sábado, 26 de novembro de 2011

2500 km por Portugal - parte 6 (2011/10/02)

Pelourinho manuelino
Castelo Branco

Atendendo a que a Sé de Castelo Branco estava encerrada àquela hora (Hã?! O quê? - leia o post anterior), resolvi seguir para o Paço Episcopal, afinal de contas, o verdadeiro ex-libris da capital da Beira-Baixa. O passeio é relativamente curto - umas centenas de metros -, e tem alguns pontos de interesse: ao fundo da Rua das Olarias, discretamente colocada numa parede na entrada da Rua dos Ferreiros, uma grande placa escrita em Latim; à direita, o começo da pequena alameda arborizada que vai dar ao Paço e onde, a meio, encontramos o Largo de São João com o seu pelourinho manuelino que é Monumento Nacional.

Quem chega ao pelourinho já está a poucos metros de uma passagem superior que liga o jardim ao que é hoje o parque municipal. Passando por debaixo dos arcos, temos então, a escolha de tomar o portão da esquerda e entrar no bonito jardim barroco ou, virar à direita e optar pelo agradável jardim municipal. Segui pela esquerda.

O Jardim do Paço Episcopal foi criado no Séc. XVIII e é uma fantasia barroca onde largas dezenas de estátuas se enfileiram pelos caminhos traçados a régua e esquadro. Temos coleções de reis, santos, bispos, figuras alegóricas aos signos, épocas do ano, etc. O todo é muito bonito e é inimaginável passar por CB sem lá ir (a menos que já se conheça, claro). Não é o tipo de jardim onde se vá passear, fazer tempo ou namorar (para isso, atravessa-se a rua e vai-se ao do outro lado da estrada). É um local monumental, um bibelot, passe a expressão.

Quando ainda estava no patamar inferior - que fica junto à entrada -, e andava a admirar os bonitos painéis de azulejos que enfeitam as paredes, ouço alguém dizer "Tens ali um cliente!". Percebi que havia que pagar bilhete para visitar o espaço. Por mim, nada a dizer. Mas, antes, tentei aproveitar os conhecimentos turísticos do guarda, em meu proveito: perguntei-lhe se sabia a que horas abriria (se é que abria) a "Sé Concatedral". O homem abriu os olhos, fez um ar incrédulo e disse "A quê?!". "A Sé Concatedral" - repeti eu, apontando para o mapa que trazia na mão -, e, para que não houvesse dúvidas, mostrei-lho. "Eu nunca ouvi tal coisa!", disse o homem com aquele ar de quem se presta a vergastar os tempos modernos, "Conheço é a Sé, a Catedral, agora, isso que disse...". "Deve ser a mesma coisa" - atalhei eu -, "Sabe se abre?".  "Não está aberta? Então só à hora da missa - às cinco da tarde".

Obtida a informação sobre o horário da sé de Castelo Branco, dei sem qualquer problema os dois euros (ou terá sido um?) que o funcionário me pediu e subi as escadas que dão acesso ao espetáculo principal.



Uma vez no jardim, o que há a fazer é passear sossegadamente, sem olhar para o relógio e ir observando todas aquelas estátuas (cuja qualidade - diga-se em abono da verdade -, não é grande). Há também várias fontes que acrescentam graça ao espaço e entrecortam os retilíneos caminhos.


Jardim do Paço Episcopal
No fundo do jardim - e subindo mais um nível -, há um grande tanque alimentado por água vinda de uma espécie de escadaria e que, para além de valer pela sua beleza, tinha o fim muito prático de alimentar as fontes e servir para as regas. É deste sítio que temos a melhor vista sobre toda a zona e sobre as várias áreas de todo o jardim: a do "labirinto", a do tanque central que pega com a escadaria dos reis e uma à direita, com uma bonita "piscina" com decoração interior. Para quem quiser experimentar, há muitas laranjas (?) nas árvores e no chão.

