domingo, 8 de janeiro de 2012

Uma alemã ao pequeno almoço

2002/09

A sala de refeições naquele hotel na Capadócia (Turquia) era um espaço grande, ao estilo de uma cantina, com longas filas de mesas juntas e um balcão onde íamos buscar aquilo que queríamos comer. Recolhido um tabuleiro e escolhida a comida, sentei-me num local onde não estava ninguém. Passado um minuto, um grupo de quatro pessoas que integravam a "minha" excursão sentou-se ao lado, imediatamente seguido por uma desconhecida mulher, de alguma idade que, de todos os milhentos lugares disponíveis, preferiu sentar-se precisamente à minha frente.

Ainda eu estava a pensar porque razão a mulher tinha abancado ali quando ela me falou... em Alemão. Sorri e disse-lhe que não falava a língua dela. Fi-lo em Português para acentuar a incomunicabilidade e escapar-me mais rapidamente ao interesse da turista germânica. Mas, ao contrário do desejado, a mulher não desarmou e voltou a falar comigo, com um expressão tão natural que se julgaria estar a conversar com um qualquer amigo. Desta feita, tentei o Inglês para me descartar da criatura. Novo esforço falhado: não consegui mais do que uma ligeira pausa, quase como se ela apenas escutasse o que eu dizia para, de seguida, me responder. E assim fez.

Olhei para os convivas à minha esquerda, procurando apoio moral para a situação. Fiz um qualquer comentário que talvez tenha gerado um curto sorriso e lá tive de voltar a enfrentar a mulher. "Eu não percebo o que diz", repeti, agora com um tom mais de desabafo desconsolado do que propriamente informativo (a mulher não "ia lá", pura e simplesmente). Enquanto baixava os olhos e me concentrava no café, a criatura continuou a sua conversa comigo. Conformei-me com o facto de que aquele pequeno almoço não era normal, acabei de comer já não ligando à mulher e, assim que pude, pirei-me.

Não sei se a alemã terá continuado a falar para a minha cadeira vazia...

sábado, 7 de janeiro de 2012

A origem da língua

2011/01

O albergue Lodi, em Roma, é considerado um dos bons locais onde ficar na cidade eterna.  As críticas de muitos viajantes assim o indicavam e mesmo o facto de não estar bem no centro da capital italiana parecia ser razão para não ficar lá.

Como é hábito nestes locais, o pessoal com quem vamos lidando está sempre a mudar, fruto dos turnos e da necessidade de os estabelecimentos terem sempre algum responsável presente vinte e quatro horas por dia.

Ao chegar, fui recebido por um sujeito simpático que me deu muitas indicações sobre a cidade e que, por ser arquiteto e eu revelar interesse no tema, me indicou alguns sítios menos óbvios onde ver coisas interessantes. Foi a única vez que o vi e, à noite, já lá estava outro empregado, mais jovem, muito expansivo e que, talvez por isso, permitia que a zona da receção, contígua à sala de convívio e - desgraçadamente -, ao meu quarto, vivesse em festa constante, patrocinada, sobretudo, por uma brasileira histérica que devia funcionar a combustível atómico. Brasileiros, havia-os muitos por ali. Só no meu quarto estavam quatro.

O tal empregado "expansivo" cumprimentava os brasileiros em Português, com coisas simples como "Oi, tudo bem?", e era o que estava mais vezes na receção e, por isso mesmo, deu-se o caso de o seu turno coincidir com as minhas chegadas com alguma frequência. Da primeira vez, cumprimentou-me em Castelhano. Achei aquilo esquisito mas a coisa passou (eu tendo-o cumprimentado em Inglês). No dia seguinte, novamente me cumprimentou na mesma língua. Desta vez não deixei a coisa passar em branco e perguntei-lhe (um pouco enervado mas, apesar de tudo, mantendo o nível), porque razão me cumprimentava em "espanhol"? A resposta dele foi "Mas, você não é Português?", ao que eu contrapus com "Sim, e então? Eu cumprimento-o em Francês, por acaso?", pensando que ele iria perceber "a deixa". Mas isto não aconteceu e o rapaz veio ter comigo ao quarto, um pouco espantado e insistindo que eu era Português (isso sei eu muito bem). De repente, os olhos dele alargaram-se, a boca abriu-se e, entremeado com um "ah", saiu o produto de uma epifania que o italiano acabara de ter: "Português... Portugal...".

Pediu-me muita desculpa, que não se esqueceria e, de facto, a partir daí passou a cumprimentar-me na nossa língua, para descanso dos meus ouvidos e dos meus nervos.

