sábado, 5 de novembro de 2011

King Diamond e a correia maldita

É preciso dizer que isto é o bilhete do concerto?
1990/03/02

A caminho de um concerto

Eram ainda os reflexos dos fantásticos anos 80. King Diamond (então, um dos nomes grandes do Heavy Metal) tocava em Madrid. Um colega meu de liceu, fan absoluto do músico dinamarquês, resolveu ir lá vê-lo e logo entendi aproveitar a oportunidade para matar dois coelhos com uma só cajadada: viajar e ir ver um belo concerto. Não levou muito tempo até que surgissem mais dois turistas dispostos a partilhar as despesas da viagem e o exíguo espaço no frágil Fiat Panda que a mãe do meu colega pôs à sua disposição.

Organizada a viagem e reunida a tropa, partimos animadamente rumo à capital espanhola onde, no fim do dia nos esperaria, no pavilhão do Real Madrid, um trio de artistas composto pelo já referido rei do Black Metal (nessa altura os noruegueses ainda não tinham dado um rumo completamente diferente ao género), os suecos Candlemass e os catalães Legion.

O caminho até Madrid correu despreocupadamente. O carro portou-se bem, o tempo estava bom, os espíritos estavam alegres e o condutor (cuja carta de condução ainda tresandava a nova) foi do mais competente. A banda sonora da viagem foi - como se adivinha -, muito Heavy Metal.

Em Madrid, após deixarmos as coisas num hotel junto da Gran Via, resolvemos ir dar uma volta até ao sítio do concerto, numa espécie de reconhecimento de território. Depois, iríamos conhecer a cidade.

Quando estávamos próximo do recinto, um de nós avistou uma personagem familiar, a cerca de cem metros: era, nada mais, nada menos, do que o próprio King Diamond. Imediatamente concordámos que havia que chegar até ele para fotografias e autógrafos. O problema era que ele estava do outro lado da avenida (o enorme Paseo de la Castellana) e ainda havia uma rede pelo meio. Acelerámos tentando chegar a um sítio sem barreira e onde pudéssemos, num ápice, atravessar a via. Infelizmente, o dinamarquês, andando calmamente, venceu o bólido italiano e já não o apanhámos. Como era fim de tarde e ainda faltavam algumas horas para o espetáculo, fomos à nossa vida.

O concerto correu bem embora tivéssemos a desilusão de não ver os Candlemass que, afinal, se tinham cortado à digressão (sem que por cá se avisasse os compradores dos bilhetes).

King Diamond estava na fase do soberbo álbum Conspiracy e levava para palco todo o imaginário dos seus discos. O concerto acabou com o artista sendo colocado num caixão que, ao pegar fogo, se desfez.

Era tudo como se esperaria, para gáudio do público.


O dia seguinte

Acordámos com o propósito de irmos passear o nosso chame lusitano pelas artérias locais. Demos uma volta e, quando já tínhamos passado pela Cibelles e nos encaminhávamos para a Gran Via, o carro avariou. De repente, o espírito geral alterou-se radicalmente: no meio do intenso trânsito vimo-nos obrigados a empurrar a casca de noz, tentando sair do meio da avenida e chegar a um sítio onde pudéssemos deixar a máquina. Algumas buzinadelas, algumas bocas e lá alcançámos uma zona de estacionamento. Aí, pudemos embasbacar-nos com a forma local de arrumar o carro: uma pancada no carro da frente, uma pancada no carro de trás e a coisa fica feita (e a situação repetiu-se várias vezes enquanto por ali andámos).

O que fazer? Havia que encontrar uma oficina. Fomos na direção do Parque do Retiro, perscrutando as ruas mais desafogadas e onde talvez houvesse quem nos pudesse valer. Demos por nós andando quilómetros sem qualquer resultado: apenas apanhávamos locais de recolha de automóveis. Resolvemos ir para o centro da cidade, sempre alerta procurando um mecânico. Aqui e ali, encontrávamos algo que nos parecia ser de interesse mas, fatalmente, revelava-se meramente um parque. Uma oficina, propriamente dita, não se encontrava. E o tempo passava, e a cidade ia sendo vista... Quando já estávamos na zona da Plaza de España, entrámos numa espécie de silo onde tivemos a simpática ajuda de um empregado que andou às voltas com uma lista telefónica mas... nada. Não se arranjava um mecânico porque era Sábado!

Finalmente, alguém teve uma epifania e se lembrou do equivalente espanhol ao nosso ACP. Arranjou-se o contacto e mandou-se vir a "ambulância". Uma vez esta chegada, o mecânico disse-nos que o problema era de uma correia que se tinha partido. Reparada a avaria, o rapaz avisou-nos de que só dava garantia da reparação para pequenas voltas ao redor da cidade e que teríamos sempre de ter cuidado com as paragens. Mas a nossa volta era maior, muito maior...

A coisa começava a ficar preta. Todos tínhamos de estar em Lisboa na Segunda-Feira (eu até tinha um exame), e era absolutamente essencial que, no dia seguinte, estivéssemos sossegadamente em casa. Só podíamos arriscar e fizemo-nos à estrada, o bom do Pimentel com o coração na garganta já que era a ele que cabia manter a máquina em funcionamento.

Um Fiat Panda...
As centenas de quilómetros que separam Lisboa e Madrid pareceram duplicar. A noite começou a cair quando o Panda já rolava há um bom tempo e a confiança instalava-se em nós: íamos chegar sãos e salvos. A certa altura, deparou-se-nos uma serra e de novo surgiram receios de que o carro não aguentasse. Para agravar a coisa, contavam-se histórias de fantasmas e assombrações, o que colocou preocupação acrescida na cabeça do "motorista" que já se imaginava com o carro novamente avariado, no meio de uma serra, durante a noite escura e - sabe-se lá -, com almas a rondarem-nos. Fizemos-lhe a vontade e calámo-nos para que ele se pudesse concentrar na condução. E para termos a certeza de que não o incomodávamos, adormecemos.

Ocasionalmente, eu acordava para ver onde estávamos. O meu colega tentava manter-se desperto com doses cavalares de Thrash Metal (que não nos beliscavam, por um momento que fosse, o sono) e assim se manteve firme ao volante. Ao chegarmos a Badajoz, surgiu o primeiro sinal de trânsito na viagem. Acordámos para experimentar o frisson da coisa: se o carro parasse, podia não voltar a andar. O sinal vermelho aproximava-se, cada vez mais lentamente porque a ideia era não ter de parar. Devagar, devagarinho, a arrastar, quase quase parado mas com a roda ainda a mexer e... o sinal fica verde. Respirámos todos de alívio e ainda mais quando, daí a pouco, entrámos na santa terrinha. Sentimos que aqui, mesmo que o carro resolvesse, finalmente, ter uma birra, tudo se comporia.

O Pimentel foi um herói. Fez a viagem Madrid-Lisboa de uma assentada, durante a noite, combatendo o sono e o medo e com a responsabilidade de por mais três pessoas sãs e salvas em casa.

Era para ter sido um fim de semana de música e diversão mas tudo veio abaixo por causa de uma correia... maldita.

1 comentário:

  1. Muito bom, grande recordação, só posso acrescentar que o Super Panda RG-89-90 ainda durou uns mais uns aninhos nas minhas mãos e, tirando outro episódio em que ficou empanado a tentar subir a serra da estrela, foi um grande bólide. King Diamond Rules!

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