domingo, 26 de fevereiro de 2012

2500 km por Portugal - parte 8 (2011/10/03)

O Tejo
Com o essencial de Castelo Branco visto, o dia era de descida no mapa até Vila Velha de Ródão. Na ideia levava duas coisas: fazer um circuito a pé e dar um passeio de barco até junto das imponentes "Portas do Ródão" (e não Ródano, como eu insistia em repetir mentalmente).

A estrada a partir de CB é boa e o difícil, durante uma parte do caminho, é mesmo não acelerar demasiado. Quando esta tentação começa a parecer menos apetecível, a paisagem também melhora. Pouco depois, chegamos a VVR.

 Eu não conhecia nada de VVR senão das fotografias turísticas e estas, invariavelmente, mostravam o panorama do Tejo, "apertado" pelas "portas". Estas, embora pareçam ser dois enormes rochedos que se lançam para o rio são, na realidade, uma muralha que atravessa o território e que, ali, foi rompida pelo nosso maior rio. Mas, por ora, o que interessa mesmo é dizer que estas eram as únicas imagens que eu levava comigo.

Ao chegar à localidade, a primeira coisa que me fez espécie foi que tudo aquilo parecia um bocado disperso. Havia estradas, um monte coberto de árvores, casas aqui e ali, uma linha de comboio, umas instalações industriais e pouca coisa que me fizesse entusiasmar. Subi uma estrada em direção ao que me pareceu ser o núcleo da vila e onde estaria o posto de turismo. Este impressionou-me pela positiva. Trata-se de um grande edifício, todo coberto por xisto e que serve para várias coisas, entre as quais de centro cultural. Ao estacionar reparei numa indicação que apontava "árvores fossilizadas". Imediatamente me lembrei de que isso era uma das coisas que eu queria ver por ali e que apareciam indicadas como pontos de interesse nas descrições turísticas da zona. Afinal, o que eu pensava serem árvores em pé, feitas em pedra eram, apenas, dois pequenos troncos deitados num canteiro de um jardinzinho. Desilusão...

Uma vez dentro do edifício, pedi informações ao balcão. O rapaz que lá estava atendeu-me de forma muito simpática e chamou uma colega que estava familiarizada com o circuito pedestre que eu pretendia fazer e cujo nome é "Rota das Invasões". Enquanto a "especialista" não chegava, foi-me indicando o que havia para ver e fazer por ali. De tudo, apenas me cativou a ideia de ir dar o passeio de barco que eu já tinha na ideia. Já com a moça das caminhadas ao balcão e um folheto com a rota a seguir nas mãos, recebi alguns conselhos sobre o que fazer. A coisa era mais difícil do que eu esperaria e, com o tempo que estava (muito calor e sol), nem sequer era muito aconselhada. Como não sou de desistir nestas coisas, agradeci os conselhos e lá me fui embora, não sem antes desejar boa sorte a mim mesmo.

Bateria de artilharia
O início da "Rota das Invasões" faz-se subindo ainda mais, até chegarmos a uma rua de moradias, meio perdida atrás de uma escola. Por entre duas casas, parte um caminho de terra, claramente indicado por uma placa. Aqui, cabe fazer um grande elogio à Naturtejo, a empresa intermunicipal que gere o Geopark Tejo (vá-se lá saber porque razão não é "geoparque"...). Em todas as "atrações" abrangidas por esta entidade há indicação em quantidade e qualidade que permite aos turistas e caminhantes seguirem os seus caminhos sem grandes hesitações. Não posso dizer que o "serviço" seja a 100% mas só lhe deve faltar uma décima para que o seja... Um verdadeiro exemplo!