Prestadas as homenagens aos nossos insignes monarcas na escadaria que lhes é dedicada achei que o jardim estava visto e que era altura de abalar. Virei à esquerda, em direção ao Largo José Lopes Dias, de onde é possível admirar melhor o próprio Paço Episcopal já que é para aí que dá a entrada. Com o incipiente mapa que tinha recolhido na Pousada de Juventude (já agora, há uma grande falta de informação turística nestes locais), fui seguindo o caminho que me levaria ao castelo. Não tinha memória de alguma vez ter avistado, sequer, a fortaleza que, afinal, até dá o nome à cidade e, verdade seja dita, dali também não a via...

Ao cimo de uma rua que estava em obras, chego ao começo de uma zona mais velha. Aí vejo, numa esquina,  duas placas: uma sinalizando um hotel e outra indicando o castelo. Ambas apontavam na mesma direção. Tomei o caminho que se me deparava com confiança. Fui andando, andando e... andando. Passei por uma zona de depósitos de água, cheguei a uma estrada pouco urbana, contornei uma zona de mata, subi uma estrada e, ao fim de um bom bocado, quando já me rogava pragas por não saber se havia de voltar para trás, lá vejo um hotel. Passado este, noto que o meu destino seria pouco depois. Mais um pedaço de caminho e, finalmente, ao reentrar na zona antiga, vejo o tão desejado acesso ao castelo. Para cortar caminho na história, deixem-me dizer-vos que a placa que eu segui me obrigou a dar a volta ao monte quando, afinal, se tivesse ignorado a indicação e tomado o caminho da esquerda, me teriam bastado duzentos metros para chegar ao castelo. Notável, não é? Ajudas destas não são precisas, obrigado.

Bom, e o castelo, vale a pena? Deste podemos dizer que é composto por duas torres (uma delas com uma vista bonita), um pedaço de muralha ligando-as e um ou outro vestígio de construções antigas. Temos um edifício que foi escola, depois sede de um associação de bombeiros e, agora, está a ver se o tempo o leva; e temos a igreja antiga, certamente cheia de história e sobreposição de elementos mas que eu não pude visitar porque estava... - adivinharam -, fechada.

Igreja do castelo
Ao fim de algum tempo lendo os painéis informativos e após descansar (que o local presta-se a isso), desci uma escadaria que liga o castelo a um miradouro um pouco mais em baixo. É um sítio sossegado, fresco mas que já deve ter sido mais bonito, antes de ser "modernizado". Avistei um quiosque multimédia - uma coisa grande, com ar de quem nos vai abraçar e cuja finalidade é ir-nos dando informação sobre aquilo para onde estamos virados. O único problema do avançado equipamento é que estava desligado (e, muito provavelmente, avariado). Como nestes sítios uma pessoa se cansa rapidamente (a menos que esteja numa de meditação ou "malandrice"), saí. Desci mais uma escadaria - que até tem a graça de ser uma espécie de túnel no meio de árvores -, e acabei por vir ter ao tal sítio onde estava a plaquinha que me fez dar a volta a toda a colina do castelo. Insultei mentalmente quem a pos ali e virei à direita, em direção ao núcleo histórico da cidade.

(continua)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Mas que horas são?!


2006


Madrid

Uma das coisas irritantes quando se viaja (nem tudo é bom, portanto) é a questão das horas. Há que ter o cuidado de, mal se chega a outra terra (ou mal se embarca - no caso do avião), mudar imediatamente a hora no relógio (e telefone, e PDA, e portátil e mais não sei o quê que possamos levar connosco e tenha um relógio). Quando nos esquecemos de o fazer, acontecem azares...

Quando fui à Argentina, tive de ir apanhar um avião a Madrid. Desembarcado em Barajas, aproveitei para apreciar a bonita arquitetura do terminal novo. Andei por ali, devagarinho, olhando para os pormenores até que, ao passar junto a um placard, reparei num aviso que indicava que o voo para Buenos Aires estava já em fase de embarque.

