quinta-feira, 23 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 3 (Reiquejavique)

2009/04/23

Acordo pronto a ir explorar a "exótica" Reiquejavique. Pelo que me foi dado ver pela caminhada feita na noite anterior rumo ao albergue, a cidade deve ser diferente do que eu imaginava. A verdade é que sempre imaginei a capital da Islândia como uma espécie de entreposto frequentado por marinheiros e aventureiros antes de partirem para as suas viagens. Uma terra de fronteira, portanto, último bastião da civilização humana antes da natureza selvagem. Admito que fosse uma ideia romântica e facilmente destrutível com a leitura de informação sobre a cidade mas também confesso que tentei não saber muitas coisas sobre o local para, precisamente, manter um certo efeito de surpresa.

Com a forte luz do dia, foi-me possível perder a inocência relativamente à cidade. Se o albergue está numa zona de casinhas e prédios baixos, alguns minutos de caminhada levam-me a zonas de expansão da cidade, com estradas ladeadas por armazéns, hotéis, parques de estacionamento e edifícios de habitação.

Tomo o rumo da marginal que acompanha a bonita baía enquadrada, ao longe, por montanhas nevadas (a península de Snæfellsnes). A temperatura está agradavelmente fresca (tal como na noite anterior) e apenas necessito do carapuço para me defender de um vento que ameaça tornar-se incómodo.

Passam por mim algumas pessoas a correrem e um ou outro ciclista. Na estrada, poucos veículos circulam. Tiro a minha primeira fotografia. O caminho para o centro da cidade é longo mas, sendo feito de dia e por outro curso, permite-me começar a "ver" a cidade. Quando entro numa rua marcada no mapa que trago como sendo "comercial", um balde de água fria abate-se sobre mim: perto das 10:00 tudo está fechado e, mesmo que estivesse aberto, dificilmente as lojas me despertariam algum interesse. Se isto é uma das artérias comerciais da capital de um país...

O desinteresse causado pelos estabelecimentos comerciais é compensado pelo ar de casa-de-bonecas que muitas das coloridas moradias típicas têm. Há casas amarelas, verdes, azuis, vermelhas, como se houvesse uma intenção colectiva de combater a tristeza do Inverno com a cor das habitações. Umas casas são em madeira à mostra e outras têm um revestimento em chapa metálica ondulada. Todas me fazem imaginar habitações decoradas de forma simples (em jeito IKEA) mas confortáveis, ideia que nasceu em mim na noite anterior, enquanto deambulava por ruas onde muitas janelas não tinham cortinas.

Aproximo-me ainda mais do centro da cidade e reparo estar junto a um posto de atendimento a turistas. Recolho algumas brochuras e mapas enquanto espero a minha vez para comprar o Reykjavik Welcome Card, um passe que dá acesso a museus, transportes públicos e piscinas (entre outras vantagens). Podia ter adquirido o cartão no albergue e poupado tempo mas, conforme veria depois, tempo seria o que me sobraria em Reiquejavique...

Na posse do cartão faço um curtíssimo passeio até ao Centro Cultural, onde está uma exposição de antigos manuscritos com algumas "sagas" ("história" em Islandês). Ao chegar lá, o guarda informa-me de que só abrem às 11:00. Como só faltam 20 minutos, o rapaz da recepção deixa-me entrar, dando-me, primeiro, uma chave para que eu vá deixar a mochila num cofre. Na cave noto a existência de bengaleiros para que as pessoas deixem os casacos. À saída, os cabides (sem vigilância) estarão ocupados com casacos de adolescentes em visita de estudo.

A exposição tem um interesse relativo. Se é verdade que há objectos interessantes, também o é que falta alguma espectacularidade ou, dito por outras palavras, faltam objectos que satisfaçam uma curiosidade menos "letrada". Há livros muito antigos, há objectos associados à cultura da ilha mas dificilmente se poderia considerar esta exposição um must numa capital "normal". No primeiro andar da casa há uma sala de cerimónias (a "sala de leitura") e uma micro exposição de animais empalhados. Ambas são para ver de passagem e sem que valha a pena perder mais do que dois minutos em cada. Já no terceiro piso - que ocupa o sótão da casa -, estava uma exposição sobre cinema islandês, com uma decoração engraçada, baseada em enormes bobinas e com "quiosques" onde era possível ouvir o som de filmes que estavam passando. Olhei mas não ouvi. Percebe-se porquê...

Depois de sair da Casa da Cultura, e tendo já passado pela casa que servia de sede ao Governo, dei uma espreitadela à estátua que domina a pequena elevação junta. Daí, e já com a irritante noção de ter, em nenhum tempo, coberto três dos pontos de interesse da cidade, dirigi-me ao coração da urbe. O pouco movimento nas ruas continuava e fui na direcção do lago que existe logo ali. É um sítio bonito, rodeado por casas elegantes e cujas águas são percorridas por muitos patos. No fim do parque, tomei o caminho do Museu Nacional onde esperava ver, finalmente, objectos da herança viquingue.

Não fiquei desiludido com o museu. De facto, são muitos os objectos e vestígios da História islandesa que podemos observar no museu, desde armas a mobiliário, passando por roupas tradicionais e objectos religiosos. Para descontrair, numa salinha que pode passar desapercebida, temos a hipótese de experimentar um capacete viquingue, um escudo e uma espada. Também há roupas diversas para quem queira vestir outras personagens. Será necessário dizer que, para as crianças, é sucesso garantido?

