marselha, de seu nome Sainte Marie Majeure. Para lá chegar segui a ruazinha do hotel, entrando numa zona mais "gasta", com vários estabelecimentos de árabes, até chegar a uma rotunda com um arco do triunfo. Virei à esquerda e segui a rua maior onde muitas lojas ainda estavam a abrir. No ar sentia-se aquela espécie de indolência matinal que marca o despertar do comércio.

Uma vez bem no centro, foi um pulinho até à marina, cuja margem direita percorri, sempre por uma rua das traseiras, passando pelo coração da zona mais moderna, construida no pós-guerra para substituir os bairros dinamitados pelos militares alemães (um dos momentos negros da história marselhesa). Junto ao forte Saint-Jean, virei à direita, seguindo uma estrada "entalada" entre o forte e um paredão onde, no topo, se encontra uma muito antiga igreja por onde tinha passado na noite anterior (lá em cima, a vista sobre o porto vale a pena).

Encostado ao forte, uma espécie de bunker alberga um museu dedicado à memória das vítimas do nazismo.

Finda a curva começo a ver o grande edifício da catedral. Uma vez lá chegado, noto que a igreja ainda não tinha aberto. Como não gosto de esperar, decidi ir dar uma volta pelas ruas circundantes e riscar alguns outros pontos de interesse. Para isso, penetrei na zona mais antiga da cidade, o equivalente à nossa Alfama. Ruas apertadas, escadinhas, pracetas...

Ao fim de poucas voltas fui dar à Vieille Charité, um conjunto do Séc. XVII composto por três andares de arcadas à volta de uma igreja e que, na origem, era um local para apoio aos miseráveis da cidade. Hoje, é uma espécie de centro cultural.

Rue des Moulins
De seguida, resolvi "perder-me" nas velhas ruas, percorrendo as ruelas e pracetas e quase indo dar, de novo, ao início da marina, ao descer uma escadaria junto a um igreja muito antiga e com um alto campanário. O seu ar medieval despertou-me a curiosidade mas, em mais do que uma passagem por lá, nunca a encontrei aberta.

Voltei a entrar nas ruas antigas onde facilmente encontrei o caminho de volta até à catedral. Junto a esta, reparei então, existe uma outra igreja muito mais antiga, escurecida pelo passar do tempo mas que estava fechada. Felizmente, a catedral já estava aberta ao público.

Entrar na principal igreja de Marselha é um daqueles momentos "ah...". Sem que haja aqui a "festa" artística que se nota, por exemplo, em Itália, há uma noção de monumentalidade no conjunto que nos deixa pasmados. Há uma certa aura oriental no edifício, talvez por força da utilização de mosaicos dourados, arcos redondos e riscas.

Por cima da primeira zona de assentos, estão penduradas grandes bandeiras representando as diversas regiões de França contrastando nas suas cores com a semiobscuridade geral. Avançando pelas alas é possível dar uma volta completa à zona do altar, rodeada de capelas separadas por arcos, mantendo-se sempre um ar "românico", simples q.b., capaz de assegurar um equilíbrio entre a homenagem monumental ao divino e o recolhimento em clima de serena pureza. Trata-se, esta igreja, de um ponto de visita absolutamente fundamental na cidade de Marselha, uma daquelas igrejas que não se esquecem e onde apetece voltar só para apreciarmos toda aquela calma e, ao mesmo tempo, a beleza da decoração.

Acabada a visita à catedral, voltei em direção ao porto, aproveitando para entrar no atrás referido "bunker" (que, na realidade, não o é). O espaço alberga um "memorial" às vítimas do nazismo na cidade feito de diversas salas repletas de informação escrita e fotográfica sobre a miserável ocupação alemã e os seus efeitos, nomeadamente as perseguições aos judeus, a repressão sobre a população e a destruição planeada de uma parte inteira de Marselha. Este museu é um contraponto à sé já que a paz da anterior se converte, aqui, em revolta e angústia.

Forte Saint-Jean
Metros abaixo está a entrada para o forte Saint-Jean, o mais interessante dos dois que guardam a entrada do Vieux Port e, também, o mais facilmente acessível por se encontrar ao nível da rua. Infelizmente, obras de conservação no local não me permitiram visitar o monumento. Aproveitei, ainda assim, para o contornar e dar uma vista de olhos ao mar e às pessoas que por ali param: pequenos grupos de reformados, alguns solitários gozando a brisa, casalinhos...

