sábado, 4 de fevereiro de 2012

Vencer o medo

Túmulo de "Joselito"
(Cemitério de San Fernando, Sevilha)
Quando pensamos em cemitérios, deixamo-nos invadir por uma repugnância por tudo aquilo que eles representam: a morte, a tristeza, o macabro... Mas, a verdade é que nunca sentimos igual rejeição por outros espaços onde a memória dos falecidos abunda. Afinal de contas, quem é que se recusa a entrar numa igreja, mesmo sabendo que caminha - literalmente -, sobre mortos? Quem é que perde a oportunidade de visitar mosteiros e conventos e admirar as muitas tumbas aí existentes? Quem é que sente um calafrio ao contemplar os restos de um local de inumação pré-histórico? Ninguém, calculo.

Os cemitérios são, portanto, uma espécie de parente pobre das necrópoles. Talvez isso tenha a ver com o facto de lhes associarmos o uso corrente e de temermos que os miasmas nos possam afetar. Talvez haja cemitérios e cemitérios e, quanto mais recentes forem, menos gostemos de neles entrar. Há mortos "frescos" que nos lembram de que os próximos podemos ser nós... E nós não gostamos de que nos lembrem de coisas desagradáveis.

Na sequência de um texto no blog "Mort Safe" (carreguem no nome para lhe fazerem uma merecida visita), lembrei-me da que foi a minha primeira visita a um cemitério. Tinha eu cerca de doze anos e, como era de esperar, a família e a escola já me tinham proporcionado o contacto com o monumental mundo funerário dos nossos antepassados, convenientemente esbatido o seu lado mórbido em toneladas de pedra belamente trabalhada. Mas, desta vez, a ida que se programava não era a nenhum monumento de fino recorte mas sim a um cemitério propriamente dito - quatro muros envolvendo centenas de campas e jazigos. O receio acumulava-se...

O passeio era uma daquelas excursões de fim de semana a Espanha que eram muito comuns nos anos 80. Dois dias e meio para ir a Sevilha e voltar, apenas o tempo suficiente para ir a dois ou três sítios na capital da Andaluzia, tirar umas fotografias e "ala que se faz tarde". Dos poucos pontos de visita (dos quais a catedral não fazia parte!), um deles era o cemitério de San Fernando, local onde estão sepultados alguns toureiros que, no seu tempo, foram famosos. Um cemitério... - pensava eu dias antes-, para quê?!

À custa das naturais distrações de uma viagem, lá me fui esquecendo da macabra visita que a excursão me reservava mas, chegado o momento em que a camioneta partiu rumo àquele local de eterno descanso, a coisa tornou-se realmente séria. Que havia eu de fazer? Pedir para ficar no autocarro durante a visita? Ficar à porta? Fugir? (ná, esta é mesmo só para dar emoção ao texto...)

Lembro-me de atravessar a estrada, de mão dada com o meu pai, a cabeça sempre repetindo "vou entrar num cemitério... será que cheira mal?... será que há fantasmas?" (fantasmas, diziam que havia um mas só trabalhava de vez em quando e naquele dia estaria de folga). A porta da necrópole aproximando-se a cada passo e... eis-me lá dentro, rodeado do grupo de excursionistas, conduzidos pela guia através da rua principal. O espaço era agradável, com muitas árvores, e imediatamente o medo que tinha se desvaneceu. Afinal de contas, era de dia, havia muita gente e - que raio! -, os meus pais estavam ali.

Seguiu-se uma visita aos principais túmulos (que para nós apenas tinham interesse estético já que a cultura local nos era estranha), meia dúzia de pequenas histórias e, finalmente, a saída triunfal de quem tinha entrado com medo e saía... sei lá, mais "experimentado"?

Mausoléu do Duque de Palmela
(Cemitério dos Prazeres, Lisboa)
Hoje, dizer que um bom cemitério é fundamental numa viagem é um óbvio exagero mas é verdade que o medo desapareceu completamente e, ironicamente, acabou substituído pela curiosidade mórbida. Ah, heavy metal, o que tu fazes às pessoas! :)

Infelizmente, o preconceito contra os cemitérios é quase geral e isso contribui, inclusivamente, para a sua degradação e consequente perda de valor de muito do que lá se encontra. Uma ida ao Cemitério dos Prazeres, em Lisboa (só para falar de um caso próximo de mim), é mais do que um mero passeio, é uma lição de História, de Escultura, de Religião... Há coisas por ali cuja qualidade e interesse são em tudo equivalentes aos elaboradíssimos túmulos dos nossos "egrégios avós". E, depois, há um descanso "de morte" (cedi à piada fácil) que nos convida à reflexão e ao amainar das tempestades da alma. Por isso, se por acaso é daquelas pessoas que têm medo de cemitérios e jura só entrar num... morto, então, mude de opinião e verá como os seus tempos livres ficam mais ricos.

Aventure-se!

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