"Português... Portugal...". Que espanto!!!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

O brasileiro friorento

2006/06

Eu sou friorento. E calorento. Basicamente, estou quase sempre mal, a menos que a temperatura e a humidade estejam ali, no pontinho certo (que eu ainda não consegui perceber qual é). Mas há quem seja pior...

Em Milão, fiquei na pousada de juventude local e, naturalmente, partilhei uma camarata com mais pessoas. Uma delas era um rapaz brasileiro, filho de uma portuguesa e de um italiano e que andava a visitar os países dos seus pais. Já tinha estado em Portugal e, agora, passeava-se por Itália.

Tínhamo-nos falado pela primeira vez, de forma rápida, quando, à noite, ele me cumprimentou ao ver que eu lia algo em Português. Na manhã seguinte, estava eu na "cantina", sentado e preparado para atacar o pequeno almoço, quando ele apareceu e veio sentar-se em frente de mim. Não achei aquilo nada estranho, mesmo tendo em conta que o espaço, àquela hora, estava com pouquíssima gente. Sempre era uma oportunidade para conversar já que, até ali, nada mais tinha feito do que as esperadas trocas de curtas palavras em Inglês ou tentativa de Italiano.

À minha frente estava um rapaz na casa dos vinte, com alguma barba, um pouco com ar de "marrão" e uma parka verde fechada até ao último milímetro do fecho. Tudo quando pudesse estar fechado ou apertado, estava! Ele não esperou que eu manifestasse qualquer estranheza pela sua indumentária em pleno mês de junho mediterrânico e avançou uma óbvia explicação para a roupa com que se vestia: Tenho frio! Tenho tanto frio!

Como já escrevi, era junho, um junho ameno que dava vontade de passear e, mais do que isso, estávamos dentro de um edifício que, não sendo um luxo, tinha toda a comodidade de um estabelecimento hoteleiro (ainda que para gente "tesa"). Entre raparigas despidas como só elas conseguem e rapazes em camisolas sem mangas, ali estava aquele ser tropical, vestido para enfrentar um frio dia de inverno e nem o café, nem as bolachinhas, nem o chá o conseguiam fazer sentir-se menos "gelado".

Não o voltei a ver (devia ter-se ido embora nesse dia), mas nos dias seguintes divertiu-me imaginar aquele rapaz passeando-se ao sol e tremendo de... frio.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Não vamos!

Teatro romano em Efeso
2002/09

Quem já foi em excursões sabe que é relativamente comum a inclusão de visitas a "lojas" nos roteiros daquelas. Nalguns países mais do que em outros, a coisa assume-se como uma fatalidade à qual é difícil de escapar.

Numa viagem à Turquia, a ida a duas lojas estava perfeitamente declarada na descrição do passeio: um estabelecimento de tapetes turcos e uma fábrica de joias feitas a partir de pedras locais.

Os tapetes turcos não são tão famosos quanto os tapetes persas e, na loja que visitei, um dos grandes objetivos do empregado (que falava um excelente Português) era fazer-nos entender que isto era uma injustiça porque os tapetes do seu país eram, na realidade, melhores do que os "da Pérsia". Sentado num dos lados de uma grande sala, vi serem atirados para a minha frente uma sucessão de tapetes, todos eles de grande trabalho, todos eles de bom valor (o maior valor atinge-se com a idade e o uso) mas que eu nunca compraria por não apreciar o estilo. Quem quisesse adquirir um "magnífico tapete turco" não teria quaisquer dificuldades em fazê-lo: meios de pagamento e transporte não eram problema porque a loja tinha e fazia tudo. Só não comprava quem não quisesse (partindo do princípio de que quem quisesse podia...). Ao fim de umas dezenas de tapetes, de ver pessoas (fingindo) tecê-los, de um ou dois copinhos de chá de maçã e outros dedos de conversa com a guia (que só bebia chá preto - o de maçã é para os turistas), lá tiveram todos os excursionistas ordem de soltura para continuarem viagem. Tapetes vendidos? Talvez um.

Mais tarde, em plena Capadócia ("bem vindos à Lua", disse a guia Shefika), quando eu antecipava uma ida a um monte escavado em tempo de trogloditas, o autocarro foi "desviado" para ir visitar uma fábrica de joias. Aqui, a coisa correu menos bem, o interesse da maior parte das pessoas foi muito menor e, ao fim de algum tempo, muita gente estava cá fora, secando à espera de que os outros se despachassem. Como seria de esperar, as mulheres foram as principais interessadas no que havia para vender.

