sexta-feira, 24 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 4 (Golden Circle)

2009/04/24

Em todas as informações turísticas que me chegaram às mãos (e ao écran) aparecia como fundamental fazer uma excursão num circuito turístico a que chamam "Golden Circle". Partindo de Reiquejavique, executa-se uma espécie de triângulo (pois, o nome não está bem...) abarcando, no caminho, três pontos principais: a zona de Þingvellir (o Þ lê-se como um "t"-sopinha de massas), a cascata de Gullfoss, e a zona de Haukadalur.

Já ia de Lisboa com a passagem comprada e, de manhã, às 08:00, lá estava um mini-autocarro à minha espera, junto ao albergue. A expectativa era grande e a ideia de andar a passear durante oito horas, com pouco esforço da minha parte, ainda me tornava mais agradável a ideia do passeio.

Os mini-autocarros andam por Reiquejavique recolhendo pessoas e, depois, levam-nas para a sede da empresa de turismo onde as ovelhas são distribuídas pelas camionetas afectas às diversas excursões. A mim, coube-me ir exactamente no mesmo veículo, conduzido pela Christine, uma guia barriguda (o condutor é, também, o guia) que, antes de andar a passear turistas, tinha sido guarda-florestal.

O dia estava bom: um pouco nublado mas sem que as núvens incomodassem a plácida actividade de turista-fotógrafo. A temperatura estava, mais uma vez, agradavelmente fresca (para alguns, estaria frio) mas já se notava um ventinho a querer tornar-se forte (e gelado!).

Saímos de Reiquejavique, por uma espécie de autoestrada que vai passando pelos subúrbios da cidade mas, pouco depois, a guia anuncia-nos que vamos entrar num atalho, uma estrada de montanha que tinha estado fechado até há pouco. Chamar-lhe "estrada de montanha" não era muito apropriado já que não atravessava, realmente, uma montanha. Era, antes, uma estrada de campo. O piso estava bom, com uma ou outra zona a precisar de um pequeno arranjo. Aqui e ali, carros estavam parados na estrada, o que fez a guia reclamar de que os turistas nunca se lembram de que atrás vem alguém. Agradeci-lhe a "reprimenda" dizendo que, no dia seguinte, também eu andaria a fazer aquilo. Ela sorriu e "aconselhou-me" a pensar sempre em quem viesse atrás.

O vento estava cada vez mais forte, a ponto de a trajectória do mini-autocarro ser influenciada pelas rajadas. Por uma questão de segurança, íamos pelo meio da estrada e não pela direita. Por várias vezes, a "tampa" de respiração no tejadilho do autocarro foi aberta abruptamente, tendo um passageiro de a ir fechar. Na Islândia, existem, junto a alguns pontos da estrada, mostradores electrónicos com informação sobre o vento. Isto diz tudo.

Atravessámos uma paisagem bonita, misto de planície e montanha onde existiam ainda muitas "poças" de gelo. Começámos a avistar, à direita, um grande lago e, pouco depois, chegámos a Þingvellir. Quando saí do autocarro fui cumprimentado por uma forte rajada de vento que, de uma assentada me gelou as mãos e a cabeça. Acelerei o passo e fui meter-me no "centro interpretativo", um pequeno edifício desinteressante onde existe uma maqueta da zona e alguns conteúdos multimédia. Já com um carapuço colocado, enfrentei novamente o vento para começar a visitar o local "sagrado" para os Islandeses. Afinal de contas, dizem eles que ali (no meio de dois longos paredões de rocha) se reuniam os seus antepassados anualmente, formando o Alþingi. Este "parlamento" é considerado como o mais antigo do mundo.

A guia tinha combinado ir ter connosco ao outro lado do vale. A ideia era fazermos o percurso a pé, visitando os pontos de interesse. No cimo do cabeço onde fica a entrada pode-se ver a beleza do vale e do lago. Lá em baixo, um conjunto de casinhas brancas (onde pontifica uma igreja) acrescenta um ar bucólico ao sítio.

Þingvellir
Era difícil estar ali muito tempo porque não havia protecção contra o vento. As minhas mãos estavam geladas e nem com palmadas as aquecia. Comecei a descer a rampa para a zona do "parlamento". Esta rampa está protegida por altas paredes de pedra, formando uma espécie de garganta onde o vento não entrava. A mudança era radical e, sem vento, o tempo estava óptimo!

Duzentos metros mais abaixo, um mastro (onde deveria estar a bandeira nacional) marca o local sobre o qual se pensa que, durante as reuniões, estaria a principal figura do parlamento: um homem eleito anualmente e que tinha como função principal conhecer de cor as leis. Junto ao pedregulho colocaram umas fileiras de tábuas formando um anfiteatro sobre um estrado. Ao sítio acede-se através de uma passadeira de madeira e é muito agradável a vista que se tem. Mas o vento...

