domingo, 18 de setembro de 2011

O bairro português de Malaca

A entrada da "Praça Portuguesa"
 Quem vai a Malaca sabe que pelo menos três pontos turísticos têm a nossa marca. O primeiro é a chamada "fortaleza portuguesa", também conhecida como "A Famosa" (que, na realidade, se resume quase só a uma entrada); o segundo é o museu marítimo, que está instalado numa imponente réplica da famosa nau "Flor de la mar", naufragada na zona em 1511 (sim, o nosso tesouro mais conhecido tem um nome "espanhol"); finalmente, o terceiro ponto é o "bairro português" que, na língua local, é chamado de "Medan Portugis".

Quando estive em Malaca, a visita ao "bairro português" não estava incluída no limitado itinerário da excursão em que eu ia pelo que eu e a minha irmã tivemos de aproveitar o tempo livre, à noite, para lá dar um pulo. Mandámos parar um táxi à porta do hotel e combinámos o preço com o motorista (é assim que funciona ali). Daí a pouco tempo estávamos defronte da entrada da "praça portuguesa" e que fica entre a "Jalan Daranjo" e a "Jalan Dalbuquerque" (esta última, cruza-se com a "Jalan Texeira" e a "Jalan Squera", tudo nomes cuja origem salta à vista).

A praça é um quadrado, com arcadas sob as quais há comes e bebes. A sensação de desilusão é quase imediata para quem vá ali esperando encontrar, efetivamente, um cantinho de Portugal em tão longínquas paragens. Há estabelecimentos com nomes que nos remetem para o nosso país, como é o caso do "Restoran de Lisbon", e, de resto, mais nada faz aquele sítio ser diferente de qualquer praça ou praceta dedicada aos prazeres da comida e da bebida.

Sentámo-nos numa esplanada no meio da praça e mandámos vir umas Coca-Colas. O local estava com pouca frequência e esta era sobretudo de malaios. Provavelmente, éramos nós os únicos turistas. Como não estávamos a sentir a "portugalidade" do sítio começámos a falar um pouco mais alto na tentativa de captar a atenção de alguém que resolvesse meter conversa connosco mas os esforços foram em vão. Ao fim de algum tempo e sentindo que não havia ali nada de interesse, resolvemos ir-nos embora.

Quando já estávamos prestes a por o pé na rua, um malaio mais corpulento, de cabelo grisalho e mais comprido do que o habitual, saiu de perto da porta do "Restoran de Lisbon" e veio falar connosco. Era "George", o dono do restaurante e, muito provavelmente, a única pessoa ali que era capaz de se expressar em Português. Levou-nos ao interior do seu estabelecimento e mostrou-nos as fotografias que tinha expostas na parede, quase todas suas com personalidades portuguesas que ali tinham ido. Uma delas, Krus Abecasis era ainda tida por si como o Presidente da Câmara de Lisboa, o que já não era verdade há uns bons anos. Por delicadeza, não o informámos da sua completa desatualização relativamente à vida portuguesa.

De calções, George, o dono do "Restoran de Lisbon"
No decurso da conversa ficámos a saber que os "portugueses de Malaca" (que não falam Português mas sim um crioulo chamado "Papiá kristáng" eram obrigados a ter nomes próprios ingleses (daí o "George") e que se dedicavam, sobretudo, à pesca. O George também aproveitou para se queixar de que não lhe mandavam coisas em Português e que, embora já tivesse pedido discos e livros a uma qualquer instituição pública, nada lhe chegava.

Ao fim de uns bons minutos, despedimo-nos do dono do "restaurante de Lisboa" e fizemo-nos ao caminho. Como era noite e estávamos bastante desiludidos com o que tínhamos visto, não fomos dar uma volta pelas ruas à volta da praça.

O caminho de volta era por uma estrada com pouco movimento e pouquíssimas casas o que em nada me incomodou mas preocupou bastante a minha irmã. A noite estava morna e agradável e o sossego da caminhada - aqui e ali pontuada por algum local mais interessante, como um cemitério muçulmano -, apenas foi prejudicado pelo medo de ser atacada e violada que a minha irmã transmitia frequentemente. Passear com mulheres tem destas desvantagens...

Chegámos ao hotel sem que nada nos tivesse acontecido mas com uma sensação amarga de termos ido a uma espécie de não-atração, um local para nós mítico mas onde o fino fio da nossa identidade ameaçava quebrar-se a qualquer momento deixando ali qualquer coisa que, tendo de ter várias entidades, acabava por não ter nenhuma. Um misto de curiosidade pelo exotismo daqueles nossos "compatriotas" e de saudosismo imperial faz-nos dar mais importância a um desinteressante local que mais parece saído do cosmopolitanismo saloio de uma loja chinesa do que a verdadeiras pérolas de outras culturas existentes no resto da cidade.

É pena...

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