segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Os vendedores ambulantes argentinos

Catedral de La Plata
2006/12

De Buenos Aires a La Plata são cinquenta e tal quilómetros que se fazem calmamente, apanhando o comboio na estação de Constitucion. As composições à disposição (quando lá estive) eram de conforto mínimo, praticamente só em chapa, por fora e por dentro, e claramente feitas para irem resistindo...

Entre a metrópole do Rio da Prata e a cidade que foi construída para vir a ser a nova capital do país das pampas, a viagem pouco difere, numa boa parte do trajeto, daquelas que fazemos através das zonas suburbanas de qualquer urbe. Mas há um pormenor na viagem que lhe dá uma graça absolutamente ímpar: os vendedores ambulantes.

Da primeira à última paragem, sucedem-se nas carruagens os vendedores (e pedintes, também), numa espécie de ordem perfeitamente estabelecida e que não é rompida por ninguém: um vendedor por carruagem, o próximo só entra quando o primeiro sair. À primeira poderíamos pensar que fazer uma viagem - que para o turista é sempre de prazer -, sendo o tempo todo incomodado pelo pregões dos comerciantes, é uma coisa irritante. A verdade é que os vendedores da linha BA-La Plata não se limitam a mostrar os seus produtos: eles envolvem-nos com enormes histórias, descrevendo minuciosamente a qualidade das coisas que vendem de uma forma tão fluente e até colorida que rapidamente chegamos à conclusão de que aquilo que julgaríamos ir ser um incómodo será, na realidade, um festival de gente castiça.

O vendedor chega à carruagem. Para no início. Apresenta-se e cumprimenta a geral. De seguida, começa  a falar das coisas que traz consigo e de como elas são boas e a um excelente preço. Depois, percorre a carruagem e, ocasionalmente, deixa "amostras" às pessoas para, finalmente, na volta, recolher os produtos rejeitados e se fazer pagar por aqueles que forem tomados. A coisa pode variar, é claro, mas, de uma forma geral é assim:

- Senhoras e senhores, muito bom dia! Trago-vos hoje mais um produto com a grande qualidade a que já vos habituei. Trata-se de um guia das estradas do nosso país que, para além dos caminhos do norte, do centro e do sul, inclui igualmente os mapas das principais cidade da Argentina, tudo em formato de bolso para vossa comodidade. E se pensam que este utilíssimo livro é vendido a um preço elevado, enganam-se. Por apenas X pesos - repito -, por apenas X pesos, podem ter na vossa mão este guia (vejam como cabe facilmente num bolso) ...

(o vendedor folheia o livro, põe-no e tira-o do seu bolso)

- ... e como é fácil manuseá-lo. Por apenas X pesos, relembro-vos... Vejam, consultem e apercebam-se de como está a ser vendido a um ótimo preço. É um produto de qualidade e de confiança.

(o vendedor distribui alguns exemplares pelos passageiros)

- Mas há uma coisa que ainda não vos disse: é que, como se não bastasse a informação relativa às estradas, ainda é possível saber quais as principais linhas de comboio que atravessam o país. E, agora, pensem bem: tudo isto por X pesos. É ou não é uma grande compra? Claro que é. E está à venda apenas hoje, senhoras e senhores. Apenas hoje.

E a coisa continua neste tom, até à próxima paragem, altura em que o vendedor avança para a próxima carruagem, sendo imediatamente substituído pelo próximo cromo que, caso seja um pedinte, age da seguinte maneira: cumprimenta as pessoas e logo começa a entregar em mão ou a deixar junto a nós uns cartõezinhos com personagens da Walt Disney, em poses muito tristes e com dizeres do tipo "Nunca me esquecerei de ti". Na volta, o pedinte (provavelmente uma criança), espera receber uns trocos juntamente com os cartões.

E o que se vende no comboio? Roteiros de estradas, conforme já contei (e ainda hoje me arrependo de não o ter comprado porque custava, realmente, uma absoluta ninharia), lápis de cor, cadernos, carteiras, revistas... de tudo um pouco.

No fim da linha, temos a cidade de La Plata que vale bem uma visita para ver o seu teatro, o museu (em estilo antigo, com grandes e vestutas estantes), o edifício feito por Le Corbusier e a belíssima praça central com o edifício da câmara municipal e a magnífica catedral neogótica a cujo topo se pode subir. Ir a La Plata é algo fundamental para quem for a Buenos Aires.

Quanto aos vendedores, fica aqui um vídeo a partir do qual poderão aceder a outros para verem este giríssimo espetáculo:


domingo, 30 de outubro de 2011

À nora por Cantão

1996

Hoje, por força da mania de uns e da ignorância de muitos, chamam-lhe Guangdong (em Cantonense) ou Guanzhou (em Mandarim) mas, em 1996, Cantão era o nome que toda a gente dava à província e à cidade chinesas que tanto dizem a quem se interesse pelas coisas do "nosso" Oriente.

Era comum os portugueses residentes em Macau irem de passeio a Cantão e fazerem-no recorrendo aos serviços de taxistas chineses, geralmente parentes ou conhecidos de pessoas que tinham negócios dos dois lados da fronteira e em quem os residentes depositavam confiança. Isto era assim porque, por força da burocracia chinesa, para que um carro de Macau pudesse circular na China, tinha de também estar lá registado, andando, portanto, com duas matrículas: uma para Macau e outra para território chinês. Como a maioria dos portugueses não estava para estas complicações (e outras que viriam atrás), o esquema dos taxistas contratados por um dia era um êxito junto da comunidade lusitana.

A minha irmã tinha-me prometido uma ida a Cantão (que ela também não conhecia) e eu ansiava por esta incursão mais profunda na China, de cujo gigantesco território eu só conhecia Zhuhai e Shenzhen, ou seja, as cidades que faziam fronteira com Macau e Hong-Kong, respetivamente. O plano do passeio era atravessar a fronteira e encontrarmo-nos com um taxista cunhado de uma chinesa muito popular entre as portuguesas por as abastecer de atoalhados locais (produto que parecia por as nossas senhoras em êxtase).

Mas, há dias em que tudo parece correr mal...

Logo ao saírmos das instalações alfandegárias, a minha irmã deu-se conta de que se tinha esquecido das folhas com as indicações dos sítios a ver em Cantão. O problema acabava por ser menor já que o taxista que nos levaria já conhecia o roteiro. Confiantes de que não perderíamos nada do que contasse, avançámos de forma otimista para o local do encontro com o motorista.


Esperámos, esperámos e, do táxi, nada. Ao fim de algum tempo, e com o nervosismo a instalar-se, a minha irmã conseguiu falar com a comerciante chinesa que lhe informou que o seu cunhado tinha sido recentemente multado pela polícia por circular em zonas para as quais não tinha licença e que, por isso, não nos poderia levar. A coisa complicava-se...


Falha-me a memória no que toca à forma como arranjámos um novo taxista. Não me lembro se a comerciante arranjou uma alternativa à queima ou se a minha irmã "engajou" um novo motorista ali mesmo mas a verdade é que tínhamos como ir a Cantão.

Este motorista alternativo era um sujeito novo, muito sorridente, com aquele ar de boa pessoa que nos habituámos a ver nos filmes de tom paternalista. Estava contente por nos levar, claro, já que aquilo que lhe pagaríamos, sendo barato para nós, era, para ele, um negócio da... China (piada fácil, bem sei).

Só havia um problema com o taxista: ele não falava uma só palavra de Português ou Inglês. Para cúmulo da coisa, apesar de ter um mapa de Cantão, este estava unicamente escrito em carateres chineses pelo que, para nós, era tão inútil quanto uma lanterna ao meio-dia. Estávamos lixados...

Conformados com a forma ruinosa como a "expedição"a Cantão estava a decorrer, acabámos por nos rir da situação e preferir gozar as bonitas paisagens pelas quais íamos passando. Aqui e ali, o motorista apontava-nos alguma coisa fazendo comentários dos quais, como é natural, nós não percebíamos patavina. Sorríamos...

Após bastante tempo, chegámos finalmente à cidade de Cantão onde o motorista nos deixou junto a um parque. A escolha do local tinha sido feita olhando para o "enigmático" mapa da cidade que havia a bordo e, quase ao calhas, escolhendo um ponto. Como se tratava de uma área verde e grande, as hipóteses de ser escolhida tinham sido maiores...