Por trás da rocha, continuando um pouco mais no caminho entre os paredões, chega-se a uns "degraus" de pedra onde corre água. É suficientemente interessante para merecer o desvio mas não para ficar muito tempo.

Retomei as passadeiras para atravessar os cursos de água que separam as duas "margens" de Þingvellir. Lá ao fundo, à direita, estavam as casinhas brancas (que não iria visitar). A guia já estava à nossa espera e o percurso para o autocarro foi feito mais depressa do devia, para fugir ao frio do vento. Pelo caminho, mais algumas fotografias foram inevitáveis.

Já no autocarro, tentei vários expedientes para devolver vida às minhas mãos: bati-lhes, sentei-me sobre elas, esfreguei-as e mordi-as. À base de alguma violência reganharam cor.

O próximo ponto de paragem era uma "confort stop" (coomo chamava a guia às paragens para comer e comprar coisas). No meio de nenhures, um cafézinho dava aos excursionistas a oportunidade de tomarem qualquer coisa quente e de irem ao WC. 250 coroas por um café
(um euro e tal), correspondente a pelo menos duas bicas (o café lá é à inglesa - em copo e grande quantidade) que fez, realmente, uma diferença grande em termos de conforto do corpo. O café encontra-se numa zona onde ainda é possível acompanhar com o olhar as marcas das placas tectónicas americana e europeia.

Gullfoss
A cascata de Gullfoss (traduzível como Cascata Dourada) é uma das estrelas da Islândia e a segunda paragem turística do "Golden Circle". Para quem já tenha estado na zona de Iguaçu o cenário perde alguma grandiosidade mas não deixa de ser um local admirável. Uma larga frente de água que se precipita para uma longa garganta (que não se consegue ver, a menos que saiamos do trilho). A ideia aqui é andar a ver a queda de água e, depois, subir para um restaurante que há num campo acima. Uma vez lá, almoça-se qualquer coisa. Mas, estar num sítio tão bonito faz-nos esquecer do estômago e todo o tempo parece pouco para observar mais um pormenor "mágico" ou para nos deixarmos molhar um pouco mais pela chuva que vem da cascata.

Quando já estava na zona por cima da cascata, aproveitei para deliciar-me com a vista das montanhas nevadas à distância, fechando o horizonte da planície coberta por uma vegetação rasteira amarelada. O vento voltou a tornar-se mais forte e comecei a ver pontinhos brancos no ar: estavam a cair flocos de neve. Não nevava, propriamente, no sentido de que não estava a "chover" mas tão somente a "pingar". No entanto, tão pequena manifestação dessa coisa bonita que é a neve já é o suficiente para alegrar um visitante das terras do sul.

Percorri o caminho até ao restaurante calmamente, saboreando a zona. Entra-se no edifício por uma loja de recordações, cheia de coisas sem graça (porta-chaves, canecas e demais quinquilharia turística), onde também é possível comprar roupa quente e produtos de lã (típicos). Senti-me tentado a levar umas luvas mas achei um desperdício de dinheiro. Afinal de contas, tinha dois pares no albergue e só o meu excesso de confiança me tinha impedido de as trazer. Quanto às lãs, disso tinha eu em Portugal.

O restaurante da cascata de Gullfoss tem como especialidade (anunciada nos folhetos turísticos) a sopa de carne. Já me estava a apetecer prová-la mas uma olhadela ao preço fez-me perder a fome: alguns seis euros por uma malga pequena de algo que cheirava a sopa de rabo de boi e onde se via um bocado de carne misturado com qualquer outra coisa (legumes?). A carne era de carneiro ou borrego, julgo. Achei caríssimo e fiquei-me por algo d emuito mais singelo: um chocolate quente. Foi uma boa escolha porque era absolutamente delicioso e soube-me muito bem bebê-lo calmamente sentado numa mesa com vista...

Já cá fora, enquanto esperava que toda a gente se reunisse, aproveitei para ir visitar uma casinha próxima onde está informação sobre a zona. Infelizmente, tudo está em Islandês.

Água a ferver
A partir de Gullfoss vai-se à zona de Geyser onde se pode visitar um campo geotermal, com poças de água a ferver e dois guêiseres (o fenómeno ganhou o seu nome neste lugar). O guêiser "original" está, agora, extinto mas a pouca distância um outro, de nome Strokkur, dá espectáculo de vez em quando. O local é de uma beleza árida, feita de terra amarelada e manchada. À saída do autocarro, a guia avisa-nos para não sairmos dos caminhos porque o chão pode ceder e cairmos numa poça de água a ferver. A ideia é desagradável mas, a dada altura, torna-se difícil perceber o que é e o que não é um caminho já que acabamos por andar a deambular pelo parque. No ar, há o característico cheiro a ovos podres derivado do enxofre.

