sábado, 18 de fevereiro de 2012

2500 km por Portugal - parte 7 (2011/10/02)

Rua na zona antiga
Castelo Branco

O centro histórico de Castelo Branco terá traços de várias épocas mas salta à vista a quantidade de elementos quinhentistas. Coisa à portuguesa, com paredes pintadas de branco, apenas denunciada - aos olhos de um leigo -, pelas soleiras das portas, alguns arcos e decorações em janelas. As ruas são estreitas (como se esperaria) e o piso é de pedras.

No todo, é um conjunto agradável, que não deslumbra mas que também não deixa de nos oferecer, aqui e ali, oportunidades para "perder" algum tempo apreciando as habilidades dos pedreiros de outrora. Gostei particularmente das decorações sobre as portas. Há-as em razoável quantidade  e com motivos variados.

As ruas são calmas, com poucos carros estacionados e uma população que parece ser de poucas posses mas sem que isso se faça notar, no exterior, através de desleixo ou "mau ambiente".

Infelizmente, Castelo Branco parece sofrer, à semelhança do resto do país, desse verdadeiro cancro chamado "abandono" e que, no jargão imobiliário é conhecido como "imóveis devolutos". A capital da Beira Baixa tem o seu coração pejado de exemplos de casario deixado ao Deus-dará, casas vazias e em notório estado de degradação e que ferem o conjunto arquitetónico e a sensibilidade de quem por ali passe. Tenho visto muita coisa perdida para o desmazelo mas Castelo Branco pareceu-me bater verdadeiros recordes. Ora, isto é tão mais estranho quanto a cidade é apontada como um dos raros casos de uma cidade interior com uma dinâmica de crescimento saudável. E isto nota-se pelo tamanho da cidade "moderna"...

Tomei uma rua que me pareceu de maior importância (Rua do Arco do Bispo) e que vai desembocar numa praça de algum tamanho. Para chegar a este, passa-se sob um pequeno "túnel" formado por cinco arcos de ar românico e que, calculo, dará o nome à via. Ao fundo da praça, destacam-se dois edifícios que terão tido funções públicas: o celeiro da Ordem de Cristo e outro, maior, com arcada e vários símbolos régios, claramente dominador no local. É um local interessante e a não perder.

Virando à direita para a Rua dos Caveleiros (os nomes das vias denunciam a sua antiguidade), chega-se a um "largo" encimado pelo moderníssimo Museu Cargaleiro, edifício cuja traça entra em conflito com a envolvente embora tal mal seja mitigado pela cor branca. Subindo até chegar ao museu, pode-se descansar nos bancos ali existentes e apreciar o arranjo (bom) do espaço. Não pode deixar de merecer menção o solar ali existente e que, também ele, faz parte do museu dedicado ao "mestre dos azulejos". Àquela hora (fim de tarde), ambos os polos estavam fechados e não me restou senão parar para recuperar forças do já longo passeio.

O solar que não é arranjado, nem vendido...
Voltando atrás, passando de novo pelo praça onde está o antigo celeiro, tomei a Rua do Relógio, assim designada devido à existência de uma velha torre encimada por... um relógio. Virei para a Rua de São Sebastião, não sem deixar de reparar num anúncio da "Universidade da Cerveja", nome pomposo atribuído a uma tasca ali existente e que pratica preços tremendamente em conta (sandes de leitão a €1 e bifana a €0,99).

No fim da Rua de São Sebastião está um enorme (e bonito) casarão que ocupa ainda parte do Largo da Sé. O edifício está abandonado e, aparentemente, a mágoa que tal estado causa é tanta que o proprietário se viu "obrigado" a colocar um aviso indicando que "O solar não está à venda".

Reparei que a Sé (a tal que era "concatedral" - ver o texto anterior) estava aberta. Atravessei o largo. Ao chegar, notei que havia uma missa em curso. Não me restou senão esperar cá fora, até que a coisa acabasse e este pobre turista pudesse, finalmente, ter uma hipótese de ficar a conhecer a igreja.

Capela na Sé
Ao fim de algum tempo (que me pareceu uma eternidade), o templo lá começou a despejar os fiéis. Como estes pareciam não acabar, optei por romper caminho até ao interior. E foi esta uma boa ideia porque, após pouquíssimo tempo apreciando a beleza da igreja, já tinha uma empregada de ar sério informando-me de que iam fechar... Senti pena porque, não sendo uma maravilha, a Sé de Castelo Branco tem certamente coisas que merecem uma visita feita com calma. Gostei, sobretudo, de uma capela lateral, pintada de vermelho (coisa que não devo ter visto muitas vezes) e com o teto com enfeites dourados em fundo branco.

Fui aguentando-me no interior, enquanto a carrancuda "assistente" (como é que se chamam as "beatas" que vão arrumando cadeiras, apagando velas, etc.?), ia preparando a igreja para mais um (longo?) período de fecho. Decididamente, ali não há complacências para com os turistas..

No adro da Sé, as pessoas ainda se acumulavam, em pequenos grupos de sorridente cavaqueira. Com as portas sendo fechadas e mais nada para ver ali, dirigi-me para o centro, aproveitando para zigezaguear pelas ruas locais.

Passei pelo Cineteatro Avenida para conferir se existia algum espetáculo naquele dia. Para minha tristeza, das diversas ofertas, nenhuma calhava no prazo da minha estadia por ali. Havia teatro, cinema e, até, um concerto dos Mão Morta mas, tudo para daí a alguns dias. Com a noite a cair, aproveitei para passear mais um pouco pela zona circundante da Praça do Município, até o estômago dar sinal e ter de ir aplacá-lo algures.

De volta à Pousada de Juventude, tive o agradável prazer de verificar que o quarto continuava todo para mim. Viva o descanso!



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