Todos os alarmes tocaram dentro da minha cabeça. Em Espanha a hora está adiantada! Para piorar a coisa, o meu avião estava noutro terminal para o qual eu ainda tinha de apanhar um metro interno do aeroporto e, para chegar ao dito, ainda tinha de dar umas boas voltas no terminal onde estava, subir e descer escadas e rezar, rezar fortemente para que conseguisse apanhar um transporte e ainda chegar a tempo. Pernas para que te quero!

Tudo conseguido no limite, cheguei à fila de embarque ainda a tempo já que esta era grande e estava demorada. Safei-me, portanto, de perder um voo intercontinental. E vai uma...


Buenos Aires

Argentina, Uruguai e Brasil estão todos juntinhos mas nem por isso acertam pelos mesmos ponteiros.

Eu tinha ido passar dois dias e meio ao Uruguai. Saira de Buenos Aires e atravessara o Rio da Prata de barco. Ao aproximar-me do porto de Montevideu, mudei para a hora local (+1). Durante todo o passeio não me lembrei mais deste pormenor.


Dois dias mais tarde, ao voltar à capital argentina, vindo da Colónia do Sacramento, continuei sem me recordar da alteração. A meio da viagem, começo a olhar para o relógio e a notar que se aproximava a hora da camioneta que eu queria apanhar para ir a Puerto Iguazu. Se perdesse aquela, iria ter de passar o resto do dia e a noite em BA pois já só havia outro transporte no dia seguinte, logo de manhã.


A ansiedade começou a instalar-se em mim mas eu ainda sentia ter alguma folga. Ao atracarmos, o processo de desembarque (e alfândega) não foi dos mais rápidos e a folga começava a diminuir perigosamente. Quando finalmente me vi com a minha mochila disparei em direção à central de camionagem que, por sorte, não ficava muito distante do terminal dos barcos. E ali fui eu, num misto de corrida e marcha forçada, carregando umas boas dezenas de litros às costas (tudo o que era necessário para três semanas por aquelas paragens).

Com os bofes já de fora entro na central e procuro o guichet da companhia responsável pela "minha" camioneta. Em quase desespero, vendo-me na eminência de ficar com o planeamento da viagem baralhado, e para poupar cada precioso segundo, recorri ao famoso "portunhol" (no meu caso, de qualidade acima da média porque vejo muitos filmes). Fiz o pedido e o pagamento, sempre em ritmo acelerado, perante o olhar admirado da funcionária. Já com o bilhete nas mãos, procurei o primeiro écran que me indicasse para onde devia ir. Quando encontrei um, percebi o porquê do espanto da mulher que me atendeu: ainda faltava uma hora. Eu tinha-me esquecido de repor a hora argentina ao cruzar o rio!

Foi o alívio... de repente, tinha uma horinha inteira para descansar, dar uma volta pelas lojas e observar as pessoas. E vão duas...


Foz do Iguaçu


Saído de Puerto Iguazu, eu tinha atravessado a fronteira para ir ver o lado brasileiro das famosas cataratas locais. Após a visita a estas (que é relativamente rápida), resolvi dar uma volta por Foz do Iguaçu, a cidade que fica próxima. Sabendo que havia por ali uma grande barragem que era um ponto de visita aconselhado, apanhei um autocarro para a dita. Uma vez na receção do complexo, pude assistir a um filme sobre o grande empreendimento (vaiado por dezenas de argentinos por ser falado em Português e legendado em Inglês), findo o qual a ideia era apanhar um transporte gratuito que me levaria à barragem propriamente dita onde poderia visitar o interior da mesma.


Como aquela gente era quase toda de excursões, entraram nos seus autocarros e partiram para a barragem, deixando-me ali praticamente sozinho. Sentei-me, andei para trás e para a frente, fui à loja de recordações e, quando já passava da hora do transporte, resolvi perguntar, no balcão de informações, o que se passava. Era simples: eu tinha-me esquecido, mais uma vez, de mudar a hora e o autocarro já era. O próximo, só dali a umas horas. E vão três...