A única fotografia em Cantão
Combinámos com o taxista que ele nos recolheria ali a uma certa hora e, ávidos de pisar Cantão, saltámos do carro em direção a um grande muro "à chinesa" onde tirei a única fotografia que tenho de todo esse dia (o que ainda hoje me deixa aparvalhado).

Na entrada do parque tivemos de comprar um bilhete. Uma vez dentro do recinto, demos por nós num verdejante local onde, ao fim de alguns minutos, passou por nós um grupo de rapazes brancos, o que nos fez pensar que talvez estivéssemos num dos sítios que fizessem parte do circuito turístico local. Foi um pequeno consolo, é certo mas, ainda assim, serviu para nos animar.

Ao fim de algum tempo, e visto tudo o que havia para ver naquele grande jardim, aproximou-se o momento do reencontro com o taxista. Pontualmente, lá estava ele à nossa espera, sempre com o seu sorriso.

À nossa frente estava a repetição da viagem feita desde Zhuhai com a agravante de, antes de ganharmos a estrada, termos de romper o trânsito de uma cidade chinesa em hora de ponta. Desesperámos sentados naquele táxi, com tudo fechado, percorrendo vagarosamente ruas feíssimas no meio de carros que surgiam de todo o lado.

Ocasionalmente, um pormenor resgatava-nos da profunda monotonia em que estávamos mergulhados. Lembro-me sempre da oficina de um escultor que tinha, alegremente reunidos junto à entrada, a Virgem Maria, duas ou três deusas chinesas e alguns bonecos da Walt Disney onde estaria, com toda a certeza, um dos anões da Branca de Neve. Era um grupo com um aspeto hilariante.

Passada uma eternidade, libertámo-nos dos subúrbios da cidade de Cantão da qual apenas guardo dois ou três instantâneos na minha cabeça: o parque, uma enorme lagosta na parede de um prédio onde havia um restaurante e, claro, as esculturas.

Já na estrada, o taxista carregou no acelerador, para alívio de todos: nosso, que não víamos hora de voltar a Macau e dele, que devia estar cheio de receio de ser apanhado e multado por andar fora da sua área de serviço. O pobre talvez se tenha ainda assustado algumas vezes ao passar por alguns dos muitos bonecos imitando polícias que existem ao longo da estrada. A ideia é óbvia: enganar e levar a que os automobilistas andem dentro da linha...

Chegados a Zhuhai, a minha irmã pagou pagou ao taxista o que havia sido combinado de manhã e ainda acrescentou uma gorjeta, tendo na altura comentado que, embora sendo barato para nós, aquilo devia ser uma semana de trabalho para o pobre homem. Como que dando-lhe razão, o taxista deu-nos um sorriso ainda maior do que o costume.

Talvez um dia volte àquelas paragens. Se o fizer, não deixarei de ir, finalmente, conhecer Cantão como deve ser, i.e., com um guia turístico debaixo do braço. Até lá, fico com a memória do mais atabalhoado passeio que alguma vez dei...

sábado, 29 de outubro de 2011

Um Tarzan no GP de Macau

1996

O Grande Prémio de Macau é uma daquelas provas automobilísticas que faz parte do imaginário de quem aprecia "as coisas dos carros".

Estando no então "território chinês sob administração portuguesa" e tendo a oportunidade de arranjar bilhetes gratuitos por via de cunhas, não perdi a hipótese de assistir à prova bem como, previamente, aos treinos, nos dias que antecederam a corrida.

O meu lugar era no fim de uma reta, antes do Hotel Lisboa e tinha-me sido prometido por quem já tinha experiência da prova, um fartote de acidentes já que os carros, ali, eram obrigados a fortes desacelerações antes de virarem à direita e era comum acontecerem "precalços"...

Na altura, André Couto era a grande esperança lusa na corrida e juntava à representação da nação o facto de ser filho da terra. Se bem me lembro, a coisa não lhe saiu particularmente bem naquele ano. Mas, ali estava eu, sentado nas bancadas, começando a perguntar-me que raio de piada havia em ver, de dez em dez minutos, passar uma série de carros para, depois, ficarmos para ali à seca quando, por força de me entreter a brincar com a minha máquina fotográfica, esta me cai das mãos e passa pelo meio dos degraus que compunham a bancada (que era do tipo desmontável), indo aterrar uns bons metros mais abaixo numa zona de terras empapadas.

A máquina não era grande coisa mas era a que eu tinha e, ainda por cima, onde estava o rolo com as fotos daquelas minhas férias. Nem pensar em deixá-la perdida à espera que um caranguejo a encontrasse...

Levantei-me e, tentando não perder a referência a onde estava sentado, saí das bancadas. Expliquei a um segurança filipino o que tinha acontecido, este ficou um pouco à nora mas lá me deixou passar para as traseiras das bancadas onde me esperava uma selva de "tubos" de bambu. Como quem vive na selva é o Tarzan, achei que a única maneira de chegar à minha máquina seria mesmo imitar o homem-macaco. E por ali fui eu, na invejável forma física dos vinte e poucos anos, balançando e rodopiando pelo meio do "canavial" - qual trapezista, por vezes -, até chegar ao ponto onde tinha avistado a câmara. Fielmente esperando pelo dono, lá estava ela, meio enterrada no lodo. Recuperei-a e refiz o caminho, desta feita com mais calma.

No fim, esqueci-me de bater no peito mas devia tê-lo feito para comemorar o único momento emocionante do "meu" Grande Prémio de Macau.

Ah... e acidentes? - nem um...

O sereno madeirense

Praia de Sâo Vicente
2008/12

O homem estava sentado na paragem de camioneta em São Vicente, sozinho e olhando serenamente para o monte que ficava defronte. Uns momentos depois de também eu me sentar no banco perguntou-me pelas horas. Por estarmos ali apenas nós dois e aquela parte da ilha da Madeira não ser, nem de longe, um ponto de grande movimento, começámos a conversar para ocupar o tempo que ainda restava para a chegada da carreira que me levaria de volta ao Funchal.

Uma vez dentro da camioneta, sentámo-nos ao lado um do outro, um em cada lado do corredor e continuámos a praticar sobre diversas coisas. Era ele que dizia quase tudo, lembrando e contando pequenas histórias suas que iam desde a infância por aquelas paragens até à guerra colonial, todas elas com toques característicos que me deleitavam. A sua pronúncia madeirense, em grau ligeiro que lhe emprestava um tom ponderado ao discurso, assentava bem ao seu olhar claro e calmo, vagamente perdido.

- Nós partimos daqui, um regimento cá da zona, e fomos para a Guiné. Eu tinha lá uma preta que me tratava da roupa e... "coise".

O homem terminava quase todas as frases com um sumido "coise" que eu achava cada vez mais ternurento. Notava-se nele o ar do solitário, condenado pelas circunstâncias da vida a "andar por ali". Falou-me da sua única vinda a Lisboa "durante cinco dias para andar com a minha filha em hospitais". Da cidade nada viu e a filha, perdeu-a por cá.

- Aqui é seguro mas, no outro dia fui roubado, na Ribeira Brava. Andava a passear na praia e três sujeitos chegaram perto de mim e "coise".

O seu semblante não variava muito consoante a história fosse divertida, triste ou revoltante. O olhar, sempre apontado lá para a frente da camioneta, como se procurasse no fundo da estrada as imagens do que tinha vivido, apenas aqui e ali um pouco alterado, quase impercetivelmente, como no caso da recordação da morte da filha....

Disse-lhe que estava a gostar da Madeira, que era bonita e que estavam a ser umas boas férias. Apeteceu-me acabar com um "coise" mas isso só faria de mim um fraco imitador.

Quando a camioneta chegou à Ribeira Brava, o homem despediu-se de mim. Ia mudar de carreira ali enquanto que eu continuaria para o Funchal. Vi-o sair com pena minha. A conversa estava agradável e o ar tranquilo do ilhéu aveludava o passeio.

A partir dali, voltei a ter a paisagem como companhia: havia mar, sol e... "coise".


quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O trilho na selva

2006/11

No parque das cataratas de Iguaçu (ou, na língua local "Iguazu"), na Argentina, há um trilho que avança pela selva adentro. O interesse de o percorrer é que passamos por uma ou duas pequenas quedas de água, escondidas e onde é possível tomar um belo banho já que formam um pequeno lago junto de si e as próprias cachoeiras não têm, nem por sonhos, a violência que salta à vista nas prima-donnas do parque.

