quinta-feira, 20 de outubro de 2011

2500 km por Portugal - parte 4 (2011/10/02)


Praia fluvial no rio Ocrezas
Saí da Pousada de Juventude por volta das 09:00 quando o ar estava ainda fresco. Desci a rua onde fica o IPJ e apanhei a Av. de Zuhai (caso não saibam é a cidade chinesa que faz fronteira com Macau). Levava o GPS ligado e com o percurso previamente marcado (Sarzedas – Martim Branco – Castelo Branco) mas nem foi preciso ligar às indicações do aparelho já que, ao chegar à primeira rotunda (aqui, também há muitas), imediatamente vi a placa indicando a direção de Sarzedas.

As estradas (boas) estavam praticamente vazias o que ainda tornou o passeio mais agradável. A paisagem entre CB e Sarzedas é absolutamente verdejante e montanhosa. Bem... aquilo não são bem montanhas mas sim montes. Será que se pode dizer “montosa”? Fica então assim.

A certa altura, ao passar uma ponte ainda do tempo da Monarquia, vejo, junto a uma casa de guarda abandonada, uma indicação de praia fluvial. Apanho o caminho descendente, em terra batida e que logo passa por debaixo da ponte. A uma centena de metros, após passar por um casarão enorme (e incaracterístico) que também me pareceu estar ao Deus dará, estacionei o carro. O rio que ali passa entre os montes chama-se Ocrezas e, ao fazer uma curva e uma contra curva, deixa algumas “praias” de pedras. Nalguns locais, a água é bastante pouca e só lá mais para a frente, o curso parece ganhar mais corpo. O sítio é bastante bonito e, àquela hora e com a total ausência de gente, ganha um tom relaxante. Uma série de fotografias ao rio, às margens e à ponte e toca a subir para a estrada para Sarzedas.

A fraude de Sarzedas

Mas.. que terra é esta Sarzedas que já mencionei três vezes? É uma “aldeia de xisto”. As aldeias de xisto (www.aldeiasdexisto.pt) são localidades onde ainda existem casas feitas, precisamente, nesse tipo de pedra. Já tinha visitado duas na zona da Lousã e, portanto, tinha uma ideia muito precisa do que queria ver. Após consultar o site do “projeto” (cuja navegação, por vezes, é um pouco confusa), escolhi algumas aldeias que me interessariam ver na região de CB. Ainda por cima, no caso de Sarzedas havia uma extensa caminhada que podia ser feita e que me permitiria abarcar duas ou três aldeias.

Quando cheguei à terra, logo vi, no seu início, uma placa com o símbolo das “Aldeias de Xisto”. Junto a este, uma placa com informação sobre a caminhada que eu pretendia fazer. Ambas as indicações estavam ao lado de uma capela, branquinha. Deixei o carro estacionado ao lado do templo, numa agradável sombra e preparei-me para começar a visita.

Sarzedas
Aquele sítio onde estava, na realidade, era uma espécie de arrabalde da aldeia de Sarzedas já que o seu corpo está sobre um cabeço, tendo pelo meio uma depressão onde os habitantes têm hortas. Ao longe, todas aquelas casas alinhadas acabam por fazer um efeito de conjunto engraçado mas imediatamente o visitante nota um pequeno problema: são brancas..

Entrei no “burgo”, tentando seguir as informações que trazia numas páginas descarregadas do site das aldeias. Eu parecia estar a respeitar, precisamente o que lá estava mas, ao fim de trezentos metros, já me faltavam as “casas brasonadas”. Oh diabo... Segui por uma das ruas principais, até ir ter a um largo onde fica um pelourinho e uma igrejinha. O cenário não é bonito mas sempre era melhor que a sucessão de casas desengraçadas – e brancas -, pelas quais se passa até chegar ali. Continuando a seguir o guia, era altura de tomar uma estrada romana. Eu bem olhei para o chão mas não havia ali absolutamente nada que me fizesse recordar de uma via antiga. Levantei o olhar e vi, na parede, uma placa indicando “Rua da Estrada Romana”. Ah! Não há propriamente uma estrada romana: é a rua que tem esse nome.... Que pena quem fez o guia não o saber.

Acabando de fazer uma curva apanhei, à direita, uma ruazinha onde – finalmente! - vi duas casas de xisto. Embora estivessem arranjadinhas, não me impressionaram. Apesar de tudo, quando pensamos numa “casa de xisto”, não nos limitamos a imaginar o material das paredes mas sim um “certo” tipo de casa, com um ar romanricamente rústico. Não era o caso das que ali estavam. Um pouco mais acima, a igreja matriz dominava um largo de algum tamanho, onde duas mulheres se atarefavam varrendo o chão.Como a igreja estava fechada, subi logo a um miradouro ali ao lado, onde está o resto de um campanário e que é o ponto mais facilmente reconhecível de Sarzedas.

