sábado, 29 de outubro de 2011

O sereno madeirense

Praia de Sâo Vicente
2008/12

O homem estava sentado na paragem de camioneta em São Vicente, sozinho e olhando serenamente para o monte que ficava defronte. Uns momentos depois de também eu me sentar no banco perguntou-me pelas horas. Por estarmos ali apenas nós dois e aquela parte da ilha da Madeira não ser, nem de longe, um ponto de grande movimento, começámos a conversar para ocupar o tempo que ainda restava para a chegada da carreira que me levaria de volta ao Funchal.

Uma vez dentro da camioneta, sentámo-nos ao lado um do outro, um em cada lado do corredor e continuámos a praticar sobre diversas coisas. Era ele que dizia quase tudo, lembrando e contando pequenas histórias suas que iam desde a infância por aquelas paragens até à guerra colonial, todas elas com toques característicos que me deleitavam. A sua pronúncia madeirense, em grau ligeiro que lhe emprestava um tom ponderado ao discurso, assentava bem ao seu olhar claro e calmo, vagamente perdido.

- Nós partimos daqui, um regimento cá da zona, e fomos para a Guiné. Eu tinha lá uma preta que me tratava da roupa e... "coise".

O homem terminava quase todas as frases com um sumido "coise" que eu achava cada vez mais ternurento. Notava-se nele o ar do solitário, condenado pelas circunstâncias da vida a "andar por ali". Falou-me da sua única vinda a Lisboa "durante cinco dias para andar com a minha filha em hospitais". Da cidade nada viu e a filha, perdeu-a por cá.

- Aqui é seguro mas, no outro dia fui roubado, na Ribeira Brava. Andava a passear na praia e três sujeitos chegaram perto de mim e "coise".

O seu semblante não variava muito consoante a história fosse divertida, triste ou revoltante. O olhar, sempre apontado lá para a frente da camioneta, como se procurasse no fundo da estrada as imagens do que tinha vivido, apenas aqui e ali um pouco alterado, quase impercetivelmente, como no caso da recordação da morte da filha....

Disse-lhe que estava a gostar da Madeira, que era bonita e que estavam a ser umas boas férias. Apeteceu-me acabar com um "coise" mas isso só faria de mim um fraco imitador.

Quando a camioneta chegou à Ribeira Brava, o homem despediu-se de mim. Ia mudar de carreira ali enquanto que eu continuaria para o Funchal. Vi-o sair com pena minha. A conversa estava agradável e o ar tranquilo do ilhéu aveludava o passeio.

A partir dali, voltei a ter a paisagem como companhia: havia mar, sol e... "coise".


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