sábado, 25 de abril de 2009

Islândia 2009 - dia 5 (Reiquejavique - Hvoll)

2009/04/25

O quinto dia das minhas férias (terceiro na Islândia) era de viagem. Menos de 300km entre Reiquejavique e Hvoll, onde passaria as duas noites seguintes, numa pousada de juventude.

Quando planeei toda a "operação", pensei fazer a viagem de camioneta mas rapidamente cheguei à conclusão de que mais valia alugar um carro. Em termos comparativos saía mais barato e nem se fala nos ganhos de mobilidade e conforto. Dono do meu tempo e livre de fazer o que muito bem me apetecesse certamente gozaria muito melhor tudo aquilo. 

A primeira coisa a fazer, portanto, seria ir buscar o carro à empresa de aluguer. Já estava feita uma reserva pela internet e apenas teria de tratar das burocracias do costume para poder partir. Na rifa saiu-me um Nissa Micra, vermelho. Feita uma rapidíssima inspeção, meti-me no carro e saí rumo à parte sul daquilo a que, no jargão turístico, se chama "the ring road", uma estrada que dá a volta completa à ilha mas da qual eu só iria conhecer cerca de um quarto da distância. 

Fui seguindo as placas indicativas, ao mesmo tempo que ia olhando para um grande mapa que tinha (nada de GPS, portanto) e saí com relativa facilidade da "grande Reiquejavique", entrando ao fim de pouco tempo em estradas "abertas". A paisagem era agradável sem impressionar: planícies cobertas de turfa amarelada, aqui e ali umas casas e, ao longe, a silhueta de montes.

Os típicos cavalos islandeses
A certa altura, quando ia numa longa reta (coisa que há aos montes por ali), avistei um conjunto de cavalos islandeses. Estes bichos são tão únicos que a Islândia proibe terminantemente que um animal que saia do país possa alguma vez voltar, tal é o medo de que possa haver algum tipo de contaminação genética que ponha em perigo a pureza da raça (dizem que eram estes os cavalos que o viquingues usavam). Resolvi parar o carro na berma da estrada e ir tirar umas fotografias aos bichos. Mal me aproximei da cerca, logo aquelas criaturinhas vieram ter comigo tentando ganharem umas festas. Eu não me fiz rogado, claro. Foi o contacto mais próximo e simpático que tive com habitantes da Islândia.

De volta ao meu bólido rubro, o objetivo era a cascata Skógafoss que fica no lugar de... Skógar ("foss" quer dizer, precisamente, "cascata"). A paisagem começou a ganhar mais imponência. Muitas vezes na Islândia me lembrei - sempre na estrada -, daquelas imagens da América, com as estradas rasgando enormes planícies rumo a umas distantes montanhas. Ao longe via elevações cobertas de neve (uma delas, salvo erro, era um "perigoso" vulcão) e, pelo meio,  a imensidão amarelada, aqui e ali entrecortada por água, sob a  forma de rios ou lagos.

Skógafoss apareceu depois de a estrada deixar a planície e ganhar a companhia de uma plataforma próxima que quebrou a monotonia que me invadia há muitos quilómetros. É este o problema daquela paisagem islandesa: é bonita mas cansa rapidamente. A cascata está a um canto, a umas centenas de metros da estrada e nota-se logo que é um local turístico pela acumulação de carros. Pelos padrões locais, estamos a falar de... meia-dúzia de veículos.

Skógafoss
O meu plano era ver a queda de água e subir à plataforma para ver o curso de água rompendo o planalto. Após fotografar a beleza natural cá em baixo, mais ou menos perto, nas margens do "rio" ou sobre pedrinhas no meio deste, subi as escadas que conduzem ao cimo da cascata. Uma vez lá em cima, é possível ir mesmo até junto da precipitação mas, mesmo que isto não acontecesse, o esforço teria sempre valido a pena para poder olhar a paisagem na direção do mar. Cortando serenamente a planície, o rio dirige-se para o mar, às curvas através de charnecas e campos agrícolas sob o olhar vigilante do monte mais próximo.

Terminada a visita à cascata, o próximo ponto da viagem era Vík. Há vários "vík" ("baía", em Português) na Islândia, sendo o mais conhecido, claro, a capital Reykja... vík. Para chegar à dita localidade (na Islândia, praticamente só há "localidades"), é preciso voltar à estrada cuja paisagem começa a variar um pouco mais: planície, charneca, deserto de cinzas... A certa altura vi um caminho indicando Dyrhólaey, que é uma zona que fica do outro lado da baía de Vík (a esta altura já sabem que isto é um pleonasmo). Entre os dois sítios fica uma praia negra. O caminho não começou mal mas rapidamente me deixou preocupado por a estrada estar em muito mau estado. A presença de alguns equipamentos fez-me perceber que estava em obras mas estas ainda tinham feito pouco. Gravilha, buracos, pedregulhos... tudo aquilo me fez andar muito devagarinho e com receio de algum "azar". Para compensar o mau piso, a paisagem era linda. À minha esquerda, um lago refletia o céu nublado e as montanhas nevadas ao fundo, e tudo isto envolvido num silêncio que apenas eu rompia com a barulheira das rodas sobre as pedras emergindo da escura cinza.

Zona entre Dyrhólaey e Vík
No fim da estrada, numa zona mais elevada, parei o carro para ir dar uma volta. Subi a umas rochas para contemplar a monumentalidade da área. Uma baía rodeada de montes, misturando-se o mar com grandes línguas de areia preta e, ao fundo, uns solitários rochedos como sentinelas de tudo aquilo. 

Desci por um caminho em direção a uma praia que havia ali. Toda ela negra, ladeada por rochedos negros, parecia um cenário para um qualquer conto gótico ao qual não faltavam, sequer, umas cavidades onde podia entrar e imaginar lá um qualquer bizarro tesouro escondido ou, tão simplesmente, ficar a ver o mar ir e vir, emoldurado em pedra.

