quarta-feira, 10 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 7 (Marselha) - parte 2

2010/03/10

Chega a vontade de comer. Quem anda muito sabe o quão importante se torna a alimentação para reganhar forças. Quem quer poupar sabe que tentações como o MacDonalds são quase irrecusáveis. Almoço tardiamente numa esplanada da dita cadeia junto do porto (depois da longa descida desde o monte). Há uma aragem incomodativa que leva a uma rotação rápida dos ocupantes das mesas. Um bocadinho mais de espaço permite-me observar melhor quem passa.

Enfio-me por ruas desconhecidas nas proximidades e descubro locais bastante movimentados, com esplanadas cobertas e áreas públicas onde se cruzam locais e turistas. Decidido a fazer a digestão calmamente, opto por voltar à zona da marina para me sentar num banco gozando o sol. Sento-me e fico ali a sentir a zona. Um homem chega-se perto de mim e topo logo que pretendia cravar-me uns tostões. Sem paciência, digo-lhe que não em Português. O homem fixa-me mas não desarma: "Italiano?" Não, respondo-lhe ainda em Português esperando que ele desande. "Espanhol?" - a coisa está difícil, a criatura é perseverante. Não, não falo espanhol, indico-lhe por gestos. "Americano? Canadiano?" - o homem está decidido a percorrer todas as nacionalidades de que já ouviu falar. Ó meu Deus, porque razão não o despachei logo em bom Francês?! "Brasileiro?" - Isso! confirmei eu pensando que ele me largaria (por mim até Chinês teria servido...). A continuação não se fez esperar: em Francês (língua que todo o natural de Vera Cruz fala) lá me perguntou se não tinha uma moedinha... Esperaria Reais? Danou-se...

Regresso à zona por onde tinha andado após o "almoço" para a explorar a fundo. Vou dar a uma alameda ao fundo da qual está um bonito palacete naquele estilo muito francês que serve de abrigo a serviços públicos. Pergunto ao polícia à entrada se posso entrar para ver o pátio mas ele, de forma quase meio evergonhada diz-me que não. Foi pena. Entro numa zona anunciada como área de antiquários e lojas de design. Ao fim de algumas voltas desiludo-me no geral, embora não deixe de notar um ou outro local de interesse.

Tomo uma avenida grande, cheia de comércio e gente que noto ser a que, no seu prolongamento, vai dar (ao fim de alguns quilómetros) à Cité Radieuse. O ambiente é um pouco cinzento, próprio das zonas urbanas movimentadas e frequentadas por classe média baixa mas, a certa altura, desemboca-se numa grande rotunda com uma bonita estátua onde há cafés e esplanadas e o ambiente é mais agradável. Uma mulher passa por mim e elogia o cheiro do tabaco do meu cachimbo (que eu havia comprado junto ao porto nesse mesmo dia). Era um tabaco simples ("clássico", dizia a embalagem) cujo cheiro não me entusiasmava nada. Se alguém gostou, melhor...

Contorno a rotunda e desço a mesma avenida pelo outro sentido. A zona lembra-me a nossa Almirante Reis nos seus melhores dias. Ao fim de algum tempo, ziguezagueando, vou dar a uma grande loja Virgin. Aproveito para dar uma vista de olhos e tentar perceber como são os gostos dos Franceses. A minha curiosidade faz-me parar junto a uma coisa que parece, em tudo, um colete antibalas mas que se revela uma "mochila" para um portátil. Talvez para quem viva horrorizado pela ideia de ser assaltado... Vagueio pelo espaço, todo ele aproveitando um edifício antigo e resolvo procurar qualquer coisa de familiar. Vou à zona do Metal e busco por Moonspell. Nada! A coisa bate-me forte e decido que gasto melhor o meu tempo passeando, ainda que por ruas menos interessantes do que as principais. Assim faço. Saio pela porta principal e, ao fim de alguns metros, duas adolescentes aproximam-se dizendo qualquer coisa do tipo "desculpe, a minha amiga quer conhecê-lo". "Pois", penso eu, fica para outra vida...

Place Castellane
Na zona começo a ver muitos pequenos grupos de adolescentes com pose provocadora. É fim de tarde e talvez, finalmente, seja altura de Marselha estar à altura da sua reputação. Sem que houvesse propriamente mau ambiente, o sítio começava a não ter graça e meti-me por uma ruela que foi dar a um mercado de rua cheio de árabes (magrebinos) vendendo fruta, verduras e especialidades. O sítio estava bastante frequentado e redobrei de cuidado com as minhas coisas por mera precaução. Estava de novo na avenida que vai dar ao Porto Velho e onde estão vários armazéns como, por exemplo, o C&A e o Monoprix.

Como tinha andado devagar, gozando bem os passos, haviam-se passado horas e já estava de novo com fome. O espírito prático fez-me novamente recorrer à comida de plástico. Uma das vantagens do "Mac", em França, é que há WiFi gratuito e, por isso, aproveitei para matar a curiosidade lendo o correio. Tinha resposta do dono do telemóvel que eu tinha encontrado no Porto. Vivia perto de Marselha e iria ao meu "hotel" buscar o telefone. Se eu lá estivesse, pagar-me-ia um copo. Não valia a pena, pensei.

Ao chegar ao repouso, encontrei lá a minha companheira de quarto. Estava a trabalhar afincadamente ao computador. Cumprimentou-me e eu comecei a tratar de mim. Quando a moça resolveu que o momento precisava de uma banda sonora (Black Eyed Peas), foi altura de eu lhe dizer que tínhamos gostos diferentes. O reparo serviu para começar a conversa. A dona da cama de baixo era estudante de vitivinicultura e tinha como ambição tornar-se responsável por uma adega. Era de Lyon e passava duas semanas em cada mês em Marselha. Falámos de França, de viagens e de pequenas comparações entre os dois países e as suas gentes. Conversa de circunstância que serviu, ainda assim, para tornar mais agradável o fim do dia.

Para os curiosos: não, ela não era bonita (e tinha mais um palmo de altura do que eu). :)

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