sábado, 1 de outubro de 2011

Ozzy Osbourne e a camioneta dos charrados

Zakk Wylde e Ozzy Osbourne
1989/04/13-14

Há muitos anos, Portugal estava fora da rota dos grandes artistas e quem quisesse ver concertos de gente de renome tinha de ir a Espanha. As idas ao país vizinho de Dire Straits, Pink Floyd, Rolling Stones mas também nomes menores à escala global - ainda que importantes nos seus géneros específicos -, alimentavam uma pequena indústria dedicada à organização de excursões a concertos. Recordo-me de que, quando a banda de Gilmour e Waters tocou em Madrid, partiu um comboio especial de Lisboa só para levar os fans portugueses...

Quem ia a Madrid para "ver" música, também aproveitava para ir às compras. Nessa época, sobretudo na área do Metal, a oferta por cá era escassa e cara e já se partia de Lisboa com a indicação das discotecas onde comprar as últimas novidades a bom preço. Os colegas e amigos aproveitavam para fazer encomendas.

Um dia, por mero acaso, li no jornal um anúncio a uma excursão à capital espanhola para ouvir o incontornável Ozzy Osbourne que andava a promover o seu álbum "No rest for the wicked". A publicidade referia também um concurso cujo prémio era viagem e bilhete para o espetáculo (estadia não incluída). Tudo o que havia a fazer era enviar um texto da nossa lavra sobre o artista. Escrevi uma "dissertação" qualquer de uma página sobre os diversos tipos de medo onde, no fim, lá fazia aparecer a personagem do cantor. Daí a uns dias, chegava uma carta com uma boa notícia: tinha ganho o prémio.

Era a primeira vez que saía de Portugal sozinho e tudo aquilo se revestia de um certo espírito de aventura. Durante uns dias a minha mãe tentou convencer o meu pai a ter comigo uma "conversa de homens" - preocupada que estaria com a má fama da capital espanhola (por causa de saias, certamente) -, mas, felizmente, falhou e eu fui poupado a uma conversa que só poderia ser confrangedora.

Para ir mais dentro do ambiente do concerto, um colega de liceu emprestou-me um blusão de ganga que tinha um "patch" do Dio o que, pelos padrões metaleiros dos anos 80 era coisa abaixo de iniciado já que quem estava bem dentro do estilo, orgulhava-se de andar coberto de insígnias de bandas.

A camioneta partiu do Marquês de Pombal e ia apinhada. O tipo de passageiros imediatamente me deixou apreensivo tal a quantidade de "cromos" que me acompanhavam. Ao fim de alguns quilómetros a camioneta já só cheirava a haxixe. E estava a minha mãe preocupada com mulheres...

Ao fim de seiscentos quilómetros de viagem, Heavy Metal e malta na passa (o guia e o motorista tinham de aguentar com aquilo tudo), entrámos em Madrid pela Av. de Portugal, uma estrada feia ladeada por fábricas, armazéns e quartéis e dirigimo-nos ao centro. Ao passar pela Plaza de España, reparei que a estátua do D. Quixote que aí existe estava coberta com uma bandeira da República. Ao chegar à Gran Via, comecei a ver sinais de uma civilização mais avançada só vistos em filmes: sex-shops!

Gran Via
Mal dei por mim sozinho, lancei-me à descoberta da cidade. Optei, claro, pela principal artéria devorando com os olhos tudo aquilo - os prédios, as lojas, os painéis luminosos. Acabei por passar novamente pela Plaza de España (eu andava sem rumo definido já que nem um mapa tinha) e reparei que a bandeira da República que tinha visto antes já tinha sido retirada. Mais umas centenas de metros e dei comigo junto a um (verdeiro) templo egípcio que foi oferecido à Espanha pela sua ajuda na operação de salvamento dos templos de Abu Simbel. Tirava eu fotografias ao Templo de Debod quando um egípcio com perfeita pronúncia americana me veio pedir que lhe tirasse uma foto. Aproveitei para lhe pedir o mesmo e, hoje, essa é a única imagem que tenho da minha primeira viagem sozinho: eu junto a um templo egípcio, em Espanha. Tudo a ver, certo?

O concerto era na noite desse mesmo dia, no pavilhão do Real Madrid, lá nos confins do Paseo de la Castellana (uma enorme avenida que imediatamente me agradou pelo seu ar arejado e prédios mais "modernaços"). Uma vez lá chegado, o pessoal da camioneta vinda de Portugal pareceu-me um mero "treino" para o que vi no recinto. Sentados no degrau abaixo do meu, três indivíduos fumavam, à vez e descaradamente, heroína, haxixe e sei lá mais o quê que faziam, ainda, questão de acompanhar com cerveja. Pela plateia circulava um dos meus colegas de viagem, ostentando alegremente um enorme "charro" de pelo menos quinze centímetros, o que, verdade seja dita, era a coisa menos estranha no seu aspeto já que andava com uma espécie de saiote em cota de malha e um capacete na cabeça. Um dos drogados à minha frente, ao vê-lo, exclamou: "Olhem, os mouros voltaram!".

Do concerto não há muito a recordar já que o Ozzy Osbourne não é propriamente conhecido pelos seus grandes desempenhos ao vivo. Aindo o vejo de um lado para o outro do palco, com aquele andar meio trôpego, lançando baldes de água para cima de quem estava nas primeiras filas e repetindo até à exaustão o seu "We love you!". Já Zakk Wylde brilhou com o seu virtuosismo e nunca me desapareceu a imagem dele tocando com a guitarra invertida, na vertical, acima da cabeça...

A volta do concerto foi feita a pé, galgando os quilómetros do Paseo de la Castellana, Paseo de Recoletos, Calle de Alcalá e mais qualquer coisinha até chegar ao centro, onde ficava o hotel. Todo o percurso foi feito com um grande prazer e uma sensação estranha de estar em casa que a dada altura quase me fez tomar uma rua pensando que estava em Lisboa... Não se entenda por isto que a cidade é parecida com a nossa capital (em local algum o é) mas sentia-me tão bem por ali que a cidade se entranhou em mim. Durante anos senti uma grande vontade de voltar a Madrid, só para repetir aquela caminhada. Quando o fiz (ainda que parcialmente), já não teve o mesmo gosto e deve ser por isso que alguém disse que "nunca se deve voltar aos lugares onde fomos felizes".

No hotel, dividi o quarto com outro rapaz que, desde a primeira hora, me pareceu um bocado estranho. Quando cheguei (e era tarde...) ainda estava acordado, com a mesa do quarto numa grande desarrumação. Ao deitar-me, ele - que ainda parecia longe de querer dormir -, perguntou-me: "Queres um drunfo?". Esta personagem acabaria por ficar para trás ao não comparecer a horas no local da partida. Por mim, escusava de ter embarcado em Lisboa, sequer. E, mais uma vez, pensei na minha mãe e nas suas preocupações com as espanholas...

A viagem para Lisboa fez-se nos mesmos moldes da ida. As únicas diferenças foram que o guia impôs algum silêncio no que dizia respeito à musica e que fizemos uma paragem no Alentejo, para jantar. A minha vontade de me ver livre daquele pessoal era tanta que até dei por mim a jantar sozinho literalmente no meio de uma sala apinhada de metaleiros - alguns dos quais que, simpaticamente, até me convidaram para comer à sua mesa. "O solitário", chamou-me o guia quando desembarcámos em Lisboa. Por mim, tinha sido a primeira e a última excursão deste tipo.

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