quinta-feira, 11 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 8 (Marselha - Tânger)

Funcionários camarários "en colére" (em luta)
2010/03/11

Dia importante nesta viagem: partida de França e chegada a Marrocos!

Saio do albergue e vou logo matar a fome num Mac (pequeno-almoço por EUR 2,20). É claro que não comi hamburgueres... De mochila às costas resolvo ir ao Museu das Docas, um espaço por debaixo de um edifício "moderno" (dos que foram construídos onde era o bairro demolido pelos nazis) e que alberga "in loco" vestígios romanos, mais propriamente, enormes silhas pertencentes à zona de armazenamento de mercadorias do antigo porto. Embora o espaço seja interessante, a minha intenção principal é passar o tempo até chegar a hora de partir para o aeroporto. À saída, repito alguns locais e tento a "Maison Carré", o equivalente marselhês à nossa Casa dos Bicos. Está fechada para obras... Ali perto, junto à Mairie, ocorre uma manifestação (há coisa mais tipicamente francesa?) onde os trabalhadores informam que estão "en colère". Aproveito para atravessar a marina no vai-vem gratuito que calmamente liga as duas margens do porto. Do outro lado, dou uma pequena volta só para gastar os minutos até retornar e encontrar a "manif" já em fim de festa.

Vou ao turismo informar-me sobre a maneira de ir a L'Estaque, um arredor pitoresco referenciado no guia turístico. Apanhei um autocarro perto de um terminal de cruzeiros, a uma certa distância, o que me obrigou a ter o prazer de percorrer ruas e avenidas elegantes e de descobrir novos cantos da cidade. A viagem de autocarro, apesar de algo longa, não é nada desagradável e permite-me ver zonas variadas da cidade, desde ruas elegantes a bairros sem graça, passando por zonas portuárias. O veículo segue uma marginal que acompanha as extensíssimas instalações portuárias de Marselha. Pelo caminho, descubro uma casa feita de contentores empilhados e que, pouco tempo antes, eu tinha admirado numa revista de arquitetura.

Vista geral de L'Estaque
Finalmente chego a L'Estaque. A desilusão é imediata. Algumas lojas à beira da estrada, uma zona pedestre em frente, pouquíssimo movimento e quase nada para ver. Não me dando por vencido, vou andando até atingir a paragem terminal do autocarro, que ficava num local um pouco mais longe. Meto-me por umas ruas sem graça, quase de aldeia, percorrendo em parte um roteiro dedicado a pintores famosos que ali moraram e ali fizeram nascer obras. Se o local alguma vez teve graça, já a perdeu e nem a paisagem montanhosa no horizonte compensa o esforço. Acelero o passo para ir apanhar o autocarro de volta a Marselha, farto de andar pela zona. Uma perfeita perda de tempo motivada pela discrepância de critérios dos guias turísticos na seleção dos locais de interesse para os turistas.

À chegada a Marselha, as minhas martirizadas calças entregam a alma e tive de ir a um armazém. A escolha era imensa e havia coisas baratas e muito giras mas a minha péssima forma física não me permitiu dar largas à vaidade. Uma empregada, de olho vivo, acertou, à primeira, no novo nível da minha decadência. Oh elegância perdida...

Escadaria de acesso à estação central de Marselha 
De calças novas e ego desfeito, marchei até à estação central de comboios para apanhar o transporte para o aeroporto. À chegada à estação, uns polícias metiam na ordem dois ou três mitras, um dos quais, aparentemente, tinha resolvido ignorar as ordens da polícia para desandar dali. Atravessei a estação até ao terminal rodoviário que fica por trás. Após uma curta espera, embarquei. Enquanto esperava a partida, passou por mim uma camioneta com direção a Portugal.

O autocarro para o aeroporto partiu e, na última curva antes de ganhar a estrada, passou junto à minha janela uma mulher muçulmana da qual só se viam os olhos claros e uma madeixa de cabelo louro que, desesperadamente lhe fugia do véu...