À terceira, a lição foi aprendida e nunca mais me esqueci de mudar a porcaria da hora. Até mais ver...




sábado, 5 de novembro de 2011

King Diamond e a correia maldita

É preciso dizer que isto é o bilhete do concerto?
1990/03/02

A caminho de um concerto

Eram ainda os reflexos dos fantásticos anos 80. King Diamond (então, um dos nomes grandes do Heavy Metal) tocava em Madrid. Um colega meu de liceu, fan absoluto do músico dinamarquês, resolveu ir lá vê-lo e logo entendi aproveitar a oportunidade para matar dois coelhos com uma só cajadada: viajar e ir ver um belo concerto. Não levou muito tempo até que surgissem mais dois turistas dispostos a partilhar as despesas da viagem e o exíguo espaço no frágil Fiat Panda que a mãe do meu colega pôs à sua disposição.

Organizada a viagem e reunida a tropa, partimos animadamente rumo à capital espanhola onde, no fim do dia nos esperaria, no pavilhão do Real Madrid, um trio de artistas composto pelo já referido rei do Black Metal (nessa altura os noruegueses ainda não tinham dado um rumo completamente diferente ao género), os suecos Candlemass e os catalães Legion.

O caminho até Madrid correu despreocupadamente. O carro portou-se bem, o tempo estava bom, os espíritos estavam alegres e o condutor (cuja carta de condução ainda tresandava a nova) foi do mais competente. A banda sonora da viagem foi - como se adivinha -, muito Heavy Metal.

Em Madrid, após deixarmos as coisas num hotel junto da Gran Via, resolvemos ir dar uma volta até ao sítio do concerto, numa espécie de reconhecimento de território. Depois, iríamos conhecer a cidade.

Quando estávamos próximo do recinto, um de nós avistou uma personagem familiar, a cerca de cem metros: era, nada mais, nada menos, do que o próprio King Diamond. Imediatamente concordámos que havia que chegar até ele para fotografias e autógrafos. O problema era que ele estava do outro lado da avenida (o enorme Paseo de la Castellana) e ainda havia uma rede pelo meio. Acelerámos tentando chegar a um sítio sem barreira e onde pudéssemos, num ápice, atravessar a via. Infelizmente, o dinamarquês, andando calmamente, venceu o bólido italiano e já não o apanhámos. Como era fim de tarde e ainda faltavam algumas horas para o espetáculo, fomos à nossa vida.

O concerto correu bem embora tivéssemos a desilusão de não ver os Candlemass que, afinal, se tinham cortado à digressão (sem que por cá se avisasse os compradores dos bilhetes).

King Diamond estava na fase do soberbo álbum Conspiracy e levava para palco todo o imaginário dos seus discos. O concerto acabou com o artista sendo colocado num caixão que, ao pegar fogo, se desfez.

Era tudo como se esperaria, para gáudio do público.


O dia seguinte

Acordámos com o propósito de irmos passear o nosso chame lusitano pelas artérias locais. Demos uma volta e, quando já tínhamos passado pela Cibelles e nos encaminhávamos para a Gran Via, o carro avariou. De repente, o espírito geral alterou-se radicalmente: no meio do intenso trânsito vimo-nos obrigados a empurrar a casca de noz, tentando sair do meio da avenida e chegar a um sítio onde pudéssemos deixar a máquina. Algumas buzinadelas, algumas bocas e lá alcançámos uma zona de estacionamento. Aí, pudemos embasbacar-nos com a forma local de arrumar o carro: uma pancada no carro da frente, uma pancada no carro de trás e a coisa fica feita (e a situação repetiu-se várias vezes enquanto por ali andámos).

