sábado, 10 de setembro de 2011

Os empregados portugueses em Madrid


2009

Eu e dois conhecidos fomos passar um fim de semana a Madrid. Para mim era a quarta vez mas, para eles tudo seria novidade. Na primeira noite que lá passámos, após muito caminhar, resolvemos entrar numa tasca de ar muito confortável e castiço, com quase toda a decoração baseada em objetos ligados à cerveja. Olhámos para o menu, sentimos dificuldade em perceber o que lá estava escrito e, enquanto não nos decidíamos, mandámos avançar com umas cervejas.

Quando as bebidas chegaram, a empregada (que já antes nos tinha cumprimentado e entregue o menu), foi ajeitando a mesa e colocando uns acepipes enquanto nós falávamos alegremente. Ao som de um pequeno palavrão, a rapariga saiu-se com um "olhem que eu percebo o que dizem". Disse isto com um sorriso e um fortíssimo sotaque espanhol. Ficámos admirados e, enquanto ela ia buscar a comida que finalmente tínhamos conseguido escolher (à nora, é certo), debatemos se estaríamos perante uma ave rara (uma espanhola a falar Português) ou uma imigrante de pronúncia desfeita pela convivência com o Castelhano.

Quando a refeição ia a meio e ela teve uns momentos livres, veio ter connosco e lá ficámos a saber a sua história. Era de Cantanhede e tinha ido para Madrid estudar teatro. Entretanto, tinha lá ficado e andava a juntar para comprar uma casa na terra. Desconheço há quantos anos ela estaria em Madrid mas a destruição da fala era um caso digno de estudo.


Na manhã seguinte, em vez de tomarmos o pequeno-almoço no albergue, convenci os meus companheiros a irmos provar um típico pequeno-lmoço madrileno, ou seja, uma fartura acompanhada de uma caneca de espesso chocolate quente. Entrámos num café que, àquela hora, estava vazio, sentámo-nos e, quando o empregado apareceu, eu pedi "chocolate y porras". Fi-lo sem qualquer tentativa de por um sotaque local nas palavras. Imediatamente o empregado me respondeu "Uma fartura, não é? Farturas e chocolate quente". Também este era português.


À noite, resolvemos voltar ao mesmo café. A essa hora o ambiente era completamente diferente, cheio de gente a dar na cerveja e nos petiscos. Ficámos por perto do balcão (nem havia onde nos pudéssemos sentar). O empregado, ao ver-nos, veio
cumprimentar-nos com alegria e prontamente nos ofereceu alguns petiscos para provarmos. Não eram nada de especial (comida espanhola...) mas é claro que na graça do momento nos souberam bem (a cerveja sim, era muito agradável). Sempre que o intenso serviço lhe permitia, o rapaz vinha trocar umas palavras connosco e oferecer-nos uma amostra de mais algum petisco, aqui e ali sob um olhar um pouco desaprovador do seu patrão, um galego hispanófono.

Na terceira noite que passei em Madrid, ao entrar num bar, já estava à espera de dar de caras com mais um empregado português mas a verdade é que apanhei com um que era tão espanhol que até dava uns passos de flamenco em cima do balcão...

Sem comentários:

Enviar um comentário

Textos relacionados