quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O trilho na selva

2006/11

No parque das cataratas de Iguaçu (ou, na língua local "Iguazu"), na Argentina, há um trilho que avança pela selva adentro. O interesse de o percorrer é que passamos por uma ou duas pequenas quedas de água, escondidas e onde é possível tomar um belo banho já que formam um pequeno lago junto de si e as próprias cachoeiras não têm, nem por sonhos, a violência que salta à vista nas prima-donnas do parque.

À entrada do trilho há um aviso chamando-nos a atenção para o facto de irmos entrar numa zona selvagem onde podem acontecer encontros com animais... selvagens. Quando lá estive, olhei para aquilo mas não liguei muito. Avancei pelo caminho sem grandes preocupações mas, quando dei por mim já afastado da linha do pequeno comboio que atravessa o parque (há uma paragem perto do começo do trilho), comecei a pensar exatamente em que bicharada poderia eu vir a encontrar. Lagartos e cobras não seriam problema porque é mais o medo que têm de nós do que o contrário mas... e onças ou jaguares ou lá como chamam aos gatos grandes e bravos que vivem por aquelas paragens? Um encontro com uma onça (ou equivalente) é possível e mesmo que a dita estivesse fora do seu horário de trabalho a ideia não me agradava. Resolvi voltar para trás.

Quando já estava à espera de que o comboio passasse por ali, vi um casal entrar no trilho, da forma mais descomprometida possível. Comecei a pensar que talvez estivesse a ter zelo em excesso e que o aviso seria apenas uma coisa para situações extremas. Respirei fundo e retomei o trilho.

Dei por mim perfeitamente sozinho no caminho pelo meio do mato. De ambos os lados, arbustos e árvores e um silêncio que apenas era, aqui e ali, cortado pelo som de coisas mexendo-se na vegetação. Ah, mas que coisas? Comecei a sentir-me observado. Não ganhei medo mas, pelo sim, pelo não, resolvi pegar na única e fraca arma que tinha à minha disposição: o cinto das calças.

Enrolei a ponta do cinto ao pulso e comecei a rodá-lo vigorosamente à minha frente. Isto teve, desde logo, a vantagem de afastar as nuvens de mosquitos que se me deparavam. Senti-me mais confiante, pelo menos.

A certa altura, e após um bom tempo, comecei a ouvir umas vozes e, uns metros mais à frente, pude chegar a um ponto onde via, à esquerda e mais abaixo, uma queda de água em cujo lago dois rapazes tomavam banho. O cenário pareceu-me tão à vontade que até achei tola a minha preocupação com os bichos do mato. Cruzei-me com o casal que tinha visto antes e que já fazia o percurso de volta. Andei mais um pouco e também eu resolvi voltar para trás.


Os receios que tinha tido, agora, eram quase inexistentes. Embora mantivesse a "hélice" feita com o cinto em perfeito movimento não deixei de ir tomando atenção aos sons. A certa altura, e seguindo-se a um som nos arbustos, vejo um lagarto do tamanho de um braço aparecer no caminho, uns metros à frente. Tratava-se de mais um exemplar de um réptil muito vulgar por ali e que já aprendeu a aproveitar a comida dos visitantes, não fugindo deles. No entanto, aquele espécime era menos social e, ao ver-me, desatou numa correria que qualquer um de nós pensaria impossível em tão pequeno bicho. Patas bem levantadas, pousando só a pontinha dos dedos, o lagarto (lagartão, ficaria melhor...) desapareceu num ápice, deixando-me ali parado a apreciar-lhe a velocidade.


Continuando no trilho, ainda vi mais alguns lagartos (devia ser a hora do seu passeio), todos eles se refugiando de volta aos arbustos quando me viam. De onças, nada vi e foi melhor assim.

Conclusão: se me tivesse deixado dominar pelo receio causado pelo aviso, teria deixado de fazer um passeio agradável e de ter visto (mais) uns pontos bonitos do parque argentino de Iguaçu. Não quer isto dizer, de forma alguma, que se deva ignorar os letreiros e avisos mas apenas que se deve pensar que, se os caminhos estão abertos, é porque é para as pessoas os percorrerem e, portanto, só mesmo em situações extremas (provavelmente à noite) é que poderá haver algum problema. Há que manter uma dose de despreocupação q.b. para podermos aproveitar o que nos aparece à frente.

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