O que fazer? Havia que encontrar uma oficina. Fomos na direção do Parque do Retiro, perscrutando as ruas mais desafogadas e onde talvez houvesse quem nos pudesse valer. Demos por nós andando quilómetros sem qualquer resultado: apenas apanhávamos locais de recolha de automóveis. Resolvemos ir para o centro da cidade, sempre alerta procurando um mecânico. Aqui e ali, encontrávamos algo que nos parecia ser de interesse mas, fatalmente, revelava-se meramente um parque. Uma oficina, propriamente dita, não se encontrava. E o tempo passava, e a cidade ia sendo vista... Quando já estávamos na zona da Plaza de España, entrámos numa espécie de silo onde tivemos a simpática ajuda de um empregado que andou às voltas com uma lista telefónica mas... nada. Não se arranjava um mecânico porque era Sábado!

Finalmente, alguém teve uma epifania e se lembrou do equivalente espanhol ao nosso ACP. Arranjou-se o contacto e mandou-se vir a "ambulância". Uma vez esta chegada, o mecânico disse-nos que o problema era de uma correia que se tinha partido. Reparada a avaria, o rapaz avisou-nos de que só dava garantia da reparação para pequenas voltas ao redor da cidade e que teríamos sempre de ter cuidado com as paragens. Mas a nossa volta era maior, muito maior...

A coisa começava a ficar preta. Todos tínhamos de estar em Lisboa na Segunda-Feira (eu até tinha um exame), e era absolutamente essencial que, no dia seguinte, estivéssemos sossegadamente em casa. Só podíamos arriscar e fizemo-nos à estrada, o bom do Pimentel com o coração na garganta já que era a ele que cabia manter a máquina em funcionamento.

Um Fiat Panda...
As centenas de quilómetros que separam Lisboa e Madrid pareceram duplicar. A noite começou a cair quando o Panda já rolava há um bom tempo e a confiança instalava-se em nós: íamos chegar sãos e salvos. A certa altura, deparou-se-nos uma serra e de novo surgiram receios de que o carro não aguentasse. Para agravar a coisa, contavam-se histórias de fantasmas e assombrações, o que colocou preocupação acrescida na cabeça do "motorista" que já se imaginava com o carro novamente avariado, no meio de uma serra, durante a noite escura e - sabe-se lá -, com almas a rondarem-nos. Fizemos-lhe a vontade e calámo-nos para que ele se pudesse concentrar na condução. E para termos a certeza de que não o incomodávamos, adormecemos.

Ocasionalmente, eu acordava para ver onde estávamos. O meu colega tentava manter-se desperto com doses cavalares de Thrash Metal (que não nos beliscavam, por um momento que fosse, o sono) e assim se manteve firme ao volante. Ao chegarmos a Badajoz, surgiu o primeiro sinal de trânsito na viagem. Acordámos para experimentar o frisson da coisa: se o carro parasse, podia não voltar a andar. O sinal vermelho aproximava-se, cada vez mais lentamente porque a ideia era não ter de parar. Devagar, devagarinho, a arrastar, quase quase parado mas com a roda ainda a mexer e... o sinal fica verde. Respirámos todos de alívio e ainda mais quando, daí a pouco, entrámos na santa terrinha. Sentimos que aqui, mesmo que o carro resolvesse, finalmente, ter uma birra, tudo se comporia.

O Pimentel foi um herói. Fez a viagem Madrid-Lisboa de uma assentada, durante a noite, combatendo o sono e o medo e com a responsabilidade de por mais três pessoas sãs e salvas em casa.

Era para ter sido um fim de semana de música e diversão mas tudo veio abaixo por causa de uma correia... maldita.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O "gaijin" esfomeado

2003/04

A viagem para Tóquio tinha sido longa, como se imagina. Durante a noite não tinha dormido muito e, para quebrar a monotonia da insónia, apenas me restava ir espreitando as informações que apareciam nos écrans que já não passavam filmes. O meu parceiro do lado, um miúdo chinês, tinha descoberto que a British Airways era generosa e dava massas lá atrás. De vez em quando, divertia-me com a agitação com que aquela criaturinha se levantava e, após alguns minutos voltava com mais uns noodles que sorvia com grande gosto, sentado descalço e com o maior à vontade.