À entrada do trilho há um aviso chamando-nos a atenção para o facto de irmos entrar numa zona selvagem onde podem acontecer encontros com animais... selvagens. Quando lá estive, olhei para aquilo mas não liguei muito. Avancei pelo caminho sem grandes preocupações mas, quando dei por mim já afastado da linha do pequeno comboio que atravessa o parque (há uma paragem perto do começo do trilho), comecei a pensar exatamente em que bicharada poderia eu vir a encontrar. Lagartos e cobras não seriam problema porque é mais o medo que têm de nós do que o contrário mas... e onças ou jaguares ou lá como chamam aos gatos grandes e bravos que vivem por aquelas paragens? Um encontro com uma onça (ou equivalente) é possível e mesmo que a dita estivesse fora do seu horário de trabalho a ideia não me agradava. Resolvi voltar para trás.

Quando já estava à espera de que o comboio passasse por ali, vi um casal entrar no trilho, da forma mais descomprometida possível. Comecei a pensar que talvez estivesse a ter zelo em excesso e que o aviso seria apenas uma coisa para situações extremas. Respirei fundo e retomei o trilho.

Dei por mim perfeitamente sozinho no caminho pelo meio do mato. De ambos os lados, arbustos e árvores e um silêncio que apenas era, aqui e ali, cortado pelo som de coisas mexendo-se na vegetação. Ah, mas que coisas? Comecei a sentir-me observado. Não ganhei medo mas, pelo sim, pelo não, resolvi pegar na única e fraca arma que tinha à minha disposição: o cinto das calças.

Enrolei a ponta do cinto ao pulso e comecei a rodá-lo vigorosamente à minha frente. Isto teve, desde logo, a vantagem de afastar as nuvens de mosquitos que se me deparavam. Senti-me mais confiante, pelo menos.

A certa altura, e após um bom tempo, comecei a ouvir umas vozes e, uns metros mais à frente, pude chegar a um ponto onde via, à esquerda e mais abaixo, uma queda de água em cujo lago dois rapazes tomavam banho. O cenário pareceu-me tão à vontade que até achei tola a minha preocupação com os bichos do mato. Cruzei-me com o casal que tinha visto antes e que já fazia o percurso de volta. Andei mais um pouco e também eu resolvi voltar para trás.


Os receios que tinha tido, agora, eram quase inexistentes. Embora mantivesse a "hélice" feita com o cinto em perfeito movimento não deixei de ir tomando atenção aos sons. A certa altura, e seguindo-se a um som nos arbustos, vejo um lagarto do tamanho de um braço aparecer no caminho, uns metros à frente. Tratava-se de mais um exemplar de um réptil muito vulgar por ali e que já aprendeu a aproveitar a comida dos visitantes, não fugindo deles. No entanto, aquele espécime era menos social e, ao ver-me, desatou numa correria que qualquer um de nós pensaria impossível em tão pequeno bicho. Patas bem levantadas, pousando só a pontinha dos dedos, o lagarto (lagartão, ficaria melhor...) desapareceu num ápice, deixando-me ali parado a apreciar-lhe a velocidade.


Continuando no trilho, ainda vi mais alguns lagartos (devia ser a hora do seu passeio), todos eles se refugiando de volta aos arbustos quando me viam. De onças, nada vi e foi melhor assim.

Conclusão: se me tivesse deixado dominar pelo receio causado pelo aviso, teria deixado de fazer um passeio agradável e de ter visto (mais) uns pontos bonitos do parque argentino de Iguaçu. Não quer isto dizer, de forma alguma, que se deva ignorar os letreiros e avisos mas apenas que se deve pensar que, se os caminhos estão abertos, é porque é para as pessoas os percorrerem e, portanto, só mesmo em situações extremas (provavelmente à noite) é que poderá haver algum problema. Há que manter uma dose de despreocupação q.b. para podermos aproveitar o que nos aparece à frente.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A caça às Gueixas

2003/04

Em Quioto existe um bairro chamado Gion. Esta zona é conhecida por ser aquela onde existem as casas de chá onde as gueixas trabalham e, por causa disso, é um dos destinos turísticos desta cidade japonesa. Entenda-se, no entanto, que não estamos a falar de camionetas despejando turistas para serem "gueixados" mas sim de pessoas que percorrem a cidade a pé para, uma vez dentro do bairro, andarem de rua em rua tentando apanhar uma gueixa em passo apressado, transferindo-se entre casas.

É uma espécie de caça, portanto, mas onde o caçador empunha uma máquina fotográfica com a qual tenta capturar o momento em que uma porta se abre rapidamente e de lá sai uma mulher aperaltada segundo os preceitos da profissão.

Na rua, as gueixas não dão qualquer confiança aos transeuntes e mesmo que estes estejam carregados de máquina fotográficas, sejam estrangeiros e peçam por amor de deus para que elas posem para uma fotografia, as pequenas não o fazem, ignorando olimpicamente toda a gente, no seu afã para chegarem ao próximo local de trabalho.

Para quem queira ir além dos rápidos avistamentos destas lendárias profissionais do prazer (mas não prostitutas, como vulgarmente se julga), há sempre a hipótese de ir ver um espetáculo a um teatro existente no mesmo bairro e que se chama "Gyon Corner". A sala tem (ou tinha) um ar usado e o público era em pouco número mas foi com agrado que vi uma sucessão de quadros tradicionais, desde a famosa cerimónia do chá a teatro e dança tradicionais. E gueixas, claro...

À saída, um par de jornalistas da Formosa fazia algumas perguntas a quem saía. Como o Inglês da moça que me "entrevistou" era péssimo, só posso suspeitar que, num qualquer jornal de Taipé, terá saído uma notícia sobre um português que toda a vida desejou ser gueixa...

terça-feira, 25 de outubro de 2011

As máquinas de venda

2003/04

No Japão existe um fenómeno que só seria possível num país com um elevadíssimo grau de civismo: as máquinas de vendas (ou, como gostam de dizer os palermas com a mania de que são modernaços: as máquinas de vending).

Para qualquer lado para onde nos viremos, ao fim de alguns metros encontramos um conjunto de máquinas nas quais nos é possível comprar latas de café, latas de sumo, garrafas e garrafões (!) de cerveja, comida, etc. Em Tóquio, sobretudo, a presença destas úteis máquinas é avassaladora e nunca damos por nós com necessidade de uma bebida e sem ter onde a comprar.

A única coisa que faz concorrência às máquinas de venda é os minimercados (ou lojas de conveniência). Estes, têm uma implantação tão intensa que é praticamente impossível passar numa rua onde não haja, pelo menos, um, dois... ou três.

Quando andei pela terra do sol nascente, lembro-me de que aquilo que eu mais comprava nas máquinas era café. É que a sofisticação local vai ao ponto de as máquinas venderem latas de café... quente. Diga-se, de passagem, que a bebida não era propriamente uma maravilha e que, mesmo mudando de marca, o sabor continuava a ser um bocado "artificial" mas, por ¥120 (na altura, o equivalente a 180$00, ou seja, uns atuais € 0,90), era possível reconfortarmo-nos quando nos apetecesse e ainda variarmos entre uma série de tipos de café à disposição.

Recordo-me de que a marca que dominava o mercado era a Georgia, pertencente ao grupo Coca-Cola.

Não se viam máquinas avariadas ou vandalizadas...

domingo, 23 de outubro de 2011

O ladrão de almoços

Este teve o que merecia...
2006

No parque das cataratas de Iguaçu, mais concretamente no lado argentino, há um engraçado animal que se passeia por entre os turistas, habituado que está a beneficiar da generosidade dos visitantes. É o Coati (ou Quati), um mamífero aparentado do Guaxinim.

Como seria de esperar, um dos locais preferidos dos coatis é a zona de refeições do parque...

Após muito fotografar e cansado de caminhar e subir e descer escadas para me banhar (literalmente, quase) em toda aquela beleza das cataratas, havia que ir retemperar forças. Dirigi-me ao "restaurante" (uma espécie de café que serve sandes e refeições rápidas) e comprei uma sanduiche e uma água fresca. Podia ter-me sentado nas mesas que havia no interior mas, que raio, estava no meio da natureza e achei muito melhor abancar no exterior, onde existem diversas mesas à disposição de quem ali queira tomar as refeições.