No penúltimo dia de viagem, quando nos dirigíamos para visitar a cidade greco-romana de Efeso (perto da qual está uma das maravilhas do mundo antigo: o templo de Artemísia - que eu, estupidamente, não fui ver), a guia informou-nos de que nesse dia iríamos visitar uma loja de cabedais. Gerou-se um burburinho entre os passageiros e várias pessoas começaram a dizer que não tinham interesse em ir a mais lojas. A guia ficou um  pouco atrapalhada e, conversando, lá se chegou a um compromisso: quem quisesse ir ver a loja, saía das ruínas a uma certa hora; quem não quisesse, continuava a visita e, depois, seria recolhido pelo autocarro na vinda da loja. A maior parte das pessoas preferiu ficar a passear na espantosa cidade da antiguidade que é um dos grandes pontos de interesse no país dos sultões mas, ainda assim, houve algumas almas que, de férias tão longe de casa e com tanta coisa para ver, acharam melhor irem enfiar-se numa loja para comprar cintos ou blusões. A cada um, os seus gostos...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Mais valia uma tenda...

Hotel Aramaya
2006

Montevideu, ao contrário da sua congénere do outro lado do Rio da Prata, não é uma cidade grande e cosmopolita onde nos sintamos alegremente anónimos no meio das multidões. Embora eu lá tenha estado durante um fim de semana, deu para perceber que, por ali, o ritmo e o nível de vida eram muito inferiores aos de Buenos Aires. Consequência disso foi a dificuldade que tive em arranjar um local onde passar duas noites. Albergues não havia e, por mais que procurasse na internet, apenas encontrava hotéis.

Sempre tentando controlar as despesas, fiz reserva no Hotel Aramaya. As fotos mostravam um edifício antigo, daqueles prédios elegantes que há no centro das cidades (construídos na primeira metade do Séc. XX) e os quartos exibidos pareciam ser minimamente confortáveis. O preço era o melhor dos estabelecimentos junto ao centro da capital uruguaia e, portanto, a escolha era a certa.

Ao desembarcar em Montevideu imediatamente me apercebi de que a cidade não estava nas melhores condições: imensos edifícios abandonados no centro (por vezes, ruas quase inteiras), vagabundos circulando e, no geral, um tom pouco cuidado. Quando dei de caras com um enorme (e bem tratado) carro dos anos 50, estacionado junto a um prédio bastante estragado, lembrei-me logo daquelas imagens de Havana (Cuba) que por aí se veem...

Apesar do tom decadente das ruas que eu atravessava, o meu entusiasmo por estar no Uruguai não desapareceu. Sempre tive curiosidade em conhecer Montevideu, que eu imaginava ser - à semelhança de Bunos Aires -, uma "exótica" e elegante cidade europeia na América do Sul. E a verdade é que é uma terra com algum charme, cheia de edifícios bonitos que testemunham os tempos em que a exportação de carne e gado era verdadeiro ouro para aquelas gentes.

Atravessadas muitas ruas e passada a belíssima "Plaza Independencia", entrei na avenida "18 de Julio" onde ficava o hotel. Chegado junto deste confirmou-se o aspeto agradável do edifício. Entrei, confiante...

O aspeto interior do Hotel Aramaya era o de um local parado no tempo. De repente, era como se estivesse a entrar num "filme negro": a decoração, o estado das coisas, o ar das poucas pessoas que se viam, o cheiro... remetiam-me para o imaginário de uma época certamente muito interessante na tela de cinema mas que pouco se coaduna com as modernas exigências de conforto.

Feito o check-in fui conduzido ao meu quarto que ficava dois andares acima. O ar decadente parecia aumentar conforme eu "avançava" e o "filme negro" começava a dar lugar a uma qualquer coisa "série B". Pelos escuros corredores não se via ninguém, as paredes eram de uma cor creme triste, havia falhas nas pinturas das madeiras e tudo isto era envolvido por um cheio a mofo. Quando me abriram a porta do quarto, a alma caiu-me aos pés: aquilo era um pardieiro!

O interior do quarto
O quartinho que me tinha sido destinado (e que fazia parte dos mais baratos que o hotel tinha) estava algures entre o que se esperaria de uma casa abandonada e a casa de alguém muito mal na vida. Foi um choque: as madeiras estavam todas riscadas com assinaturas de anteriores hóspedes, as roupas da cama tinham um ar velho, a casa de banho era um cubículo onde tudo tinha um ar antigo e estragado... Fechada a porta do quarto pelo empregado, fiquei ali parado, sem reação.