Chegado ao aeroporto de Narita, o cansaço que pudesse sentir por apenas ter passado pelas brasas num voo intercontinental foi suplantado pela natural curiosidade de quem se via, finalmente, no mítico Japão. Preparada que levava a minha viagem ao pormenor, com passe de comboio, horários detalhados (e que por ali são cumpridos quase ao segundo), alojamento marcado, etc., apenas me preocupei em gozar o ambiente. Este, por sinal, não era muito movimentado já que era um Sábado de manhãzinha.

Trocado o vale do passe da Japanese Railways pelo passe propriamente dito, apanhei o comboio para a megalópole nipónica sem me preocupar com mais nada que não fosse apreciar tudo aquilo. Estava na terra do sol nascente, num dos países tecnologicamente mais avançados do mundo, e nem me passou pela cabeça que pudesse acontecer uma coisa tão ridícula quanto não haver onde levantar dinheiro...

Sim. Eu não cambiei os euros que levava no aeroporto. Foi ideia que nem aflourou o meu pensamento. Afinal de contas, o país devia estar cheio de máquinas, certo?

Bom, chegado a Tóquio apanhei o comboio urbano que me levaria até perto do meu hotel. Este era bastante afastado do centro da cidade e, na verdade, de tudo. Embora estivesse em plena cidade, era uma boa caminhada até ao transporte que eu usaria enquanto lá estivesse. Coisas de quem quer poupar.

Por esta altura, já começava a sentir um certo desconforto nos pés com os quais eu não tinha tido cuidado durante a viagem. Sempre calçado, estavam agora um bocado inchados, o suficiente para sentir que vinham ali umas bolhas sérias...

Ao fim de um bom bocado tive a primeira dúvida no caminho e dirigi-me a um grupo de homens que estavam sentados junto a um campo de basquete. Eram já de alguma idade e com um aspeto muito pouco cuidado. Um deles levantou-se e acompanhou-me até à entrada do hotel que, afinal, ficava apenas a cem metros.


Na receção, enquanto fazia o check in fui informado de que no Japão nem todas máquinas "multibanco" aceitavam cartões de crédito pelo que não podia levantar dinheiro em qualquer lado. Olhando para o mapa, apercebi-me de que o único sítio onde o poderia fazer eram umas máquinas a muitos quilómetros dali. Paciência.

A fome começou a apertar e, juntamente com esta, a sede. Mas, se a segunda ainda se consegue matar nalgum jardim, a primeira já é bastante mais complicada. Urgia ir às longínquas máquinas arranjar dinheiro. Resolvi que nesse dia o meu passeio passaria obrigatoriamente pelas instalações bancárias.

Quando, ao fim de muito tempo, muitos quilómetros de passeio e já muitas dores nos pés, cheguei à esquina de uma avenida onde ficava o banco com as máquinas mágicas, a alma caiu-me aos pés: o banco estava fechado e os ATM não eram acessíveis do exterior. Ou seja, não havia nem haveria dinheiro durante todo o fim de semana! E ainda era, apenas, Sábado pela hora do almoço...

Eu tinha os bolsos com dinheiro e não o podia gastar e tinha cartão de crédito e não o podia usar. Rezei e ansiei por estar em Portugal com a sua extensa, moderna e útil rede Multibanco que não deixa ninguém ficar mal, independentemente da sua origem, raça e credo.

A pergunta que se faz é, porque razão não usei o CC num supermercado ou num restaurante? Pela simples razão de que não vi nada aberto. :) Sim, a menos que fosse alguma coisa de luxo, tudo o resto que estivesse aberto eram negócios pequenos.

Aguentei. Enrijeci. Esqueci.

