sexta-feira, 12 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 9 (Tânger - Meknès - Fez)

2010/03/12

Acordar em Marrocos. O quarto onde estou é grande e "frio". Uma larga cortina tapa uma vasta janela. Lá fora, lá em baixo, as ruas são desinteressantes e descuidadas. O trânsito é caótico, em tudo lembrando as caricaturas dos países menos desenvolvidos: desrespeito quase total pelas regras e pelo bom senso.

Apesar de na noite anterior ter dado voltas ao apartamento, ainda reparo em pequenas coisas como a inexistência de chaminé na cozinha - o que, diz-me o meu tio, é típico das casas lá -, ou a sala ser basicamente composta por sofás à volta de uma mesinha, para que uma família esteja em convívio permanente.

Após tomar o pequeno-almoço, ultimam-se os preparativos para o primeiro passeio em Marrocos. A ideia é ir até Meknès, passar pela cidade "romana" de Volubilis e acabar o dia em Fez (ou Fes).

O contacto com a estrada é arrepiante. Na noite anterior, a viagem desde o aeroporto tinha sido calma dada a hora mas, agora, está tudo na rua! Felizmente, o caminho para fora de Tânger é a direito e em breve entramos numa estrada mais "à vontade". A presença de polícia à beira da estrada é constante e o meu tio diz-me que isso se deve a duas razões: o Rei andar em "digressão" por aquela zona e a caça à multa. Em Marrocos, apesar da confusão do trânsito, os limites de velocidade na estrada são mesmo para cumprir! Ao meu tio ajuda-o o "cruise control" e a opção pelas autoestradas.

A "djabila" é uma presença constante. Para quem não saiba, isto é a roupa tradicional que a esmagadora maioria dos homens usa: uma espécie de "vestido" até aos pés e com um capuz que termina em bico, dando a impressão de que, por todo o lado, surgem figuras saídas do "Senhor dos Anéis". As mulheres usam quase todas um lenço tapando integralmente o cabelo. Fiquei surpreendido pelo pequeno número que anda com a cabeça descoberta, mesmo entre as jovens.

As pessoas que se vêem têm o condão de me lembrar que não estou em Portugal. Isto porque a paisagem do norte de Marrocos é em tudo parecida com a do Alentejo. No caso, a Primavera cobria os campos e as colinas daquele verde vivo de que tanto gostamos no sul do nosso país. A acrescentar às semelhanças paisagísticas, o meu tio ainda fazia o favor de tocar constantemente um disco do Vitorino! Não fossem os homens com as djabilas e as ocasionais torres das mesquitas erguendo-se de umas aldeias com casas com ar de construções clandestinas e eu gritaria "vamos à moirama!" cada vez que visse alguém. Mas a verdade é que o "intruso" era eu. :)

Depois de uma viagem agradável (mas sempre com a velocidade bem controladinha) chegamos a Meknès. O meu tio, já conhecedor da cidade, pára numa zona antes do centro, para que eu veja uma das entradas antigas do burgo. À minha volta, estende-se um pequeno mar de Mercedes velhos. Aparentemente, os Marroquinos têm uma pancada por estes resquícios dos anos 80 e atrevo-me a extrapolar essa mania para outros países muçulmanos ao lembrar-me de filmes que vi. Questão de pseudo-estatuto ou qualidade dos carros?

Paramos numa zona de estacionamento junto ao um mercado de rua, já no centro de Meknès. Salta à vista o ar "batido" que tudo tem. A mim, sabe-me bem esta variação da limpeza e sofisticação que as coisas na Europa pretendem ter. Gosto de ver as roupas das pessoas, a sua pele mais escura. Gosto de sentir os cheiros diferentes, de ouvir a língua (o Árabe aqui é menos desagradável), de escutar os sons da rua... Gosto do ar desarrumado das ruas e da confusão do trânsito que se mistura com as pessoas numa perigosa dança da qual, em vários dias, nunca vi ninguém sair mal...

Uma das coisas essenciais de entender relativamente a Marrocos é a importância da gorjeta. Sim, toda a gente está à espera de receber qualquer coisa, a todo o momento. Estaciona-se: paga-se. Vai-se à casa-de-banho: paga-se. Levam-nos a um sítio: paga-se. Explicam-nos algo: paga-se. Ter moedinhas para espalhar pelas pessoas era coisa vital para o meu tio que, habituado já à cultura local, sabia o quão importantes são os pequenos expedientes para os "indígenas". Mas, na questão do estacionamento, há um pequeno truque: só se dá a gorjeta à partida, assegurando, assim, alguma atenção por parte do "arrumador" (que também terá todo o "gosto" em nos lavar o carro, entretanto).

Subimos uma rampa e fomos dar a uma grande praça onde havia vários comes-e-bebes de um dos lados. O cheiro era agradável. Aproveitei para tirar umas fotos enquanto se decidia se matávamos já ali a fome. O espaço agradou-me pelo exotismo. Senti-me, realmente, noutro mundo, apesar de até estar numa zona bastante "arejada". Chegámos à conclusão de que era melhor deixar a comezaina para mais tarde e atravessámos a estrada para entrar na zona histórica.

Numa zona à direita, o primeiro ponto de maior interesse: uma antiga prisão subterrânea onde chegaram a estar dezenas de milhares de prisioneiros (entre os quais muitos portugueses). À superfície, apenas temos uma praceta e um edifício com a característica arquitetura magrebina mas, a um canto, um acesso leva-nos a uma enorme galeria subterrânea, um lugar misterioso, em tons ocres onde, por mais que puxemos pela imaginação, é difícil ter uma ideia do que teria sido tanta gente amontoada ali, em estado de cativeiro. É melhor nem pensar.

Cá em cima, onde se pagou um (barato) bilhete, um guarda não-oficial (amigo do oficial, talvez) aproveita para me contar (em Francês) as histórias do local. Fico na dúvida sobre se devo dar-lhe "uma moedinha" e recorro à experiência do meu tio que, num acesso de avareza, me diz "já pagaste bilhete". Esta coisa de estarmos constantemente a ter de decidir sobre a necessidade (ou não) de dar uma gorjeta foi uma das poucas coisas que me incomodaram em Marrocos.

Saímos dali e damos uma pequena volta pela zona antes de ir buscar o carro para dar uma volta mais larga pelo centro. Passo junto ao portão do palácio real da cidade e faço menção de tirar um fotografia. Imediatamente um dos guardas me fez sinal de que não era autorizado. Uma das coisas chatas em Marrocos é uma espécie de paranóia à volta da figura do rei que tanto se manifesta na estúpida interdição de tirar fotografias a coisas tão "banais" (mas bonitas) como um portão ou à proibição da realização de quaisquer obras na via pública junto a sítios (ou localidades!) onde ele vá passar.

(continua)

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