Com o tabuleiro na mão, dirigi-me para a mesa escolhida e sentei-me. Quando ainda estava a gozar o relaxamento do corpo, vejo um coati caminhando na minha direção, ainda a uns metros de distância, seguido pelos esperados sorrisos de quem por ali andava. O bicho era muito engraçado e deixei-me ficar olhando para ele. Ao chegar junto de mim, passa por trás e, com a maior das desenvolturas, sobe à cadeira ao lado da minha e lança, da forma mais despudorada, as mãos à minha sandes (que ainda estava no plástico). Eu estava a ser roubado por um animal! Num instante, decidi lutar pelo meu almoço e agarrei como pude o pacote da sanduiche. Pois a criatura não desistiu e, por uns brevíssimos instantes, tivemos um macacu nu e um coati lutando por alimento, cada um puxando para o seu lado. Para minha vergonha, o coati venceu...

À volta, os turistas riam e tiravam muitas fotografias ao pequeno ladrão que, com a mesma calma com que chegou, partia agora levando consigo o meu almoço.

Fiquei irritado com a situação e, sobretudo, comigo mesmo, que tinha lido num guia turístico um aviso relativamente a situações destas. Sim, eu não era um caso isolado mas sim mais uma vítima de uma rede de larápios de quatro patas que recorre ao seu focinho laroca e ar engraçado para distrair os incautos visitantes e lhes subtrair a comida. Maldição!

Decidi ir reclamar ao restaurante. A verdade é que os coatis andam com etiquetas do parque e, portanto, ladrões que são, são-no com a complacência das autoridades. :)

Disse ao empregado que estava de serviço, um índio, que um coati me tinha roubado o almoço e que a responsabilidade era deles porque os animais lhes pertenciam e deixavam-nos andar na zona das refeições. Que não, que não... Ah sim, e quero uma nova sandes. Que não, que não... Resolvi desistir. Não iria acrescentar à humilhação de me deixar roubar por um animal (nem um macaco era...) o ridículo de estar a discutir em público. Fiquei-me pela garrafa de água e continuei o passeio, que não há nada melhor para desanuviar do que caminhar.

Filho da mãe do coati!

sábado, 22 de outubro de 2011

Não esqueçam a gravata, por favor...


A zona de Genting Highlands é uma área montanhosa da Malásia, densamente arborizada (como todo o país) e que fica a apenas umas dezenas de quilómetros da capital, Kuala Lumpur. A principal atração da zona é um complexo de diversão existente "lá no topo" que inclui hotéis, parques de diversão (cobertos e ao ar livre), casinos e tudo o mais que se espera em semelhante sítio.

Há muitos anos, numa excursão chinesa pela Malásia, fui parar às ditas "Highlands". O "cenário" é lindíssimo e não nos podemos restringir ao complexo hoteleiro, havendo que visitar o templo chinês, passear pelo meio da natureza e até, se possível, andar no teleférico que nos assegura, com toda a certeza, uma vista de cortar a respiração.

Mas... é impossível fugir à atração exercida pela quantidade de diversões "dentro de casa" e que estão disponíveis num contínuo que interliga os diversos edifícios. Ali, havia de tudo. Depois de experimentar um cinema onde as cadeiras se mexiam simulando os movimentos de uma nave espacial no soberbo filme "Aliens", de andar num barquinho pelo meio de uma cândida coleção de bonecas de todo o mundo que me iam dizendo adeus, de jogar em máquinas e andar em carrosséis, resolvemos - eu e a minha irmã -, ir dar uma volta a um casino. À entrada, nós e um grupo de turistas chineses somos mandados parar por não estarmos vestidos apropriadamente. Qual o mal? A ausência de gravata! É claro que a obrigatoriedade do ridículo trapo era apenas para os homens porque - como de costume -, às mulheres é permitida uma enorme liberdade na indumentária. Seguimos em frente rindo-nos da exigência mas, ao olharmos para trás, vimos o grupo de chineses preparando-se para entrar no casino já que o estabelecimento estava preparado para ajudar os turistas: quem não trazia gravata tinha umas fornecidas pelos funcionários logo ali na entrada. E lá entraram os chineses: de t-shirts, calções e ténis mas... de gravata. :)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

2500 km por Portugal - parte 4 (2011/10/02)


Praia fluvial no rio Ocrezas
Saí da Pousada de Juventude por volta das 09:00 quando o ar estava ainda fresco. Desci a rua onde fica o IPJ e apanhei a Av. de Zuhai (caso não saibam é a cidade chinesa que faz fronteira com Macau). Levava o GPS ligado e com o percurso previamente marcado (Sarzedas – Martim Branco – Castelo Branco) mas nem foi preciso ligar às indicações do aparelho já que, ao chegar à primeira rotunda (aqui, também há muitas), imediatamente vi a placa indicando a direção de Sarzedas.

As estradas (boas) estavam praticamente vazias o que ainda tornou o passeio mais agradável. A paisagem entre CB e Sarzedas é absolutamente verdejante e montanhosa. Bem... aquilo não são bem montanhas mas sim montes. Será que se pode dizer “montosa”? Fica então assim.

A certa altura, ao passar uma ponte ainda do tempo da Monarquia, vejo, junto a uma casa de guarda abandonada, uma indicação de praia fluvial. Apanho o caminho descendente, em terra batida e que logo passa por debaixo da ponte. A uma centena de metros, após passar por um casarão enorme (e incaracterístico) que também me pareceu estar ao Deus dará, estacionei o carro. O rio que ali passa entre os montes chama-se Ocrezas e, ao fazer uma curva e uma contra curva, deixa algumas “praias” de pedras. Nalguns locais, a água é bastante pouca e só lá mais para a frente, o curso parece ganhar mais corpo. O sítio é bastante bonito e, àquela hora e com a total ausência de gente, ganha um tom relaxante. Uma série de fotografias ao rio, às margens e à ponte e toca a subir para a estrada para Sarzedas.

A fraude de Sarzedas

Mas.. que terra é esta Sarzedas que já mencionei três vezes? É uma “aldeia de xisto”. As aldeias de xisto (www.aldeiasdexisto.pt) são localidades onde ainda existem casas feitas, precisamente, nesse tipo de pedra. Já tinha visitado duas na zona da Lousã e, portanto, tinha uma ideia muito precisa do que queria ver. Após consultar o site do “projeto” (cuja navegação, por vezes, é um pouco confusa), escolhi algumas aldeias que me interessariam ver na região de CB. Ainda por cima, no caso de Sarzedas havia uma extensa caminhada que podia ser feita e que me permitiria abarcar duas ou três aldeias.

Quando cheguei à terra, logo vi, no seu início, uma placa com o símbolo das “Aldeias de Xisto”. Junto a este, uma placa com informação sobre a caminhada que eu pretendia fazer. Ambas as indicações estavam ao lado de uma capela, branquinha. Deixei o carro estacionado ao lado do templo, numa agradável sombra e preparei-me para começar a visita.

Sarzedas
Aquele sítio onde estava, na realidade, era uma espécie de arrabalde da aldeia de Sarzedas já que o seu corpo está sobre um cabeço, tendo pelo meio uma depressão onde os habitantes têm hortas. Ao longe, todas aquelas casas alinhadas acabam por fazer um efeito de conjunto engraçado mas imediatamente o visitante nota um pequeno problema: são brancas..

Entrei no “burgo”, tentando seguir as informações que trazia numas páginas descarregadas do site das aldeias. Eu parecia estar a respeitar, precisamente o que lá estava mas, ao fim de trezentos metros, já me faltavam as “casas brasonadas”. Oh diabo... Segui por uma das ruas principais, até ir ter a um largo onde fica um pelourinho e uma igrejinha. O cenário não é bonito mas sempre era melhor que a sucessão de casas desengraçadas – e brancas -, pelas quais se passa até chegar ali. Continuando a seguir o guia, era altura de tomar uma estrada romana. Eu bem olhei para o chão mas não havia ali absolutamente nada que me fizesse recordar de uma via antiga. Levantei o olhar e vi, na parede, uma placa indicando “Rua da Estrada Romana”. Ah! Não há propriamente uma estrada romana: é a rua que tem esse nome.... Que pena quem fez o guia não o saber.

Acabando de fazer uma curva apanhei, à direita, uma ruazinha onde – finalmente! - vi duas casas de xisto. Embora estivessem arranjadinhas, não me impressionaram. Apesar de tudo, quando pensamos numa “casa de xisto”, não nos limitamos a imaginar o material das paredes mas sim um “certo” tipo de casa, com um ar romanricamente rústico. Não era o caso das que ali estavam. Um pouco mais acima, a igreja matriz dominava um largo de algum tamanho, onde duas mulheres se atarefavam varrendo o chão.Como a igreja estava fechada, subi logo a um miradouro ali ao lado, onde está o resto de um campanário e que é o ponto mais facilmente reconhecível de Sarzedas.