Andei um pouco por ali, olhando para as pedrinhas, sentindo o cheiro do mar...o tempo suficiente para aparecerem mais uns turistas, um casal com um filho. "Hey!", ele - "Olá!", eu.

Contornar a baía levou mais tempo do que podia parecer. Primeiro, porque tive de voltar a percorrer a má estrada, mantendo exatamente os mesmos cuidados que antes tinha tido e, depois, porque a estrada dá uma grande volta até Vík, obrigando-nos a subir bastante. Pelo meio ficam um ou dois sítios que darão magníficos miradouros. Quanto à localidade, é um sítio triste, um molho de casas sem graça entaladas entre o mar e os montes, e que não merece mais do que uns minutos de paragem por mera curiosidade.

A partir de Vík, orientei-me para Kirkjubæjarklaustur (pausa para respirar...). Não é que, ali, houvesse muitas escolhas (ou se vai em frente ou se volta atrás). Nada mais simples, portanto.  Mais umas boas dezenas de quilómetros solitários, mais planície, mais charneca, mais areia e cinza pretas, mais rochas, mais água e, finalmente, uma paisagem nova, composta de rochas arredondadas e juntas que me fez lembrar de batatas com um espessa molhanga por cima...

Systrafoss
Ao chegar a Kirkjubæjarklaustur (que quer dizer qualquer coisa como "Claustro da quinta da igreja"), tive a primeira grande emoção da viagem: uma rotunda. Pequenina, ao jeito islandês, apenas o suficiente para abrandar quem viesse mais afogueado e permitir uma entrada em segurança em "Kirk". Ao virar, cruzei-me com um carro da polícia (o qual voltaria a encontrar, passando exatamente no mesmo sítio, no meu caminho de volta). Diga-se aqui que as multas na Islândia são a doer e o medo de ser apanhado em falta tinha-me impedido de carregar no acelerador, o que foi uma pena porque a "ring road" se prestava precisamente a isso...

Mas a rotunda não era o único sinal de civilização naquele local. Também havia uma bomba de gasolina e os respetivos minimercado e come-e-bebe. Este último caiu do céu porque a fome já apertava (e bem). Escolhi um típico menu de hamburgueres com batatas fritas e coca-cola que me soube divinalmente. Acabado o repasto, dei uma voltinha pela zona, que tinha como atrações a cascata de Systrafoss ("cascata das irmãs", ou seja, as freiras do tal "claustro da quinta da igreja"), e umas ruínas (adivinhem de quê? - sim, do "claustro da quinta da igreja"). Vi a primeira e falhei as segundas.

Já não faltava muito para chegar ao meu destino (Hvoll) mas, pelo meio, ainda ficavam alguns locais de interesse, nomeadamente uma zona com paredões de rochas basálticas e, ainda, mais uma cascata. Estes dois locais encontram-se defronte um do outro. Como o tempo piorou, as nuvens desceram e uma chuva miudinha começou a cair, abreviei a minha visita à zona e acelerei para o descanso que me esperava.

Hvoll, tal como muitos sítios aqui referidos, nem sequer é uma localidade. É um local, uma zona, onde tanto podem existir duas casas como nenhuma. Uma pequena placa junto à estrada indicava a direção do sítio, sendo necessário tomar um caminho de terra batida pelo campo adentro. Para trás ficava o asfalto e uns imponentes montes de topo plano, completamente ao jeito do "faroeste". O carro avançava, lentamente, para que apreciasse a planície coberta de turfa. Ao longe, uma casa e um celeiro formavam a quinta junto da qual estava outro edifício maior (mas discreto) e que era a pousada.

Estacionei o carro e imediatamente um cordeiro veio ter comigo, balindo alegremente. A poucos metros, um  cão de ar extremamente pachorrento mordia os restos de um osso. Avancei para a casa de habitação onde fui recebido pela dona. O cordeiro quis seguir-me para dentro de casa mas a mulher enxotou-o. A "receção" era um pequeno balcão junto à sala de estar da família onde uma criança estava sentada vendo televisão. Expliquei que tinha feito uma reserva, dei-lhe os pormenores mas a mulher não estava a encontrar o registo. Foi a outra sala, voltou, olhou novamente para umas coisas, e, num sofrido e chiado Inglês, insistiu que não estava a ver nada. Esta reserva, por a pousada não ter sistema automático na internet, tinha sido feita por vulgar correio eletrónico e, portanto, eu estava dependente da mulher encontrar a mensagem, o que eu viria a entender ser completamente ridículo por o local estar... vazio. Passa o marido - rumo à cozinha-, cumprimenta-me secamente e, ao fim de um minuto, a mulher, quase a contragosto, lá solta um "sim, sim, está aqui". Aleluia! - pensei eu.

Acabadas as formalidades, dirigi-me para a pousada, que ficava quase ao lado, tendo pelo meio uma pequena elevação coberta de relva. Era um edifício com rés do chão e primeiro andar, no qual se entrava pela sala de refeições. À entrada, calçado vário ali deixado fez-me pensar que houvesse lá mais gente e que a ideia fosse não andar com as coisas da rua dentro de casa. Ainda assim, continuei sem me descalçar e subi ao primeiro andar onde o meu quarto ficava. Nem uma alma por ali...

Da janela do quarto (cujo mobiliário eram dois beliches, uma mesinha e uma cadeira), via-se uma bela paisagem. Um curso de água serpenteava pelo meio da turfa, alargando-se mesmo defronte da pousada. Patos brincavam na água enquanto que muitas aves voavam em bandos à volta de um lago um pouco mais à frente. Senti-me imediatamente rendido...

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