quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Chamem o trator!

O "Castelo Velho"
2006/04

Na zona do Alandroal, mais propriamente entre Hortinhas e Terena, num monte sobranceiro à albufeira da ribeira de Lucefecit, há um monumento nacional chamado "Castelo Velho". Trata-se de um daqueles sítios arqueológicos que acumulam ocupações por vários povos ao longo dos séculos mas cujo interesse, dada a total ausência de "espetacularidade" das ruínas é, infelizmente, mais para especialistas do ramo do que para o público em geral. Para este vale, no entanto, a bonita vista que se tem lá do alto. Quanto ao esforço para lá chegar, fica ao critério de cada um...

"Descobri" este sítio quando andava a passear pelo Alentejo e, após visitar Terene, me encaminhava para Évora. Como me acontece sempre, não resisti a ver uma placa indicando um monumento e meti o carro pela estrada que saía da aldeia de Hortinhas em direção ao campo. Ao fim de pouco tempo, a via era um caminho de terra algo inclinado e resolvi deixar o automóvel numa curva onde havia espaço para ele ficar confortavelmente. A partir daí, segui a pé, tentanto não perder o rasto às indicações que me apontavam o caminho para as ruínas.

O tempo estava muito quente e seco, a vegetação não dava qualquer sombra e só mesmo a curiosidade em ver o monumento me fez continuar e não voltar atrás. Alcancei o morro onde estão as ruínas, subi-o a custo e, uma vez lá em cima, tive a desilusão de ver que o "Castelo Velho" mais não é que do que uns poucos restos de paredes que não alcançam sequer o nosso joelho. A vista, contudo, era muito bonita.

Deixei-me ficar ali algum tempo, o suficiente para descansar à sombra (há umas árvores no local) e ganhar coragem para fazer o caminho de volta até ao carro que, por essa altura, já devia estar transformado num forno capaz de cozer um pão em poucos minutos.

Decidi-me a descer, voltei a atravessar a vegetação, retomei o trilho que me levaria ao início do caminho e, após algum tempo, lá estava eu junto da minha "máquina".

Conforme já escrevi, o caminho até ali era de terra e bastante inclinado. Quando comecei a rolar e tive de atacar a inclinação, deu-se o caso de o carro resvalar e as duas rodas do meu lado entrarem numa pequena vala de uns vinte centímetros de altura, daquelas feitas pelo correr da chuva, e que acompanhava o caminho numas dezenas de metros. Estava feito. Bem tentei acelerar, andar para trás, voltar ao ponto inicial mas nada tirava o carro dali. Lembrei-me de acumular pedras junto às rodas atascadas para poder ter tração. Não havia grandes calhaus naquele local mas a natureza lá me forneceu o suficiente para fazer uns montículos junto aos pneus. Foi um esforço inglório: a inclinação era tal que a força do carro se gastava toda a desfazer a minha obra de engenharia sem conseguir subir. O que fazer?

Um carro qualquer...
Lembrei-me de fazer a pé o caminho até Hortinhas e ver se alguém teria um jipe ou trator com que me pudesse ajudar. O sol parece que tinha ganho mais força entretanto e subir a colina começou a custar-me mais do que devia. Tudo parecia estar a correr mal. Com um tremendo esforço lá consegui chegar à aldeia e perguntar num café por alguém que me valesse. Imediatamente me aconselharam ir a um sítio ali perto onde um homem que tinha um trator me poderia ser de alguma utilidade.

Mais uma caminhada (desta feita curta) e cheguei à fala com o proprietário da máquina que me iria salvar. Era uma pessoa já de alguma idade e que imediatamente me fez saber que já estava habituado a situações semelhantes. Aparentemente, era relativamente frequente haver "lisboetas" atascados naquelas zonas. Mandou-me subir para o trator e equilibrei-me na parte traseira, do lado direito, junto a uma peça à qual me conseguia agarrar com algum custo. O bólido agrícola partiu, campo adentro, se bem que numa direção que me pareceu contrária àquela onde estava o carro. Confiei em que o homem saberia de um caminho melhor para chegar ao sítio e deixei-me ir, apreciando a paisagem e tentando não cair do trator.

Ao fim de algum tempo, chegámos a um local mais verdejante, junto à ribeira e onde a terra se misturava com a água. Perguntando-me o homem pelo carro, compreendi que ele estava, de facto, enganado. Era ali, então, que os "lisboetas" se costumavam atascar... Disse-lhe que o automóvel estava exatamente do outro lado da colina o que, provocando-lhe um ligeiríssimo esgar de insatisfação, não lhe mandou o ânimo abaixo. Se o carro estava do outro lado, era só subir a colina...

Eu nunca tinha andado num trator e desconhecia que aquilo podia ser o equivalente civil a um tanque militar, daqueles que avança por cima de tudo e quem ficar por baixo que se lixe. O homem atacou a colina, repleta de arbustos de todo o tipo, a direito e o trator galgava o terreno de forma poderosa, cortando o caminho através do que lhe aparecesse à frente. Eu ali ia, pendurado e, por vezes, a não ver muito chão debaixo de mim... Ainda ensaiei uma chamada de atenção ao tratorista, que íamos junto a um pequeno precipício, que a roda perto de mim ia toda "inclinada" mas nada fez preocupar o agricultor que, com um sorriso me garantiu que "na há probleeema".

Um trator qualquer...
Finalmente, quando eu já começava a pensar se a minha salvação não seria, afinal, a perdição, lá vimos o carro. O homem colocou-se um pouco à frente do dito, atou-lhe uma corda e preparou-se para fazer o serviço de reboque. O carro estava inclinadíssimo para o lado do condutor e, perante a indicação de que eu deveria ir para dentro dele, comecei a achar que ainda acabava a dar uma cambalhota... Mais uma vez, que não, que não me preocupasse. Com um forte puxão (e um pequeno susto meu que me vi quase deitado) o trator recolocou-me as duas rodas na estrada. Alívio...

Quando eu pensava que ia ser confortavelmente rebocado até ao cimo da colina, fui confrontado com o imediato término do serviço. A coisa era mesmo só para me tirar da vala. A partir dali, eu que fosse pelas minhas próprias... rodas. E conseguiria?, perguntei eu que olhava para a estrada de terra a subir. Que sim, que sim... E lá arranquei, calmamente, com medo de que a terra voltasse a fugir debaixo dos pneus a qualquer momento.

Ao chegar a Hortinhas, estava lá o agricultor à minha espera. "Então, quanto quer pelo serviço?", demandei. Acertou-se a coisa em vinte euros que teriam de ser pagos em Terene por não haver ali um Multibanco. Lá fomos nós, o trator à frente e eu a segui-lo até chegarmos à vila onde, já sentados num café, bebemos uma cerveja e eu ouvi algumas curtas histórias da carreira de "rebocador" deste alentejano.

Podia dizer que me tinha ficado uma lição mas a verdade é que continuo a olhar para o meu carro como uma espécie de tanque capaz de ir a qualquer lado. E, realmente, foi só naquela vez que ele me falhou...


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