Pelourinho e Igreja da Misericórdia
Decidi voltar atrás, conforme indicado no guia, passando por outra rua. O tom desinteressante do sítio manteve-se em toda a extensão da rua, mais uma vez apenas quebrado pela passagem pelo largo com o pelourinho. A partir dali, dos “pontos de interesse” da terra, só me faltava a fonte velha. Descendo uma longa rampa lá fui dar, a uma “cova” onde um “paredão” enfeitado largava água que ia alimentar um lavadouro, daqueles cobertos, com um tanque no meio. Tudo parecia estar entregue ao abandono e o tom esverdeado da água que se acumulava no tanque assim o provava.

A partir dali começava o corta-mato. Identifiquei o trilho referido pelo guia e logo nos primeiros metros tive de puxar pelas pernas para vencer um terreno em mau estado. Acabei por conseguir subir até, pouco acima, chegar a um local onde havia uma estrada e, dois metros antes, uma árvore com uma marca indicando viragem à direita. Olhei nesta direção e apenas vi mato sem qualquer uso que me desse a ideia de um trilho. Como junto à estrada não havia nenhuma marca indicando ser o caminho errado, achei que talvez fosse de deixar o mato e voltar ao conforto do alcatrão. A estrada (rua, i.e.), seguia entre casas à esquerda e árvores à direita. Quando chegou ao fim, eu estava em pleno centro de dia de Sarzedas e já tinha duas pessoas espreitando pelas janelas. Para não parecer demasiadamente estranho, perguntei a uma que mais se debruçava se por ali ia ter à estrada principal. A resposta foi afirmativa.

A esta altura, eu já tinha abandonado o projeto da caminhada. Olhando melhor para o guia e pensando nas dificuldades que se me deparariam em termos de identificação dos trilhos a seguir, achei que era melhor ir de carro até aos pontos principais do trajeto. Assim o fiz e, só por azar meu, não vi nenhuma casa de xisto nem que ostentasse algum brasão. Como “aldeia de xisto”, Sarzedas é uma fraude e a sua inclusão no roteiro deste tipo de aldeias só pode retirar credibilidade ao mesmo. Daqui para a frente, todo o cuidado é pouco quando planear um passeio...

A próxima paragem era Rapoula, num circuito que prometia algumas casas de xisto, uma bela ribeira e umas minas de volfrâmio abandonadas. Dei por mim andando por estradas perdidas - todas elas de muito boa qualidade -, e passando em aldeias onde as estradas quase pareciam já pertencer à casa de alguém. Sem saber bem onde estava (o GPS ia indicando uns nomes), dei por mim entrando num caminho de terra batida (um velho hábito meu) que começava “abruptamente” a seguir a uma casa. Não sabia onde aquilo ia dar e não havia indicações nenhumas. Eu estava, vagamente, à procura das minas e o GPS até indicava que eu estava em Gatas (o local certo, portanto) mas, a única coisa que vi foi uma ribeira aparecendo pelo meio dos arbustos. Parei o carro no meio do caminho e desci em direção ao curso de água. Ainda bem que o fiz porque, de um dos lados o cenário é muito bonito, com a água correndo bucolicamente entre margens arborizadas. Um pouco mais ao fundo, montes.


Passeei um pouco junto à ribeira e resolvi atravessá-la onde isso era possível (havia ali um açude) para ver como eram as coisas na outra margem. Lá em cima, quando ainda vinha na estrada, tinha notado um casarão grande, de pedra, numa encosta e tinha a certeza que, atravessando a ribeira iria lá dar. Assim foi. Após caminhar alguns minutos, fui dar a um local onde havia algumas casas (ou restos delas). Tudo estava abandonado/fechado. Do lado direito, uma bela casa, grande, com um alpendre e um forno de pão mostrava janelas partidas e através destas se via que, no interior, tudo estava entregue ao tempo. Entrei na casa por uma porta escancarada que dava acesso a uma pequena salinha com o que parecia ser uma arrecadação feita em madeira. Um curtíssimo corredor dava acesso a uma sala igualmente pequena onde ainda estavam duas cadeiras junto a uma lareira, como que lembrando-nos de que alguém teria passado ali muitas noites tentando vencer o frio.

Saí da casa e fiz tenção de a contornar. Um pouco mais acima, a ausência de uma porta deu-me acesso ao que teria sido o local onde o gado pernoitaria. Mais uma vez, o abandono era total e apenas restavam duas enormes arcas (salgadeiras?), um recipiente para a comida dos animais e restos de um barril. Por trás da casa, um minúsculo palheiro e, uns metros mais abaixo, os restos de duas ou três edificações. No andar superior da casa não pude entrar porque estava fechado.

Abandonei a cena do crime (e não o é, abandonar uma casa grande e bonita?), descendo em direção à ribeira.A zona continuava sendo bonita, com muitas árvores, a ribeira, mais uma casa de pedra, terrenos mais ou menos cultivados e outro açude de onde escorria vagarosamente alguma água.

Fiz o percurso de volta até ao carro. Agora, era tempo de ir ver Martim Branco. Guiado pelo GPS, reatravessei os sítios por onde tinha passado e ganhei novas estradas. Numa ou noutra vez, uma má interpretação das indicações do PDA fez-me quase entrar na garagem de alguém.

Quando estava apontado a Martim Branco, numa pista elevada, vi a indicação de Gatas. Lembrei-me da mina abandonada e fiz o desvio. Passeio por um sítio onde se notava a encosta com muito cascalho revolvido e, defronte, umas casas grandes, completamente em ruínas. Indicações: nenhumas. Voltei para trás ao chegar à aldeia. Ao passar junto à zona suspeita vi uns casais que se preparavam para dar uma volta. Fiquei com a certeza de que a mina estaria ali mas continuei.

De novo na estrada, em velocidade de cruzeiro, não resisti a uma placa indicando nova praia fluvial. Como já tinha ido a duas (Belver e Ocreza) e tinha gostado, resolvi tentar a sorte pela terceira vez. Após muito andar pelos montes, atravessei a inclinada aldeia do Sesmo. No fim da descida, fui dar à praia. Na realidade, aquilo é mais uma piscina já que o rio (ou ribeira, desconheço) tem as margens perfeitamente arranjadinhas e muradas. Não há cascalho, não há areia...apenas uma pontezinha, um bar e aquele ar de piscina. Não fiquei mais do que dois minutos. Esforçadamente, o carro subiu o monte. Pacientemente, refiz, no sentido inverso, o caminho por onde tinha acabado de passar.

Quando cheguei à estrada principal, a ideia de ir ver as minas invadiu-me a cabeça. Se elas estavam ali, porque não ir vê-las? Quem anda é o carro... Cedi ao argumento e devorei rapidamente os quilómetros até Gatas. As pessoas que eu tinha visto ainda lá estavam e confirmei com elas se ali eram mesmo as minas. Em boa hora o fiz porque foram as suas indicações que me permitiram identificar onde estavam os restos das estruturas, tal é a forma como estão cobertas pela vegetação.

Mina abandonada em Gatas
O primeiro ponto a ver era um buraco no chão, atrás de uma árvore e que dava acesso a uma galeria. A entrada, estreita e entulhada, exigia que me sujasse entrando deitado. Este desconforto e algum medo fez-me ficar à “porta”. Fotografei, com flash, um túnel perfeitamente definido e, com a lanterna, pareceu-me ver que, ao fundo haveria uma parede o que entrava em contradição com a indicação que me tinham dado que seria que o túnel ia dar a um buraco um pouco mais cima. Talvez tivesse havido um abatimento de terras. Saí dali, e subi o caminho de cascalho que contorna a elevação. Avistei por entre a cerrada vegetação umas estruturas e enfiei-me pelos arbustos até chegar a um local onde havia um buracão (o poço da mina?) rodeado por ferraria muito enferrujada e caída pelo chão. O local exigia algum cuidado junto às margens do buraco por haver destruição da estrutura. Olhando para baixo, apenas se entendia ser aquilo uma cova atulhada.