Na Segunda-Feira, acordei com a esperança de uma vida nova, um renascimento do meu estômago, uma aurora da alimentação. Arrastei-me até ao centro da cidade (nessa altura tinha seis - 6 - bolhas nos pés que já ganhavam uma coloração verde) e fui a uma estação dos correios. No guichet do câmbio, entreguei as minhas notas de euros ansiando por ter nas mãos os yens da salvação. Para que tal sucedesse ainda tive de aguardar que o esmerado funcionário analisasse cuidadosamente as notas (o euro era recentíssimo), seguindo um dossiê com reproduções minuciosas e ampliadas da divisa europeia. 


Quando, após muita verificação, me vi com yens, não hesitei um momento e acelerei (bolhas que se lixassem - eu era um homem com fome) rumo à loja de conveniência mais próxima. À entrada, todos os empregados me cumprimentaram (onde quer que estivessem), sorrindo, mas a verdade é que eu é que estava felicíssimo por os ver. E ainda estava mais feliz por poder pegar numa bebida e num snack qualquer e matar a porra da fome. À saída, novamente uma saudação e agradecimento geral ao gaijin que se pisgava para, ao fim de dois dias, levar algum alimento à boca.

Deixei escorrer pela garganta o café com leite fresco com a mesma alegre voluptuosidade com que as meninas molhadas da publicidade emborcam Coca-Cola, arrefinfei o dente a um pão com qualquer coisa que me soube tremendamente bem e senti aqueles sabores artificiais de comida de plástico invadirem-me o espírito como uma primavera que desponta e enche os campos de vida.

De yens no bolso e estômago ressuscitado, sentia-me novamente pronto para ser turista a 100%.

O pior eram as seis bolhas...

terça-feira, 1 de novembro de 2011

2500 km por Portugal - parte 5 (2011/10/02)

Casa de xisto em Martim Branco
Martim Branco


A ida a Martim Branco justificava-se, mais uma vez, por esta aldeia pertencer às “aldeias de xisto” e, embora já tivesse reparado que a localidade em questão não era particularmente interessante, tinha-me parecido minimamente merecedora de uma volta.

Após mais umas voltas e contravoltas pelo campo, acabei por chegar ao destino. Diga-se de passagem que aquilo que eu levava marcado para fazer era uma caminhada com início na aldeia mas, mal parei o carro fui invadido por uma mistura de preguiça e raiva ao forte sol e, cobardemente, entreguei as minhas armas logo ao primeiro tiro. Segui em frente com o carro, percorrendo vagarosamente a aldeia até chegar à “meta” do GPS e que era, no fim de uma estrada.

Cedo reparei que, ao contrário do que acontece em Sarzedas, Martim Branco tem, de facto, casas de xisto e até parece tê-las em número suficiente para se poder falar de efeito de conjunto.

Estive quase para sair do carro e ir dar uma voltinha até junto da ribeira, onde estão várias casas “bonitas” mas, como estava prisioneiro da lei do menor esforço, deixei a viatura deslizar, deslizar até sair da terra, completando, assim, uma visita quase relâmpago.

Vale a pena ir a Martim Branco? Talvez pela caminhada e só se um passeio do tipo for novidade. Caso contrário, talvez haja coisas muito melhores para fazer...

Apontei-me para Castelo Branco e lá fui, seguindo as indicações nas boas estradas. O caminho entre Martim Branco e Castelo Branco (tanta brancura que há por aquela zona) é bastante agradável, com momentos de paisagem grandiosa, até.



Castelo Branco

Um casarão "Português Suave"
Ao chegar à capital de distrito, a fome apertava-me fortemente e resolvi ir conhecer um dos centros comerciais da cidade: o Forum.

Quem tenha por hábito visitar centros comerciais já se deve ter apercebido de que acabam todos por ser iguais: as lojas são as mesmas, os comes e bebes são iguais, os cinemas são da mesma empresa. Ora, se é verdade que isto tira quase toda a “emoção” que pudesse existir, também não se pode negar que, onde quer que estejamos, já sabemos que, ao chegarmos, temos o que queremos. No caso, eu queria qualquer coisa rápida que me forrasse o estômago. Comi um hamburguer.