Comecei a examinar melhor o local: o candeeiro da mesa de cabeceira não acendia, o comando da televisão estava estragado, o lavatório estava destacado da parede e o autoclismo parecia ter dificuldade em fazer o pouco que se esperaria dele. As torneiras, daquelas antigas, estavam a pedir a reforma há umas dezenas de anos e ninguém lhes tinha atendido. O que fazer? Apoderava-se de mim uma espécie de desespero: aquele sítio era um buraco! Eu sou, por natureza, bastante relaxado nas coisas domésticas e tenho um espírito bastante prático que me pede apenas um mínimo de conforto mas... aquele quarto estava a dar-me cabo da moral!

Sem conseguir chegar a uma conclusão sobre a medida a tomar (a óbvia seria pedir uma mudança de quarto mas, sinceramente, não me apetecia discussões e nem me parecia que o hotel oferecesse muito melhor), saí para a rua. Desde logo, não podia permitir que um problema com o quarto do hotel me impedisse de visitar Montevideu. Era para isso que ali estava: passear. A simples mudança de ar fez-me sentir como alguém que sai de uma prisão e encontra a liberdade: ruas, avenidas, árvores, pessoas...

Caída a noite e dada por Montevideu uma enormíssima volta que me fez atravessar a cidade, andar a queimar tempo num grande centro comercial (é tudo igual, onde quer que se vá), passear numa praia à noite, cruzar diversos bairros e ambientes e quase esquecer para onde tinha de voltar, lá tive de me conformar com a necessidade de ter de ir dormir ao desconsolador hotel.

Com alguma repugnância enfiei-me por entre os lençóis (que, diga-se, estavam limpos) e preparei-me para o merecido descanso. A meio da noite, sou acordado por um estrondo. Ainda recuperava do susto quando outro estrondo se fez ouvir. Regularmente, era como se uma bomba rebentasse por ali. Tentando manter a calma e perceber o que se passava, ao fim de um bom bocado resolvi sair do quarto e ver se descobria o que estava a acontecer. Abandonando a "segurança" do quarto, fiz-me aos corredores escuros de um hotel que parecia completamente abandonado. De vez em quando, novo estrondo. Segui na direção de onde me parecia vir o som e dei comigo dois andares mais acima olhando para uma janela do saguão que servia o lado do edifício onde eu estava abrindo e batendo com toda a força. Tudo parecia ser o cenário de um filme de terror e, se  o fosse, eu teria certamente algum louco com um facalhão esperando que eu me voltasse para acabar comigo. Felizmente, era apenas o vento fazendo tudo para me impedir de dormir num hotel onde, se calhar, não havia mais hóspedes ou, sequer, um empregado. Qualquer que fosse a situação, a verdade é que tive de ser eu a fechar a janela e assim devolver o sossego àquela noite.

De manhã, dormido o possível, uma luz viva entrava pela janela como que querendo evidenciar o ar triste do sítio onde eu acordara. Passava-me pela cabeça a ideia de "fugir" dali mas esta era logo combatida pelo meu lado prático: para onde? valeria a pena perder tempo (e dinheiro) só por mais uma noite? Hoje, teria valido. Com a idade vamos ganhando um sentido de dignidade, de revolta e, até, de desprendimento em relação ao dinheiro quando ele serve para bons fins. Mas naquele dia, impus a mim mesmo a obrigação de comer e calar.

Uma magnífica casa de banho
Por falar em comer: após  tomar banho com muita dificuldade (a casa de banho era estreitíssima e tinha de partilhar com o lavatório o espaço do duche - costume por aquelas zonas onde não há, propriamente, o hábito de usar banheiras), e de ter de usar um saco com água para fazer as vezes do autoclismo, dirigi-me para a sala de refeições. Esta era um sítio triste com algumas mesas num lado e um balcão com uma espécie de samovar noutro, onde havia alguns pães e as habituais embalagens de compotas. Lembro-me de que até a manteiga sabia mal... A única graça de ali ter ido (porque pouco serviu para me alimentar) foi ter visto uma hóspede. Afinal, eu não estava sozinho. Tive vontade de lhe perguntar o que tinha achado do "bombardeamento" da noite anterior...

Nesse dia já me custou menos voltar ao hotel. Tudo se mantinha na mesma mas a minha capacidade de me habituar rapidamente às situações aliada ao meu humor negro condenavam-me placidamente a mais uma noite naquele triste local de onde eu sairia, na manhã seguinte rumo à "nossa" Colónia do Sacramento.

Até hoje não voltei a ficar num sítio parecido com o Hotel Aramaya e não deixa de ser irónico que, fugindo eu de hotéis e sendo cliente de albergues, o pior local onde me tenha hospedado tenha sido, precisamente, um hotel. Fica à consideração daqueles que acham que o tipo de estabelecimento implica, desde logo, uma relação direta com a qualidade.

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