sábado, 7 de janeiro de 2012

A origem da língua

2011/01

O albergue Lodi, em Roma, é considerado um dos bons locais onde ficar na cidade eterna.  As críticas de muitos viajantes assim o indicavam e mesmo o facto de não estar bem no centro da capital italiana parecia ser razão para não ficar lá.

Como é hábito nestes locais, o pessoal com quem vamos lidando está sempre a mudar, fruto dos turnos e da necessidade de os estabelecimentos terem sempre algum responsável presente vinte e quatro horas por dia.

Ao chegar, fui recebido por um sujeito simpático que me deu muitas indicações sobre a cidade e que, por ser arquiteto e eu revelar interesse no tema, me indicou alguns sítios menos óbvios onde ver coisas interessantes. Foi a única vez que o vi e, à noite, já lá estava outro empregado, mais jovem, muito expansivo e que, talvez por isso, permitia que a zona da receção, contígua à sala de convívio e - desgraçadamente -, ao meu quarto, vivesse em festa constante, patrocinada, sobretudo, por uma brasileira histérica que devia funcionar a combustível atómico. Brasileiros, havia-os muitos por ali. Só no meu quarto estavam quatro.

O tal empregado "expansivo" cumprimentava os brasileiros em Português, com coisas simples como "Oi, tudo bem?", e era o que estava mais vezes na receção e, por isso mesmo, deu-se o caso de o seu turno coincidir com as minhas chegadas com alguma frequência. Da primeira vez, cumprimentou-me em Castelhano. Achei aquilo esquisito mas a coisa passou (eu tendo-o cumprimentado em Inglês). No dia seguinte, novamente me cumprimentou na mesma língua. Desta vez não deixei a coisa passar em branco e perguntei-lhe (um pouco enervado mas, apesar de tudo, mantendo o nível), porque razão me cumprimentava em "espanhol"? A resposta dele foi "Mas, você não é Português?", ao que eu contrapus com "Sim, e então? Eu cumprimento-o em Francês, por acaso?", pensando que ele iria perceber "a deixa". Mas isto não aconteceu e o rapaz veio ter comigo ao quarto, um pouco espantado e insistindo que eu era Português (isso sei eu muito bem). De repente, os olhos dele alargaram-se, a boca abriu-se e, entremeado com um "ah", saiu o produto de uma epifania que o italiano acabara de ter: "Português... Portugal...".

Pediu-me muita desculpa, que não se esqueceria e, de facto, a partir daí passou a cumprimentar-me na nossa língua, para descanso dos meus ouvidos e dos meus nervos.

"Português... Portugal...". Que espanto!!!

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