domingo, 30 de outubro de 2011

À nora por Cantão

1996

Hoje, por força da mania de uns e da ignorância de muitos, chamam-lhe Guangdong (em Cantonense) ou Guanzhou (em Mandarim) mas, em 1996, Cantão era o nome que toda a gente dava à província e à cidade chinesas que tanto dizem a quem se interesse pelas coisas do "nosso" Oriente.

Era comum os portugueses residentes em Macau irem de passeio a Cantão e fazerem-no recorrendo aos serviços de taxistas chineses, geralmente parentes ou conhecidos de pessoas que tinham negócios dos dois lados da fronteira e em quem os residentes depositavam confiança. Isto era assim porque, por força da burocracia chinesa, para que um carro de Macau pudesse circular na China, tinha de também estar lá registado, andando, portanto, com duas matrículas: uma para Macau e outra para território chinês. Como a maioria dos portugueses não estava para estas complicações (e outras que viriam atrás), o esquema dos taxistas contratados por um dia era um êxito junto da comunidade lusitana.

A minha irmã tinha-me prometido uma ida a Cantão (que ela também não conhecia) e eu ansiava por esta incursão mais profunda na China, de cujo gigantesco território eu só conhecia Zhuhai e Shenzhen, ou seja, as cidades que faziam fronteira com Macau e Hong-Kong, respetivamente. O plano do passeio era atravessar a fronteira e encontrarmo-nos com um taxista cunhado de uma chinesa muito popular entre as portuguesas por as abastecer de atoalhados locais (produto que parecia por as nossas senhoras em êxtase).

Mas, há dias em que tudo parece correr mal...

Logo ao saírmos das instalações alfandegárias, a minha irmã deu-se conta de que se tinha esquecido das folhas com as indicações dos sítios a ver em Cantão. O problema acabava por ser menor já que o taxista que nos levaria já conhecia o roteiro. Confiantes de que não perderíamos nada do que contasse, avançámos de forma otimista para o local do encontro com o motorista.


Esperámos, esperámos e, do táxi, nada. Ao fim de algum tempo, e com o nervosismo a instalar-se, a minha irmã conseguiu falar com a comerciante chinesa que lhe informou que o seu cunhado tinha sido recentemente multado pela polícia por circular em zonas para as quais não tinha licença e que, por isso, não nos poderia levar. A coisa complicava-se...


Falha-me a memória no que toca à forma como arranjámos um novo taxista. Não me lembro se a comerciante arranjou uma alternativa à queima ou se a minha irmã "engajou" um novo motorista ali mesmo mas a verdade é que tínhamos como ir a Cantão.

Este motorista alternativo era um sujeito novo, muito sorridente, com aquele ar de boa pessoa que nos habituámos a ver nos filmes de tom paternalista. Estava contente por nos levar, claro, já que aquilo que lhe pagaríamos, sendo barato para nós, era, para ele, um negócio da... China (piada fácil, bem sei).

Só havia um problema com o taxista: ele não falava uma só palavra de Português ou Inglês. Para cúmulo da coisa, apesar de ter um mapa de Cantão, este estava unicamente escrito em carateres chineses pelo que, para nós, era tão inútil quanto uma lanterna ao meio-dia. Estávamos lixados...

Conformados com a forma ruinosa como a "expedição"a Cantão estava a decorrer, acabámos por nos rir da situação e preferir gozar as bonitas paisagens pelas quais íamos passando. Aqui e ali, o motorista apontava-nos alguma coisa fazendo comentários dos quais, como é natural, nós não percebíamos patavina. Sorríamos...

Após bastante tempo, chegámos finalmente à cidade de Cantão onde o motorista nos deixou junto a um parque. A escolha do local tinha sido feita olhando para o "enigmático" mapa da cidade que havia a bordo e, quase ao calhas, escolhendo um ponto. Como se tratava de uma área verde e grande, as hipóteses de ser escolhida tinham sido maiores...

A única fotografia em Cantão
Combinámos com o taxista que ele nos recolheria ali a uma certa hora e, ávidos de pisar Cantão, saltámos do carro em direção a um grande muro "à chinesa" onde tirei a única fotografia que tenho de todo esse dia (o que ainda hoje me deixa aparvalhado).

Na entrada do parque tivemos de comprar um bilhete. Uma vez dentro do recinto, demos por nós num verdejante local onde, ao fim de alguns minutos, passou por nós um grupo de rapazes brancos, o que nos fez pensar que talvez estivéssemos num dos sítios que fizessem parte do circuito turístico local. Foi um pequeno consolo, é certo mas, ainda assim, serviu para nos animar.

Ao fim de algum tempo, e visto tudo o que havia para ver naquele grande jardim, aproximou-se o momento do reencontro com o taxista. Pontualmente, lá estava ele à nossa espera, sempre com o seu sorriso.

À nossa frente estava a repetição da viagem feita desde Zhuhai com a agravante de, antes de ganharmos a estrada, termos de romper o trânsito de uma cidade chinesa em hora de ponta. Desesperámos sentados naquele táxi, com tudo fechado, percorrendo vagarosamente ruas feíssimas no meio de carros que surgiam de todo o lado.

Ocasionalmente, um pormenor resgatava-nos da profunda monotonia em que estávamos mergulhados. Lembro-me sempre da oficina de um escultor que tinha, alegremente reunidos junto à entrada, a Virgem Maria, duas ou três deusas chinesas e alguns bonecos da Walt Disney onde estaria, com toda a certeza, um dos anões da Branca de Neve. Era um grupo com um aspeto hilariante.

Passada uma eternidade, libertámo-nos dos subúrbios da cidade de Cantão da qual apenas guardo dois ou três instantâneos na minha cabeça: o parque, uma enorme lagosta na parede de um prédio onde havia um restaurante e, claro, as esculturas.

Já na estrada, o taxista carregou no acelerador, para alívio de todos: nosso, que não víamos hora de voltar a Macau e dele, que devia estar cheio de receio de ser apanhado e multado por andar fora da sua área de serviço. O pobre talvez se tenha ainda assustado algumas vezes ao passar por alguns dos muitos bonecos imitando polícias que existem ao longo da estrada. A ideia é óbvia: enganar e levar a que os automobilistas andem dentro da linha...

Chegados a Zhuhai, a minha irmã pagou pagou ao taxista o que havia sido combinado de manhã e ainda acrescentou uma gorjeta, tendo na altura comentado que, embora sendo barato para nós, aquilo devia ser uma semana de trabalho para o pobre homem. Como que dando-lhe razão, o taxista deu-nos um sorriso ainda maior do que o costume.

Talvez um dia volte àquelas paragens. Se o fizer, não deixarei de ir, finalmente, conhecer Cantão como deve ser, i.e., com um guia turístico debaixo do braço. Até lá, fico com a memória do mais atabalhoado passeio que alguma vez dei...

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