Como me tinham dito que ainda havia uma casa uns metros acima mas cujo acesso era impossível por causa do mato cerrado, resolvi tentar a sorte. Subindo acabei por ver uma chaminé que se erguia acima dos arbustos. Tentei um caminho mas aquilo só com uma catana. Após ter desistido e quando já descia, reparei que havia uma zona onde um pouco menos de arbustos quase indicavam um caminho. De facto, por aí consegui chegar às traseiras de duas casas completamente arruinadas e que em tempos terão dado apoio aos mineiros. Estava vista a coisa. Agora, só me faltava atravessar a estrada para ver os casarões que teriam pertencido à logística da mina.

Ao casarões são uma ruína irrecuperável e, verdade seja dita, não apresentam qualquer valor arquitetónico, sendo meros edifícios utilitários. Após alguns minutos, farto de ver restos de parede, voltei para o carro. Já só me faltava Martim Branco.

(continua)


Chamem o trator!

O "Castelo Velho"
2006/04

Na zona do Alandroal, mais propriamente entre Hortinhas e Terena, num monte sobranceiro à albufeira da ribeira de Lucefecit, há um monumento nacional chamado "Castelo Velho". Trata-se de um daqueles sítios arqueológicos que acumulam ocupações por vários povos ao longo dos séculos mas cujo interesse, dada a total ausência de "espetacularidade" das ruínas é, infelizmente, mais para especialistas do ramo do que para o público em geral. Para este vale, no entanto, a bonita vista que se tem lá do alto. Quanto ao esforço para lá chegar, fica ao critério de cada um...

"Descobri" este sítio quando andava a passear pelo Alentejo e, após visitar Terene, me encaminhava para Évora. Como me acontece sempre, não resisti a ver uma placa indicando um monumento e meti o carro pela estrada que saía da aldeia de Hortinhas em direção ao campo. Ao fim de pouco tempo, a via era um caminho de terra algo inclinado e resolvi deixar o automóvel numa curva onde havia espaço para ele ficar confortavelmente. A partir daí, segui a pé, tentanto não perder o rasto às indicações que me apontavam o caminho para as ruínas.

O tempo estava muito quente e seco, a vegetação não dava qualquer sombra e só mesmo a curiosidade em ver o monumento me fez continuar e não voltar atrás. Alcancei o morro onde estão as ruínas, subi-o a custo e, uma vez lá em cima, tive a desilusão de ver que o "Castelo Velho" mais não é que do que uns poucos restos de paredes que não alcançam sequer o nosso joelho. A vista, contudo, era muito bonita.

Deixei-me ficar ali algum tempo, o suficiente para descansar à sombra (há umas árvores no local) e ganhar coragem para fazer o caminho de volta até ao carro que, por essa altura, já devia estar transformado num forno capaz de cozer um pão em poucos minutos.

Decidi-me a descer, voltei a atravessar a vegetação, retomei o trilho que me levaria ao início do caminho e, após algum tempo, lá estava eu junto da minha "máquina".

Conforme já escrevi, o caminho até ali era de terra e bastante inclinado. Quando comecei a rolar e tive de atacar a inclinação, deu-se o caso de o carro resvalar e as duas rodas do meu lado entrarem numa pequena vala de uns vinte centímetros de altura, daquelas feitas pelo correr da chuva, e que acompanhava o caminho numas dezenas de metros. Estava feito. Bem tentei acelerar, andar para trás, voltar ao ponto inicial mas nada tirava o carro dali. Lembrei-me de acumular pedras junto às rodas atascadas para poder ter tração. Não havia grandes calhaus naquele local mas a natureza lá me forneceu o suficiente para fazer uns montículos junto aos pneus. Foi um esforço inglório: a inclinação era tal que a força do carro se gastava toda a desfazer a minha obra de engenharia sem conseguir subir. O que fazer?

Um carro qualquer...
Lembrei-me de fazer a pé o caminho até Hortinhas e ver se alguém teria um jipe ou trator com que me pudesse ajudar. O sol parece que tinha ganho mais força entretanto e subir a colina começou a custar-me mais do que devia. Tudo parecia estar a correr mal. Com um tremendo esforço lá consegui chegar à aldeia e perguntar num café por alguém que me valesse. Imediatamente me aconselharam ir a um sítio ali perto onde um homem que tinha um trator me poderia ser de alguma utilidade.

Mais uma caminhada (desta feita curta) e cheguei à fala com o proprietário da máquina que me iria salvar. Era uma pessoa já de alguma idade e que imediatamente me fez saber que já estava habituado a situações semelhantes. Aparentemente, era relativamente frequente haver "lisboetas" atascados naquelas zonas. Mandou-me subir para o trator e equilibrei-me na parte traseira, do lado direito, junto a uma peça à qual me conseguia agarrar com algum custo. O bólido agrícola partiu, campo adentro, se bem que numa direção que me pareceu contrária àquela onde estava o carro. Confiei em que o homem saberia de um caminho melhor para chegar ao sítio e deixei-me ir, apreciando a paisagem e tentando não cair do trator.

Ao fim de algum tempo, chegámos a um local mais verdejante, junto à ribeira e onde a terra se misturava com a água. Perguntando-me o homem pelo carro, compreendi que ele estava, de facto, enganado. Era ali, então, que os "lisboetas" se costumavam atascar... Disse-lhe que o automóvel estava exatamente do outro lado da colina o que, provocando-lhe um ligeiríssimo esgar de insatisfação, não lhe mandou o ânimo abaixo. Se o carro estava do outro lado, era só subir a colina...

Eu nunca tinha andado num trator e desconhecia que aquilo podia ser o equivalente civil a um tanque militar, daqueles que avança por cima de tudo e quem ficar por baixo que se lixe. O homem atacou a colina, repleta de arbustos de todo o tipo, a direito e o trator galgava o terreno de forma poderosa, cortando o caminho através do que lhe aparecesse à frente. Eu ali ia, pendurado e, por vezes, a não ver muito chão debaixo de mim... Ainda ensaiei uma chamada de atenção ao tratorista, que íamos junto a um pequeno precipício, que a roda perto de mim ia toda "inclinada" mas nada fez preocupar o agricultor que, com um sorriso me garantiu que "na há probleeema".

Um trator qualquer...
Finalmente, quando eu já começava a pensar se a minha salvação não seria, afinal, a perdição, lá vimos o carro. O homem colocou-se um pouco à frente do dito, atou-lhe uma corda e preparou-se para fazer o serviço de reboque. O carro estava inclinadíssimo para o lado do condutor e, perante a indicação de que eu deveria ir para dentro dele, comecei a achar que ainda acabava a dar uma cambalhota... Mais uma vez, que não, que não me preocupasse. Com um forte puxão (e um pequeno susto meu que me vi quase deitado) o trator recolocou-me as duas rodas na estrada. Alívio...

Quando eu pensava que ia ser confortavelmente rebocado até ao cimo da colina, fui confrontado com o imediato término do serviço. A coisa era mesmo só para me tirar da vala. A partir dali, eu que fosse pelas minhas próprias... rodas. E conseguiria?, perguntei eu que olhava para a estrada de terra a subir. Que sim, que sim... E lá arranquei, calmamente, com medo de que a terra voltasse a fugir debaixo dos pneus a qualquer momento.

Ao chegar a Hortinhas, estava lá o agricultor à minha espera. "Então, quanto quer pelo serviço?", demandei. Acertou-se a coisa em vinte euros que teriam de ser pagos em Terene por não haver ali um Multibanco. Lá fomos nós, o trator à frente e eu a segui-lo até chegarmos à vila onde, já sentados num café, bebemos uma cerveja e eu ouvi algumas curtas histórias da carreira de "rebocador" deste alentejano.

Podia dizer que me tinha ficado uma lição mas a verdade é que continuo a olhar para o meu carro como uma espécie de tanque capaz de ir a qualquer lado. E, realmente, foi só naquela vez que ele me falhou...


terça-feira, 18 de outubro de 2011

Os Chineses e os pelos

Quem já tiver dado por si olhando para aquelas pinturas "tradicionais" que adornam as paredes dos restaurantes chineses talvez já tenha reparado que as figuras masculinas lá presentes têm sempre longas barbas. E se o espírito de observação for algum, já deve também ter notado que as pilosidades faciais dos deuses chineses estão em total contraste com as caras imberbes dos empregados. Pois é: é que uma grande parte dos "chineses" não tem barba ou, quando muito, tem-na numa versão muita rala, quase tipo "buço de adolescente". Ora, isto leva a duas coisas: a primeira, que sempre que lhes aparece um pelo na cara, eles o estimam como coisa de grande valor, vendo-se homens ostentando orgulhosamente um ou dois pelos emergindo de uma verruga no queixo ou de um sinal na testa; a segunda, eles apreciam as nossas barbas ao mesmo tempo que nutrem um curioso interesse pelos exóticos pelos no nosso corpo...

