sexta-feira, 12 de março de 2010

França/Marrocos 2010 - dia 9 (Tânger - Meknès - Fez) - parte 2

2010/03/12

Chega a hora de almoçar e dá-se o feliz caso de ser dia de Cous-cous. Este prato está para os Marroquinos como o cozido está para nós: de uma forma tácita estabeleceu-se um dia da semana para os restaurantes o servirem. Cá, é a Quinta o dia do prato nacional; lá, é a Sexta.

Entrámos num estabelecimento comum, pequeno, do tipo popular. Subimos para uma área de teto baixo, onde cabiam algumas mesas e onde já se encontravam pessoas dando nos Cous-cous. O ambiente era perfeitamente descontraído, calmo, familiar até. O empregado aparece, chamado com um "chef!" e imediatamente volta para trás com o pedido (não havia praticamente escolha, verdade seja dita). Mais uns momentos e outro empregado traz-nos dois copos com uma bebida branca, amarga, tipo iogurte e que o meu tio diz ser costume acompanhar a comida que íamos provar. Ele - acrescentou -, não gostava; eu, achei-a suportável. Quanto aos Cous-Cous, embora eu já tivesse provado a sêmola nas minhas aventuras gastronómicas caseiras, nunca tinha, realmente, comido o prato "completo", chamemos-lhe assim. Não é nada de especial, verdade seja dita. Parte do gosto que tive em comê-lo teve a ver com o ambiente, a graça de estar em viagem e o empolgamento de provar coisas novas. Uma mistura de sêmola, carne de borrego, uns poucos legumes e grão eram tudo o que estava no prato. O meu tio assegurou-me de que estava bom. Devo aqui dizer já - ainda que corra o risco de tirar alguma piada a futuros relatos -, que a comida marroquina foi uma perfeita desilusão...


Acabado o almoço era tempo de nos fazermos à estrada rumo a Volubilis, umas ruínas "romanas" consideradas Património da Humanidade. As aspas, aqui, têm a ver com o facto de o povo que construiu a cidade não ser, propriamente romano, mas viver como tal.

A certa altura, em plena autoestrada (sim), somos mandados parar pela polícia (sempre com o seu radar a postos). Mesmo quando se sabe que não se fez nada, é desagradável ser-se parado.
Um polícia cumprimenta-nos e pergunta-nos de onde somos. O meu tio, habituado aos controlos, diz logo "vínhamos a X à hora". O polícia diz-lhe, educadamente, que não lhe tinha perguntado pela velocidade mas sim de onde éramos. De Portugal, respondemos, ao que o polícia imediatamente correspondeu com um cumprimento e desejo de boa viagem. E assim continuámos, rindo-nos...



Volubilis
O caminho, entretanto, faz-nos tomar estradas "de campo". A paisagem é muito bonita, toda verde, com muitas colinas e campos cultivados. As curvas do caminho dão ainda mais graça ao passeio. Frequentemente, vemos homens montados em burros, com as suas djabilas com o capuz levantado, fazendo um grande bico. Há um toque bíblico nas figuras, por vezes.

A certa altura, depois de uma curva onde, junto à estrada, se acumulam algumas campas, tendo deixado para trás uma aldeia empoleirada num pequeno monte, surge o desvio para as ruínas. Embora o meu tio me tenha chamado a atenção para elas há algum tempo atrás, só agora as consigo distinguir, na sua cor cinzenta contra o verde do campo.

O local, embora não esteja abandonado, está bastante descuidado para uma coisa classificado pela UNESCO. Deixamos o carro num terreno junto à porta, e entramos. O meu tio avança, confiante de que não é preciso pagar (quanto lá tinha ido, não pagou) mas eu fico na dúvida. Rapidamente um guarda nos chama dizendo que é preciso bilhete. 20 dirhams depois, já estamos a caminho do passado...

Basílica de Volubilis
Logo à entrada, reparamos num caminho que leva a um edifício sendo construído e que será o futuro museu do local (aleluia!) mas, por ora, a única coisa que o visitante pode fazer é meter-se pelos arbustos adentro e andar a ver as "pedras". O chão estava cheio de poças e lama porque tinha chovido no dia anterior e foi preciso algum cuidado para não me atascar aqui e ali.