O vento está, como desde o início da excursão, muito forte e ainda mais gelado. Por vezes há que lutar para nos mantermos no mesmo sítio, há que fincar bem os pés e fazer esforço para conseguir tirar uma fotografia sem tremer. O guêiser Strokkur, de vez em quando, "explode" mas o vento não o deixa ganhar a altura que se espera. Começo a perguntar-me se não vou, ainda, levar com um banho de água fervente. Curiosamente, apesar do tempo, a erupção não invade as zonas onde os turistas se acumulam. Vejo várias erupções, de força diferente e decido filmar uma. Só para contrariar, o guêiser tarda em repetir o seu número. Tenho as mãos completamente geladas e já estou cansado de lutar com o vento. Quanto desisto, dá-se uma erupção, da qual só consigo apanhar um momento sem graça. Paciência... volto para o autocarro. Uma vez lá dentro, vejo ao longe a maior das erupções e não deixo de admirar a força com que a água sai para conseguir ganhar ainda alguma altura apesar do vento.

Igreja de Skálholt
De volta à estrada dirigimo-nos para Skálholt onde existe uma igreja moderna sobre um sítio ocupado desde tempos remotos e que teve o primeiro bispo do país. A igreja em si mesma é agradável pelas suas linhas sóbrias mas o interior, embora luminoso, é desinteressnte. No entanto, pode-se ir à cave onde está um pequeno museu com vestígios recolhidos no local: um sarcófago, algumas pedras tumulares e o acesso a um túnel que ligava a igreja a outro edifício próximo (do qual já só existem as bases). Este é um daqueles lugares que, um pouco à imagem de Tara, na Irlanda, é capaz de dizer muito aos locais mas pouco aos turistas. O estrangeiro quer ver vestígios palpáveis e não "sentir" os lugares. A História existe para quem vem de fora apenas enquanto algo de material. Tiro várias fotografias à branca igreja, apreciando o contraste com o céu e a "relva". Esta, é turfa, um chão mole e que sempre se usou na construção, nomeadamente para isolar as casas.

De Skálholt vamos para uma terra próxima onde, supostamente, vamos visitar uma antiga estufa que está a ser transformada num museu dedicado aos deuses viquingues. A zona tem nascentes de água quente e notam-se fumos a sair do chão nalguns sítios. É também, uma terra onde há muitas estufas. Chegados ao local de mais uma "confort stop", deparo-me apenas com uma espécie de pavilhão com artigos para turista - novamente, as coisas sensaboronas que já tinha visto na loja do restaurante. Também há uma geladaria cujos produtos tinham sido recomendados pela guia (deve ser o habitual esquema de comissões). Não compro nem como nada. Saio e venho fumar uma cachimbada enquanto aproveito para apreciar uma estudante da escola de turismo que acompanhava a excursão. Há muitos tipos de belezas naturais... A poucos metros de onde estou sentado, junto a uma parede, vejo sair fumo. Vou até lá e reparo que, o que normalmente seria um canteiro é, ali, uma fonte de água quente.

Daqui partimos para a última paragem da excursão: a central geotérmica que abastece Reiquejavique. A dita fica num planalto ainda cheio de pedaços de gelo e rodeado de bonitas montanhas brancas. Vê-se ao longe grandes nuvens de fumo saindo do edifício.

Esta paragem foi o pior momento da excursão. Uma vez no interior da central (onde, praticamente não se vê qualquer movimento), uma funcionária conta-nos alguns pormenores sobre o seu funcionamento e "abandona-nos" no primeiro andar para que possamos dar uma olhadela. Mas, não há muito que se possa fazer: espreita-se através de um vidro para uns pavilhões com enormes máquinas, vai-se a um terraço onde se vê chaminés e fumo e olha-se para uns écrans onde passa informação sobre tremores de terra (acompanhados de forte som). Há qualquer coisa de irreal por ali... não se percebe o interesse do local enquanto ponto turístico. Rapidamente me vou sentar na entrada do edifício (onde já estão mais pessoas) e fico aguardando pela ordem de marcha. Quando esta chega, é com alívio que me levanto.

Da central geotérmica até Reiquejavique, percorre-se um longo plananlto, rasgado por uma estrada com algum movimento (para os padrões Islandeses). A paisagem é bonita mas dá pena a sensação de se estar a voltar para "casa". Peço para ficar no centro da cidade e começo a mentalizar-me para o facto de ir repetir locais...

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