Dezenas de quilómetros depois, no MP2 (não é nada a ver com música mas sim a sigla de "Marseille-Provence 2", ou seja, a zona dos voos de baixo custo do aeroporto local), outra muçulmana me chamou a atenção. Desta feita, nem os olhos à vista: véu integral. A coisa fez-me bastante impressão e segui todos os passos da criatura enquanto se apresentava nos controlos. O marido, de roupa tradicional e barba e a pobre completamente tapada por um véu negro como a alma de quem exige de outrém semelhante sujeição...

A curiosidade assaltou-me: como é que se processaria a verificação de identidade de semelhante "fantasma"? A verdade é que as autoridades (estupidamente, a meu ver) reservam tratamento especial para estas personagens, que são chamadas a cubículos à parte onde são verificadas por mulheres, em perfeito recolhimento... É notável o grau de condescendência das autoridades europeias para com estas práticas bárbaras...

Na zona das lojas, procurei uma prenda para levar ao meu tio que me esperava em Tânger. Resolvi levar-lhe um vinho francês, depois de confirmar com a lojista que não teria quaisquer problemas à chegada.

O avião fez-se aos céus com alegria, comandado por um português. O dia estava radioso e a perspetiva de ir a Marrocos enchia-me de alegria.

Já era noite quando desembarquei no aeroporto de Tânger, ao som de uma musiquinha festiva que comemorava o facto de o comandante luso ser um acelera e fazer o avião chegar antes da hora. Era a segunda vez que pisava África (a outra tinha sido ali no limite, em Ceuta) mas era como se fosse a primeira. Sentia-me invadido por uma curiosidade quase infantil. Notava os cheiros, a temperatura, o aspeto das coisas e em tudo queria descobrir, logo ali, as diferenças que dão cor e sabor diferentes a outra civilização.

Na zona de controlo de passaportes voltei uns anos atrás, à altura em que era preciso andar a preencher papelinhos de chegada na fronteira, coisa que quem viaje pela "Europa" já esqueceu. Comecei a pensar se me iriam levantar problemas por causa da grande diferença entre o meu aspeto atual (longa barba) e a fotografia de cara limpa que o passaporte mostrava. Até ali, curiosamente, e apesar de andar a voar pela Europa, ninguém sequer tinha olhado duas vezes para a fotografia. Mas em Marrocos, sim. Duas guardas que frequentemente se entretinham em conversas entre si estavam de serviço na verificação dos passaportes. Quando chegou a minha vez, a que me calhou olhou para mim, olhou para a foto e perguntou "és tu?!", acompanhando o tom informal da pergunta com um sorriso entre o incrédulo e o gozão. Ri-me (o que ainda me fez mais diferente do ar sério da foto). Na resposta, ela carimbou o passaporte. Estava autorizado a entrar no Reino de Marrocos - a terra da moirama.

Ao virar de uma esquina, no meio de um pequeno grupo de pessoas que esperavam as acabadas de chegar, sobressaía a figura alta do meu tio (a quem eu já não via há meses). Dificilmente teria tido melhor receção do que o abraço de um parente querido e que se propunha ser meu cicerone durante uns bons dias. Imediatamente se gerou em mim uma sensação engraçada, feita da estranheza de uma terra nova e da familiaridade da companhia. Estava em Tânger, a famosa cidade que foi portuguesa e da qual largámos mão no dote de Catarina de Bragança, no Séc. XVII, altura em que passou para a Inglaterra. Tânger, a cidade dos espiões, do exotismo, da vida canalha e dos expatriados famosos... Como seria ela realmente?

Como seria Tânger teria de ficar para o dia seguinte porque, naquele momento, tudo era como em Lisboa. O titio ligou o rádio do bólido e imediatamente mergulhei nas emocionantes sensações de um jogo de futebol do... Benfica. Ah pois, a rádio portuguesa ouve-se perfeitamente em Marrocos. E se se estiver em casa, há internet, que sempre serve para ver o mesmo jogo enquanto se janta uma bifalhada regada com cerveja marroquina...

Depois da vitória dos encarnados, finalmente um momento típico: uma festa nuns andares acima com direito a cantorias em grupo. O que em casa me faria ferver o juízo, ali, revestia-se de uma graça irresistível...

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