segunda-feira, 27 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 7 (Hvoll - Keflavík)

2009/04/27

Acordei mais tarde, hoje. Não muito: hora, hora e meia. O suficiente para, apesar do bem que me soube, achar um desperdício estar na cama com um dia tão bom. Lá fora o sol brilha e o céu está limpo. Não é um cenário original nesta minha estadia na Islândia, nem é, sequer, garantia de que o tempo vá estar "bom", mas não deixa de inspirar alguma confiança.

À volta da pousada tudo está luminoso e até as areias pretas parecem alegres. Está na altura de me despedir do paraíso de Hvoll. A expectativa do que vou fazer não me deixa sentir mágoa mas sinto estar a despedir-me de um local especial (pelo menos, em época baixa e entregue só a mim...).

Quando abro a porta da casa, um pássaro começa a cantar. Olho e vejo-o perfeitamente colocado no bico central do telhado, como se fosse um enfeite...

Tenho de voltar a fazer a estrada n°1 (a enorme via que dá a volta ao país), repisando quase todo o percurso feito desde Reiquejavique. A única coisa que pode combater a monotonia é o facto de ir a ver a paisagem ao contrário. Passo por Kirkjubaejarklaustur e a sua rotunda. Tal como da outra vez, passa por mim a polícia na sua lenta ronda. Tudo parece uma cópia...

Decido ir ver a cascata (Seljalandfoss) que tinha desprezado à ida. É bonita e tem a divertida hipótese de nos deixar percorrer um caminho por trás da água. É impossível evitar ficar molhado mas isso faz parte da graça.

Igreja de Sellfoss
Sigo para a próxima paragem: Sellfoss (ler Sedlfoss). Como todas as localidades neste país, é desinteressante e só vale por uma ou outra bênção da natureza. No caso, uns buracos à beira-rio, formados pelo rebentamento de bolhas no tempo em que esta terra era um caos vulcânico. O enquadramento do rio também é bonito e uma igreja branca acrescenta-lhe um toque de graça. À parte disso, mais nada faz merecer uma paragem. Aproveito para almoçar num KFC (o primeiro que vejo), escolhendo uma coisa ao calhas (está tudo em Islandês, apenas). O preço também era um dos menores: 999 ISK. Ainda assim, mais de seis euros por um hamburger/filete de galinha com batatas e uma Pepsi.

Após comer, vou a um supermercado. A ideia é encontrar conservas de pratos típicos que possam servir de prendas. Não vejo nada, e sardinhas portuguesas não interessa comprar... Reparo com curiosidade que o supermercado está dividido em zonas isoladas e que estas têm refrigeração própria consoante o tipo de produtos que guardam. No estabelecimento, uma loura voluptuosa entra para o pequeno clube de mulheres bonitas que vi no país.

(Já que falei em sardinhas portuguesas, aproveito para dizer que na estação de rádio que ouvi durante o dia, surgia frequentemente uma campanha do turismo português.)

Antes de seguir viagem, meto gasolina. O preço está mais baixo: 149,5 ISK (menos de um euro). E esta era a bomba mais cara porque, nas outras, o litro andava em 146 ISK.

Escolho o caminho e, por não ter fixado o nome de uma localidade, repito sem necessidade mais um troço da viagem inicial. Podia ter ido por outro lado. Assim que posso, meto-me em estrada nova com intenção de ir dar a Krivisk. Faço um desvio para ir ver uma certa localidade por estar junto ao mar. Tempo perdido se não fosse ter reparado numas formações à beira da estrada, umas elevações pequenas (de pedra) rasgadas como se de dentro delas tivesse saído algo à força. É claro que saiu, noutros tempos...

Tomo a estrada para Krísuvík e paro daí a pouco ao ver a indicação de uma gruta. A duzentos metros um caminho abre-se no solo e vai dar a um buraco onde pedregulhos se acumulam. A diferença de temperatura é notável: dos 14 graus cá fora passa-se para um autêntico frigorífico. Dentro da cavidade há gelo e o medo de não saber o que está por baixo faz-me sair. Caminho à superfície e espreito em mais dois buracos sem acesso "para peões". Em cada um deles formou-se um grande monte de gelo. Foi neve que caiu e não derreteu devido ao frio da gruta. Tudo aquilo mete receio e apresso-me a sair do sítio por não gostar do chão que piso. Leio um painel informativo e fico a saber que a gruta de Raufarhólshellir tem 1350m e é considerada difícil. Nunca seria para um curioso de passagem, portanto.

