terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O mais longo abraço

É sobejamente conhecido o medo que muita gente tem de andar de avião. No meu caso, o único verdadeiro receio que tenho é de não conseguir distrair-me na viagem (preferencialmente dormindo) e ter de suportar uma entediante viagem por cima das nuvens, feita de horas de intermináveis horizontes de algodão. Mas há, realmente, quem tenha pavor de se imaginar planando lá em cima e tudo faça para não ser metido num avião. É famoso o caso de um futebolista holandês de topo que, quando a sua equipa viajava por causa das competições europeias, partia dois dias antes... de comboio. E se tal não era mesmo possível, tinham de lhe dar uma injeção antes de ir para o aeroporto. Outros, impossibilitados de substituirem as asas pelos carris, recorrem a comprimidos, rezas ou álcool para acalmarem os nervos. E há, também, quem use uma manta...

Na minha segunda ida a Macau já o aeroporto do território estava construído, para grande orgulho da administração lusa que via nisso um marco fundamental da herança a deixar à sua sucessora chinesa. O voo da TAP para Lisboa estava razoavelmente preenchido, levando uma mistura de nacionalidades onde os passageiros portugueses eram, naturalmente, a maioria. Uma fila à frente de mim, ocupando dois lugares da coluna central do avião, um casal de jovens irmãos abraçava-se fortemente, num evidente esforço para ultrapassarem o medo que os invadia. Enquanto a aeronave se preparava para descolar, uma hospedeira esteve à conversa com eles, tentando acalmá-los mas a sua simpatia teve efeito nulo nos adolescentes, que continuaram desesperadamente abraçados. Os motores do avião rugiram, o pássaro ganhou balanço e, quando já se preparava para saltar, a descolagem foi abortada. Ninguém achou necessário prestar qualquer esclarecimento durante os quarenta e cinco minutos que se seguiram e aos medrosos irmãos tudo serviu apenas para ainda aumentar o pavor que sentiam. Finalmente, surgiu uma informação sobre a causa da paragem: um aviso de avaria tinha surgido aos pilotos e tinha-se estado a verificar o que se passava. Por esta altura, os irmãos cobriram-se com uma manta e suspeito que, debaixo desta, devem ter começado a ouvir-se orações a tudo quanto fosse santo...

O avião subiu, rompendo a noite até chegar ao ponto onde estabilizou e apontou à longínqua Bruxelas onde iria fazer uma escala. Ao todo, cerca de catorze horas de voo. Para ganharmos ânimo, serviram-nos o jantar logo que foi possível o que, no meu caso, foi uma espécie de pós-banquete já que a minha família, em jeito de despedida, me tinha levado antes a jantar a Coloane, às "tendinhas" (umas arcadas que eram o lugar do melhor "chao min" que alguma vez provei). Pois o par de irmãos, debaixo da sua manta, até o jantar recusou e nem por um momento se largou até o avião estacionar no aeroporto da Portela... Eu cá digo que aquilo devia ter entrado para o Guinness como "o mais longo abraço da História".

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