Uma vez, estava eu cirandando pelas bancas de uma feirinha na cidade de Zuhai (junto a Macau) quando um homem se aproximou de mim e, acompanhando com um sorriso um dedo apontado à minha cara, me disse "guuu biaa", o que queria dizer, em Inglês chaominesco, "boa barba". Ora, a dita não passava, sequer, do inglório resultado do meu desleixo pelo que compreendi ser grande a frustração do pobre homem por não ter o rosto enfeitado com pelos.

De outra vez, ia eu num autocarro em Macau, com as pernocas ao léu (como convém andar para se fugir ao enorme, e húmido, calor local) quando dois miúdos se sentaram à minha frente. Imediatamente a atenção deles se fixou, divertidamente, nos meus pelos. Olhavam, comentavam entre si em galhofa e pouco faltou para me pedirem uma amostra dos ditos, atenção que eu teria tido voluntariamente se me tivesse lembrado de tal naquele momento.

"guuu biaa"...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

2500 km por Portugal - parte 3 (2011/10/01)

O Tejo, belo e sereno
Belver, a pintura do Tejo

Após uma viagem pela paisagem típica do Alto Alentejo - cujo único ponto de verdadeiro destaque foi uma bela capela à saída de Avis -, acerquei-me de Gavião, tendo decidido não entrar na vila mas sim encaminhar-me logo para Belver onde esperava fazer uma caminhada denominada "Arribas do Tejo".

A estrada para Belver é sinuosa mas, para o fim, começa a revelar-nos, aqui e ali, uma paisagem lindíssima que nos enche de vontade de chegar ao fim da via para podermos parar em segurança e apreciarmos a vista. Com efeito, Belver tem um nome que denuncia imediatamente o que sente o forasteiro (e não só!) quando chega àquele local. Cortado por uma ponte, o Tejo enche-se de um profundo azul emoldurado por altas e verdes margens (a montante) e pelas casas da vila beirã a jusante. Do lado sul, anuncia-se a praia fluvial do Alamal.

Mal atravessei a ponte, parei no primeiro espaço onde tal me foi possível e atravessei a ponte até meio para encher os olhos com a paisagem. O nosso maior rio é uma pintura naquele local e apenas o excessivo sol me impediu de me deleitar totalmente olhando para a vila que cavalga o monte culminando no seu castelo (que é monumento nacional).

Estacionei o carro na praça principal da vila, junto a uma igreja e onde uma casa apresentava curiosos elementos medievais (como uma cabeça esculpida na parede). Facilmente me apercebi do caminho para o castelo e tomei-o monte acima tendo lá chegado num par de minutos. Bem... isto teria sido assim se não me tivesse sentido tentado a ir parando para olhar para trás e apreciar o "belver". Lá em baixo, o tapete azul e a ponte, iluminada pelo sol...

O castelo de Belver não apresenta nenhuma característica que o faça sobressair da média existente no nosso país mas está relativamente bem cuidado e - o que é pouco comum -, não tem portas fechadas, sendo possível espreitar todos os recantos da fortaleza, mesmo que isso só nos sirva para contemplar tralhas armazenadas ou chocar com teias de aranha. A única exceção a esta "abertura" foi a capela existente ao lado da torre de menagem e que se encontrava fechada (calculo que por questões de horário).

A entrada do castelo
Subi à torre, passando por dois ou três andares até chegar ao telhado onde a vista é a mais desafogada que se possa ter naquelas paragens. Quando desci (e após experimentar umas moderníssimas instalações sanitárias - sempre bom sinal), fui informado por um guarda (que eu não havia visto antes) de que o castelo ia fechar. Deixei por isto de dar uma volta pelas muralhas mas não senti que isso prejudicasse muito a visita.

Desci o caminho até chegar onde tinha deixado o carro e resolvi ir dar uma volta até um miradouro (que fica mais abaixo). Este, é um sítio agradável, com sombra e a presença de um cruzeiro que parece ser antiquíssimo. É daqueles locais bons para namorar, por exemplo.Quanto à vista, era bela, claro, mas não acrescentava nada a quem vinha do castelo.

De volta ao carro, e por ser claramente tarde para fazer os diversos quilómetros da caminhada que eu tinha em mente, resolvi rodar até à margem oposta e ir ver a praia fluvial. Ao chegar lá, apercebi-me da existência de um passadiço em madeira acompanhando a margem até junto da ponte, trajeto este que faz parte do roteiro das "Arribas do Tejo". Posso dizer que um passeio pela margem sul do Tejo, ali e àquela hora (fim de tarde) é qualquer coisa do mais relaxante que se possa imaginar. Pelo caminho, vai-se fotografando mil vezes a imagem do castelo refletida nas águas, as aves, as árvores, os reflexos do sol no rio, a ponte...

Ao chegar à ponte, voltei atrás, repetindo o caminho com um prazer que em nada diferia do inicial. Uma vez na praia, sentei-me durante algum tempo, lendo, bebendo (€ 0,85 por uma imperial) e contemplando a noite a descer sobre Belver. Aqui e ali, cortando o sossego, passava um comboio na linha pertinho do rio e eu ficava pensando nas belezas que se deverão ver naquela viagem ao longo do Tejo. É coisa para fazer, um dia mais tarde.

Passadiço na margem sul do Tejo
No local, numa zona relvada e que, inclusivamente, tem um ou dois patamares, várias tendas se juntavam, quase todas pertencentes a um grupo de motociclistas que ali se reunia para passar o fim de semana. Junto há umas instalações do INATEL (que me pareceram estar encerradas) mas, calculo, a preferência das pessoas deve ir para a graça de acampar ali, a metros do bem tratado areal.

Quando a noite já estava perfeitamente instalada, acabei de por de parte a ideia de também eu acampar ali, ideia que me tinha surgido aquando do passeio junto à margem. Peguei no carro e ganhei a estrada rumo a Castelo Branco, observando no retrovisor a bonita imagem do solitário castelo, lá no cimo, iluminado.

Belver tinha sido uma primeira - e excelente -, surpresa



Está tudo ilegal!

Todas as velhas cidades do interior têm o seu "café central", geralmente um lugar com bastantes reminiscências de décadas passadas e que é ponto de encontro do possível escol local que ali se desloca para ler o jornal, tomar qualquer coisa e dar dois dedos de conversa.

Évora não foge à tradição e tem o seu café na Praça do Giraldo.

Há uns bons anos, quando estive acampado na branca cidade, resolvi ir comer o pequeno almoço ao dito estabelecimento. Após a refeição, a minha namorada conferia a conta e detetava uma diferença de umas poucas dezenas de cêntimos. Comentou comigo, eu olhei para o papel e...

"Enganaram-vos?! Tenham muito cuidado. Isto está tudo ilegal!"

A voz vinha de um homem já com alguma idade sentado na mesa ao lado da nossa que, com um ar severo, continuou:

"Eu sou jornalista e vou fechar isto. Está tudo ilegal. Tudo!"

Assegurámos-lhe que não, que não era nada de mais, enquanto rezávamos para que a criatura dirigisse a sua atenção para outras vítimas, o quanto antes.

Chamámos o empregado, indicámos-lhe o erro discretamente e tudo se resolveu, felizmente já sem que o perturbado "jornalista" levantasse os olhos do periódico que lia e onde encontraria, certamente, suficientes motivos para alimentar o seu espírito.

O café continua aberto...

sábado, 1 de outubro de 2011

Os comilões lisboetas


2008/03/15

A ida ao Porto, juntamente com um colega de trabalho, tinha tido como pretexto ver um concerto dos Waterboys, em Vila Nova de Gaia (Gaia, para ser moderno). Dois ou três dias aproveitados para dar umas voltas pelo Porto, dormir num parque de campismo perto da Praia da Madalena (o do Porto já estava encerrado, então) e ir fazer a higiene diária aos Holmes Place (onde aproveitávamos para um pouco de exercício).

Após um passeio pela zona da Boavista onde tínhamos feito uma longa incursão ao espantoso interior da Casa da Música, sentimos o apelo do estômago. Era hora de jantar e impunha-se escolher um local onde pudéssemos matar a fome. Optámos pelo que nos pareceu ser uma churrasqueira ali mesmo nas bordas da rotunda. Uma vez sentados e com o menu à frente, decidimos provar uma posta mirandesa para duas pessoas. Que viesse lá essa bifalhada...