Estância de esqui de Blafjoll
De novo sobre rodas começo a ver ao longe a estrada para a capital. Estranho o avistamento e mais estranho quando sou obrigado a ir parar àquela. Onde será que perdi a rota para Krísuvík? Consulto o meu livro e vejo que uma indicação na estrada podia servir-me. Faço meia-volta e entro para uma estrada de montanha. O cenário é bonito mas a próxima indicação faz-me perceber que algo não bate certo... Fujo para a frente e, montanha acima, acabo por ir dar a uma estância de esqui. Tudo está fechado e apenas duas pessoas se preparam para irem gozar a neve. Dou uma volta por ali, enterro os pés, faço umas bolas de neve e volto para trás, decidido a ir para Reiquejavique e daí fazer o meu roteiro no sentido inverso.

Quando já andava nos subúrbios da capital vejo uma placa indicando Krísuvík. Imediatamente a sigo. Ao fim de uns quilómetros vou dar a uma estrada de gravilha, coisa que detesto. Nada a fazer - é seguir em frente e aguentar o som das pedrinhas a baterem no carro. Para minha sorte, a estrada tem bastante terra à mostra e o tapete torna-se sofrível. Finalmente, chego a um dos locais de interesse da zona: um grande lago preso entre margens castanhas e desertas. Aqui, tudo é triste e estéril e só se encontra beleza recorrendo à monumentalidade do desolamento.

Mais à frente, a estrada volta a ser normal e isso traz-me uma sensação de alívio. Este é acompanhado da alegria de ver mais uma zona pretendida: um local de fontes de água quente, chamado Seltún. O cheiro a ovos podres (enxofe) enche o ar, as pedras são amareladas e no chão há água a borbulhar. Vêem-se nuvens de vapor a sair do chão encosta acima.

Diga-se aqui que, nas zonas onde há este fenómeno, a água quente, em casa, é aproveitada destas origens, levando a que qualquer utilização implique termos de suportar o cheiro do enxofre... Credo!

Por todo o lado se vêem indicações de caminhos. Qual deles irá dar à zona com lagos "estranhos" que eu queria visitar? Olho para o relógio e nem penso em tentar descobrir.
Surge a placa para Grindavík, a localidade geminada com ílhavo que serve de próxima referência no meu passeio. Com a placa vem, de novo, uma estrada de gravilha!... Mais uma data de quilómetros atravessando uma paisagem de pesadelo numa estrada à sua altura. A esta altura já vomito montes castanhos, planaltos de pedras e areias escuras. Enjoei! Tudo isto é uma paisagem infernal.

Sandvik: a ponte entre a Europa e a América
Imediatamente antes de Grindavík a civilização faz-se notar na estrada alcatroada. À saída da vila (?) ignoro o caminho para Reiquejavique para poder seguir por outro que vai dar a um dos "tem de ser" da minha viagem: o local onde as placas continentais da América e da Europa vêm à superfície. O sítio não desilude: dois "paredões" de pedra com uma separação onde cabe uma rua e unidos por uma ponte simbólica entre os dois continentes. Desço à cova e aproveito para aliviar os rins. Escolho regar a América. Caminho no local aproveitando para brincar com os efeitos provocados na areia (cinzenta à superfície, preta por baixo). Um casal passa lá em cima, na ponte mas demora-se pouco tempo. Nem toda a gente conseguirá apreciar ou suportar a fealdade da zona. O sol começa a baixar e isso aumenta a sensação de isolamento própria de sítios destes. Espreito outros pontos próximos onde as placas se mostram, aprecio algumas rochas e parto. São já 21:00 e tenho de entregar o carro até às 23:00.

Antes de Keflavík, dou um pulo a Njardvík onde vejo duas casas do Séc. XIX restauradas. Os infelizes que nelas viviam estavam sujeitos a um regime de arrendamento que os proibia de possuirem animais pelo que só se podiam virar para o mar. A trezentos metros, um "museu" aguarda a inauguração (Maio deste ano). Como único espólio, uma réplica (testada no mar) de um barco viquingue. Sendo a fachada de vidro, deu para observar o navio e lamentar que o mesmo tenha a vela enrolada, o que lhe tira, logo, metade do impacto. Escolha estranha, esta...

Uma voltinha pela localidade, mais gasolina para o carro e ala para o aeroporto.

Após a entrega da máquina (que me serviu bem nos mais de 1000km que fiz) entro no terminal. À entrada, um taxista conversa com uma rapariga. Os dois estão no mesmo local e na mesma posição em que estavam no dia 22, quando cheguei de Londres e lhes fui perguntar onde se apanhavam as camionetas para Reiquejavique.

É tempo de preparar a passagem da noite no terminal. Reparo que em várias portas de acesso há um símbolo proibindo a dormida no local. Um aviso em Francês (?) vai mais longe e estende a impossibilidade às imediações do aeroporto. Que coisa estúpida! (e inédita, para mim). Deixo-me ficar no aeroporto, sentado na esplanada de um café fechado. Acabo por adormecer: ninguém me incomoda.

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