Pelourinho e Igreja da Misericórdia
Decidi voltar atrás, conforme indicado no guia, passando por outra rua. O tom desinteressante do sítio manteve-se em toda a extensão da rua, mais uma vez apenas quebrado pela passagem pelo largo com o pelourinho. A partir dali, dos “pontos de interesse” da terra, só me faltava a fonte velha. Descendo uma longa rampa lá fui dar, a uma “cova” onde um “paredão” enfeitado largava água que ia alimentar um lavadouro, daqueles cobertos, com um tanque no meio. Tudo parecia estar entregue ao abandono e o tom esverdeado da água que se acumulava no tanque assim o provava.

A partir dali começava o corta-mato. Identifiquei o trilho referido pelo guia e logo nos primeiros metros tive de puxar pelas pernas para vencer um terreno em mau estado. Acabei por conseguir subir até, pouco acima, chegar a um local onde havia uma estrada e, dois metros antes, uma árvore com uma marca indicando viragem à direita. Olhei nesta direção e apenas vi mato sem qualquer uso que me desse a ideia de um trilho. Como junto à estrada não havia nenhuma marca indicando ser o caminho errado, achei que talvez fosse de deixar o mato e voltar ao conforto do alcatrão. A estrada (rua, i.e.), seguia entre casas à esquerda e árvores à direita. Quando chegou ao fim, eu estava em pleno centro de dia de Sarzedas e já tinha duas pessoas espreitando pelas janelas. Para não parecer demasiadamente estranho, perguntei a uma que mais se debruçava se por ali ia ter à estrada principal. A resposta foi afirmativa.

A esta altura, eu já tinha abandonado o projeto da caminhada. Olhando melhor para o guia e pensando nas dificuldades que se me deparariam em termos de identificação dos trilhos a seguir, achei que era melhor ir de carro até aos pontos principais do trajeto. Assim o fiz e, só por azar meu, não vi nenhuma casa de xisto nem que ostentasse algum brasão. Como “aldeia de xisto”, Sarzedas é uma fraude e a sua inclusão no roteiro deste tipo de aldeias só pode retirar credibilidade ao mesmo. Daqui para a frente, todo o cuidado é pouco quando planear um passeio...

A próxima paragem era Rapoula, num circuito que prometia algumas casas de xisto, uma bela ribeira e umas minas de volfrâmio abandonadas. Dei por mim andando por estradas perdidas - todas elas de muito boa qualidade -, e passando em aldeias onde as estradas quase pareciam já pertencer à casa de alguém. Sem saber bem onde estava (o GPS ia indicando uns nomes), dei por mim entrando num caminho de terra batida (um velho hábito meu) que começava “abruptamente” a seguir a uma casa. Não sabia onde aquilo ia dar e não havia indicações nenhumas. Eu estava, vagamente, à procura das minas e o GPS até indicava que eu estava em Gatas (o local certo, portanto) mas, a única coisa que vi foi uma ribeira aparecendo pelo meio dos arbustos. Parei o carro no meio do caminho e desci em direção ao curso de água. Ainda bem que o fiz porque, de um dos lados o cenário é muito bonito, com a água correndo bucolicamente entre margens arborizadas. Um pouco mais ao fundo, montes.


Passeei um pouco junto à ribeira e resolvi atravessá-la onde isso era possível (havia ali um açude) para ver como eram as coisas na outra margem. Lá em cima, quando ainda vinha na estrada, tinha notado um casarão grande, de pedra, numa encosta e tinha a certeza que, atravessando a ribeira iria lá dar. Assim foi. Após caminhar alguns minutos, fui dar a um local onde havia algumas casas (ou restos delas). Tudo estava abandonado/fechado. Do lado direito, uma bela casa, grande, com um alpendre e um forno de pão mostrava janelas partidas e através destas se via que, no interior, tudo estava entregue ao tempo. Entrei na casa por uma porta escancarada que dava acesso a uma pequena salinha com o que parecia ser uma arrecadação feita em madeira. Um curtíssimo corredor dava acesso a uma sala igualmente pequena onde ainda estavam duas cadeiras junto a uma lareira, como que lembrando-nos de que alguém teria passado ali muitas noites tentando vencer o frio.