Chegou a travessa contendo dois suculentos bifes, umas batatas a murro, salada, arroz e umas coisas mais, fazendo um conjunto de aspeto muito agradável e reconfortante. Lançámo-nos à tarefa de limpar aquilo tudo sem qualquer misericórdia. Cumprida a missão com brio chamámos o empregado. Este, ao chegar à mesa, olhou para a travessa e soltou um meio incrédulo "Comeram tudo...". O meu jovem colega, benfiquista ferrenho e que estava no Porto um pouco sob o efeito daquela rivalidade induzida pela bola viu logo ali a sua oportunidade e exclamou com um sorriso triunfante "Aaah! É preciso vir alguém de Lisboa para comer tudo!".

O empregado não comentou...

2500 km por Portugal - parte 2 (2011/10/01)


Igreja do Convento de São Bento de Avis
Avis, a terra da Ordem

De volta à estrada, pedi ao GPS para me levar até Avis. A certa altura, apanhei uma estrada de pior qualidade (até aí, quase tudo tinha estado em ótimo estado) mas que permite ver zonas (ainda) mais interiores. Há muito gado pastando junto ao caminho (atrás das cercas, entenda-se) e vale a pena abrandar para apreciar os animais.

Não há pontos de especial interesse entre o Fluviário de Mora e Avis. Apenas parei numa passagem sobre uma ribeira para fotografar o bonito cenário. De resto, nada a assinalar.

À chegada a Avis fui contemplado com um pavoroso cheiro, parecido com o que se sente nalgumas zonas do Jardim Zoológico mas aumentado várias vezes. Parecia que um milhar de animais tinha resolvido aliviar as tripas naquele local. Por querer fugir dali nem parei para tirar a fotografia “panorâmica” da vila, com a grande mole das ruínas do convento destacando-se.

Subi a colina e entrei na praça da Igreja, passando por uma estreita “porta” aberta numa elegante muralha e guardada pela”Torre da Rainha”. O largo é grande e ofereceu-me sombra onde deixar o carro. À direita, a igreja matriz, o edifício da Câmara Municipal, o museu e obras num edifício antigo que, julgo, fazia parte do convento. À esquerda, a Torre da Rainha e a Porta do Anjo, um par de “colunas” que guarda a entrada numa das ruas da vila. Decidi ir em frente, atraído por uma bonita casa lá no cimo. Fotografia aqui, fotografia ali e as ruas desertas. Quando apareceu alguém, foi para me tentar cravar cinquenta cêntimos. Avancei para o que percebi ser o centro. Uma igreja, uma praça elevada e, de repente, uma indicação de Posto de Turismo. Numa terra onde tudo mas absolutamente tudo parecia estar fechado, foi com gosto que vi uma porta aberta. Uma atraente moça (de marcado sotaque alentejano – o que só lhe dava mais graça) respondeu ao meu toque nos vidros da porta da entrada. Minutos depois, tinha um mapa na mão e a indicação de onde almoçar.

Torre da Rainha
O almoço foi desinteressante mas, sobretudo, caro: € 8,50 por um prato com duas finas salsichas, duas espetadas e uma pequena febra, tudo grelhado e acompanhado de umas batatas mal fritas fez-me pensar como estamos tantas vezes enganados ao imaginar que a província é um sítio onde tudo é bom e barato. Uma imperial e um café levaram o almoço a custar € 10,05, praticamente o dobro de um bom (e completo) menu em Lisboa. A moça do Turismo tinha-me dado duas hipóteses: o Aventuravis (onde fui) e a Taberna da Muralha. A “rapidez”, informalidade e preço supostamente em conta levaram-me, claramente, a fazer uma má escolha.

Mas um mau almoço não pode estragar um bom passeio. Descansado e, apesar de tudo, alimentado, preparei-me para continuar a disparar a máquina fotográfica. Avis, como todas as localidades alentejanas, segue determinados padrões estéticos que, para sorte nossa, são sempre agradáveis à vista. Por mais terras que vejamos ao sul, parece que todas as paredes brancas debruadas a azul ou amarelo merecem ser fotografadas. E as ruas, todas as ruas, têm aquele ar pacato e típico onde o tempo se parece arrastar entre a languidão do calor e o recolhimento de uma sombra.

Enquanto dava uns passos no “Passeio do Mestre de Avis” (um pequeno espaço ajardinado), um varredor resolveu interessar-se por mim: Já foi ao Turismo? Já tem um mapa? Já foi à cisterna? Tem de ir com um técnico.”, ia soltando o homem à distância enquanto prosseguia com a limpeza das folhas do chão.

Voltei à praça onde tinha o carro, esperando subir à muralha e à torre. A funcionária do turismo tinha-me dito que ia abrir a porta e assim eu esperava encontrá-la (até há um horário de abertura ao público). Esperei mal, no entanto, porque a porta estava fechada. Bem, ali tudo estava fechado, porque não aquela porta em concreto?

Saí da praça, tomando o caminho exterior que circunda as muralhas da vila. Ao fim de cem metros já estamos acompanhando as altas ruínas do convento que dominava Avis. Embora as paredes estejam com um ar perfeitamente abandonado, todo o caminho à volta cheira a novo, como se alguém tivesse achado que era importante um belo acesso para se poder observar um prédio a cair. Ironias à parte, a rua panorâmica está muito bem ali e dá-nos a oportunidade de ver as ruínas e, também, de espreitar a paisagem envolvente, com especial realce para a beleza da albufeira que vai aparecendo aqui e ali por entre as elevações do terreno.

Capela da Misericórdia
Reentrei no centro da vila pela Rua da Mouraria, pensando em como as autarquias se desmultiplicam em melhoramentos no aspeto das localidades a seu cargo. É preciso admitir o esforço no embelezamento das rotundas, dos jardins, dos parques desportivos e de tantos outros equipamentos e áreas urbanos. No Alentejo, parece-me que isso salta à vista. É pena que, tantas vezes, o património monumental não tenha a mesma atenção por parte das entidades que o gerem.

No cimo da Rua da Mouraria, há dois pontos de interesse. Aquilo a que se chama a casa da mãe de D. João I (Mestre de... Avis) e que, na realidade, não passa de uma casa comum (não esperem que haja ali qualquer coisa de chamativo) e a ruína dos antigos paços medievais, ou seja, a antiga “Câmara Municipal”. Encostada a esta fica uma igreja que – adivinhem... -, estava fechada.

Resolvi descer (sempre seguindo o mapa), na direção de uma torre que ainda resta da muralha medieval. Ruas colina a baixo, com casas de diversas idades, algumas das quais denunciando a sua quer através de pinturas da data de contrução, quer através de motícos decorativos próprios de outros tempos. Virei à esquerda até ir dar a um local onde existe um pedaço de muralha, alegremente pintado de amarelo e que me parece ser típica dos Séc. XVII e XVIII. Daí para baixo não havia mais nada de interesse e tomei uma rua estreita da qual só saí para passar debaixo de um arco junto a uma bonita capela que, infelizmente, estava fechada (será que havia necessidade de dizer isto?).

Atravessei as ruas até chegar à cisterna da qual me tinha falado o varredor. Apenas vi uma porta de grades, um corredor e, lá ao fundo, numa parede, um painel informativo. Não me apeteceu ir ao posto de turismo para pedir que alguém me fosse abrir a porta e decidi dar por concluída a minha visita a Avis.

Avis, vista do sul
Quando já estava junto do carro, reparei que a porta da Igreja que ali há estava aberta. Convenhamos que era uma oportunidade a não perder. Entrei no monumento, logo vendo um aviso de que não se podia tirar fotografias. Não entendo esta mania que há nalguns locais de proibir os seus visitantes de guardarem registo do que veem. Ainda mais quando a entrada é gratuita e nem sequer se põe a questão de fazer diminuir a curiosidade através da divulgação de imagens. Vi a pequena exposição que ali está, admirei a simplicidade e a beleza do templo e saí. Ainda dei uma volta pelo que, em tempos, teria sido o claustro do convento (ao qual se acede por uma passagem ao lado da igreja) e que, hoje em dia é um misto de casas, hortas, vazadouro de entulho e imenso abandono...

Já no carro, resolvi voltar ao sítio do “bilhete postal” (por onde tinha chegado à vila) e enfrentar o fedor. Respirando pouco, lá tirei o “boneco” a Avis. Pé no acelerador e toca a rumar a Belver...


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