Satisfeita a necessidade alimentar e complementada esta com um revigorante café, guiei até ao centro de CB para gastar a tarde conhecendo a cidade. Não era a primeira vez que ali ia mas, desta feita, estava como turista mais “a sério”.

Passei pela estação de comboio, em frente da qual há uma agradável avenida com bastantes árvores. Conforme percorria a artéria, comecei reparando que havia várias moradias abandonadas ou perto disso. Casas dos anos 40 (?), de bom aspeto e que, vítimas daquele mal misterioso que assola a nação, estão entregues aos bichos. Foi um mau começo...

Deixei o carro por ali e dirigi-me para a zona central de CB, onde costumava estar o quartel de cavalaria. Os edifícios ainda lá estão mas, agora, afetos a serviços civis como, por exemplo, salas para acesso à internet. No cimo da grande “parada”, encontra-se um grande e moderno edifício que é a biblioteca municipal. A zona envolvente está arranjada em estilo contemporâneo. O todo deixa-nos uma agradável imagem de dinamismo.

O que é isto?!
Junto ao edifício principal do antigo quartel (que deve ser atravessado para ver os paineis de azulejos no interior, retratando diversas fases da vida militar) está uma “bizarra” construção: uma espécie de “grua” feita em cimento e acabando numa grande gaiola. Desconheço qual a ideia daquilo, se seria uma tentativa de miradouro sobre o Campo Mártires da Pátria ou simplesmente um delírio de alguém que escolheu a profissão errada mas o facto é que a construção é uma nódoa naquela área.

Defronte, fica o grande largo que tem, no topo, o famoso relvado com o nome da cidade escrito com flores. É um dos bilhetes postais da cidade. Na área pelo meio há agora diversos bares e cafés, com as respetivas esplanadas. Os nativos chamam àquilo “as Docas”, o que só pode merecer o comentário óbvio de que são docas... secas.

O Campo Mártires da Pátria está bem arranjado, com gosto, mantendo um ar de grande espaço aberto mas, ao mesmo tempo, servindo as pessoas. As construções existentes são recentes e agradáveis. Das vezes que tinha ido a CB, aquele local sempre me tinha parecido um vazio mas, agora, isso já não acontece.

Dei uma volta pela zona, voltando quase ao ponto de entrada para ir ver o bonito edifício “Português Suave” da Caixa Geral de Depósitos. Sou um fã deste estilo arquitetónico que a ditadura salazarista nos deixou. Criticada por muitos (provavelmente os que gostam do caos estético que se nota hoje em dia), a corrente que teve em Raul Lino um dos grandes teóricos ainda hoje embeleza as ruas das nossas cidades e vilas com os seus edifícios sólidos e elegantes. Que pena não haver uma cidade inteiramente assim. Seria Património da Humanidade com toda a certeza.

Cineteatro Avenida
Resolvi ir ver o centro histórico de CB e atravessei novamente a praça, fazendo uma diagonal para contemplar outra construção “suave”: o Cineteatro Avenida. É um bonito edifício que hoje serve de centro cultural. Embora tenha tido alterações que certamente o desvirtuaram (portas, por exemplo), continua a chamar a atenção de quem por ali passa. Olhei e reolhei o cartaz em busca de algo que acontecesse durante a minha estadia para poder ver o cineteatro por dentro mas, infelizmente, tudo parecia acontecer antes e depois da minha visita.

Subi para apanhar a Rua da Sé. Antes, num largo, um bonito edifício antigo, de ar forte, fez-me parar para uma foto. Ao seu lado um outro, onde parece estar (ou esteve) qualquer serviço ligado ao PSD exibe um estado de semiabandono Cem metros mais à frente, encontra-se a sé de Castelo Branco, também conhecida como “Igreja Matriz”, “Catedral”, “Sé Catedral” ou, conforme estava no mapa que eu trazia “Sé Concatedral”. Estava fechada.

(continua)

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