A dado momento, um "guia" aparece, prontamente despedido pelo meu tio com um categórico "já estive aqui". Por mim, confiei sempre na palavra "laa" (lá) - ou seja, "não" -, para me desenvencilhar dos chatos.

Volubilis tem uma "avenida" que começa nuns arcos (onde não fui) e que termina noutros. Pelo caminho, alinham-se as bases de muito casario, algum dele com mosaicos magníficos. Noutro lado, à esquerda, ficam as ruínas mais interessantes: uma basílica que também servia de salão de reuniões e um templo. O conjunto, sobretudo nesta última área, é imponente. A toda a volta acumulam-se restos mais ou menos completos de casas, mansões e edifícios públicos. Há uma reconstrução de um lagar e, um pouco abaixo, o que teria sido o bordel da cidade, um espaço com pequenos quartos dispostos à volta de um pátio e onde está uma pedra com um enorme mangalho esculpido que faz as delícias dos turistas (sem maldade...).

Mosaicos em Volubilis
Quem goste de arqueologia facilmente perde ali umas horas, de casa em casa, de mosaico em mosaico, saindo das zonas principais e embrenhando-se pelo campo. É a sensação de descoberta que cada um pode ter. Eu, já andava "perdido" por ali quando o meu tio me chamou. De convívio fácil como é, já estava de conversa com um sorridente vendedor de recordações que, ao falhar em vender-lhe algo, sempre aproveitou para trocar dinheiro (porque quem vende precisa sempre de moeda miúda).


Despedimo-nos de Volubilis com o céu a escurecer. O tempo estava a ameaçar chuva e ainda tínhamos de fazer a viagem para Fez, onde iríamos pernoitar.


Fez é uma das chamadas "cidades imperiais", um dos marcos do país. Ao chegarmos (sempre evitando levar uma pancada), apontámos logo para o Hotel Ibis que fica ao lado da moderna (mas em estilo típico) estação ferroviária da cidade. Feito o check-in, guardadas as coisas, saímos logo para a rua para dar uma voltinha pela zona. Primeiro, fomos em direção à zona antiga (uma das várias), onde fica o palácio real, o cemitério judaico e outros pontos de interesse. O ambiente era muito agradável: um fim de tarde com gente na rua, passeando, poucos turistas e nenhumas figuras que nos pudessem inspirar cuidado.

Palácio real de Fez
Ao chegar junto do portão do palácio real, sou avisado por um guarda de que só podia tirar fotografias até um certo local. Esta gente tem uma obsessão ridícula pela segurança. Ridícula porque não se percebe como é que tirar uma fotografia a um portão artístico pode constituir um perigo. Enfim...

Enfiamo-nos pela rua principal onde existem casas com varandas em madeira, num conjunto muito elegante. O ar do local tem a graça destas cidades do "terceiro-mundo", feitas da confusão de pessoas, veículos, comerciantes... Agrada-me o tom desordenado destes sítios, quanto mais não seja para desenjoar do arranjo sofisticado que se pretende impor nas urbes europeias. Viramos à direita e entramos na antiga judiaria, zona de ruas mais apertadas onde edifícios mais altos parecem fazer um esforço por se aguentarem uns aos outros. Que ninguém ceda! O todo é bastante pitoresco, com um ar decadente q.b. e muito comércio de rua. Em todas as lojas de roupa se vêem camisolas dos clubes espanhóis à venda. O Barcelona é, de longe, o mais popular.

Zona da judiaria de Fez
O meu tio pretendia mostrar-me o sítio onde, no dia seguinte, viríamos ver o cemitério judaico. Os Judeus encontraram refúgio em Marrocos desde há muitos séculos e, aparentemente, as autoridades marroquinas fazem questão de o realçar como forma de mostrarem ao mundo que não são um país muçulmano "como os outros". A certa altura, ao passar sob um arco, desembocamos numa praceta onde, literalmente a dois metros de mim (e virados na minha direção), dezenas de homens estavam a fazer as suas orações. O cenário teria dado fotos magníficas mas a autocensura que nasce em nós quando lidamos com o mundo muçulmano impediu-me de sacar da máquina fotográfica. Exotismo, exotismo... Sim, aquilo era estupendamente exótico.

