domingo, 26 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 6 (Hvoll - Jökulsárlón - Skaftafell)

Estrada solitária e monótona
2009/04/26

Aqui amanhece cedo (e anoitece tarde). Certo, certo é que às 5:30 já o sol me entra pelo quarto. Percebo a provocação mas deixo a ronha lutar por mim. Às 07:00 levanto-me. Desço para um espartano pequeno-almoço de café do Continente e Bolachas dietéticas.

Cumprido o dever para com o estômago, ponho-me a andar. A viagem hoje é de mais umas largas dezenas de quilómetros. Quero ir ver o lago glaciar de Jökulsárlón, passear no parque natural de Skaftafell e espreitar uma quinta com umas casas cobertas com turfa. Apercebo-me de que, para as distâncias a vencer, a escolha do albergue foi péssima: estou longe de tudo. A quinta de Hvoll fica no fim do mundo e até para chegar à estrada é preciso, primeiro, vencer 2,5km de caminho em gravilha. Mas o local é belíssimo...

O tempo está a ameaçar chuva. Passados alguns quilómetros, a ameaça concretiza-se e começa uma chuva irritante que vai tornando-se mais insistente. A coisa parece mal, até eu parar para uma das inúmeras fotos "tem de ser" e reparar que a água que cai não é tão intensa como aparenta com a deslocação do carro. Instala-se alguma esperança, logo contrariada pela visão de cada vez mais núvens escuras (e mais baixas).

O caminho, tal como no dia anterior, é uma mistura de monotonia com momentos de espanto. Sucedem-se os "desertos" negros, entrecortados por cursos de água e zonas mais ou menos agrícolas. Curiosamente, apesar da imensidão e da paisagem agreste, sinto que há sempre presença humana. Onde ela se nota pouco é na estrada: as gigantescas rectas são praticamente minhas e não fosse o receio de um azar com a autoridade, certamente aproveitaria para acelerar a sério...

Por entre as montanhas com neve que se vêem ao fundo (à esquerda, sobre os montes) começam a aparecer glaciares, monstros brancos que rompem caminho tresvasando o gelo para a planície. Ao longe parecem uma suave massa de chantily pronta a ser explorada já na próxima saída. Noto alguns locais onde aparenta haver trilhos para jipe, pela terra adentro. O contraste entre o negro do chão e os glaciares é enorme.

Do lado direito, tudo está aberto até ao mar. Este esconde-se na enganadora distância. Sei que é já ali ao fundo mas não o vejo.

Passo pelo acesso ao parque de Skaftafell mas sigo em frente. Mais um pouco e atravesso o local onde a dona da pousada me tinha indicado existir uma bomba de gasolina. Lá está ela. Por enquanto não vale a pena abastecer mas os 45 km decorridos desde o início da viagem deixam-me com uma pontinha de receio...

Lago de Jökulsárlón
Ao fim de um grande bocado avisto, pelo intervalo de um outeiro, grandes blocos de gelo. Só pode ser o lago de Jökulsárlón. Um pouco depois tenho a confirmação. Paro o carro num parque antes de uma ponte e preparo-me para o frio. Há um chuva miudinha e o habitual vento. Coloco as protecções para as pernas, aperto o carapuço (essencial para a minha sobrevivência), calço umas luvas, ponho o cachecol, aperto o blusão, bebo café do termo e eis-me pronto para os icebergues!

Os preparos deram resultado e o passeio faz-se com todo o conforto, excepção feita a dois momentos: quando resolvo pegar num pedação de gelo e as luvas se molham e quando decido experimentar o "waterproof" indicado nas botas que trago...

O lago é uma fantasia de água e gelo e, mesmo com o tempo nublado, consegue valer a deslocação. O que fará quando o céu estiver limpo!

Fotografo sucessivamente a paisagem e apercebo-me de um movimento: um bando de focas observa-me... Tento chamá-las a mim mas o mais que consigo é fazer algumas erguerem o pescoço bem acima da água. "Quem será aquele? Trará comida?"

Percorro a margem do lago e subo a um pedaço de gelo. A superfície escorregadia desencoraja-me de um passeio que seria arriscado. Mantenho-me em terra, portanto. As focas continuam a seguir-me de longe. Já estou a alguma distância do ponto de partida e decido subir a um outeiro. A vista ainda é melhor, como seria de prever. Começo o caminho de volta pela crista das elevações e só desço no fim para um tira-teimas à impermeabilidade das botas. Desta feita não me contento em molhar a biqueira e mergulho a bota toda. Imediatamente uma sensação de humidade fria se espalha pelo pé. Ora bolas! Para meu espanto e alívio, ao chegar ao carro o desconforto já tinha desaparecido. Dou uma última olhadela aos blocos de gelo mais próximos e abalo. Esperam-me alguns 25km até chegar à entrada do parque de Skaftafell. No caminho, reparo numa bomba de gasolina junto a uma estação fechada. Felizmente a bomba é automática e consigo abastecer. Sinto-me aliviado e à vontade para passear (e agradecido à grande invenção que foi o "multibanco").

Antes de chegar ao parque vejo uma indicação de acesso a um glaciar. Ignoro-a mas sinto o bicho da curiosidade a roer-me. A segunda indicação já faz parte do meu programa e atiro-me para um estrada de gravilha. Acompanho com o olhar um glaciar à esquerda enquanto me dirijo para outro. Deixo o carro num terreno à entrada de um caminho e continuo a pé. Ao ver um portão, julgo estar o acesso vedado. Não me conformo e pulo a cerca num local onde a rede estava no chão (provavelmente devido a um abatimento de terras).