Saí da casa e fiz tenção de a contornar. Um pouco mais acima, a ausência de uma porta deu-me acesso ao que teria sido o local onde o gado pernoitaria. Mais uma vez, o abandono era total e apenas restavam duas enormes arcas (salgadeiras?), um recipiente para a comida dos animais e restos de um barril. Por trás da casa, um minúsculo palheiro e, uns metros mais abaixo, os restos de duas ou três edificações. No andar superior da casa não pude entrar porque estava fechado.

Abandonei a cena do crime (e não o é, abandonar uma casa grande e bonita?), descendo em direção à ribeira.A zona continuava sendo bonita, com muitas árvores, a ribeira, mais uma casa de pedra, terrenos mais ou menos cultivados e outro açude de onde escorria vagarosamente alguma água.

Fiz o percurso de volta até ao carro. Agora, era tempo de ir ver Martim Branco. Guiado pelo GPS, reatravessei os sítios por onde tinha passado e ganhei novas estradas. Numa ou noutra vez, uma má interpretação das indicações do PDA fez-me quase entrar na garagem de alguém.

Quando estava apontado a Martim Branco, numa pista elevada, vi a indicação de Gatas. Lembrei-me da mina abandonada e fiz o desvio. Passeio por um sítio onde se notava a encosta com muito cascalho revolvido e, defronte, umas casas grandes, completamente em ruínas. Indicações: nenhumas. Voltei para trás ao chegar à aldeia. Ao passar junto à zona suspeita vi uns casais que se preparavam para dar uma volta. Fiquei com a certeza de que a mina estaria ali mas continuei.

De novo na estrada, em velocidade de cruzeiro, não resisti a uma placa indicando nova praia fluvial. Como já tinha ido a duas (Belver e Ocreza) e tinha gostado, resolvi tentar a sorte pela terceira vez. Após muito andar pelos montes, atravessei a inclinada aldeia do Sesmo. No fim da descida, fui dar à praia. Na realidade, aquilo é mais uma piscina já que o rio (ou ribeira, desconheço) tem as margens perfeitamente arranjadinhas e muradas. Não há cascalho, não há areia...apenas uma pontezinha, um bar e aquele ar de piscina. Não fiquei mais do que dois minutos. Esforçadamente, o carro subiu o monte. Pacientemente, refiz, no sentido inverso, o caminho por onde tinha acabado de passar.

Quando cheguei à estrada principal, a ideia de ir ver as minas invadiu-me a cabeça. Se elas estavam ali, porque não ir vê-las? Quem anda é o carro... Cedi ao argumento e devorei rapidamente os quilómetros até Gatas. As pessoas que eu tinha visto ainda lá estavam e confirmei com elas se ali eram mesmo as minas. Em boa hora o fiz porque foram as suas indicações que me permitiram identificar onde estavam os restos das estruturas, tal é a forma como estão cobertas pela vegetação.

Mina abandonada em Gatas
O primeiro ponto a ver era um buraco no chão, atrás de uma árvore e que dava acesso a uma galeria. A entrada, estreita e entulhada, exigia que me sujasse entrando deitado. Este desconforto e algum medo fez-me ficar à “porta”. Fotografei, com flash, um túnel perfeitamente definido e, com a lanterna, pareceu-me ver que, ao fundo haveria uma parede o que entrava em contradição com a indicação que me tinham dado que seria que o túnel ia dar a um buraco um pouco mais cima. Talvez tivesse havido um abatimento de terras. Saí dali, e subi o caminho de cascalho que contorna a elevação. Avistei por entre a cerrada vegetação umas estruturas e enfiei-me pelos arbustos até chegar a um local onde havia um buracão (o poço da mina?) rodeado por ferraria muito enferrujada e caída pelo chão. O local exigia algum cuidado junto às margens do buraco por haver destruição da estrutura. Olhando para baixo, apenas se entendia ser aquilo uma cova atulhada.

Como me tinham dito que ainda havia uma casa uns metros acima mas cujo acesso era impossível por causa do mato cerrado, resolvi tentar a sorte. Subindo acabei por ver uma chaminé que se erguia acima dos arbustos. Tentei um caminho mas aquilo só com uma catana. Após ter desistido e quando já descia, reparei que havia uma zona onde um pouco menos de arbustos quase indicavam um caminho. De facto, por aí consegui chegar às traseiras de duas casas completamente arruinadas e que em tempos terão dado apoio aos mineiros. Estava vista a coisa. Agora, só me faltava atravessar a estrada para ver os casarões que teriam pertencido à logística da mina.

Ao casarões são uma ruína irrecuperável e, verdade seja dita, não apresentam qualquer valor arquitetónico, sendo meros edifícios utilitários. Após alguns minutos, farto de ver restos de parede, voltei para o carro. Já só me faltava Martim Branco.

(continua)


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