No fim da visita, resolvi beber um café e comer um bolo (que esperava que fosse qualquer coisa típica). Pedi a ajuda do rapaz que me atendeu para traduzir os nomes. Escolhi uma espécie de bolo com camadas de bolacha e doce. Rijo e sem interesse... O café (que tive de ser eu a colocar - o que até é uma vantagem), estava nuns grandes termos e era possível escolher um de dois tipos. Não era mau.

Sentado à mesa, pude ver o começo da chuva a cair sobre a cidade. Um contratempo absolutamente desnecessário mas que serviu para mostrar a rapidez com que o tempo muda por aquelas zonas...

De volta ao centro da cidade, fui até à "Settlement Exhibition" (falha-me o nome em Islandês), uma exposição na cave de um edifício onde foram encontradas as fundações de uma casa viquingue. À volta destas foram colocados conteúdos multimédia e todo o espaço é interessante e, até, acolhedor.

A chuva aumentava e aproveitei para uma pausa. Arrependia-me constantemente de ter deixado o guarda-chuva no albergue. Arriscava-me a ficar ali enfiado durante um bom bocado. Ganhei coragem e saí. A chuva amainou um pouco e subi uma rua em direcção a uma igreja (a catedral católica). Fui reparando em casinhas bonitas que compunham as ruas que, de outra forma, seriam absolutamente cinzentonas.

A igreja era simples, quase ao modo protestante. Estava lá bastante gente e ia chegando mais. Como havia um grupo de recepção, nem sequer entrei e limitei-me a espreitar pelos vidros da porta interior. Abalei, descendo uma rua em direcção ao porto.

Quarteirões de casinhas de habitação a, literalmente, 200m do centro da cidade, dificilmente permitiriam adivinhar estar onde estava. No fim da rua, um café/hamburgaria num edifício ao estilo das estações de combustível dos anos 50 chamou-me a atenção. Ao chegar perto, reparei num estaleiro à esquerda onde dois barcos estavam em doca seca, deixando apreciar a desproporção das formas que deverão ficar acima e debaixo de água. Aproveitei para dar uma volta por entre os armazéns agora convertidos em restaurantes e abriguei-me da chuva que tinha começado a cair mais fortemente. Quando os pingos se tornaram menos insistentes, rumei para uma das duas praças centrais de Reiquejavique, onde está o Posto de Turismo e onde, segundo o guia, se costuma reunir a população noctívaga.

Há alguns comes e bebes na zona e adolescentes versão "skateboard" que se juntam por ali. A partir da praça saem duas ruas com alguma animação comercial - ao estilo de Reiquejavique -, e que se vêem em três minutos. Virando à direita, acede-se a outra praça, onde fica o edifício do parlamento e que ainda ostenta nas janelas as muitas marcas dos tumultos ocorridos há algum tempo, quando a população se revoltou devidou à bancarrota a que o país chegou por causa da crise económica e da aplicação especulativa das economias nacionais.

Por esta altura, era possível dizer que a cidade estava vista. Pelo menos, no que se refere ao seu centro. Resolvi aproveitar o cartão para ir a uma piscina. Já tinha vindo preparado com calções, touca e chinelos e, como ao lado do albergue está, nada mais, nada menos do que a maior piscina da cidade (a céu aberto), escolhi-a para experimentar a exótica sensação de estar a banhar-me em água quente sob um céu de chuva. No caminho, passei pelo ex-libris da cidade, a feia igreja Hallgrimskirkja que parece uma espécie de grosso foguetão (ou uma gigantesca bomba) no cimo de uma colina. Felizmente para os meus olhos, o edifício está a sofrer obras de conservação e encontra-se entaipado. Mas também não deixo de ter alguma pena de não ter visto a coisa, ainda que, pelas fotos, ela seja, realmente feia!

Chegado à piscina de Laugardalslaug (aberta até às 22:00), aluguei uma toalha por 350 ISK (não me apeteceu andar 100m até à pousada) e fiz-me à piscina. Toda a gente devia notar que era estrangeiro porque levei comigo a toalha e a touca, acessórios com que ninguém andava (e já não falo aqui dos pelos corporais, praticamente ausentes entre a população local).

O espaço era composto por uma piscina coberta e outra ao ar livre, um lago grande e outro pequenino, quatro tanques com água a diferentes temperaturas, um jacuzzi e ainda uma sala de banho turco. O lago (que costuma aparecer nas fotos) é agradável mas rapidamente nos habituamos à temperatura amena da água e só com movimento sentimos calor. A piscina - também aquecida -, não tem nada que se destaque. Existe um grande escorrega mas que, pelo menos naquele dia, estava encerrado. Quanto aos tanques de água quente, este macho que aqui escreve, resolveu ir directamente ao mais quente (42º) e só com algum esforço e paciência (devagarinho...) é que se conseguiu sentar lá dentro. Mas valeu a pena! - embora por pouco tempo porque a coisa tende a tornar-se monótona.

É curioso é reparar que os islandeses (supostamente com um elevado nível de educação) andam completamente descalços pela piscina, banho turco, cabinas de duche, etc. :(

Acabados os banhos, foi a vez de ir para o albergue tratar do estômago, com uma das maravilhosas comidas "é só acescentar água quente" da marca Continente (provavelmente os piores produtos "brancos" desta cadeia de hipermercados), sabiamente trazidas de Lisboa para poupar dinheiro.

Quando o repasto terminou, o corredor do meu quarto estava invadido por adolescentes nórdicos que se entretinham nas actividades preferidas desta faixa etária: fazer muito barulho e perseguirem-se uns aos outros. O pior foi que istou durou pelo menos até às 23:00, com uma forte recaída às 03:00.

Um dia, hei-de ir só para hotéis...

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