A sensação de intrusão aumenta quando passo por uma placa em memória de dois alemães desaparecidos em 2007. Sigo o trilho na montanha e vejo o glaciar em baixo, a colossal massa gelada acabando num lago. Continuo mais um pouco e resolvo voltar. Reparo que o portão que eu julgava indicar uma proibição de acesso está afinal apenas no trinco. Noto a chegada de mais duas pessoas e decido voltar ao trilho. Avanço mais do que anteriormente mas acho melhor não me aventurar mais. Afinal, já estava a ver o glaciar. Paro para contemplar o cenário e aproveito para marcar território junto a um predregulho. Daí a pouco ouço vozes americanas. Três ou quatro indivíduos carregando material de filmagem. Um deles, sem nada, e com jeito de líder do grupo, vê-me e saúda-me alegremente. Traz uma boina de agricultor e o aspecto faz-me lembrar um realizador dos anos 20. Como para dar-me razão, a personagem vira-se para trás e grita "keep it coming Johnny, keep it coming". O Johnny tanto podia ser um sujeito que transportava um tripé como um gordalhão parado e suado logo no início do trilho onde tentava arranjar forças para prosseguir, com uma grande câmara vídeo e um tripé. Pelo meio, um casal de velhotes em fato de treino... À saída, vejo mais uma pessoa chegar, com um misto de satisfação por escapar à confusão e de pena por não continuar algo que talvez fosse mais simples do que parecia.

Em Skaftafell informam-me dos trilhos existentes. Para tristeza minha, a fonte de água quente onde pretendia ir tomar banho fica a umas horas de caminho. Sobram um cascata e um miradouro sobre um glaciar. Subo pelo monte e sigo as indicações para a cascata de Sevifoss. Pelo caminho, cruzo-me com aves que se atravessam despreocupadamente no trilho, pulando de arbusto em arbusto. Um corvo passa, fazendo barulho. Mais acima, uma primeira queda de água (Hundafoss). Depois, uma zona de "palha". Deixo-me cair no chão e preparo-me para uma sesta ao sol (o céu tinha aberto, entretanto), devidamente protegido pelo carapuço. Só para arreliar, o sono não veio...

A cascata de Sevifoss é em dos pontos dos folhetos turísticos devido ao seu enquadramento por negras colunas de basalto, assemelhando-se o local a um órgão de igreja invertido. Depois da sesta falhada na palha - que marcaria uma estreia minha nesse clássico do "relax", surgiu-me a ideia de tentar outro clássico: o banho de cascata. Como trazia calções e toalha (para a tal fonte, afinal, distante), a concretização da coisa parecia-me fácil. Descida a encosta até à base da cachoeira, tiradas as fotos da praxe, lá me despi e vesti os calções (confesso: por cimas das cuecas). O equilíbrio nas pedras era difícil mas tudo correu bem e entrei na água. Esta, era gelada (não a esperava quente...) e, ao chegar aos joelhos, era como se me queimasse as pernas. Desisti do temerário banho!

Feito o primeiro percurso, subi mais, seguindo outras indicações. Atravessando campo de diferentes naturezas e cores, sempre enquadrado pelas montanhas circundantes, fui dar ao miradouro sobre o glaciar. A vista era gloriosa: em baixo, um manto branco listado de cinzento; para a esquerda, um imenso mar de gelo; para a direita, a planície negra acabando no mar.

Desci até um penhasco e, na crista deste, sentei-me em pose dominadora. A cena era tão bela que decidi dar-lhe uma banda sonora: Jorge Palma e Anathema. Vantagens do PDA...

A vontade de ver mais fez-me continuar monte acima, percorrendo um terceiro trilho por caminhos por vezes alagados, mas o ângulo de visão que eu procurava obter sobre o coração do glaciar tardava em chegar e, após algum tempo, desisti.

De novo na estrada, já a caminho de "casa", vou reparando em pormenores que antes me tinham escapado. Paro e volto a parar, para guardar sempre mais uma imagem.

Faço um desvio para ir ver a quinta de Núpsstadur e as suas casinhas cobertas com turfa, entre as quais uma capela cuja conservação pertence ao Estado. Mesmo a existência de um monumento assinalado não é suficiente para levar de vencida a timidez e fazer-me entrar pela quinta adentro até junto da casa de família. Fotografo a capela ao longe e alguns barracões de perto. A cascata por trás da quinta é desinteressante mas, à volta, os montes de cume plano são monumentais, fazendo-me lembrar as imagens do Grande Canyon (EUA), mas em versão verde.

A charneca junto à pousada de Hvoll
O albergue fica perto deste último local. Ao chegar, apercebo-me da vida que por ali pára. Há um bando de patos (gansos?) espalhado pelo campo, uns pássaros voam enquanto outros cantam, outros patos nadam num dos diversos pequenos lagos existentes e, apesar desta actividade, uma atmosfera de sossego reina...

Entro pelo campo para fotografar uma carrinha velha à beira de um lago. O cenário é idílico e, novamente, a fazer-me lembrar certas imagens dos EUA. Junto à pousada, descubro cantos que me tinham passado despercebidos no dia anterior. O céu tem uma filial neste local.

A diversidade de paisagens é total: para cada ângulo, um cenário diferente. Disparo constantemente a máquina fotográfica.
Os animais são um bónus no local. Ao tentar aproximar-me de um grupo de patos vejo o patusco cão da quinta vindo na minha direcção, cheirando cuidadosamente as poças e a palha. A imagem é ternurentemente cómica, com a criaturinha roçando o chão num passo lento e bamboleante enquanto abana a cauda acima da vegetação rasteira. Chamo-o e, devagarinho, vem ter comigo. Nesse momento, do cimo de uma elevação, ouve-se o balir do amoroso cordeiro da quinta que, aos saltos, vem ter comigo e com o cão. Este faz-se às festas e, sentados na palha, ficamos os dois fazendo companhia mútua num entardecer perfeito...

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