Fazemos o caminho de volta para a zona do hotel e aproveitamos para tentar pescar um sítio onde jantar. Havia muitos restaurantes, cafés, gelatarias mas o meu tio estava à procura de uma coisa do tipo "tasca" como aquela onde tínhamos almoçado em Meknès. Passaram por nós duas raparigas "à europeia", uma das quais bastante engraçada e que, com um sorriso, ia fugindo dos comentários que os homens lhe iam fazendo. Também estas duas moças eram exóticas no meio de multidões de mulheres de vestido até aos pés e lenço a cobrir a cabeça...

Acabámos por jantar num estabelecimento como o que o meu tio pretendia: uma coisa aberta para a rua, tipo "casa de frangos", e onde as pessoas iam buscar comida para levarem para casa. Escolhemos frango grelhado. Enquanto esperava pelo manjar, comecei a reparar nas duas ou três mulheres sozinhas que estavam ali: havia um ar discreto, como que tentando não dar nas vistas, viradas para a parede e de olhar sobre a mesa. A coisa fez-me impressão e, enquanto ia comendo, continuava reparando na sua atitude "envergonhada". A certa altura, um indivíduo que andava pelo "restaurante" subiu ao andar onde estávamos e, sem mais delongas, esticou um tapete para orações junto às escadas, virou-se para a parede e começou a rezar ali mesmo, em plena zona de comidas! Mais uma vez, só me apetecia fotografar aquilo, filmar o momento, guardar para a posteridade aquele comportamento obsessivo que leva alguém a bloquear (!), durante largos minutos, a passagem de uma zona pública, para poder estar a rezar. Ninguém mostrou qualquer tipo de incómodo ou estranheza e, muito menos, ninguém tentou descer ou subir enquanto o "fiel" ali estava. O meu tio tentava não olhar, falando comigo muito baixinho, numa de "não queremos chamar a atenção". Finda a reza, o homem enrolou o tapete e retomou o seu trabalho. Nós acabámos o frango grelhado regado a Coca-Cola e fomos dar uma volta...

As ruas estavam cheias de movimento e as esplanadas encontravam-se repletas de homens sentados a ver o mundo passar. Segundo o que o meu tio me disse, há cafés só para mulheres e, realmente, elas não se viam nas esplanadas... Apeteceu-me imenso sentar-me ali, fumar uma cachimbadela e ficar a sentir o ar ameno enquanto observava os locais mas o meu tio estava mais numa de ir para o bar do hotel. E eu lá tive de ir.

Bom... o que é que há num bar de hotel que não haja na rua? Álcool! Exatamente: cervejinha! Se bem que Marrocos seja um país "tolerante", não deixa de ser uma nação muçulmana e que, por causa disso, impõe restrições às bebidas alcólicas. Na altura, até decorria uma "campanha" de um político local para que fosse aplicada uma interdição total do consumo de álcool. Isto leva a que haja uma espécie de vida de fachada em que, publicamente, não se bebe mas, depois, vai-se ao bar do hotel...

E lá estavam eles, os marroquinos de classe média (e algumas marroquinas "liberais" de meia-idade e que, num hotel, deixam sempre aquela ideia de serem prostitutas...), bebendo a sua "jola" no "refúgio" europeu. Nós, apesar da vontade inicial de matar a sede com uma "loura", acabámos por mandar vir chá de menta. Para mim, foi a primeira vez e posso dizer que foi a melhor coisa que provei em Marrocos. Este chá (que é o bebido comummente) é servido num copo, fortemente açucarado, com um ramo de hortelã no meio e é espesso e muito reconfortante. Acabou por ser um ótimo empurrão para uma bela noite de sono...

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