Bom, retomando o caminho: o primeiro ponto de interesse é uma "bateria", ou seja, uma posição para colocação de canhões que, no tempo das invasões francesas, serviria para impedir a passagem das tropas inimigas numa estrada ali perto. Este é o primeiro de três ou quatro locais de igual natureza ao longo do percurso de vários quilómetros. Infelizmente, aquilo que antigamente seriam zonas limpas e com uma bela vista, hoje estão cobertas de vegetação, dificultando a apreciação dos vestígios militares mas, sobretudo, impedindo-nos de nos deleitarmos com a paisagem. Para o conseguirmos fazer (ainda que em pequena medida), é preciso romper por entre as árvores e arbustos e espreitar nas bermas do monte. Quanto aos vestígios das baterias, o que se vê é acumulações de pedras e, aqui e ali, um muro rodeando uma cova onde, facilmente se entende, era colocado um canhão. São vestígios que apenas têm interesse para quem goste muito destas coisas militares.

O calor apertava e roguei-lhe algumas pragas quando fui obrigado a uma grande subida para chegar ao segundo ponto de interesse (nova bateria). Embora todo o circuito seja feito atravessando zonas densamente arborizadas (tudo por ali são montes cobertos de floresta), a verdade é que a caminhada é feita por largas estradas de terra batida onde não há qualquer sombra. Ainda pensei ir a corta mato como forma de me safar do inclemente sol mas, por razões práticas, desisti logo da ideia.


Vistos os primeiros vestígios militares  - e falhado um por, pura e simplesmente, não o conseguir encontrar no meio dos arbustos (lá está a décima que faltou à Naturtejo) -, lancei-me numa monótona caminhada de vários quilómetros pelo cimo dos montes. Não se via ninguém por ali e apenas ao fim de muito tempo é que comecei a ouvir o barulho de atividade no mato (dois homens manobravam uma camioneta levando madeira). Ao longe, já via a Torre do Rei Wamba, uma fortificação que se diz ter sido feita por um rei visigodo. A paisagem era bonita mas o facto de eu estar sozinho, cansado e debaixo do sol fez-me ter aquela sensação de "esta porra nunca mais tem fim?". Montes e floresta já me estavam a cansar verdadeiramente e fixei-me no objetivo de chegar à torre o quanto antes para aí poder descansar.


Gastei mais um par de pernas para atravessar toda aquela natureza até chegar a uma estrada que, uma vez atravessada, me pos numa reta agradável ladeada - à minha direita -, por uns paredões rochosos que são usados para atividades de escalada. Por já ir havendo uma incipiente sombra e o caminho ser a direito, esta parte da rota foi relativamente agradável. No fim, cheguei a um largo onde está uma capela antiga e que serve de ponto de tradicional romagem para as pessoas daquela zona. Pensei eu - na minha ingenuidade -, que se aquilo era um ponto para festas, então, devia haver uma bica de água (a minha tinha-se acabado). Pois enganei-me. Água, por ali, só mesmo a que consegui "extrair" de dois peros que levava comigo e que comi deliciado à sombra numa pequeníssima zona de merendas.

Torre do Rei Wamba
Forcei-me a retomar o caminho e a percorrer a centena de metros que faltava para atingir a famosa (naquelas paragens) torre. É possível entrar na dita e subir ao primeiro andar. A zona está bem arranjada, o acesso é perfeitamente seguro e sabe bem sentarmo-nos à janela olhando para o sul. Cá fora, junto à beira do monte, foi feita uma plataforma para que se possa contemplar as Portas do Ródão. Infelizmente, aquele local está perfeitamente alinhado com o monumento natural e, como miradouro deste, o interesse é praticamente nulo. Mas, olhando para os lados, a coisa melhora bastante e vale bem a pena gastar uns minutos olhando para o rio e as suas margens.

Tanto olhei que acabei por notar, na margem alentejana, uma concentração anormal de pedras que me despertou o interesse. Após um pedaço, lembrei-me de que uma das atrações do Geopark eram os vestígios da mineração romana numa zona chamada Conhal do Arneiro. Decidi logo ali que, se sobrevivesse e conseguisse regressar a VVR, ia ver o sítio.

(continua)



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