Encostada a uma das paredes do forte, estava uma réplica de uma torre medieval de assalto que fazia parte de um museu ali existente. Fechada, também...

Havia que pensar no próximo local a visitar. Decidi-me por tentar um dos outros pontos tidos como essenciais: a igreja de Notre-Dame de la Garde, um templo lá no cimo de um monte que nasce no meio da cidade. A vista prometia ser soberba. Para tal, tive de contornar novamente a marina, aproveitando para dar uma saltadela ao posto de turismo onde me informaram que seria impossível cumprir uma das etapas do meu plano para Marselha e que era a visita à ilha de Îf e ao seu famoso castelo (ver, por favor, "O Conde de Monte Cristo", de Alexandre Dumas). Sempre as desvantagens de viajar em época baixa... Os barcos para as ilhas Frioul pura e simplesmente não estavam a dar-se ao trabalho de parar em Îf.

Para chegar à Notre-Dame, resolvi fazer um caminho longo e passar por outros locais de interesse. Seguindo sempre a marina, subi um pouco até chegar ao segundo forte na entrada da cidade, de seu nome Saint-Nicola. Este é maior, mais moderno, e tem ainda alguma utilização militar. No entanto, é possível visitar toda a área principal e gozar a bonita vista sobre a zona velha da cidade. A um canto, um pequeno torreão circular alberga uma homenagem aos soldados franceses mortos na guerra. Infelizmente - e foi coisa que me espantou -, o monumento está claramente descuidado, mais parecendo uma arrecadação do que outra coisa.

Descendo do forte, virei à direita, rumo ao casario e à abadia de Saint-Victor, um edifício que em tudo parece um verdadeiro castelo, sinal mais do que evidente da sua antiguidade (a fundação remonta ao Séc. V!). O interior não deslumbra mas, de passagem, vale a pena entrar. Há ainda uma zona inferior (chamam-lhe a cripta) que pode ser visitada por um preço quase insignificante.

Basílica de Notre Dame de la Garde
A partir daqui, era puxar pelas pernas e subir as ruas até chegar ao destino. O caminho acaba por não custar muito (sobretudo se se apanhar o comboio turístico na marina...), porque a graça da descoberta de uma cidade estranha nos vai dando energias. Ainda assim, a certa altura, já começa a custar.

Depois de várias voltas e de uma grande curva e contra-curva onde deparamos com a face do monte onde a basílica está despido de casas, resolvo atalhar caminho usando uma estreita escadaria que ladeava as casas que subiam pela outra face. Era uma espécie de "tortura" final. Apesar de ateu, dei por mim a "rezar" para que, uma vez lá em cima, a divindade me recompensasse com uma vista muito boa...

A igreja de Notre-Dame de la Garde apresenta algumas semelhanças decorativas com a catedral, nomeadamente na utilização de dourados e nas características riscas vermelhas e brancas. A "versão" de Maria aqui venerada é ancestralmente tida como protetora dos marinheiros e, mal se entra no templo (mais uma vez, a boca abre-se...) saltam à vista os inúmeros ex-votos pendurados nas paredes e no teto, sendo os primeiros compostos por quadros pintados pelos "agraciados" e o segundos belíssimos modelos de navios (de várias épocas) e aviões.

Basílica de Notre Dame de la Garde: interior
É uma igreja linda onde cada canto, canto ângulo parece merecer uma fotografia e onde podemos entreter-nos durante longo tempo apreciando os relatos dos supostos milagres, contados desde as formas mais ingénuas até às mais habilidosas.

Cá fora, como era de esperar, a vista é soberba, abrangendo toda a cidade de Marselha e as ilhas que lhe são fronteiras, nomeadamente a de Îf que fica logo ali, tão perto que quase parece ser possível ir lá a nado. Ao longe, encostados às montanhas, para além da Cité Radieuse ficam alguns bairros periféricos com os seus gigantescos edifícios que marcam a paisagem.

Para apreciar bem a visita à "la Garde" convém descansar um pouco, passear à volta da igreja, ver as vistas em todas as direções, identificar os monumentos e degustar aquela sensação de se estar "lá em cima" e que é, afinal de contas, uma das razões porque se constroem igrejas no cimo dos montes.

(continua)

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