quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O "gaijin" esfomeado

2003/04

A viagem para Tóquio tinha sido longa, como se imagina. Durante a noite não tinha dormido muito e, para quebrar a monotonia da insónia, apenas me restava ir espreitando as informações que apareciam nos écrans que já não passavam filmes. O meu parceiro do lado, um miúdo chinês, tinha descoberto que a British Airways era generosa e dava massas lá atrás. De vez em quando, divertia-me com a agitação com que aquela criaturinha se levantava e, após alguns minutos voltava com mais uns noodles que sorvia com grande gosto, sentado descalço e com o maior à vontade.

Chegado ao aeroporto de Narita, o cansaço que pudesse sentir por apenas ter passado pelas brasas num voo intercontinental foi suplantado pela natural curiosidade de quem se via, finalmente, no mítico Japão. Preparada que levava a minha viagem ao pormenor, com passe de comboio, horários detalhados (e que por ali são cumpridos quase ao segundo), alojamento marcado, etc., apenas me preocupei em gozar o ambiente. Este, por sinal, não era muito movimentado já que era um Sábado de manhãzinha.

Trocado o vale do passe da Japanese Railways pelo passe propriamente dito, apanhei o comboio para a megalópole nipónica sem me preocupar com mais nada que não fosse apreciar tudo aquilo. Estava na terra do sol nascente, num dos países tecnologicamente mais avançados do mundo, e nem me passou pela cabeça que pudesse acontecer uma coisa tão ridícula quanto não haver onde levantar dinheiro...

Sim. Eu não cambiei os euros que levava no aeroporto. Foi ideia que nem aflourou o meu pensamento. Afinal de contas, o país devia estar cheio de máquinas, certo?

Bom, chegado a Tóquio apanhei o comboio urbano que me levaria até perto do meu hotel. Este era bastante afastado do centro da cidade e, na verdade, de tudo. Embora estivesse em plena cidade, era uma boa caminhada até ao transporte que eu usaria enquanto lá estivesse. Coisas de quem quer poupar.

Por esta altura, já começava a sentir um certo desconforto nos pés com os quais eu não tinha tido cuidado durante a viagem. Sempre calçado, estavam agora um bocado inchados, o suficiente para sentir que vinham ali umas bolhas sérias...

Ao fim de um bom bocado tive a primeira dúvida no caminho e dirigi-me a um grupo de homens que estavam sentados junto a um campo de basquete. Eram já de alguma idade e com um aspeto muito pouco cuidado. Um deles levantou-se e acompanhou-me até à entrada do hotel que, afinal, ficava apenas a cem metros.


Na receção, enquanto fazia o check in fui informado de que no Japão nem todas máquinas "multibanco" aceitavam cartões de crédito pelo que não podia levantar dinheiro em qualquer lado. Olhando para o mapa, apercebi-me de que o único sítio onde o poderia fazer eram umas máquinas a muitos quilómetros dali. Paciência.

A fome começou a apertar e, juntamente com esta, a sede. Mas, se a segunda ainda se consegue matar nalgum jardim, a primeira já é bastante mais complicada. Urgia ir às longínquas máquinas arranjar dinheiro. Resolvi que nesse dia o meu passeio passaria obrigatoriamente pelas instalações bancárias.

Quando, ao fim de muito tempo, muitos quilómetros de passeio e já muitas dores nos pés, cheguei à esquina de uma avenida onde ficava o banco com as máquinas mágicas, a alma caiu-me aos pés: o banco estava fechado e os ATM não eram acessíveis do exterior. Ou seja, não havia nem haveria dinheiro durante todo o fim de semana! E ainda era, apenas, Sábado pela hora do almoço...

Eu tinha os bolsos com dinheiro e não o podia gastar e tinha cartão de crédito e não o podia usar. Rezei e ansiei por estar em Portugal com a sua extensa, moderna e útil rede Multibanco que não deixa ninguém ficar mal, independentemente da sua origem, raça e credo.

A pergunta que se faz é, porque razão não usei o CC num supermercado ou num restaurante? Pela simples razão de que não vi nada aberto. :) Sim, a menos que fosse alguma coisa de luxo, tudo o resto que estivesse aberto eram negócios pequenos.

Aguentei. Enrijeci. Esqueci.

Na Segunda-Feira, acordei com a esperança de uma vida nova, um renascimento do meu estômago, uma aurora da alimentação. Arrastei-me até ao centro da cidade (nessa altura tinha seis - 6 - bolhas nos pés que já ganhavam uma coloração verde) e fui a uma estação dos correios. No guichet do câmbio, entreguei as minhas notas de euros ansiando por ter nas mãos os yens da salvação. Para que tal sucedesse ainda tive de aguardar que o esmerado funcionário analisasse cuidadosamente as notas (o euro era recentíssimo), seguindo um dossiê com reproduções minuciosas e ampliadas da divisa europeia. 


Quando, após muita verificação, me vi com yens, não hesitei um momento e acelerei (bolhas que se lixassem - eu era um homem com fome) rumo à loja de conveniência mais próxima. À entrada, todos os empregados me cumprimentaram (onde quer que estivessem), sorrindo, mas a verdade é que eu é que estava felicíssimo por os ver. E ainda estava mais feliz por poder pegar numa bebida e num snack qualquer e matar a porra da fome. À saída, novamente uma saudação e agradecimento geral ao gaijin que se pisgava para, ao fim de dois dias, levar algum alimento à boca.

Deixei escorrer pela garganta o café com leite fresco com a mesma alegre voluptuosidade com que as meninas molhadas da publicidade emborcam Coca-Cola, arrefinfei o dente a um pão com qualquer coisa que me soube tremendamente bem e senti aqueles sabores artificiais de comida de plástico invadirem-me o espírito como uma primavera que desponta e enche os campos de vida.

De yens no bolso e estômago ressuscitado, sentia-me novamente pronto para ser turista a 100%.

O pior eram as seis bolhas...

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